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JEAN-LUC GODARD E O CONTROLE DO PRESENTE: ALPHAVILLE, UNE ÉTRANGE
AVENTURE DE LEMMY CAUTION (1965)
JEAN-LUC GODARD AND CONTROL OF THE PRESENT: ALPHAVILLE, UNE ÉTRANGE
AVENTURE DE LEMMY CAUTION (1965)
Rafael Alves Pinto Junior1
https://orcid.org/0000-0002-8439-9586
http://lattes.cnpq.br/9208712284117352
Recebido em: 26 de junho de 2024.
Aprovado em: 22 de janeiro de 2025.
https://doi.org/10.46401/ardh.2024.v16.21432
1 Possui graduação em Arquitetura pela Universidade Católica de Goiás (1991), mestrado em Cul-
tura Visual pela Universidade Federal de Goiás (2008) e doutorado em História pela Universidade
Federal de Goiás (2011). É, desde novembro de 2024, sócio correspondente do Instituto Histórico e
Geográfico do Estado de Goiás (IHGG) e membro do Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis
Para os Povos do Cerrado (Icebe) na cadeira n. 104 (Emílio Vieira). E-mail: rafael.junior@ifg.edu.br
RESUMO: Este texto propõe uma “leitura”,
entre outras possíveis, do filme Alphaville, une
étrange aventure de Lemmy Caution (1965),
de Jean-Luc Godard. Pretende-se, através
do instrumental teórico da cultura visual e
do imaginário, contribuir para a reflexão da
relação entre o cinema e as cidades. O foco
recai sobre a representação do espaço urbano,
examinando a arquitetura, e os ambientes
enquanto elementos estruturantes da narrativa.
Palavras-chave: ficção científica, distopia
urbana, filme noir.
ABSTRACT: This text proposes a “reading,”
among other possible interpretations, of the
film Alphaville, une étrange aventure de Lemmy
Caution (1965) by Jean-Luc Godard. Through
the theoretical framework of visual culture
and the imaginary, it aims to contribute to the
reflection on the relationship between cinema
and cities. The focus lies on the representation
of urban space, examining architecture and
environments as structuring elements of the
narrative.
Key words: science fiction, urban dystopia,
film noir.
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As cidades imaginárias geralmente representam, em alguma medida, os
anseios, medos e aspirações da sociedade que lhes deram origem. Neste contexto,
afirmações que inserem os espaços urbanos como causa e consequência de
biografias em paisagens culturais fragmentadas já constituem um lugar-comum
da crítica da cultura. Originalmente concebidas para armazenar, transmitir os
“bens da civilização” (MUNFORD, 1982, p. 38) e lugar da “própria humanidade”
(BRANDÃO, 2006, p. 13), as cidades passaram a ser associadas à impessoalidade,
ao medo e ao desconforto. Resultados de experiencias desastrosas que
produziram apenas lixo, ruinas e escombros (OLALQUIAGA, 1998), desencontros,
rupturas, exclusões e enfrentamentos. Lugares ou não-lugares (AUGÉ, 2008)
povoados por seres obrigados a viver em um ambiente onde a existência está
perpetuamente sitiada (SUBIRATS, 2010) cuja única justificativa é ser palco de
uma guerra de narrativas.
Este panorama de paroxismos pode ser levado adiante praticamente ad
infinitum. Diante disto, parece não ser possível dizer que não corresponda, de
certa maneira, com a realidade das cidades materializadas no ocidente após a
revolução industrial. Sobretudo, quando são constatados aumentos nos índices
de criminalidade vivenciados, com alguma defasagem temporal, tanto na Europa
quanto nos demais países industrializados a partir da década de 1960 (BONELI,
2010). Vale observar que estas visões distópicas e catastróficas podem também
ser combustível tanto para a criação quanto para a veiculação de alguns produtos.
No caso deste recorte, as visões do espaço urbano no cinema, notadamente, em
Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution.
