DOSSIÊ
16 albuquerque: revista de história - v. 16, n. 32, ago. - dez. 2024 I e-issn: 2526-7280
APRESENTAÇÃO: DOSSIÊ “CINEMA E CIDADES”
INTRODUCTION: “CINEMA AND CITIES”
Marcos Antonio de Menezes1
https://orcid.org/0000-0001-8472-8186
http://lattes.cnpq.br/5906542748941462
Alcides Freire Ramos2
https://orcid.org/0000-0002-6701-9123
http://lattes.cnpq.br/4887520444879981
Recebido em: 28 de dezembro de 2024.
Aprovado: 31 de dezembro de 2024.
http://doi.org/10.46401/ardh.2024.v16.22903
O dossiê “Cinema e Cidades”, organizado pelo Prof. Dr. Marcos Antônio de
Menezes (UFJ; UFG), em conjunto com o Prof. Dr. Alcides Freire Ramos (UFU;
UFMS), constitui-se como uma contribuição fundamental para os estudos que
exploram a multifacetada relação entre o cinema e o espaço urbano. Desde sua
invenção no final do século XIX, em Paris, o cinema tem mantido uma conexão
profunda com as cidades, não apenas como cenário, mas como elemento ativo
na construção de narrativas, significados e representações. O primeiro filme
1 Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU (1996), mestrado em
História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho - UNESP Franca (1999) e dou-
torado em História pela Universidade Federal do Paraná - UFPR (2004). Estágio Pós-doutoral pela
Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG (2016). É professor titular da Universidade Federal
de Jataí (UFJ), atuando no Programa de Pós-Graduação em História (Mestrado e Doutorado) da Uni-
versidade Federal de Goiás (UFG), em Goiânia, desde 2005. E-mail: pitymenezes.ufg@gmail.com
2 Possui graduação em História pela Universidade de São Paulo (1986) e doutorado em História
pela Universidade de São Paulo (1996). Atualmente, faz parte do Programa de Pós-Graduação em
Estudos Culturais da UFMS (Campus de Aquidauana) como Professor Voluntário. Professor Titular
(aposentado) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Bolsista Produtividade do CNPq - Nível
1D. E-mail: alcides.f.ramos@gmail.com
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publicamente divulgado, A Chegada do Trem à Estação, dos irmãos Lumière (cuja
exibição ocorreu no dia 6 de janeiro de 1896), já anunciava essa relação simbiótica,
ao capturar o movimento frenético da vida urbana e transportá-lo para a tela,
deslumbrando espectadores e inaugurando uma nova forma de ver e pensar as
cidades.
A partir desse marco inicial, as cidades tornaram-se um dos temas mais
recorrentes e fascinantes do cinema. Elas não são meros pano de fundo, mas
personagens dinâmicas que refletem as transformações sociais, políticas e
culturais de cada época. Filmes como Metrópolis (1927), de Fritz Lang, e Blade
Runner (1982), de Ridley Scott, exemplificam como o cinema pode transformar
a cidade em uma entidade viva, carregada de simbolismos e projeções utópicas
ou distópicas. Essas obras não apenas retratam o espaço urbano, mas também
o reinventam, criando imagens que dialogam com as aspirações, medos e
contradições das sociedades que as produzem.
O objetivo deste dossiê é justamente explorar essas relações múltiplas e
desafiadoras entre cinema e cidade, reunindo textos que não apenas discutem
a representação do espaço urbano nas telas, mas também propõem reflexões
sobre a contemporaneidade, marcada pela vida em metrópoles saturadas de
imagens e significados. Em um mundo onde o urbano se torna cada vez mais
fragmentado e multifacetado, o cinema emerge como uma ferramenta poderosa
para decifrar e interpretar as dinâmicas das cidades modernas. Os artigos que
compõem o dossiê abordam essa temática a partir de perspectivas diversas,
oferecendo um panorama rico e abrangente sobre o tema.
