DOSSIÊ  
HUMOR SATÍRICO NO CORDEL “O TESTAMENTO DE  
GETÚLIO”,  
DE CUÍCA DE SANTO AMARO1  
SATIRICAL HUMOR IN THE CHAPBOOK “GETÚLIO’S  
TESTAMENT,”  
BY CUÍCA DE SANTO AMARO  
LEANDRO ANTONIO DE ALMEIDA2  
HTTPS://ORCID.ORG/0000-0001-8354-9514  
HTTPS://LATTES.CNPQ.BR/1558018587145464  
Recebido em: 18 de maio de 2025.  
Revisão final: 23 de dezembro de 2025.  
Aprovado em: 16 de janeiro 2026.  
HTTPS://DOI.ORG/10.46401/AREC.2025.V17.23422  
1 VersõesꢀpreliminaresꢀdesteꢀtrabalhoꢀforamꢀapresentadasꢀnoꢀSeminárioꢀdeꢀHumorꢀeꢀHistóriaꢀdaꢀUSP,ꢀ  
coordenado por Elias Thomé Saliba, e no I Congresso Nacional de História Cultural e Humor: Entre  
o Cultural e o Político: o Humor no Espaço Público, que ocorreu em Cuiabá em novembro de 2025.  
Agradeço aos comentários realizados nesses espaços, e aos pareceristas da Revista Albuquerque, pela  
contribuiçãoꢀàꢀversãoꢀfinalꢀdoꢀtexto.ꢀ  
2Historiador,ꢀmestreꢀeꢀdoutorꢀemꢀHistóriaꢀSocialꢀpelaꢀUniversidadeꢀdeꢀSãoꢀPauloꢀ(USP).ꢀÉꢀdocenteꢀ  
doꢀcursoꢀdeꢀLicenciaturaꢀemꢀHistóriaꢀeꢀdoꢀProgramaꢀdeꢀMestradoꢀProfiꢀssionalꢀemꢀHistóriaꢀdaꢀÁfrica,ꢀ  
da Diáspora e dos Povos Indígenas na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Realiza  
estágio de pós-doutorado no Departamento de História da FFLCH/USP desde agosto de 2025, sob  
supervisão do Prof. Dr. Elias Thomé Saliba. E-mail: leandroaalmeida@hotmail.com  
157  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
RESUMO: O objetivo deste artigo é refletir e compreender as camadas mobilizadas para  
construção de representações políticas através do humor satírico nos cordéis, uma mídia  
impressa com importante referencial na oralidade, voltada aos pobres, parte dos quais se  
comoveucomosuicídiodopresidenteGetúlioVargasem1954. Analisaremosasrepresentações  
satíricas no cordel publicado por Cuíca de Santo Amaro intitulado “O testamento de Getúlio”  
(1954), lançado poucos meses após a morte de Vargas. Com referência à famosa “Carta-  
Testamento”, se vale de um milenar gênero jocoso para alvejar os desafetos, mobilizando  
referências políticas imediatas e outras culturais mais duradouras, ligadas ao catolicismo e ao  
macabro, que circulam no nordeste brasileiro. Para isso, contextualizaremos a situação política  
gerada com o suicídio de Getúlio e a subsequente comoção popular, o papel dos cordelistas  
nesse momento, inclusive de Cuíca de Santo Amaro, bem como traremos referências ao  
gênero que utilizou, os testamentos jocosos, cuja estrutura formata o cordel “O Testamento de  
Getúlio”. Por fim, analisaremos a construção do humor nesse cordel através dos seus legados  
jocosos.  
PALAVRAS-CHAVE: cordel, sátira, Salvador-BA, testamentos jocosos, Getúlio Vargas.  
ABSTRACT: The main goal of this paper is to reflect on and understand the layers mobilized  
to construct political representations through satirical humor in the chapbooks, a printed  
media with an important reference in orality, intended for the poor groups in Brazilian society,  
some of those commoved by the suicide of president Getúlio Vargas in 1954. We analyse  
satirical representations in the cordel (chapbook) published by Cuíca de Santo Amaro entitled  
“O testamento de Getúlio” (Getúlio’s Testament) (1954), released a few months after the death  
of Getúlio Vargas. Referring to the famous “Carta-Testamento” (testament letter), he uses an  
ancient humorous genre to target enemies, mobilizing immediate political and other more  
lasting cultural references, linked to Catholicism and macabre of the Brazilian Northeast. To  
this aim, we will contextualize the political situation generated by Getúlio’s suicide and the  
subsequent popular commotion, the role of the popular poets at that time, including Cuíca  
de Santo Amaro, as well as bring references to the genre he used, the jocular testaments,  
whose structure formats the chapbook “O Testamento de Getúlio”. Finally, we will analyze the  
construction of humor in this chapbook through its jocular legacies.  