Visto à distância de praticamente seis décadas, poucas obras suscitaram
questões que permaneceram contemporâneas quanto este filme concebido por
Jean-Luc Godard e lançado em 1965. Vista enquanto fonte historiográfica, uma
obra de arte se revela um manancial privilegiado com propriedades estilísticas,
formais ou iconográficas que remetem a percepções particulares: maneiras de ver
modificadas pela experiência social e pela própria leitura. Neste sentido, importa
reconhecer a materialidade da existência da “intenção” da obra, qualquer que
seja. Intenção aqui entendida de uma forma mais ampla, sendo uma construção
mental que descreve a relação de uma obra de arte com seu contexto, de acordo
com o sentido atribuído por Michel Baxandall (2006). Sendo um objeto histórico,
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a obra de arte, neste caso a cinematográfica, possui uma “qualidade intencional”,
a expressão de uma relação entre o objeto e sua temporalidade.
Alphaville pode ser inserido em uma série de produções cinematográficas
europeias e norte americanas que tem por tema distopias - entendidas como
‘utopia negativa” (JACOBY, 2007) - de controle absoluto. Temporariamente,
encontra-se precedido por Metropolis, dirigido pelo cineasta austríaco Fritz
Lang de 1927 e sucedido por 2001: uma odisséia no espaço, dirigido por Stanley
Kubrick e lançado em 1968. A distopia concebida por Godard já não se assenta no
mecanicismo de um espaço urbano industrial e antecipa a questão do controle
absoluto propiciado pelos computadores, especialmente os sencientes da
estirpe de HAL 9000, concebido por Arthur C. Clarke e Stanley Kubrick.
Em 1965, Godard já era um cineasta relativamente reconhecido na Europa
(MORREY, 2005). Os primeiros curtas-metragens, como por exemplo, Operátion
Béton (1954) e Une histoire d’eau (1961) já haviam chamado a atenção da juventude
parisiense e ele já havia produzido oito longas-metragens, entre eles, À bout
de souffle (1960), Une femme est une femme (1961), Vivre sa vie (1962), Le Mépris
(1963) e Bande à part (1964). Nomes que se tornaram célebres representantes
da Novelle Vague, como Anna Karina, Jean-Paul Belmondo e Brigitte Bardot, já
haviam passado pelas lentes das câmeras do diretor.
O próprio título do filme - Alphaville, une étrange aventure de Lemmy Caution
– já evoca uma dupla leitura. O nome da cidade, Alphaville, e a estranha aventura
do protagonista, Lemmy Caution. O título já adverte a natureza, no mínimo
perturbadora, da aventura. Estrelado por Eddie Constantine, Anna Karina,
Howard Vernon e Akim Tamiroff, o filme ganhou o Urso de Ouro do 15º Festival
Internacional de Cinema de Berlim em 1965. O roteiro combina os gêneros noir
e ficção científica. O protagonista, Lemmy Caution, interpretado por Eddie
Constantine, é o agente secreto criado pelo escritor britânico Peter Cheyney em
This Man Is Dangerous lançado em 1936. Apesar de que Eddie Constantine não foi
o primeiro ator a interpretar o personagem2, o sucesso fez com que ele passasse
a ser associado indissociavelmente ao papel.
A história se desenvolve em um futuro indefinido e em um planeta distante
da Terra. Não são observados cenários futuristas, engrenagens robóticas ou
adereços mecânicos. As ruas da capital francesa, tão conhecidas pelo diretor,
2 Interpretado originalmente por John van Dreelen em Brelon d´as, do cineasta Henri Verneuil em 1952.
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serviram às locações externas e os edifícios modernistas de vidro e concreto
serviram aos ambientes de muitas cenas. Godard, afastando-se de cenários
artificiais previsivelmente futurísticos, optou por ambientes reconhecíveis e
familiares, mas que são transformados pelo estranhamento das composições,
iluminações e enquadramento das imagens.
