CADERNO ESPECIAL
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Anna Paula Teixeira Daher
EUCLIDES DA CUNHA - UMA VIDA NAS “JANELAS” DA REPÚBLICA
EUCLIDES DA CUNHA - A LIFE IN THE “WINDOWS” OF THE REPUBLIC
https://doi.org/10.46401/ardh.2024.v16.21662
Anna Paula Teixeira Daher*1
Rede Pública Municipal de Goiânia
https://orcid.org/0000-0001-5333-7705
aptd78@gmail.com
Recebido em 07 de abril 2024
Aprovado em 23 de maio de 2024
Euclydes da Cunha era uma celebração de rara força,
servida por um coração vibrátil e fragílimo.
(Jornal do Commércio (RJ) de 16 de agosto de 1909).
Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu na Fazenda Saudade, Santa
Rita do Rio Negro, distrito de Cantagalo-RJ2, no dia 20 de janeiro de 1866. Filho
de Eudóxia Moreira da Cunha e do guarda-livros3 Manuel Rodrigues Pimenta da
Cunha, órfão4 de mãe aos três anos de idade, passou os primeiros anos de vida
1
* Doutora em História pela UFG. Membro do Grupo de Estudos de História e Imagem da UFG e da
Rede de Pesquisa em História e Culturas no Mundo Contemporâneo da Universidade Presbiteriana
Mackenzie. Professora da Rede Pública Municipal de Goiânia. E-mail: aptd78@gmail.com.
2 Desde 1943 o distrito leva o nome de Euclidelândia, em homenagem ao ilustre lho (DOLZAN, 
2016).
3  Nas fazendas de café que então tomavam o Vale do Paraíba (ABREU, 1998). 
4 O pesquisador Antenor da Silva Ferreira destaca que, dos aspectos na trajetória pessoal de Euclides, 
a orfandade é fator preponderante para o resultado de seu engajamento social e político. Segundo ele, 
tamanha perda foi de grande inuência para a “personalidade quixotesca” de Cunha, com sua propen-
são a tomar a defesa dos oprimidos. (FERREIRA, 2019, p. 17). 
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sob os cuidados de parentes5 e voltou ao Rio para estudar, em 18796, e se tornar
nome maiúsculo da cultura brasileira e do elenco de escritores do cânone7 nacio-
nal.
Viveu brevemente e morreu assassinado aos 46 anos de idade, em 1909,
quando confrontou Dilermando de Assis, o jovem amante da sua esposa, Ana, em
um episódio que cou conhecido como a Tragédia da Piedade, comoveu o país e,
até hoje, o torna tão famoso quanto a sua maior obra, Os Sertões. A publicação
desse livro, em 1902, o erigiu a um lugar especial na história intelectual do Bra-
sil, tendo em vista que, naquele momento, os pensadores, escritores, e demais
atores da República encontravam-se prontos para a crítica da sua formação e
atuação – em Canudos8 e de modo geral (GALVÃO, 2009a).
Walnice Nogueira Galvão, em texto que trata da chef d´oeuvre de Euclides,
mas não foge da sua vida, anota um desvio: as décadas de reexões sobre a obra
arrebanharam grupos apaixonados e odiosos, e esses sentimentos facilmente se
transmite ao próprio autor, e esses críticos cheios de sentimento muitas vezes
se espantam com as ocorrências da vida dele. Mas, a pesquisadora também já
se adianta, “não é que o que ocorreu com Euclides da Cunha tenha sido tão ex-
traordinário. Nos quadros habituais da família patriarcal brasileira, os feitos são
perfeitamente compreensíveis”, mas ela reconhece, e externa, “talvez se tornem
chocantes quando se constata como, num autor de postura tão cientíca, a vida
seja ao contrário tão pouco cientíca, sua ação pessoal seja tão irracional” (GAL-
VÃO, 1981).