KEYWORDS: chapbooks, satire, Salvador-BA, jocular testaments, Getúlio Vargas.  
158  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
Epígrafe  
A nova ordem política teria que ser criada com base em partidos de massa, novos papéis  
do Estado e a articulação de outros arranjos de alianças regionais. Os meios de comunicação  
de massa se tornam decisivos na recomposição do regime. O poeta nordestino recicla o cartaz  
e atualiza o mito populista na literatura de cordel.  
(SEVCENKO, Nicolau. Introdução: O prelúdio republicano. In: História da Vida Privada no  
Brasil, v. 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 40)  
O cartaz a que se refere a citação é a capa do cordel de Cuíca de Santo Amaro, O  
testamento de Getúlio, abaixo reproduzida.  
Figura 1 – capa do cordel “O testamento de Getúlio”  
Fonte: AMARO, Cuíca de. (pseud. de José Gomes). O testamento de Getúlio. s/l:s/d, 8p. [Salvador:  
1954] In: BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da Literatura de Cordel. Natal: Fund. José Augusto,  
1977, p. 226.  
Introdução  
O objetivo deste trabalho é refletir e compreender as camadas mobilizadas para  
construção de representações políticas através do humor satírico nos cordéis, uma mídia  
impressa com importante referencial na oralidade, voltada aos pobres, visando aqueles que se  
comoveram com o suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas em 1954. Trataremos de um singular  
159  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
caso de manifestação de humor político por um cordelista soteropolitano, em um momento  
de fragilidade democrática, marcado pela expectativa de deposição de um presidente e até  
golpe de Estado. O golpe foi adiado pelo suicídio de Getúlio e pela grande, tensa e contundente  
comoção popular que se seguiu ao episódio. Abordaremos especificamente as representações  
satíricas no folheto3 de Cuíca de Santo Amaro intitulado “O testamento de Getúlio” (1954),  
lançado poucos meses após a morte de Vargas. Mesmo fazendo referência, no título, à famosa  
“Carta-Testamento”, se vale de um milenar gênero humorístico – os testamentos jocosos – para  
alvejar os desafetos, seus e do ex-presidente, mobilizando referências políticas imediatas  
e outras, culturais, mais duradouras, ligadas ao catolicismo e ao macabro, que circulam no  
nordeste brasileiro.  
Por ser uma publicação barata, no período anterior à difusão do rádio à pilha e, mais  
tarde, da televisão nos anos 1960, o cordel era uma importante e prestigiada mídia para as  
camadas pobres do Nordeste, do Norte e da Bahia. Constitui sistemas de produção e difusão  
cultural que engloba autores, textos, mecanismos de distribuição, público e intérpretes. Tem  
em comum com o jornalismo e com as literaturas canônicas ou massivas “o fato de agir sobre  
nosso mundo pela palavra, com a qual também criam novos mundos” (MENEZES, 2019, p.  
228). Tinha funções de entretenimento, formação cultural e também noticiosa, notícias essas  
veiculadas de maneira sóbria, com dramaticidade sensacionalista, ou ainda a partir de modos  
humorísticos. Nesse aspecto, os folhetos eram concorrentes do rádio e da imprensa. Eram  
vendidos em locais de grande movimento nas cidades ou por pessoas, os próprios cordelistas  
ou revendedores, que perambulavam pelas cidades menores e fazendas. Era comum inúmeras  
pessoas se deleitarem com suas histórias e se informarem sobre eventos do dia-a-dia local,  
regional, nacional e internacional. Referia-se a esse prestígio o poeta alagoano Rodolfo  
Coelho de Cavalcante, ao comentar que “o sertanejo sabe pelo rádio ou por ouvir dizer os  
acontecimentos importantes. Mas só acredita quando sai no folheto... Se o folheto confirma,  
aconteceu...” (LESSA, 1973, p. 59). Nesse sentido preciso, ao lado da produção cultural através  
da elaboração de histórias, Rodolfo, Cuíca e outros os cordelistas tinham plena consciência  
da sua atuação como intelectuais mediadores (GOMES, 2016) entre códigos culturais distintos  
e concorrentes, mediação marcada não penas pela transposição de informações como pela  
elaboração narrativa e verbal especializada, em versos.  