O filme tem início com o agente Lemmy Caution, que se passa por um
jornalista, Ivan Johnson, do jornal Fígaro-Pravda. O detetive sofre agressões logo
ao chegar no hotel e constata que está sendo mantido sob severa vigilância. A
missão secreta à Alphaville tinha três objetivos: localizar o agente Henri Dickson,
desaparecido; capturar ou eliminar o professor Leonard von Braun, criador do
computador e destruir a máquina maléfica Alpha 60 que controla ditatorialmente
a população da cidade. Ele chamava-se Leonard Nosferatu, havia sido expulso
dos países exteriores e se instalado naquele planeta distante onde criou uma
civilização perfeitamente organizada e baseada na lógica científica. Sob o disfarce
de jornalista, Lemmy Caution contava com a ajuda de Natasha von Braun, filha do
criador de Alpha 60 e funcionária do departamento de Propaganda e Memória. Ela
é uma arquetípica cidadã de Alphaville que ignora o significado de “consciência”,
“crítica” ou “amor” e sobrevive sem questionamentos às explicações que lhe são
dadas.
A placa da cidade explicita desde o início seus princípios norteadores: Silêncio,
Lógica, Segurança e Prudência. Os habitantes são controlados completamente
por Alpha 60 que aboliu, após deduções de lógica, o individualismo, o pensamento
livre e a manifestação das emoções. Esta abolição se deu mediante a simples
proibição e a substituição de conceitos contraditórios. Desta maneira, nenhum
residente deveria interrogar o “porquê” de algo ou alguma coisa, mas apenas dizer
a conjunção subordinativa causal ou explicativa “porque”.
Imerso em uma longa noite, o detetive defronta por diversas vezes com
luminosos com as equações da relatividade especial e da mecânica quântica
– E=mc2 e E=hf – o que reforça os sólidos alicerces da ciência que sustenta
aquela civilização. Não demora para que apareçam oposições entre a fria
lógica matemática do computador e o maldisfarçado romantismo do detetive,
representadas pelas citações de versos de Capitale de la douleur, do poeta francês
Paul Éluard, publicado em 1926. Ao literalizar o texto, o poema desempenha
a função de romper com a linearidade da narrativa e apontar para o reino das
possibilidades. Também não demora para que Lemmy se apaixone por Natasha,
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o que introduz outra camada de imprevisibilidade no desdobramento da trama.
Guiado por Natasha, Lemmy Caution testemunha a execução de indivíduos
insurgentes. Um deles havia chorado quando a esposa faleceu e, como as
emoções eram proibidas, foi executado. Estas punições públicas aconteciam
em uma piscina onde os sentenciados, além de baleados, eram mortos a facadas
por mulheres de maneira sincronizada. As pessoas oriundas da orla exterior
eram, se possível assimilados, especialmente se fossem suecos, alemães ou
norte-americanos. Os demais, refratários ou inassimiláveis eram simplesmente
descartados. Para isto, havia um teatro das execuções onde os indivíduos eram
eletrocutados nos assentos enquanto assistiam a um espetáculo. A seguir, eram
despejados em recipientes de lixo e o ciclo se reiniciava. Caso algum indivíduo
demonstrasse sinais de cooperação e recuperação, eram enviados para um
hospital de doentes crônicos e podiam realizar a “cura” graças às massivas
operações de propaganda.
Através destes acontecimentos, percebe-se que a sociedade estabelecida
pela elite científica não é tão petrificada quanto pode parecer à primeira vista.
Há um elemento de instabilidade que permanece como uma espada de Dâmocles
no sistema. Novos elementos são assimilados e as divergências que surgem
no processo são identificadas através da vigilância onipresente e resolvidas
pela simples eliminação. Há, portanto, uma pressão no sistema que deve ser
contida, regulada e continuamente avaliada. A cidade se apoia sobre o controle
absoluto de seu funcionamento diário e sob o medo da desintegração. A situação
que parece pétrea e estável é, na realidade, extremamente frágil. Depende da
energia empregada nas atividades de verificação lógica, fiscalização e punição,
perpetuamente renovadas com a adição de novos problemas. O princípio original
da aplicação de deduções lógicas que sustenta Alpha 60 é, aparentemente
estável, mas o cenário real da administração do tempo presente certamente
não é. Em Alphaville não houve revoluções e insurreições pois o sistema havia
se mostrado eficiente em eliminar as dissonâncias e o número dos executados
pareciam limitados em parâmetros “aceitáveis”.