Nesse sentido, o artigo “Cidade-Cinema: Análise de uma Interação a partir
de uma Experimentação Conceitual”, de José Costa D’Assunção Barros propõe
uma reflexão teórica, complexa e bem urdida, sobre as cidades-cinema, definidas
como aquelas idealizadas pelo cinema a partir de produções específicas. O autor
argumenta que, mesmo quando as cidades retratadas são fictícias, elas carregam
consigo os medos, angústias, esperanças e demandas da sociedade que as
concebeu. Barros desdobra o conceito de cidade-cinema em quatro categorias:
cidade-local, cidade-lugar, cidade-território e cidade-personagem.
A cidade-local refere-se ao espaço físico onde a narrativa se desenrola,
enquanto a cidade-lugar enfatiza a dimensão simbólica e afetiva do espaço
urbano. Já a cidade-território explora as relações de poder e controle que se
estabelecem no espaço urbano, e a cidade-personagem atribui à cidade um papel
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ativo na narrativa, transformando-a em uma entidade com vida própria. Essa
categorização permite uma análise mais profunda das representações urbanas
no cinema, destacando como as cidades são construídas e reconstruídas nas
telas.
Por outro lado, em “Olhares Cinematográficos sobre a Revolução dos Cravos”,
Róbson Pereira da Silva, Grace Campos Costa e Lays da Cruz Capelozi, de forma
cuidadosa e competente, analisam como esse marco histórico em Portugal
foi retratado no cinema. O artigo examina três obras: os documentários Torre
Bela (Thomas Harlan, 1977) As Armas do Povo (Glauber Rocha, 1975), ambos realizados
durante a revolução, e o filme de ficção Non, ou a Vã Glória de Mandar (Manoel de
Oliveira, 1990). Os autores refletem sobre a construção da identidade nacional
portuguesa, dialogando com teóricos como Hannah Arendt, Xavier, Junqueira e
Ramos. O artigo destaca como o cinema pode ser um instrumento poderoso para
a reconstrução e reinterpretação da história, capturando não apenas os eventos,
mas também os sentimentos e as contradições que os permeiam. Ao retratar
a Revolução dos Cravos, esses filmes oferecem uma visão multifacetada do
processo político e social que transformou Portugal, revelando as tensões entre
o ideal revolucionário e a realidade concreta.
Já no caso do artigo de Felipe Biguinatti Carias “Política entre as Mulheres e a
Construção do Espaço Público em Garotas do ABC (2003), de Carlos Reichenbach»,
o leitor encontrará uma notável e instigante análise fílmica que procura demonstrar
como a obra retrata o ressentimento da classe média brasileira após a eleição
de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. O autor examina o filme à luz do conceito
de esfera pública de Hannah Arendt e Roberto DaMatta, bem como da teoria do
ressentimento de Maria Rita Kehl. O artigo destaca como o cinema pode ser um
espaço de reflexão sobre as dinâmicas políticas e sociais, revelando as tensões e
contradições que permeiam a vida pública. Ao retratar a classe média brasileira
em um momento de transição política, Garotas do ABC oferece uma visão crítica
sobre as transformações que marcaram o país no início do século XXI.
Outra contribuição digna de ser lida é aquela oferecida por Maurício Caleiro,
em “As Cidades no Neorrealismo Italiano: Ressignificações do Espaço Urbano”.
Nesse artigo, o autor investiga, com esmero, a representação das cidades em
três filmes clássicos do neorrealismo italiano. Combinando análise fílmica, teoria
histórica do cinema e o conceito bakhtiniano de cronotopia, o autor examina
o papel e os significados atribuídos ao espaço urbano. O autor destaca ainda
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como o neorrealismo italiano transformou a cidade em um espaço de resistência
e luta, refletindo as dificuldades e esperanças do povo italiano no pós-guerra.
Ao retratar as cidades como espaços vivos e dinâmicos, esses filmes oferecem
uma visão profundamente humana do urbano, destacando suas contradições e
potencialidades.
À semelhança dos demais, o artigo de Aline Carrijo e Carolinne Mendes da
Silva intitulado “Os Heróis Anônimos na Construção da Capital Federal: Uma
Análise de Brasília Segundo Feldman (Vladimir Carvalho, 1979)», faz uma análise
cuidadosa de obra cinematográfica relevante, discutindo a representação dos
trabalhadores que construíram Brasília. O filme contrapõe a narrativa oficial da
cidade às experiências dos operários, destacando suas contribuições e desafios.