O humor esteve presente, de variadas formas, na produção de folhetos e romances dos  
inúmeros poetas de cordel brasileiros, especialmente nordestinos, famosos ou não, desde que  
o formato foi consolidado e popularizado no início do século XX em Pernambuco por Leandro  
Gomes de Barros. Aliás, dentre a vasta produção de Leandro Gomes de Barros, há também uma  
3 Neste trabalho usaremos as palavras “folheto” e “cordel” como sinônimos referentes aos impres-  
sos em versos compostos pelos cordelistas, aqui também denominados poetas e poetas de cordel.  
Em Salvador, os impressos também receberam denominações ABC, como o denomina Jorge Amado  
em Jubiabá (1935), em referência a um de seus gêneros, ou arrecifes, pelos quais eram conhecidos  
quando Rodolfo Cavalcante chegou em Salvador em 1945, referindo-se à origem dos folhetos de  
João Martins de Athayde. O depoimento de Rodolfo acerca das denominações “cordel”, “folheto” e  
“arrecifes” consta em WANKE, 1983, p. 114.  
160  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
verve crítica e satírica, já abordada historiograficamente, com notícias de acontecimentos e  
enxovalhando costumes e pessoas (jogo, cachaça, sogra, religião, estrangeiros), bem como a  
República, com a temática do “mundo às avessas” (CURRAN, 1986; MARQUES, 2014). Mais tarde,  
o editor e também cordelista João Martins de Athayde percebeu que, nas feiras, oitenta por  
centodoscordéisvendidosnasfeiraseramdehumoroupelejas. Emboratenhaseespecializado  
neste tipo, publicava folhetos da outra vertente. Mesmo em Salvador, desde os anos 1930,  
cordelistas publicavam folhetos humorísticos, como Permínio Valter Lírio, Heráclito Amorim e  
Aristeu Guerra Moreira (WANKE, 1983, p. 118-121). Mas nenhum deles teve sua atuação pública  
tão identificada ao humor por toda a sociedade, a ponto de ser considerado um humorista,  
como Cuíca de Santo Amaro.  
Talvez por conta dessa identificação e atuação profissionalizada, reconhecida local,  
regional e nacionalmente, ele tenha sido um dos poucos a mobilizar o humor satírico em um  
momento pouco propício, quando uma tragédia política provocou tristeza, desamparo e raiva  
em grande parte da população, sentimentos esses grandemente explorados por ele e pelos  
seus colegas cordelistas. O folheto “O testamento de Getúlio” incorporou sentimentos ligados a  
esse clima, principalmente a raiva, ao fantasiar, pela intenção de produzir riso, um testamento  
que também veiculava vingança e desforra. Essa é uma das razões pela qual escolhemos  
analisá-lo, pois a interface com ambiente político de nervos à flor da pele permitirá abordar a  
mobilização de sentimentos agressivos no humor, especial mas não exclusivamente político,  
sentimentos que, atualmente, marcam grande parte da produção que circula na internet e  
redes sociais. Outra razão é que esse folheto é mencionado por parte da bibliografia sobre  
cordel político do período e sobre Cuíca. Além de citado no livro “Antologia baiana da literatura  
de cordel” como um dos folhetos que se destacam entre suas obras, é considerado a obra  
culminante de Cuíca sobre Getúlio (CURRAN, 1990, p. 170-172), e um folheto diferenciado em  
relação aos que retratam a carta-testamento de Getúlio, por sua criatividade e resolução dos  
fatos (CABRAL, 2008, p. 149-151). Porém, tais trabalhos apenas mencionam sem aprofundar  
sua construção satírica, desconsiderando também a relação com os testamentos jocosos.  
Abordar cordéis satíricos na pesquisa pressupõe considerar o papel do humor que opera  
por meio dessas representações, voltadas à denúncia de poderes estabelecidos ou se voltar  
contra grupos já oprimidos, além de, na modalidade do ridículo, funcionar como um mecanismo  
regulador social. O que distingue a sátira de outras formas cômicas e de outras formas de  
agressão simbólica é a presença de algum grau de fantasia (ou jogo) na representação, através  
de imagens direcionadas contra alvos a partir de um padrão moral, imagem essa que busca  
mobilizar conceitos e os afetos socialmente internalizados pelo destinatário, operando sobre  
elas técnicas que levam à rotação de perspectivas ou mudanças bruscas de planos discursivos,  
características do humor. Logo, é um humor agressivo, concebido como mecanismo de ataque  
simbólico, destinado a construir e desconstruir imagens cristalizadas acerca de pessoas,  
grupos, sociedades, instituições, ideias, filosofias etc. e, por consequência, criar disposições  
em relação a tais elementos da realidade, em geral disposições negativas (BERGER, 1998;  
CONDREN, 2012 e 2016; FRYE, 1973; SALIBA, 2018).  
