
CADERNO ESPECIAL
209 Albuquerque: revista de história, vol. 16, n. 31, jan. - jun. de 2024 I e-issn: 2526-7280
Anna Paula Teixeira Daher
colocasse isso em texto, primeiro como repórter do jornal O Estado de São Paulo,
e depois em Os Sertões.
Cunha deixou logo a vida militar, mas o fato é que o exército esteve sempre,
de alguma forma, envolvido nos grandes momentos e nas grandes decisões da
vida de Euclides, esse homem “fora do lugar” (CARVALHO, 2009), militar sem
disciplina e sem interesse na guerra, um engenheiro preso a um mundo que não
lhe despertava maior ânimo e tampouco auxiliava sua criatividade, um homem
da cidade14 que sonhava com a natureza em seus extremos - o sertão e a oresta
(DAHER, 2022). No entanto, dedicou-se a engenharia, trabalhou como funcionário
público, nunca pôde se dedicar somente à escrita, apesar do seu sucesso nesta
seara, notadamente em Os Sertões15.
Florestan Fernandes (1997, p. 35) a nominou como obra que “possui valor de
verdadeiro marco” por dividir o “desenvolvimento teórico-social da sociologia
no Brasil”. Antônio Cândido (2000, p. 122) também cimentou o lugar de Euclides
no Olimpo da intelligentsia16 nacional ao apontar que “Os Sertões assinalam um
m e um começo: o m do imperialismo literário, o começo da análise cientíca
aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira”. Cumpre aqui
destacar o que esses intelectuais professam competências especícas e, por
terem uma socialização comum estabelecem mais facilmente laços de anidade
entre si, entre os membros desta intelligentsia, o que os une, normalmente
superando divergências e rivalidades existentes. Segundo Martins (1987), “esses
laços comuns, esse sentimento de pertencer a um certo nós (wefeeling), se
traduzem em símbolos próprios, numa linguagem e em hábitos mais ou menos
14 Euclides, por exemplo, era um crítico ácido dos melhoramentos aos quais a cidade do Rio de
Janeiro foi submetida ao longo dos primeiros anos do séc. XX. Brito Broca fala desse incômodo: “o
remodelamento do Rio, a mentalidade arrivista que daí surgia, tudo era de molde a irritá-lo. Não podia
suportar aqueles arremedas de civilização européia. Em carta de 12 de fevereiro de 1908 a Francisco
Escobar, convidando-o para uma visita ao Rio dizia: ‘Admirarás os célebres melhoramentos. Fulmi-
naremos, juntos, o pioramento dos homens. Daremos pasto à nossa velha ironia ansiosa por enterrar-
-se nos cachaços gordos de alguns felizes malandros que andam por aí mfonando desabaladamente,
de automóvel, ameaçando atropelar-nos a nós outros, pobres altivos diabos que teimamos em andar
nesta vida, dignamente, pelo nosso pé’”. (BRITO BROCA, 2005, p. 134).
15 A primeira edição se esgotou em cerca de dois meses. Walnice Galvão (2009b) argumenta que o
livro, se lançado nos dias atuais, teria sido considerado um best seller.
16 O termo, de origem latina, foi famosamente empregado para determinar um grupo distinto de pes-
soas na Rússia da segunda metade do séc. XIX e que não se encaixavam nas distinções sociais então
existentes. Desde então, por extensão, é geralmente utilizado para determinar um grupo de intelec-
tuais de um país (KIMBALL, s/d), um grupo bem-educado da sociedade, que defende os interesses
da pátria e do povo a partir da razão e do conhecimento (VIEIRA, 2008).