Lemmy Caution, diante deste cenário, percebe que está diante de um destino
que lhe parece terrível. Municiado com esta convicção ele indaga Natasha sobre o
conhecimento de algumas palavras que ela desconhece. Ela recorre ao dicionário
continuamente atualizado, também chamado Bíblia, e reclama que quase todos
os dias há palavras que desaparecem: “porque são malditas e são substituídas
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por novas palavras que expressam novas ideias” (ALPHAVILLE, 1968). O detetive
estimula as memórias e ela se lembra que não era natural de Alphaville, o que
explicaria suas manifestações emotivas que transparecem inadvertidamente.
Esta seria a causa das irrupções de suas dúvidas. O despertar da memória tem um
efeito devastador na personagem que se vê em uma nova posição, conflituosa,
daí em diante. Neste ponto, Godard parece sugerir que a narrativa opera enquanto
elemento da construção da própria memória que mesmo moldada e reconfigurada
sempre corresponde a uma atribuição de sentidos.
A partir deste ponto, os acontecimentos se precipitam. As comunicações
são suspensas e o casal é detido. Lemmy Caution é interrogado pelo computador
e este corresponde ao ponto alto do drama. Alpha 60 diz que o detetive é uma
ameaça à segurança de Alphaville e instala-se um impasse com o agente se
rejeitando a se converter à normalidade imposta. Lemmy sugere uma charada
a ser desvendada pela máquina: identificar o que nunca pode ser mudado, que
seria o passado que representa o futuro e que avança em linha reta e termina
por fechar o círculo temporal. A própria compreensão da proposta, representa,
para a lógica computacional de Alpha 60, uma dissolução. Se ele fosse capaz de
compreender o sentido trágico da pura aplicação dos princípios lógicos seria um
humano. Haveria sido capaz de criar uma ética. Diante disto, Alpha 60 entra em
colapso. Lemmy Caution consegue fugir, mata os guardas que o vigiam e vai ao
encalço do professor von Braun. Propõe a ele que o acompanhe à orla exterior e
o cientista, ao contrário, propõe que ele fique e colabore com o sistema. Oferece
uma recompensa: o controle de uma galáxia, ouro e mulheres. Lemmy Caution vê
que é impossível levar von Braun e o executa. Com a morte do criador a civilização
desmorona. Os que não morrem perambulam pelos corredores e ruas. O detetive
resgata Natasha e finalmente o casal consegue escapar da cidade.
Estes são, resumidamente, os acontecimentos que concatenam a narrativa
concebida por Jean-Luc Godard. Imersa nesta narrativa, Alphaville, enquanto
criação fílmica e dotada de singularidade, desempenha um papel estruturante
na trama, independentemente de ser imaginária ou representação metafórica
de alguma cidade concreta de seu tempo. Entretanto, este papel não se
revela imediatamente. Ao contrário, se dá após sucessivas aproximações e
distanciamentos que abrem possibilidades ao observador. Este recorte propõe
três delas, ressaltando que outras permanecem abertas.
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Uma delas corresponderia à uma leitura literal da narrativa e das citações.
Neste caso, são abundantes as referências facilmente identificáveis, plenas
de estereótipos e clichês: von Braun possui o mesmo sobrenome do célebre
engenheiro alemão Wernher von Braun, uma das principais figuras no
desenvolvimento do foguete V-2 para o regime nazista na Alemanha durante
a 2ª. Guerra; Nosferatu seria uma citação do protagonista de Nosferatu, Eine
Symphonie des Grauens, filme dirigido por Friedrich Wilhelm Murnau e lançado em
1922 e Natasha seria uma citação de Natasha Rostova, personagem da famosa
literatura do autor russo Liev Tolstói e publicado entre 1865 e 1869. O mal estava
associado aos nazistas e o seu combate estava associado ao detetive norte-
americano enviado para sequestrar ou eliminar o perverso cientista, reafirmando
o discurso de vitória construído no pós guerra com a vitória dos Aliados contra o
Eixo. O próprio protagonista se descreve sendo veterano de Guadalcanal3 o que
reforça a construção do personagem associada ao heroísmo e ao lado “correto”
do enfrentamento bélico relativamente recente na memória europeia. À esta
análise, a narrativa é límpida, facilmente percebida e de desfecho perfeitamente
previsível. Aí, o amor romântico triunfa sobre a opressão e a impessoalidade
opressiva do controle totalitário. O bem vence de forma maniqueísta o mal que
lhe opõe.