161  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
É nessa perspectiva sobre a sátira que abordaremos o cordel “O Testamento de Getúlio”  
de Cuíca de Santo Amaro, buscando perceber o jogo entre as fantasias pressupostas no gênero,  
articuladas nas imagens, e os ataques a personalidades de meados dos anos 1950 segundo  
o padrão moral do trabalhismo getulista. A relevância da empreitada está na importância de  
analisar as representações humorísticas, veiculadas em mídias como o cordel, que não seguem  
os padrões narrativos e ficcionais da literatura divulgada em livros, jornais ou fascículos das  
grandes editoras, nem das notícias veiculadas pelo jornalismo empresarial, impresso ou  
audiovisual. Para isso, contextualizaremos a situação política gerada com o suicídio de Getúlio  
e a subsequente comoção popular, o papel dos cordelistas nesse momento, inclusive de Cuíca  
de Santo Amaro, bem como traremos referências ao gênero que utilizou, os testamentos  
jocosos, cuja estrutura formata o cordel “O Testamento de Getúlio”. Por fim, analisaremos a  
construção do humor nesse folheto através dos seus legados jocosos.  
MORTE DE GETÚLIO, COMOÇÃO POPULAR E OS CORDELISTAS  
O suicídio de Getúlio Vargas, na manhã de 24 de agosto de 1954, reverteu o sentido uma  
crise política, aberta com a tentativa de assassinato do seu maior opositor, Carlos Lacerda,  
na noite de 5 de agosto, por pistoleiros contratados por membros da guarda pessoal do  
presidente, incidente que vitimou o major da aeronáutica Rubem Vaz. O atentado reforçou, nas  
semanas seguintes, uma campanha da maior parte da imprensa contra Getúlio, um inquérito  
policial militar com poderes excepcionais que procurou implicar pessoas próximas a ele, e  
ensejou um movimento cada vez mais abertamente golpista por parte das forças armadas e  
civis da oposição udenista. A pressão pela sua renúncia, enquanto se tramava a alternativa de  
um golpe, chegou a um fim inesperado com a divulgação do suicídio de Vargas e de sua carta-  
testamento.  
Ao receber a notícia, pelas rádios, alto-falantes, pela imprensa, pelos cordéis ou no  
boca-a-boca, a população pobre de várias grandes cidades brasileiras, inclusive capitais,  
manifestou tristeza e revolta pela morte do presidente, pela forma como ocorreu e por suas  
causas. Serviços públicos, empresas, escolas suspenderam suas atividades, e nas ruas se  
realizaram comícios e passeatas em prol do presidente falecido. Grandes manifestações do  
pesar ocorreram, por exemplo, na exibição do esquife no Palácio do Catete e no imenso cortejo  
que o conduziu ao aeroporto, locais onde a multidão se aglomerou, empunhou o retrato do  
presidente, chorou, e pessoas até passaram mal. Outro exemplo, evocando elementos da  
cultura católica, ocorreu em Salvador, onde se organizou, em 25 de agosto, uma caminhada  
noturna pelas principais ruas da cidade, com os caminhantes silenciosos empunhavam velas,  
que saiu da praça da Sé até a sede do PTB. Por outro lado, a fúria pelo desenlace político levou  
pessoas a atacarem símbolos nacionais ou estrangeiros das forças políticas opositoras a  
Vargas e, de alguma forma, consideradas responsáveis pelo suicídio. Ainda em 24, em ruas do  
centro do Rio e em Porto Alegre, prédios dos partidos udenistas, jornais de oposição, empresas  
e embaixada norte-americanas foram atacados, além de ocorrerem confrontos com a polícia  
162  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
e forças armadas e de segurança na Capital Federal (FERREIRA, 2005; BAUM, 2004; FAUSTO,  
2006).  