Quando Euclides, arma em punho, chegou à casa de Dilermando em busca
de Ana – e dele, o fez em seu lugar de homem bom que reagia à má conduta da es-
5 Apartir de 1869 em Petrópolis (RJ), com os tios maternos Rosinda e Urbano Gouveia e, com a 
morte de Rosinda em 1871, sob os cuidados dos tios maternos Laura e Cândido José de Magalhães 
Garcez em São Fidelis - RJ. Além disso, em 1877 passou um breve período com a avó paterna em 
Salvador - BA (VENTURA, 2003)
6  Nessa ocasião Euclides foi acolhido pelo tio paterno, Antônio Pimenta da Cunha. 
7  O cânone literário é o conjunto de obras (e seus autores) que a sociedade e as instituições conside-
ram perenes, geniais, seminais por comunicarem valores humanos essenciais, devendo ser estudadas
e transmitidas de geração em geração.
8 AGuerra de  Canudos, em resumo, foi  um confronto entre o  Exército e os participantes de um 
movimento popular de fundo religioso liderado por Antônio Conselheiro, ocorrido na comunidade 
que o exército brasileiro chamou de Canudos (mas que era conhecida como Arraial Belo Monte), no 
interior da Bahia, em 1897. Conselheiro chegou ao sertão baiano no nal da década de 1870, mas não 
despertou maior preocupação no Império, que entendia ser aquele um problema local. Mas a nascente 
República via a atuação messiânica do Conselheiro de modo diferente, como uma ameaça à ordem. 
(JUNQUEIRA, s/d, s/p).
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posa, e para isso não deveria haver punição. Mas o escritor pagou com sua vida.
Dilermando infringira todo tipo de expectativa ao se relacionar com uma mulher
casada, e Euclides tinha o direito moral (segundo se entendia na ocasião) de co-
brar a honra enxovalhada, Dilermando tinha o direito de se defender. Ao nal, Eu-
clides falhou e não sobreviveu.
Nos dias e anos que se sucederam à Tragédia da Piedade, inúmeras vozes
se levantaram a favor de Euclides, construindo uma narrativa elogiosa, sempre
ressaltando as qualidades do falecido, construindo a trajetória do herói e contri-
buindo para sua miticação.
Essas circunstâncias pessoais muitas vezes tomarem frente a outros as-
pectos da vida de Euclides, e é também Walnice Galvão (1981) quem é cuidadosa
em destacar que esse lado mais explícito da vida do escritor não deve fazer som-
bra ao seu papel de homem público. De fato, aos seus papeis de homem público,
que foram muitos: como militar, como escritor/intelectual (e a partir daí como
jornalista e atuante defensor da implantação da República) e também como en-
genheiro, prossão instrumental no desenvolvimento do Brasil de então.
De fato, é na caserna, como aluno da Escola Militar da Praia Vermelha9, que
Euclides aprende a pensar o mundo, e, enquanto autor, constrói sua carreira de
escritor sempre analisando e argumentando acerca da República, pedra de to-
que em sua obra, seja nos livros que escreve (aspectos da República são analisa-
dos não só em Os Sertões, mas também em Contrastes e confrontos, inicialmente
publicado em 1907, e em À margem da história, que é de 1909, por exemplo), seja
na sua atuação como repórter.
Mas Euclides era engenheiro porque um dia foi militar. Ser militar abarcava
ser engenheiro, cartógrafo, ser uma frente ativa no papel de civilizar o vasto in-
terior, trazendo a moralidade e a organização social, além de garantir, ao mesmo
tempo, a paz necessária para o bom crescimento da nação. E isso tudo obser-
vando os princípios da honra e do pundonor10. A família de Ana era de militares,
9 AEscola Militar e de Aplicações da Praia Vermelha foi criada no Rio de Janeiro imperial de 1875, uma 
adição a até então única instituição de ensino superior do Exército, a Escola Central, que formava engenhei-
ros civis e militares. “Ageração da Escola Militar a que pertenceu Euclides é aquela que vai viver em cheio 
a renovação de todas as ideias. Religião católica, instituições monárquicas, escravidão, prestígio da grande 
propriedade rural, ecletismo losóco e espiritualismo, romantismo artístico-literário, tudo isso será levado de 
roldão por “um bando de ideias novas”. (GALVÃO, 2010, p. 14)
10  Oliveira Viana é outro intelectual que reconhece a presença do espirito de classe e de honra entre 
os militares. Segundo ele, entre pares que demonstram “sensível espírito de corpo e um vivo pundo-
nor prossional” (VIANA, 2010, p. 116).  