Na orla exterior, a própria ideia de progresso havia evaporado e as diversas
civilizações enfrentavam diferentes níveis de decadência. Neste quadro,
Alphaville aparecia na posição de alternativa à degradação e degenerescência.
Oferecia a alteridade da construção de uma cidade especialmente modelada de
acordo com bases científicas. Em suma, uma cidade concebida para conjurar o
medo da degradação do próprio urbanismo. As demais cidades são as “outras”,
incoerentes, fragmentadas, cujas atividades econômicas e desordens sociais
prejudicam o exercício sereno das funções políticas. Gesto racional para recolocar
a questão urbana na via do progresso. Tanto que Alpha 60 estava cônscio que
espiões eram continuamente enviados para roubar o segredo do sucesso de
von Braun. A atração hipnótica de Alphaville derivava de sua imagem símbolo de
seu poder soberano auto emergente: uma das mais ancestrais dentre todas as
3 Travada entre agosto de 1942 e fevereiro de 1943 durante a guerra do Pacífico no contexto da Se-
gunda Guerra Mundial.
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funções urbanas.
Conforme é possível observar nas figuras 1 e 2, mantida na escuridão ou sob
o manto de uma neblina ou fumaça, a cidade aparece como a representação do
regime ditatorial que lhe deu origem e a iluminação é uma das maneiras de estruturar
as imagens. Sendo precisamente através desta relação de luz e sombra que se
estabelece o lugar da narrativa. Aí impera uma rigorosa disposição dos edifícios,
equivalente à imobilidade materializada pelo controle de Alpha 60. A própria luz
desempenha um papel arquitetural onde áreas de luz, marcações de pontos
luminosos e manchas de penumbra configuram linhas, superfícies e volumes.
Sugerem direções e não há horizonte natural visível. Tudo é construído, produto da
ação lógica deliberada e dirigida dos planejadores. As ruas, praticamente desertas,
são palco para figuras que emergem e desaparecem das sombras criadas pelas
fachadas, postes e faróis. Os pontos de vista, angulações e distâncias também
configuram espaços delimitados. Através deles, o enquadramento fecha sobre si e
procura minimizar os personagens aí contidos. As composições são frequentemente
desequilibradas, com a introdução de elementos irregulares, símbolos, sinais,
partes de textos, equações e partes de máquinas que sugerem uma sequência
opressiva. Imagens que expressam os medos e receios da sociedade europeia frente
a um mundo que acenava com a possibilidade do uso abusivo da tecnologia digital
que parecia encontrar seus lugares ideais nos ambientes sombrios e fascinantes
construídos por Godard.
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206 albuquerque: revista de história - v. 16, n. 32, ago. - dez. 2024 I e-issn: 2526-7280
Figura 1 - Imagens de cenas urbanas. ALPHAVILLE, 1965
FONTE: https://www.youtube.com/watch?v=UitB6c8QP80. Acesso em 18 jun 2024.
Figura 2 - Imagens de cenas urbanas. ALPHAVILLE, 1965
FONTE: https://www.youtube.com/watch?v=UitB6c8QP80. Acesso em 18 jun 2024.
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Uma segunda maneira de abordar Alphaville seria ver a obra enquanto ficção
científica distópica, a representação de uma civilização que encontra o controle
absoluto resultante da aplicação de raciocínios puramente lógicos. Ao evocar
a relação fundamental do homem com a tecnologia, em particular, a digital, a
narrativa fílmica evoca algo além da imediata visualidade. Destinada ao grande
público e, portanto, coletiva e em circulação no corpo social, a tecnologia aparece
prenhe de significados, resultado dos desejos e medos de quem a controla. Sua
imagem desempenha a função de semióforo4, cujo valor não é medido pela simples
existência, mas antes pela força simbólica daquilo que representa. Fecundo, pois,
faz emergir efeitos de significações (CHAUÍ, 2000). A tecnologia articula o “dar a
ver” e o “dado a ver” que configura o cotidiano dos habitantes. É ela também que
funciona enquanto dispositivo criador do próprio real ao planificar elementos
do real no imaginário e tornar o imaginário previsível e real na materialidade
da cidade. Daí, o fato de que os residentes terem sido transformados em seres
despossuídos de individualidade, é puramente contigencial.