Como bem apontou Jorge Ferreira em sua análise acerca dessas manifestações,  
elas “revelam ao historiador muitas das ideias, crenças, tradições, expectativas e a maneira  
como os homens comuns, em meados da década de 1950, organizavam a realidade social e  
política em suas mentes”, permitindo-lhe resgatar tanto “aspectos da cultura política da  
época, a importância de Getúlio Vargas na constituição de uma identidade coletiva da classe  
trabalhadora fundada no trabalhismo e a recusa ao projeto de modernização conservadora  
liderado pela UDN” como também os imaginários sociais conflituosos gerados pelas imagens  
e representações no contexto da crise de agosto de 1954. Para Ferreira, essas dimensões  
culturais da população comum tiveram uma importância social e política. Refutando as teses  
que colocam o protagonismo político apenas aos grandes atores do período e esvaziam a  
capacidade de intervenção da população, concebendo suas ações apenas como atitudes  
desesperadas e sem objetivos definidos, o autor defende que:  
o elemento que reforçou de maneira determinante o recuo dos golpistas foi a entrada no  
cenário político de uma multidão amargurada, revoltada e enfurecida que questionou, assustou  
e mesmo ameaçou o grupo oposicionista que se preparava para tomar o poder. A atitude  
inesperada de Vargas e as insurreições populares não encontraram respostas imediatas na  
oposição e nos círculos antitrabalhistas (FERREIRA, 2005, p. 167-168)  
Ao atuar através de folhetos noticiosos, os cordelistas se nutriram desse ambiente  
e contribuíram para propagá-lo no tempo e no espaço, realizando uma mediação cultural  
politicamente marcada: não apenas divulgaram informações como alimentaram a grande  
corrente de comoção e raiva contra a oposição, imediatamente após o suicídio. Sendo Getúlio  
o político mais representado pelos cordelistas, no período de apogeu da produção cordeliana  
como crônica dos eventos no século XX, não por acaso “a morte de Getúlio Vargas foi, se não  
o maior, certamente um dos mais grandiosos eventos políticos de toda a literatura de Cordel”  
(CURRAN, 2003, p. 133). Quase todos os principais cordelistas do período, em todo o país,  
escreveram sobre a morte de Getúlio. Entre outros, publicaram folhetos Delarme Monteiro da  
Silva (em Recife), José Estácio Monteiro (em Alagoas), Antonio Eugênio da Silva (Sulânia-PB),  
Manuel D’Almeida Filho, Antonio Fernandes da Nóbrega (em Natal), Joaquim Batista de Sena  
(em Fortaleza), Amador Santelmo e Azulão (no Rio), Antonio Teodoro dos Santos (em São Paulo),  
Minelvino Francisco Silva (em Itabuna-BA), e, em Salvador da Bahia, Rodolfo Coelho Cavalcante  
e Cuíca de Santo Amaro. Por essa atuação intensa, os escritos sobre a morte tiveram destaque  
dentre os “folhetos sobre Getúlio”, gênero de uma classificação popular, feita pelos próprios  
agentes, folheteiros e poetas de cordel, que Liedo Souza encontrou ao andar pelas feiras e  
mercados da Bahia ao Maranhão nos anos 1970:  
Folhetos de Getúlio. Alguns falam dos seus tempos de candidato, e a ele se referem  
como ‘defensor dos marmiteiros. Outros, do dia de sua morte, ‘data triste e pavorosa para todo  
brasileiro bom’. Alguns nos dão em versos a célebre carta-testamento e falam de sua chegada  
ao céu. Só sobre Vargas coletamos vinte e sete folhetos (SOUZA, 1976, p. 81).  
163  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
Vivendo de folhetos destinados aos pobres, vários poetas escreveram mais de um  
cordel noticioso ou fantasioso sobre a morte do presidente, e a comoção gerada elevou  
as tiragens. A tiragem inicial média foi 10.000 exemplares, sendo que Delarme Monteiro da  
Silva vendeu 40.000 ou, segundo outras versões, 70.000 em três dias. As maiores vendagens  
registradas foram de Azulão (200.000 exemplares) e Antonio Teodoro dos Santos (280.000), e  
o total de exemplares vendido no período por todos os cordelistas deve ter sido de um milhão  
de exemplares, segundo estimativas de Raymond Cantel (LESSA, 1973, p. 120-121; CANTEL,  
1972, p. 5; ZUMTHOR, 1980). Mas a questão não foi apenas comercial, pois envolveu também as  
emoções dos cordelistas e do público. Rodolfo Cavalcante, em Salvador, comenta que “A morte  
de Getúlio foi no dia 24 de agosto de 1954, comecei a vender o folheto no dia 27... tinha filas na  
frente de casa, filas de revendedores, vendi 64 milheiros em duas semanas, foi o momento  
em que tive mais emoção como trovador.” (KUNZ, 1980, p. 224). O próprio Antonio Teodoro,  
em outro cordel escrito décadas depois (em 1987), representa o ambiente de divulgação dos  
