DOSSIÊ
Fortaleça o patriotismo amolecido.
Tanto protege os da esquerda como os da direita [...]
Se Franco mandou erguer um monumento aos caídos, Peter Pan fez dos caídos um
monumento.
Peter Pan está em verdadeira concorrência com a Margarina Vaqueiro, porque torna
tudo mais apetitoso [era o jingle de um anúncio então muito em voga à Margarina
Vaqueiro] (Progressistas, 24, p. 5).
Se o apelo ao voto em Peter Pan era uma metáfora com alguma dose de provocação sobre
a situação política portuguesa, que dizer da carga subversiva do texto bombástico publicado
no nº 41, o último, a 24 de Março de 1973, com o título “Utilidades diferentes do material de
campanha”:
Começando pela arma, a G-3, faz parte integrante do militar (por mim dispensava-a
bem), é um elemento transportador de poeiras, não radioactivas mas minúsculas,
terrosas, oriundas da picada.
Oxida com grande facilidade e por esse motivo é limpa com frequência (é o eras!). […]
Quanto a granadas de morteiro, os meninos (Pop) poderiam usá-las presas com
um cordãozinho muito pop, penduradas ao pescoço e num baile yé yé. (era aquele
estrondo). […]
Naquelas peças de teatro chatas, principalmente nas touradas (à portuguesa), o
público para manifestar o seu agrado, em vez de mandar sapatos, almofadas, flores,
chapéus, etc., mandava antes granadas de mão. Poderia não agradar muito, mas pelo
menos manifestava-se mais ruidosamente.
Quando aquela pessoa que nos pede lume várias vezes, se torna chata, chata, chata,
a gente dá-lhe então uma granada incendiária. Vocês querem apostar que ela nunca
mais nos chateia? […]
Vocês gostariam de provocar um desastre de automóvel espectacular?
Então coloquem um óbus (com uma granada de 45 kg), num cruzamento da baixa de
Lisboa e depois digam o resultado. […]
Você tem algum pomar? Cultiva melões e costuma ser assaltado de noite? Então
coloque umas minas anti-pessoal, lá e vai ver como tudo isso acaba.
Quando você está atrasado para o trabalho, e desconfia que o seu autocarro virá cheio,
coloque uma minas…… zinhas anti-carro no local onde ele passa, e vá de táxi, a pé, de
metro, a cavalo, de eléctrico, de bicicleta, enfim, desenrasque-se (não fique é para ver
o espectáculo). […]
O seu vizinho costuma pisar o seu jardim?
Então meta-se dentro de um tanque M-47, ponha-o em andamento e, (vá lá, seja
educado), pergunte ao seu vizinho, se pode passar por cima do jardim dele.
O AMIGO BIGODES SEMPRE AO DISPOR (Progressistas, 41, p. 1-2)
Não foi ainda possível apurar se este artigo assinado pelo soldado António J. Fernandes
com o pseudónimo “O Bigodes” teve alguma relação, directa ou indirecta, com a interrupção
da publicação do jornal cerca de dois meses antes da data marcada para o fim da comissão.
É, contudo, impossível, lê-lo sem lembrar o capítulo “Crónica dos Cacimbados” dedicado por
Salgueiro Maia, no seu livro de memórias póstumo – Capitão de Abril. Histórias da guerra do
Ultramar e do 25 de abril. Depoimentos –, aos “cacimbados” ou “apanhados pelo clima”, um deles
com o sugestivo subtítulo “O cacimbo não escolhia postos”. Nesses textos, Maia refere-se ao
que testemunhou com respeito às alterações provocadas pelo stress de guerra na psicologia
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280