O artigo também destaca como o cinema pode ser um instrumento de denúncia
e resistência, revelando as histórias silenciadas e marginalizadas. Ao retratar
os trabalhadores que construíram Brasília, a obra de Vladimir Carvalho oferece
uma visão crítica sobre o processo de modernização do país, destacando as
contradições e desigualdades que o permeiam.
Em meio a essas reflexões, faz jus a uma leitura atenta o artigo de Roberto
Abdala Junior “Meia-Noite em Paris, um Filme para a História”. Nele, o autor, de
maneira criativa, analisa o filme de Woody Allen sob a perspectiva da didática
da história, discutindo como essa obra cinematográfica suscita reflexões sobre
as representações do passado, tanto em sala de aula quanto em pesquisas
acadêmicas. O artigo destaca como o cinema pode ser um instrumento poderoso
para o ensino e a pesquisa histórica, podendo oferecer uma visão crítica do
passado. Ao retratar a “Cidade Luz” em diferentes épocas, Meia-Noite em
Paris convida o espectador a refletir sobre as relações entre história, memória e
identidade.
Com igual cuidado e atenção, Kassandra Naely Rodrigues dos Santos e
Milena Hoffmann Kunrath, em “Um Estudo sobre o Naturalismo em Thérèse
Raquin, de Émile Zola, e sua Transposição Midiática Contemporânea para a
Adaptação Em Segredo”, analisam, em detalhes, as semelhanças e diferenças
entre o romance naturalista de Zola e sua adaptação cinematográfica, com base
em teorias de intermidialidade e adaptação. O artigo destaca como o cinema
pode reinterpretar e reinventar obras literárias, adicionando novas camadas de
significado e transcriando o texto original. Ao adaptar Thérèse Raquin para as
telas, Em Segredo oferece uma visão contemporânea do naturalismo, destacando
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suas permanências e transformações.
Explorando obra cinematográfica complexa, Rafael Alves Pinto Junior, em
“Jean-Luc Godard e o Controle do Presente: Alphaville, une étrange aventure
de Lemmy Caution (1965)», propõe uma percuciente leitura do filme de Godard,
focando na representação do espaço urbano e na arquitetura como elementos
estruturantes da narrativa, utilizando referências da cultura visual e do
imaginário. O artigo destaca como o cinema pode ser um espaço de reflexão
sobre as dinâmicas de poder e controle que permeiam a vida urbana. Ao retratar
Alphaville como uma cidade distópica, Godard oferece uma visão crítica sobre as
transformações tecnológicas e sociais do século XX.
Por fim, também merecedoras de um olhar atento são as considerações
de Marcos Antônio de Menezes. Em “Utopias e Distopias Urbanas nas Telas do
Cinema: Metrópolis e Blade Runner”, o autor reflete sobre como o cinema projeta
visões do futuro humano por meio de representações utópicas e distópicas das
metrópoles contemporâneas, contribuindo para a compreensão das propostas
de habitar e viver nas cidades do porvir. O artigo destaca como o cinema pode
ser um espaço de projeção e reflexão sobre o futuro, revelando as aspirações
e medos das sociedades que o produzem. Ao retratar cidades utópicas e
distópicas, Metrópolis e Blade Runner oferecem uma visão crítica sobre as
dinâmicas urbanas e suas implicações para a vida humana.
Como se vê, o dossiê “Cinema e Cidades” coloca em evidencia a riqueza e
a complexidade das relações entre o cinema e o espaço urbano, demonstrando
como as imagens fílmicas não apenas refletem, mas também moldam nossa
compreensão das cidades. Ao explorar diferentes contextos históricos,
estéticos e políticos, os artigos aqui reunidos mostram que as cidades são mais
do que simples cenários; elas são espaços simbólicos, territórios de memória
e protagonistas de narrativas visuais, que revelam as complexas dinâmicas da
vida contemporânea. Assim, o cinema se consolida como um poderoso meio
de análise e reflexão sobre o urbano, suas utopias, distopias e a permanente
reinvenção do espaço público.