Neste ponto de vista, a representação dos habitantes é mais dramática
que a do próprio espaço construído da cidade. A planificação e o controle dizem
respeito à superação de todos os aspectos negativos geralmente associados aos
espaços urbanos. Através desse instrumental se materializava o melhor de dois
mundos: facilidade, conforto e igualdade na distribuição de recursos vitais de um
lado, e de outro, sossego, segurança e supressão da violência pela erradicação
de conflitos e alteridades. Habitar em um dos mundos da orla exterior era um
fardo que implicava em uma contínua negociação para a resolução de problemas
que se renovavam. Em Alphaville, até a chegada do agente secreto e protagonista
Lemmy Caution, não há agressões. A cidade, cenário sustentáculo da civilização
criada por von Braun, carregada de símbolos, sinais e significações aparece tanto
no que mostra quanto no que oculta. O planejamento, projeto e a previsão lógica
das situações aparecem enquanto ponto de perspectiva à construção de uma
identidade social pacificada. Espelho no qual se podia (re)encontrar continua e
narcisicamente a conhecida face pacifica concebida por quem lhe deu origem.
Ao longo da narrativa, é perceptível que a figura feminina desempenha uma
função dúplice e paradoxal: por um lado são as maiores vítimas e, por outro,
4 Semióforo, do grego Semeiophoros, palavra composta por semeion, “sinal” ou “signo” e phoros,
“trazer para a frente”, “tornar visível”, “expor”.
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208 albuquerque: revista de história - v. 16, n. 32, ago. - dez. 2024 I e-issn: 2526-7280
os instrumentos através dos quais se perpetua a vigilância e a violência em
Alphaville. Suas imagens (figura 3) antecipam os androides, que foram fabricados
para atuarem como serviçais de diversos tipos, perfeitos simulacros, do romance
de ficção cientifica Androids Dream of Electric Sheep? de Philip Kindred Dick que
seria lançado em 1968. Marcadas por números tatuados, em alguns momentos
elegantemente vestidas e belas, enquanto em outros com a nudez exposta em
vitrine, aparecem acessíveis. Dóceis e submissas. Aparentemente, sempre
disponíveis a favores sexuais e entretenimento. São elas que, ao mesmo tempo,
colocam música, arrumam a cama e oferecem companhia. Ao mesmo tempo, são
vigilantes, atentas às informações e denúncias. Participam ativa, sincronizada
e impassivelmente das execuções nas piscinas públicas apunhalando os
sentenciados. A suavidade do nado artístico e a imagem da água adicionam
camadas de ironia à cena dramática da morte na água.
Figura 3 – Execução pública na piscina e imagens femininas. ALPHAVILLE, 1965.
FONTE: https://www.youtube.com/watch?v=UitB6c8QP80. Acesso em 18 jun 2024.
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A sequência de imagens da piscina suscita certo estranhamento (figura 3). As
composições, concebidas para destacar reflexos e transparências, exibem uma clara
mensagem no contexto da narrativa: a dissidência causa perturbação e insegurança e a cidade
ideal que é Alphaville oferece ordem e previsibilidade. Ao mesmo tempo, a cena explicita o
princípio lógico de Alpha 60: se a desobediência de princípios estabelecidos produz o caos
e, considerando que o caos é indesejável, faz-se necessário a eliminação do agente. Pura e
evidente aplicação do princípio da terapêutica: cessada a causa, cessa-se o efeito.
Os reflexos da água, ao devolver uma face de essencialidade, sugerem a naturalização
da própria imagem do puro fato, ao orgulho da própria contemplação (BACHELARD, 1997). A
plateia se comporta de maneira entusiasta, reafirmando socialmente a aplicação da punição.