folhetos e seu efeito sobre o público, nas praças, mobilizando e reforçando a comoção popular  
(Cf. CABRAL, 2008, p. 129-130):  
Mais de trezentos poetas  
Pelo país escreveram  
Folhetos sobre a tragédia  
Que os brasileiros sofreram  
Esses livros aos milhares  
Muitos milhões de exemplares  
Milhões de pessoas leram  
Nas feiras e praças públicas  
Lugares que houvesse gente  
Os livros eram vendidos  
E lidos rapidamente  
Contando num só sentido  
Como havia acontecido  
A morte do presidente  
Após aquela leitura  
Muitas pessoas choravam  
Sofrendo desenganadas  
Enquanto outras desmaiavam  
No meio das emoções  
Num mar de desilusões  
Sem esperança acordavam  
Após o suicídio, três ondas de produção de cordel sobre o presidente se sucederam  
no país. Logo no dia 24 de agosto surgiram aqueles que buscaram sair na frente da notícia  
e comoção e, por isso mesmo, com informações um tanto incompletas, que ouviam pelo  
rádio ou liam nos jornais. Delarme Monteiro da Silva, por exemplo, “ouviu a notícia pelo rádio,  
sentou-se na sua banca, redigiu seu primeiro folheto, que à tardinha estava na rua”, enquanto  
outros como Joaquim Batista de Sena e Antonio Fernandes de Nóbrega se lamentaram por  
não poderem aproveitar a onda de comoção imediata (LESSA, 1973, p. 120). Depois, aqueles  
cordéis que saíram nos dias seguintes, mais ricos em detalhes e fatos novos, que buscavam  
manter a persistência da emoção, voltando à carga após o primeiro folheto que vendeu bem,  
164  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
inclusive com o expediente de colocar a data de publicação anterior à que efetivamente  
ocorreu. Por fim, com a persistência da comoção e da tensão política nos meses seguintes,  
que levou à procura sobre o tema se manter em alta, a produção dos cordelistas se voltou à  
diversificação, escrevendo sobre a vida e os feitos de Getúlio Vargas. Ou seja, “é nesse estágio  
que se desenvolve realmente a exploração consciente de um tema que deve toda sua força de  
sugestão à qualidade excepcional da emoção engendrada pela morte do herói” (CANTEL, 1972,  
p. 13; LESSA, 1973, p. 120-121).  
Até o momento não temos notícia de que algum cordelista se colocou contra ou  
criticou Getúlio Vargas. A esmagadora maioria, se não a totalidade, se posicionou a favor  
do presidente que se suicidou, revelando uma predileção política da categoria em prol do  
trabalhismo varguista, seja por convicção ou conveniência. Qualquer que seja a motivação,  
a atuação dos cordelistas ocorreu no sentido de aguçar tendências de representar Vargas no  
cordel que se avolumaram após o fim do Estado Novo e tiveram o ápice no episódio do suicídio.  
Primeiramente, os cordelistas evocaram o imaginário difundido quando ele estava vivo, “Pai  
dos Pobres”, defensor dos trabalhadores e do povo brasileiro contra os “tubarões” gananciosos,  
frequentemente citando suas realizações e legados positivos. Um exemplo aparece nos  
versos de Antonio Teodoro dos Santos, no folheto “Vida, tragédia e morte do presidente Getúlio  
Vargas”: “Assim lamentavam todos / que se lembravam de Vargas / Com suas leis trabalhistas  
/ Tirando as pesadas cargas / dos ombros dos operários / Adoçando com salários / As suas  
dores amargas.” (Cf. CABRAL, 2008, p. 29)  
Sobrepondo-se a essa representação, a morte levou Vargas a ser comparado com Jesus  
Cristo, quem foi traído, perseguido e humilhado injustamente, e ofereceu a própria vida em  
sacrifício para salvar o país. Tal relação era uma forma de atenuar o pecado do suicídio, dando-  
lhe um sentido sacrificial coletivo. Rodolfo Coelho de Cavalcante, em “A morte do grande  
presidente Getúlio Vargas”, é um dos mais explícitos: “Como o Cristo ofereceu / O seu corpo à  
Nação / Derramou seu próprio sangue / Ferindo seu coração / Todo povo brasileiro / Tem-lhe  
toda gratidão” (CAVALCANTE, 1954, p. 2). Completam essas referências míticas a representação  
que vários cordelistas fizeram da repercussão cósmica da morte de Getúlio, afetando a própria  
natureza ou o sobrenatural. Exemplos do primeiro aparecem no poeta Minelvino, de Itabuna,  
que escreve: “No dia que Getúlio Vargas / no Rio se suicidou / Houve um silêncio na terra / o  
mundo todo mudou / o vento ficou parado / o firmamento nublado / até a chuva estiou” (LESSA,  
1973, p. 116). Os impactos sobrenaturais aparecem nos folhetos sobre a chegada de Getúlio no  
céu, como um prêmio para sua atuação terrena em prol dos trabalhadores e, no seu julgamento,  
o suicídio sendo justificado pelas perseguições que enfrentou4.  
