Outras histórias do design no Brasil: perspectivas contra hegemônicas

2021-08-23

Chamada para dossiê: Outras histórias do design no Brasil: perspectivas contra hegemônicas

A prática do design tem sido convencionalmente entendida como uma atividade de caráter projetual voltada à configuração técnica, estética e simbólica de artefatos, espaços e serviços. Neste enquadramento, o design por vezes é apresentado como método para solução de problemas, como estratégia voltada à inovação, como recurso para aumentar o lucro de empresas, ou como artifício para definir estilos e tornar objetos mais “belos”. Logo, os termos de sua definição se apresentam como uma arena de disputas, envolvendo concepções que variam e concorrem historicamente, de acordo com a perspectiva adotada e também com os interesses de quem as formula. Sendo assim, nos alinhamos às vertentes que defendem o design como uma prática social amplamente comprometida com a configuração material e simbólica da vida cotidiana. Trata-se de um fenômeno cultural que opera na produção de comportamentos e sentidos mediante a objetificação de valores, cujos efeitos são atravessados por relações de poder e têm implicações na constituição de identidades individuais e coletivas. 

Argumentamos, então, que o design não diz respeito apenas a uma atividade profissional e institucionalizada, mas abarca inúmeras práticas engajadas na transformação do mundo social. Isso permite tensionar relatos históricos centrados na suposta genialidade de designers e suas criações, redirecionando a atenção para os contextos culturais, econômicos e políticos que dão sustentação aos processos de projeto e produção da cultura material, articulados aos circuitos de sua circulação e consumo. Coloca em xeque, ainda, as narrativas pautadas por valores modernistas que, ao associar a ideia de “bom design” ao funcionalismo e à produção industrial seriada, marginalizam sujeitos, práticas e artefatos que não se ajustam a esses princípios.

Partindo dessas premissas, este dossiê temático tem como objetivo reunir pesquisas que oportunizem a discussão de múltiplos aspectos decorrentes da inserção da cultura material nas dinâmicas sociais. Nos interessam, particularmente, pesquisas empenhadas na problematização de perspectivas eurocêntricas, androcentradas e heteronormativas presentes na historiografia do design feito no Brasil. Entre outras possibilidades, isso envolve reflexões sobre o apagamento ou a subalternização das produções dos segmentos populares, da população negra e indígena, de mulheres brancas e não brancas e de comunidades dissidentes das normas de gênero e sexualidade. Também abarca questões relativas às formas de usos, apropriações, negociações, reinvenções, resistências e negações que emergem da relação desses grupos sociais com o entorno material. Sendo assim, valorizamos trabalhos apoiados em perspectivas feministas, queer, antirracistas, indígenas, populares e/ou decoloniais, cujo olhar considere os efeitos do design na construção, manutenção ou questionamento de hierarquias de raça/etnia, gênero, sexualidade e classe social, entre outros marcadores empregados na estruturação de relações de desigualdade na sociedade brasileira.

Organização:

Dra. Marinês Ribeiro dos Santos - Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Sociedade da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Brasil 

Dra. Cláudia Regina Hasegawa Zacar - Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Brasil 

Prazo para submissão: 13 de dezembro de 2021.