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seus amigos foram feitos principalmente nas leiras da Escola Militar e todos
eles estiveram envolvidos com o Exército ao longo daqueles primeiros anos da
República. Dilermando de Assis também era militar.
José Murilo de Carvalho (2017) lembra que o exército fez frente a dois mo-
mentos fundamentais da vida de Cunha: o episódio da espada11 na Escola Militar
e a sua própria morte (pelas mãos de um ocial do Exército). Também é Carvalho
(2017) a lembrar outra função muito importante da estrutura militar na vida de
Euclides: incutir-lhe um senso de brasilidade o que, ao nal, foi fundamental
para que ele escrevesse Os Sertões e passasse a ocupar os lugares que ocupou.
A instituição da República no Brasil tem um grande peso na vida de Eucli-
des, em sua formação, em sua vida pessoal, em seu trabalho. Expulso da Praia
Vermelha, Euclides parte então para São Paulo e é aí que começa a sua vida de
jornalista e escritor junto ao jornal A Província de São Paulo a convite de Júlio de
Mesquita12, onde estreia escrevendo artigos defendendo a República e criticando
a Monarquia e a Família Real brasileira. Retorna ao Rio de Janeiro no ano de 1889
e, sem deixar de atuar na imprensa, com a chegada da República, é reintegrado
ao Exército – e à Praia Vermelha.
Desde os seus anos de Escola Militar, que moldariam a maneira como ele via
o mundo, até as novas lentes com as quais ele passa a ver a República e o país a
partir da forma como o Brasil foi governado nos primeiros anos do novo regime –
o que fez com que ele mudasse sua opinião13 sobre o que acontecia em Canudos e
11  é favorita entre seus biógrafos e estudiosos a passagem de sua expulsão da Escola Militar da Praia Verme-
lha, no ano de 1886, onde o então cadete Euclides joga sua espada aos pés do ministro da guerra do Imperador 
D. Pedro II. Sobre o ocorrido, Bernucci (2009) arma haver duas versões sobre o ocorrido. Na primeira delas, 
alega que o comportamento de Euclides se deu em razão de uma manifestação acerca da falta de promoção 
para alferes-alunos, conforme prescrevia a lei. A segunda versão atribui o protesto de Euclides a mudança do 
dia da visita do Ministro da Guerra do Império, Thomaz Coelho, impedindo que os alunos assistissem ao de-
sembarque do republicano Lopes Trovão, que voltava da Europa. Esta segunda versão é a comumente aceita 
e analisada por pesquisadores como Ventura e Galvão, e relatada em biograas como a de Pontes (1938), e é 
peça importante para a construção da gura pública de Euclides.
12 Filho de portugueses, passa parte da infância no país europeu, onde inicia seus estudos. Contudo, bacha-
rela-se em Direito no Brasil. Pouco milita na área, dedica-se ao jornalismo e à política ao longo de sua vida 
adulta, crescendo com o regime republicano brasileiro, o qual apoia. Trabalha no jornal Província de São Pau-
loalguns anos até tornar-se sócio da empresa e, então, proprietário do jornal que viria a se chamar O Estado
de São Paulo. O convite para Cunha cobrir a Guerra de Canudos é benéco ao jornal de Mesquita, que vê a 
tiragem do periódico saltar para 18 mil exemplares diários, em razão do interesse do público pelo conito. (De 
acordo com informações constantes de http://cpdoc.fgv.br. Acesso em 24 mar 2020). 
13 Euclides chamou Os Sertõesde livro vingador justamente porque apontou os erros do governo. Em carta 
a Francisco Escobar, discorreu, “alenta-me a antiga convicção de que o futuro o lerá. Nem outra coisa quero. 
