FASCISMO E IMAGINÁRIO LITERÁRIO: RESENHA DE “O FASCISMO INFINITO, NO REAL E NA FICÇÃO”, DE SERGIO
SCHARGEL
FASCISM AND LITERARY IMAGINATION: REVIEW OF “O FASCISMO INFINITO, NO REAL E NA FICÇÃO” BY SERGIO
SCHARGEL
Melanie Steigleder1
https://orcid.org/0009-0008-4413-6950 http://lattes.cnpq.br/2782064114203383
Recebido em: 08 de abril de 2025. Aprovado em: 16 de dezembro de 2026.
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23121
1 Mestranda em Comunicação pela UFF. Bolsista CAPES. Bacharel em Administração pela UFSJ, com experiência em gestão, marketing e comunicação. E-mail: melaniecontato14@gmail.com
O fascismo é um tema amplamente coberto em diversas áreas das Humanidades, como a História e as Ciências Sociais. Faltava, contudo, uma obra reflexiva sobre a relação entre fascismo e Literatura. Não falta mais. Em 2023, a Editora Bestiário lançou O fascismo infinito, no real e na ficção: como a Literatura apresentou o fascismo nos últimos cem anos, de Sergio Schargel. Derivado de uma dissertação de mestrado premiada pela Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC), o livro se destaca por articular uma abordagem comparativa entre diferentes autores, períodos e contextos históricos, demonstrando como a ficção tem sido um espaço privilegiado para refletir sobre os mecanismos do fascismo. A pesquisa de Schargel perpassa desde as primeiras representações literárias do fenômeno na década de 1920 até suas manifestações contemporâneas,
examinando como a ficção literária capta e reelabora os discursos e práticas fascistas. Seu estudo destaca que, mais do que apenas registrar a ascensão e o declínio de regimes autoritários, a literatura frequentemente antecipa e reinterpreta esses processos, funcionando como um campo de experimentação estética e ideológica. A obra está estruturada em quatro capítulos, que abordam diferentes facetas do fascismo e sua relação com a literatura, desde sua definição conceitual até sua representação ficcional e metalinguística. Para isso, Schargel utiliza o conceito de Ur-Fascismo, cunhado por Umberto Eco.
Um dos principais méritos da obra de Schargel é a sua abordagem interdisciplinar, que combina teoria política, análise literária e história. O autor não se limita a uma análise superficial do fascismo como fenômeno histórico, mas explora suas nuances e ressonâncias na literatura, destacando como a ficção pode antecipar, refletir e até mesmo influenciar a realidade política. A escolha das obras de Lewis e Vermes é particularmente feliz, pois ambas oferecem visões distintas e complementares sobre o fascismo: enquanto Não vai acontecer aqui retrata a ascensão de um regime fascista nos Estados Unidos durante a década de 1930,
Um dos pontos mais fortes do livro reside na sua análise aprofundada do conceito de Ur-Fascismo, tal como desenvolvido por Umberto Eco, e sua relação com as estruturas políticas contemporâneas. Schargel argumenta que o fascismo não desapareceu em 1945, mas apenas se reconfigurou sob novas roupagens. Eco, em O fascismo eterno, identifica características atemporais do fascismo que transcendem contextos históricos específicos, como o culto à tradição, a rejeição ao pensamento crítico, o medo da diferença e a exaltação da violência. Schargel aplica esse conceito para explorar como essas características se manifestam não apenas na política e na cultura, mas também na Literatura, permitindo uma compreensão mais ampla e interdisciplinar do fenômeno fascista. Ao analisar obras literárias de diferentes períodos e contextos, o autor demonstra como o fascismo, mesmo após o fim dos regimes do século XX, continua a ser uma presença viva e perturbadora no imaginário literário e cultural. Para sustentar essa tese, o autor dialoga com teóricos como Robert Paxton (2007) e Jason Stanley (2018), demonstrando como movimentos autoritários da atualidade apresentam características que ecoam o fascismo histórico, ainda que sob disfarces democráticos.
Além de seu rigor teórico e analítico, O fascismo infinito contribui para o campo dos estudos literários ao evidenciar como a literatura opera como um dispositivo de memória cultural e resistência política. O livro demonstra que, ao recriar ficcionalmente episódios históricos ou projetar cenários distópicos baseados em padrões fascistas, a literatura cumpre um papel duplo: por um lado, permite uma compreensão mais aprofundada dos processos históricos e, por outro, ajuda a alertar para os perigos sempre presentes do autoritarismo. Schargel enfatiza que a permanência de elementos fascistas na literatura não significa apenas um interesse estético pelo tema, mas revela uma preocupação contínua dos escritores em compreender as engrenagens ideológicas e emocionais que sustentam regimes e movimentos autoritários.