Esta ironia, produzida no ambiente efervescente cultural do feminismo francês e nascente
Mouvement de Libérationdes Femmes na década de 1960, aparece ainda mais anacrônica e
dissonante. Em uma cena, o detetive, ao presenciar a execução aquática, indaga a um dos
presentes se somente homens foram condenados. A resposta era que havia uma proporção
de cinquenta homens para cada mulher nas condenações à pena capital. Dito de outro modo,
a dominação havia atingido majoritariamente as mulheres que, impotentes, perderam a
capacidade de reagir e sublevar.
Outro ponto alto da narrativa corresponde ao encontro de Lemmy Caution com o
engenheiro chefe, no centro nervoso da cidade: Estação Central de Integração onde são
ajustados os problemas operacionais, repressão do banditismo, circulação de pessoas e
mercadorias e operações de guerra. Neste momento, o agente é informado que o princípio de
Alpha 60, o prototípico cérebro que possui uma inteligência auto emergente e que desenvolve
a si próprio, era calcular e prever. O engenheiro observa que a inteligência do detetive era
acima da média, o que era desejável, porém extremamente perigoso. Em seguida, é autorizado
que ele veja o computador com a observação que os circuitos não estavam funcionando a
contento. O computador estava dedicado a processar informações coletadas por informantes
a respeito dos países exteriores. Com estas informações, o centro de controle enviava agentes
infiltrados para provocar ataques, greves e rebeliões em outras galáxias.
Uma terceira maneira de abordar Alphaville inscreve a obra na ontologia, enquanto
elemento que torna possível múltiplas existências, no sentido atribuído por Heidegger (2013).
Nesta perspectiva, a voz gutural, cadenciada e mecânica de Alpha 60 desempenha o papel
de narrador omnisciente cujo objetivo é construir um simulacro. Precisamente, é este tipo
de narrativa que torna a obra de Godard inabordável enquanto pura representação. Metáfora
da construção narrativa e da própria linguagem, a cidade aparece sendo a expressão da
manipulação que é ao mesmo tempo causa e efeito da própria narrativa. Godard, ao jogar com
aspirações coletivas, tradições herdadas e a criação de novos valores e significações escapa
da armadilha de se reduzir o imaginário à sua dimensão ideológica. Muito menos opor a este
jogo de intenções o potencial drama acusatório da visão distópica. Os exemplos destacados na
figura 4 permitem ver a ação de uma complexa e sutil alternância que joga com a linearidade,
a circularidade, as circunvoluções e o labirinto em linha reta. Os próprios circuitos de Alpha 60
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210 albuquerque: revista de história - v. 16, n. 32, ago. - dez. 2024 I e-issn: 2526-7280
são similares às salas dos corredores com salas onde acontecem os interrogatórios: labirintos
de circuitos que estão concatenados linearmente.
Uma urdidura visual e delicada parece estar no sustentáculo da narrativa. Elementos
desta engrenagem, as imagens dos espaços construídos oferecem condições para observar
que, de maneira similar aos mecanismos da ficcionalidade, os valores socialmente construídos
e cultivados têm uma mais sutil do que usualmente lhe são atribuídos. Valores que existem não
somente para prestigiar ou hostilizar determinadas perspectivas sociais, mas também para
exercer pressões para que sejam automatizados, isto é, considerados naturais (LIMA, 2009),
portanto inquestionáveis. Adiciona-se mais uma camada ao simulacro da voz onipresente. Um
desses elementos pode ser identificado na grande luminária redonda que pulsa frontalmente
em intervalos regulares no início do filme. Parece ser um elemento poético que tende a romper
com a linearidade da narrativa: nada a precede, a explica e nada a substitui. Entretanto, sua
aparição em outros momentos do filme forma uma sequência que reforça a simulação de
realidade criada em Alphaville. Um elemento visual que aparentemente significa uma coisa em
pouco tempo aparece sendo o seu contrário.
Figura 4 – Escadas espirais, corredores e mecanismos internos de Alpha 60. Representações femininas.
ALPHAVILLE, 1965
FONTE: https://www.youtube.com/watch?v=UitB6c8QP80. Acesso em 18 jun 2024.