4Peloꢀmenosꢀcincoꢀcordelistasꢀseꢀdedicaramꢀaoꢀtema:ꢀ“PermínioꢀValterꢀLírioꢀ(‘AꢀchegadaꢀFestivaꢀdeꢀ  
GetúlioꢀnoꢀCéu’),ꢀCuícaꢀdeꢀSantoꢀAmaroꢀ(‘AꢀchegadaꢀdeꢀGetúlioꢀnoꢀCéu’),ꢀMinelvinoꢀFranciscoꢀdaꢀ  
Silvaꢀ(‘AꢀchegadaꢀdeꢀGetúlioꢀVargasꢀnoꢀcéu’),ꢀPedroꢀAlvesꢀdaꢀSilvaꢀ(‘AꢀdespedidaꢀdeꢀGetúlioꢀVargasꢀ  
depoisꢀdaꢀcartaꢀcomꢀaꢀchegadaꢀnoꢀcéuꢀeꢀasꢀpassagensꢀdoꢀfimꢀdoꢀmundo’)ꢀeꢀRodolfoꢀCoelhoꢀdeꢀCaval-  
canteꢀ(‘AꢀchegadaꢀdeꢀGetúlioꢀVargasꢀnoꢀcéuꢀeꢀseuꢀjulgamento’).”ꢀVerꢀLESSA,ꢀ1973,ꢀp.ꢀ132.  
165  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
CUÍCA E GETÚLIO  
Fez parte do coro o cordelista de nome José Gomes (1907-1964) que, desde fins da  
década de 1930, utilizava o pseudônimo Cuíca de Santo Amaro. Era conhecido por vender  
cordéis noticiosos marcados, por um lado, pela denúncia aos problemas sociais e ataques ou  
elogios a políticos e, por outro, pela sátira de costumes com forte viés moralista, explorando  
com picardia o ridículo de fatos que lhe chegavam, aos ouvidos pelo rádio ou em conversas com  
informantes, ou aos olhos por jornais ou cartas, independente do estrato social. A depender do  
tema e dos alvos, Cuíca tinha problemas com a polícia, que apreendia os cordéis contrários à  
moral e aos bons costumes, ou apanhava das pessoas cujos feitos ou malfeitos eram divulgados  
pelo cordelista, por vezes após a negativa de chantagens dos alvos. Além do conteúdo dos  
cordéis, sua atuação em espaços públicos era espetacular, vestindo terno, chapéu e óculos  
escuros, portando cartazes com caricaturas das histórias, desenhados por Sinésio Alves.  
Atuava em locais de trânsito bastante movimentados da capital – praças, terminais de bonde,  
ônibus, trem e navio, ruas comerciais, feiras e mercados, elevadores – e do Recôncavo da  
Bahia, onde reunia grande número de espectadores, a maioria pobres e negros, que ouviam  
os anúncios das denúncias e dos recentes casos, escabrosos, extraordinários, picantes ou  
ridículos, que frequentemente os levavam às gargalhadas e a comprar os cordéis do poeta  
(CURRAN, 1990; MATOS, 2004).  
No período entre fins dos anos 1930 e fins dos anos 1970, Salvador se tornou o destino  
importante de um fluxo migratório, constituído por pessoas de baixa renda. No período, a cidade  
teve um crescimento demográfico inédito e vertiginoso, o maior de sua história: cerca de 290  
mil pessoas em 1940 para 417 mil em 1950, 649 mil em 1960, 1 milhão em 1970 e 1,5 milhões em  
1980. Sua população mais que quintuplicou em 40 anos, com taxas de crescimento em torno  
de 50% a cada dez anos (IBGE, s/d). Migrando sobretudo do Recôncavo, devido ao declínio do  
setor canavieiro e fumageiro, além do interior, por conta das secas, o principal afluxo foi de  
pessoas pobres baianas de origem rural, majoritariamente negras, com primário incompleto ou  
completo, e também analfabetos (SANTOS, 2008, p. 51-53; SOUZA, 1980, p. 103-123). Esse fluxo  
precedeu mas foi acirrado por conta da descoberta do Petróleo no Recôncavo e instalação  
de equipamentos da Petrobrás nessa região nos anos 1950, processo de modernização  
aprofundado nos anos 1960 e 1970 com a instalação do Complexo Industrial de Aratu e do Pólo  
Petroquímico de Camaçari. Assim, em um primeiro momento, o aumento populacional ocorreu  
em uma cidade que demorou mais de uma década para criar oportunidades de trabalho direto  
e indireto em diversos setores, inclusive operários e pequenos vendedores. Os efeitos desse  
processo no trabalho e na malha urbana foi comentado por Guaraci Souza:  
Éaltamenteprovável, portanto, quenoperíodode40/60tenha-severificadoumaumento  
do contingente de “excedentes de mão-de-obra” urbana, reproduzindo atividades organizadas  
em moldes não-capitalistas e acentuando o fenômeno alternativamente caracterizado como  
subemprego urbano, marginalidade social ou setor informal urbano. Uma boa indicação disto  
foi o surgimento e rápido crescimento, no período, de bairros de grupos sociais de baixa renda,  
166  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
do tipo “favela” ou “invasão” (SOUZA, 1980, p. 107).  