Serei um vingador e terei desempenhado um grande papel na vida – o de advogado dos pobres sertanejos as-
sassinados por uma sociedade pulha, covarde e sanguinária” (GALVÃO E GALOTTI, 1997, p. 133).
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Anna Paula Teixeira Daher
colocasse isso em texto, primeiro como repórter do jornal O Estado de São Paulo,
e depois em Os Sertões.
Cunha deixou logo a vida militar, mas o fato é que o exército esteve sempre,
de alguma forma, envolvido nos grandes momentos e nas grandes decisões da
vida de Euclides, esse homem “fora do lugar” (CARVALHO, 2009), militar sem
disciplina e sem interesse na guerra, um engenheiro preso a um mundo que não
lhe despertava maior ânimo e tampouco auxiliava sua criatividade, um homem
da cidade14 que sonhava com a natureza em seus extremos - o sertão e a oresta
(DAHER, 2022). No entanto, dedicou-se a engenharia, trabalhou como funcionário
público, nunca pôde se dedicar somente à escrita, apesar do seu sucesso nesta
seara, notadamente em Os Sertões15.
Florestan Fernandes (1997, p. 35) a nominou como obra que “possui valor de
verdadeiro marco” por dividir o “desenvolvimento teórico-social da sociologia
no Brasil”. Antônio Cândido (2000, p. 122) também cimentou o lugar de Euclides
no Olimpo da intelligentsia16 nacional ao apontar que “Os Sertões assinalam um
m e um começo: o m do imperialismo literário, o começo da análise cientíca
aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira”. Cumpre aqui
destacar o que esses intelectuais professam competências especícas e, por
terem uma socialização comum estabelecem mais facilmente laços de anidade
entre si, entre os membros desta intelligentsia, o que os une, normalmente
superando divergências e rivalidades existentes. Segundo Martins (1987), “esses
laços comuns, esse sentimento de pertencer a um certo nós (wefeeling), se
traduzem em símbolos próprios, numa linguagem e em hábitos mais ou menos
14 Euclides, por exemplo, era um crítico ácido dos melhoramentos aos quais a cidade do Rio de 
Janeiro foi submetida ao longo dos primeiros anos do séc. XX. Brito Broca fala desse incômodo: “o 
remodelamento do Rio, a mentalidade arrivista que daí surgia, tudo era de molde a irritá-lo. Não podia 
suportar aqueles arremedas de civilização européia. Em carta de 12 de fevereiro de 1908 a Francisco 
Escobar, convidando-o para uma visita ao Rio dizia: ‘Admirarás os célebres melhoramentos. Fulmi-
naremos, juntos, o pioramento dos homens. Daremos pasto à nossa velha ironia ansiosa por enterrar-
-se nos cachaços gordos de alguns felizes malandros que andam por aí mfonando desabaladamente, 
de automóvel, ameaçando atropelar-nos a nós outros, pobres altivos diabos que teimamos em andar 
nesta vida, dignamente, pelo nosso pé’”. (BRITO BROCA, 2005, p. 134). 
15 Aprimeira edição se esgotou em cerca de dois meses. Walnice Galvão (2009b) argumenta que o 
livro, se lançado nos dias atuais, teria sido considerado um best seller.
16 O termo, de origem latina, foi famosamente empregado para determinar um grupo distinto de pes-
soas na Rússia da segunda metade do séc. XIX e que não se encaixavam nas distinções sociais então 
existentes. Desde então, por extensão, é geralmente utilizado para determinar um grupo de intelec-
tuais de um país (KIMBALL, s/d), um grupo bem-educado da sociedade, que defende os interesses 
da pátria e do povo a partir da razão e do conhecimento (VIEIRA, 2008).  
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compartilhados, por intermédio dos quais os membros da intelligentsia se
reconhecem e são reconhecidos enquanto tais”.