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211 albuquerque: revista de história - v. 16, n. 32, ago. - dez. 2024 I e-issn: 2526-7280
Este jogo visual entre o linear e o circular, representação da organização da
lógica interna do sistema é explicado pelo próprio Alpha 60 ao colocar que:
Ninguém vive no passado e ninguém viverá no futuro. O presente é a única forma de
vida. Essa qualidade não pode ser alterada por nenhuma forma. O tempo é como um
círculo que gira continuamente. O arco que desce é o passado, o arco ascendente é o
futuro. Tudo já foi dito. A não ser que as palavras mudem de sentido e os sentidos das
palavras. [...] Antes de nós, nada existia aqui, nem ninguém. Estamos totalmente sós.
Aqui somos únicos, assustadoramente únicos. O significado das palavras e expressões
já não são perpétuas (ALPHAVILLE, 1965).
Em seguida, a máquina explica a fragilidade da lógica humana que
inevitavelmente conduziu a erros e foi, pouco a pouco, destruindo a lógica: uma
vez conhecendo o “1” acredita-se conhecer o “2”, considerando que “1” mais “1”
são sempre “2”. O que os humanos se esquecem é que, antes de se entender o
resultado era imperativo compreender o significado de “mais”, sem o qual a
operação era destituída de sentido. Após esta fala e antes que o detetive esboce
alguma associação ideológica, o computador justifica que está consciente de
que nem no chamado mundo capitalista nem no comunista há uma vontade
malévola para subjugar seus povos. Não se trata de se ocultar atrás do poder
da doutrinação ou das finanças. O que há é ambição natural auto emergente em
qualquer organização para planificar suas atividades e garantir a continuidade.
Para Alpha 60, o controle da linguagem determinava o controle do
pensamento e consequentemente, do mundo psíquico e ações dos habitantes
da cidade. Também determinava o domínio do tempo presente e a anulação dos
sentidos de outras dimensões temporais: em Alphaville não há História e o futuro
estava reduzido ao conjunto de deduções previsíveis. Destinada à apropriação
individualizada dentro dos parâmetros colocados, o controle era o próprio eixo
da equação imaginal/imaginário/imaginante: instituição de práticas discursivas
capazes de determinar práticas sociais.
O simulacro estava completo. Alpha 60 era o dispositivo perfeito destinado
a (re)produzir aparências e controlar os sentidos atribuídos aos referentes:
ideia bem mais sutil que a simples fabricação ou imposição de diretrizes
programáticas. Aparece aí a dimensão mais complexa de Alphaville que decorre
da desmaterialização – ou eterização – da cidade. Transparece uma dimensão
invisível altamente centralizada: o controle institucionalizado. O cientista havia
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criado um aparato capaz de sustentar indefinidamente um mundo imaginário
possibilitando transformar o real em conteúdos plásticos para a (re)construção
ideal deste real. Assim, deduções baseadas em pura lógica poderiam gerar novas
deduções em um circuito continuamente retroalimentado. Circularidade perfeita,
perpetuum mobile. Para Lemmy Caution, esta eternidade de princípios geradores
pareceu uma atroz violência à população. Para von Braun era a realização de toda
a aspiração do conhecimento científico e totalidade da lógica.
Figura 4 – Imagens em negativo. ALPHAVILLE, 1965
FONTE:https://www.youtube.com/watch?v=UitB6c8QP80. Acesso em 18 jun 2024.
A morte de von Braun desencadeia o processo de autodestruição
que havia sido inoculado no sistema com proposta do detetive para que o
computador identificasse o que nunca poderia ser mudado. À medida que o
colapso avança, Godard introduz planos de cenas e sequencias em negativo,
invertendo opressivamente as tonalidades (figura 5). O diretor, de maneira
similar ao protagonista, impõe uma subversão à lógica das imagens e produz um
estranhamento. Reafirma visualmente sua posição de liberdade artística e seu
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direito ao emprego da imaginação. Em Alphaville, Godard coloca a representação
do autoritarismo e dos mecanismos de controle além do plano de qualquer
ideologia e insere a narrativa ao mesmo tempo critica a qualquer forma de
censura e ato de rebeldia formal constituinte da própria obra.
Referências
ALPHAVILLE. Direção de Jean-Luc Godard. Produção: André Michelin. Local:Mundial Filmes,
Paris, 1965. Imagens de cenas urbanas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?-
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