Outro ponto forte do livro é a sua relevância contemporânea. O autor não se limita a uma análise histórica do fascismo, mas conecta suas reflexões ao contexto político atual, marcado pela ascensão de movimentos autoritários e populistas em diversas partes do mundo. A discussão sobre a “recessão democrática global” e o ressurgimento de discursos fascistas em governos como os de Donald Trump e Jair Bolsonaro é particularmente pertinente, destacando a importância de se compreender o fascismo como uma ameaça sempre presente. Para isso, Schargel emprega a literatura para ilustrar e reforçar suas argumentações e demonstrar como a ficção especulativa pode servir tanto como ferramenta de alerta quanto como manual de compreensão da ascensão fascista.
Apesar dos méritos, a obra não está isenta de críticas. Um dos pontos fracos é a sua dependência excessiva do conceito de Ur-Fascismo de Eco. Embora o conceito seja útil para discutir as características atemporais do fascismo, ele corre o risco de se tornar uma categoria excessivamente ampla, aplicável a qualquer movimento autoritário ou populista. É compreensível que um livro tenha espaço limitado para incluir todas as análises necessárias, mas o autor poderia ter explorado outras teorias sobre o fascismo, como as de Robert Paxton
(2007) ou Renzo de Felice (1976), para enriquecer sua análise e evitar uma visão excessivamente
homogênea do fenômeno.
Outra crítica possível é a falta de uma discussão mais aprofundada sobre as diferenças entre o fascismo histórico e suas manifestações contemporâneas. Embora Schargel afirme que o fascismo se reinventa continuamente, ele não explora suficientemente como as condições sociais, econômicas e tecnológicas do século XXI influenciam a forma como o fascismo se manifesta hoje. Por exemplo, o papel das redes sociais e da desinformação na disseminação de discursos fascistas mereceria uma análise mais detalhada. Segundo o autor, o fascismo não é um fenômeno histórico limitado à Itália dos anos 1920 e 1930, mas uma metodologia de poder que se adapta a diferentes contextos e épocas. Essa abordagem permite a Schargel discutir o fascismo como uma ameaça sempre presente, que pode ressurgir em qualquer sociedade, especialmente em momentos de crise.
A conclusão do livro é especialmente instigante, pois sugere que a resistência ao fascismo é um processo interminável, assim como o próprio fenômeno fascista. O autor recorre à metáfora dos vaga-lumes de Pasolini e Didi-Huberman para enfatizar a importância da arte e da literatura na manutenção da consciência crítica e na resistência ao autoritarismo. Essa abordagem confere à obra uma dimensão quase militante, ressaltando o papel do intelectual na luta contra regimes opressores. Por outro lado, esse pode ser também tomado como o principal defeito da obra. Por mais que seja inevitável alguma paixão quando se fala de fascismo, há, principalmente neste capítulo, certo caráter idílico que fragiliza um pouco a análise.
Em síntese, O fascismo infinito, no real e na ficção é uma contribuição essencial para os estudos literários e para a compreensão do fascismo como fenômeno histórico e cultural, bem como sobre a sua permanência na contemporaneidade. Com uma abordagem interdisciplinar, Schargel consegue articular conceitos políticos e literários de maneira fluida e acessível, tornando sua obra relevante tanto para pesquisadores da área quanto para o público interessado na interseção entre política e cultura. Ao utilizar o conceito de Ur-Fascismo de Umberto Eco como eixo central de sua análise, o autor oferece uma reflexão profunda e atualizada sobre as representações literárias do fascismo, destacando sua presença contínua e suas transformações ao longo do último século. A obra não apenas preenche uma lacuna importante na produção acadêmica, mas também demonstra como a literatura pode servir como um espaço privilegiado para a crítica e a resistência, desvelando as complexidades e os perigos do fascismo de maneira única e poderosa. Em um momento em que o mundo enfrenta o ressurgimento de movimentos autoritários e nacionalistas, O fascismo infinito se torna uma leitura indispensável para todos aqueles que buscam compreender e combater as ameaças à democracia e à liberdade.
Dessa forma, a obra não apenas preenche uma lacuna nos estudos sobre fascismo e literatura, mas também propõe um novo olhar sobre a relação entre a ficção e os processos políticos. Ao articular teoria literária, história e política, O fascismo infinito se estabelece como uma leitura essencial para estudiosos da literatura comparada, das ciências humanas e para qualquer leitor interessado em entender como o fascismo se manifesta e se perpetua,
tanto na realidade quanto na ficção. Com isso, Sergio Schargel não somente resgata e analisa as narrativas do passado, mas também nos convida a refletir sobre o presente e o futuro, demonstrando que o fascismo, longe de ser um fenômeno encerrado na história, continua a se reinventar sob novas formas e discursos.
Referências
ECO, U. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018. FELICE, R. de. Explicar o fascismo. Edições 70: Lisboa, 1976.
LEWIS, S. Não vai acontecer aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2017.
PAXTON, R. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
SCHARGEL, Sergio. O fascismo infinito, no real e na ficção: como a ficção apresentou o fascismo nos últimos cem anos. Porto Alegre: Bestiário, 2023.
STANLEY, J. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2018. VERMES, T. Ele está de volta. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014.