Ao longo do tempo a crítica se repete: Euclides era brilhante na forma e no
estilo, rico na linguagem, e abordava tema histórico de relevância considerando
as consequências dos atos do governo brasileiro nos habitantes dos sertões
– que este mesmo governo parecia sempre ignorar (LIMA, 1997, p. 21). Mas a
permanência de Euclides nesse Olimpo não se deu sem julgamento ao longo dos
anos, é bom ressaltar.
O próprio Antônio Cândido (2000) nominou o texto de Cunha como de um
barroquismo exagerado e de mau gosto. Mário de Andrade discordava da visão
da obra que Cunha ganhou pelo público e grande parte da crítica ao atestar que
“Euclides da Cunha transformou em brilho de frase sonora e imagens chiques
o que é cegueira insuportável deste solão; transformou em heroísmo o que é
miséria pura” (LIMA, 1997, p. 22). Sevcenko, por sua vez, via a questão por um
ângulo diferente do de Mário de Andrade, ele reetiu sobre a posição de Euclides
diante de diferentes correntes de pensamento que faziam parte de sua vida e
formação: o idealismo romântico e o realismo cientíco: “sem ligar-se em
particular a nenhuma dessas correntes (romantismo, realismo, parnasianismo),
Euclides entreteceu-as todas, imprimindo-lhes a unidade de uma trama tensa a
serviço de suas convicções losócas e cientícas.” (SEVCENKO, 1983, p. 159).
Essa recepção da obra por nomes de peso para a compreensão (e construção)
do lugar do intelectual no Brasil é arrematada pela armação de Regina Abreu
(1998) quando reetiu que a obra de Euclides se tornou um símbolo nacional, por
si só um lugar de memória, o mesmo efeito de um bem tombado pelo patrimônio
histórico – um monumento.
Mas, também como a obra de Euclides vai além de Os Sertões, a sua
contribuição para o pensamento brasileiro ultrapassa este marco17: Cunha em
muito favoreceu a inserção da Amazônia na questão da formação nacional, e, mais
17 Note-se que Berthold Zilly, trabalhando Os Sertões, entende que a grande força e maior importân-
cia da obra está no fato de que Cunha constrói sua narrativa para interligar história natural e história 
social: “Euclides da Cunha narra uma espécie de gênesis, a origem do hinterland e da sua população, 
mais ainda, as origens da terra e nação brasileiras. Estuda os traços distintivos, as deciências e po-
tenciais de desenvolvimento do sertão e de todo o Brasil, bem como a posição do país num mundo 
cada vez mais homogeneizado por aquilo que mais tarde se chamaria de globalização, e ao mesmo 
tempo profundamente cindido pelo darwinismo social, defendido e ao mesmo tempo criticado pelo
próprio autor” (ZILLY, s/d).  
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que isso, inaugurou um novo modo de perceber a história da região, ao observar
a vivência da população amazonense à margem a história (PINTO, 2012). Neste
ponto, seja no Alto Purus, seja em Canudos, o que é importante destacar é como
Euclides enxergava o fato de que a discussão da identidade e da nacionalidade
no Brasil deveria passar pelas guras tanto do sertanejo quanto do caboclo18
(FERREIRA, 2019).
O período da vida adulta de Euclides é um período de intensa atividade
intelectual/cultural no país, e os nomes envolvidos nessa dinâmica são também os
envolvidos na organização política brasileira. No período entre o nal do Império e
a primeira metade do séc. XX, o que se vê são gerações de pensadores dedicados
a diagnosticar o país e apresentar projetos aptos a alçar o Brasil ao seu lugar de
país civilizado. Desde a chamada “geração de 1870”, que teve uma forte atuação
nas discussões sobre a escravidão, a abolição, a República e a introdução de
um “bando de novas ideias”, conforme se referia Silvio Romero, os intelectuais
brasileiros acreditavam que a modernização, o progresso e a construção de
uma nação civilizada não seriam possíveis sem a condução dos intelectuais e a
intervenção direta da ciência e da técnica nesse processo. (SOUZA, 2018, p. 07).
Euclides e seus pares não se reconheciam apenas nas agremiações de
intelectuais (o escritor foi membro do Instituto Histórico e Geográco Brasileiro
IHGB19 e da Academia Brasileira de Letras – ABL20, por exemplo), eles se agrupavam
no mundo da política e do trabalho, eles atuavam juntos, como engenheiros,
médicos, professores, membros das forças armadas, advogados, jornalistas,
funcionários públicos, muitas vezes perpetuando nas prossões escolhidas
tradições de família21. Essas pessoas, geralmente educadas formalmente nos
18  Acerca das diferenças entre os termos “sertanejo” e “caboclo”, Silva é cristalino ao trazê-la, en-
quanto pondera sobre a denição de outro termo de múltiplas explicações, o “caipira”: “Estudos no 
campo acadêmico, como o  
19 Euclides foi indicado como sócio correspondente do IHGB em 6 de março de 1903 - e alçado a sócio 
efetivo 3 anos depois, por proposta de Rocha Pombo, entre outros membros, que o consideravam “um 
observador erudito, um cientista aplicado e um historiador independente” (EUCLIDES DA CUNHA 
E O IHGB, s/d).
20 Euclides foi empossado em dezembro de 1906, na cadeira 7, cujo patrono é Castro Alves, suce-
dendo ao crítico literário Valentim Magalhães (1859-1903).
21  Seguir a prossão do pai era uma tradição das elites do início do século XX e mais uma forma de 
perpetuar seu poder (MICELI, 2001).  
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mesmos lugares, se agregavam para servir ao Estado– no caso, a República22.
Fazer parte de um grupo de homens pensantes a serviço de uma mesma
causa foi um importante degrau na escada que Euclides galgou até alçar a
condição de mito. Seus pares o reconheceram e o defenderam porque entre eles
estava determinado o valor das tradições culturais que eles protegiam em um
contexto que eles também ajudavam a construir, em uma narrativa sobre a qual
eles detinham o controle (informações, linguagem, vocabulário) e a partir das
mesmas sensibilidades, das mesmas visões de mundo – ou pelo menos bastante
aproximadas. (GOMES e HANSEN, 2016).
Euclides da Cunha não é o único autor brasileiro alçado ao Olimpo literário e
com memória festejada. Há atuação similar dos admiradores de Guimarães Rosa.
Machado de Assis e Monteiro Lobato, por exemplo. Walnice Nogueira Galvão23,
grande estudiosa das obras de Cunha e Rosa, arma, quanto à Rosa, que a
canonização de sua obra “elevou o escritor a um patamar onde goza da companhia
de poucos outros nomes” (GALVÃO, 2000, p. 70). Mas, como bem aponta Ventura
(1993), Cunha é o único escritor a ter se tornado objeto de culto pessoal – cabe
lembrar o lema do movimento euclidiano24, “por protesto e adoração”.
Hoje, é praticamente impossível separar o lugar ocupado por Euclides da
Cunha do próprio movimento euclidiano. Como assevera Regina Abreu (1998)
o papel desses euclidianistas após a morte do autor é fundamental para a
manutenção da atualidade não só de Os Sertões, mas de todo o pensamento de
Cunha.
22  Embora Euclides, ao longo dos anos, tenha cado a cada dia mais desapontado com os rumos do 
Brasil República, “estou nessa reserva desde os vinte anos, quadra que me assaltou o pessimismo in-
curável com que vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis. 
” (CUNHA, 1909 apud GALOTTI e GALVÃO, 1997, p. 423).  
23 Galvão (1998) corrobora essa impressão ao ser indagada se as pessoas miticam Euclides: sem 
dúvida. Isso aparece na atribuição de demasiadas virtudes a ele: patriota, honesto, decente, corajo-
so... todas as virtudes cívicas possíveis. No m, vira um santo. Mas essa hagiologia reete um ideal 
extremamente pequeno-burguês, eu acho. Sou grande admiradora de Rimbaud, que era uma praga, 
não tinha virtude alguma. Mas admiro tanto a vida quanto a obra. No caso de Euclides, sobressai a 
imagem de um cidadão extremamente correto. 
24 É em torno da memória desse homem (tido merecedor das honras dos amigos e dos lugares
os quais ocupou nos espaços da intelectualidade) que se formam as bases do que hoje se chama
de euclidianismo: pelo respeito e pela admiração, mas também pela construção da narrativa que trou-
xesse ao público essa visão de Cunha, a visão de homem inteligente, do gênio da literatura que era 
bom amigo, bom pai, e que foi um marido traído que morreu defendendo a família e a honra: uma 
gura elevada (DAHER, 2022). 
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A passagem de Euclides pela ABL (e pela cena literária brasileira de seu
tempo) foi breve, dada a sua morte repentina, e na ocasião, sucedeu-lhe na cadeira
7 o médico e escritor Júlio Afrânio Peixoto (1876-1947) que, além de seu amigo,
coincidentemente foi o legista responsável pela sua necropsia. Ao falar, como
manda a tradição329, de seu antecessor, Peixoto não economizou adjetivos. “
[...]depois d’ Os Sertões, exerceu Euclides da Cunha engenharia e fez arte. Teve
a celebridade. Se não se pejaram do crime que ele denunciou, regozaram-se ao
menos com a pompa esplendorosa do seu estilo. E gloricaram-no.” (PEIXOTO,
1911).
Ainda que o seu tempo de produção literária tenha sido curto, ele deixou
uma produção que reetiu sua formação cientíca, “um homem de ciência, um
geógrafo, um geólogo, um etnólogo, de um homem de pensamento, um lósofo,
um sociólogo, um historiador e de um homem de sentimento, um poeta, um
romancista” (SOUZA, 2010, p. 38), e a sua produção desperta interesse até hoje,
existe uma signicativa produção envolvendo a obra euclidiana, especialmente
Os Sertões, um tributo ao lugar que o autor ocupa na memória historiográca
brasileira; além da grande quantidade de artigos e entrevistas, por exemplo.
Como lembra José Carlos Barreto Santana no prefácio da (inacabada)
biograa de Euclides escrita por Roberto Ventura, Cunha é objeto de “uma fortuna
crítica que não encontra paralelo na cultura brasileira, ultrapassando a dezena de
milhar de livros, artigos, folhetos, teses” (VENTURA, 2003, p. 17).
Essa intelectualidade brasileira, que nos anos nais do séc. XIX e o início do
séc. XX então se organizava, o fazia com a ideia de uma missão civilizatória, no
papel de defensora dos interesses da sociedade, indo de encontro aos conceitos
de intelectual desenvolvidos por Mannheim (o intelectual como mediador de
conitos sociais) e por Gramsci (o intelectual como organizador da cultura), como
lembra Miceli (2001).
O percurso intelectual de Euclides da Cunha dialoga com essas premissas,
se considerarmos que ele é alçado ao cânone por discutir Canudos (no papel de
intelectual mediador de conitos) e por jogar uma nova luz na forma como se
discutia a identidade do país, olhando para os homens do sertão, ampliando a
forma de ver a nação (no papel de organizador da cultura); ainda que pesquisadores
como Martins (1987), que chama a literatura de Euclides de “vigorosa”, ressalvem
que os protestos apresentados por ele e por outros escritores do quilate de Lima
Barreto não se tornam projetos de transformação social, permanecendo no
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campo da condenação moral. Ainda assim, eles ressoam, e o eco alcança longe
porque as situações que eles discutiram no nal do séc. XIX e nos primeiros anos
do séc. XX perduram25 e, enquanto perdurarem, Euclides da Cunha fará muito
sentido.
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25 Os Sertões tem que ser lido todos os dias, enquanto persistir a situação dos pobres brasileiros. Enquanto ocorrer o 
genocídio dos jovens negros nas favelas de São Paulo, a militarização das comunidades do Rio de Janeiro, enquanto 
acontecerem tragédias como as de Mariana e Brumadinho (NOGUEIRAapud OLIVEIRA, 2019).
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