Essa população pobre com algum grau de alfabetização foi o público visado pelos  
compositores e vendedores de cordel em Salvador, embora várias pessoas das camadas  
médias e altas também os consumissem. Não foi casual, portanto, que Cuíca tenha mobilizado  
a denúncia social em seus cordéis, sobre questões que afligiam essa população pobre, e  
também repercutido os mitos em torno da figura de Getúlio Vargas. Um importante indicativo  
é dado pelo principal editor de cordéis do período, João Martins de Athayde, em uma entrevista  
de 1944. Com base em suas informações, o jornalista comentou que, na Bahia, terceiro maior  
mercadoconsumidor(atrásdePernambucoeRioGrandedoNorte),osfolhetosdeAtaídepodem  
ser encontrados no Mercado Modelo, donde se espalham para todo o Estado, principalmente  
para o recôncavo, que é a zona mais interessada na literatura de cordel” (ATHAYDE, 1944, p. 3).  
Antes de compor seus próprios folhetos, Cuíca trabalhou como revendedor ambulante de  
cordéis editados por Athaíde e distribuídos pela banca “A Pernambucana”, de Nigro do Amaral  
Silva, que funcionou no Mercado Modelo de 1925 até os anos 1970. No início de sua carreira como  
profissional (MATOS, 2004, p. 23 e p. 70-72), Cuíca aproveitava o vapor e os trens para vendê-  
los também nas cidades do Recôncavo, embora os habitantes da região pudessem adquiri-  
los quando estivessem em trânsito por Salvador. Além disso, os cordelistas e vendedores  
ambulantes de cordel também compunham a referida camada trabalhadora atuando no setor  
informal urbano. Foi nessa época (1945) que o cordelista alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante  
se estabeleceu na capital baiana, para onde ocasionalmente também vinham, de Sergipe, os  
cordelistas João Baraúna e Manoel d’Almeida Filho, dividindo os espaços públicos, como a  
Praça Cairu, com cordelistas baianos, sendo Cuíca de Santo Amaro o mais conhecido (WANKE,  
1983, p. 118 e ss.).  
Dentre os cordéis políticos de Cuíca de Santo Amaro, Getúlio Vargas foi uma das  
personalidades mais exaltadas, um verdadeiro ídolo, que escreveu folhetos tematizando  
e normalmente defendendo o político gaúcho (MATOS, 2004, p. 90-92). Vários dos títulos  
publicados sobre ele ou sobre sua atuação, entre a saída da presidência em 1945 e seu suicídio,  
indicam o teor elogioso: “O regresso de Getúlio”, “A chegada de Getúlio à Bahia”, “A volta de  
Getúlio à sua Terra Natal”, “Getúlio volta ao Gramado”, “Deus no céu e Getúlio na Terra”, “O  
que dizem de Getúlio”, “Salve Getúlio Vargas!”, “A volta de Getúlio ou a marcha triunfal”5. Na  
contracapa de alguns folhetos, Cuíca chegou a conferir tintas explicitamente religiosas ao  
tom de louvação, visando a mobilizar as crenças dos leitores, como na “Oração do Getulista”,  
uma paródia do credo católico em que Getúlio figura como Deus e Jesus Cristo, que começava  
assim: “Creio em Getúlio Vargas, todo poderoso, criador das leis trabalhistas, creio no Rio  
Grande do Sul e no seu filho, nosso patrono o qual foi concebido pela Revolução de 30 (...)” (Cf.  
CURRAN, 2003, p. 128).  
Edilene Matos aponta como a relação de Cuíca transcendia a escrita dos cordéis, com  
elementos de admiração, projeção, mobilização da fama do presidente no espaço público,  
5 Destes só temos acesso aos dois primeiros. Os outros constam nas listas elaboradas por MATOS,  
2007; CURRAN, 1990.  
167  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
como propaganda e autopromoção:  
É bom que se esclareça a grande ligação de Cuíca com Getúlio Vargas, com quem se  
identificava na condição de líder do povo que também era. A admiração de Cuíca extrapolou a  
pura louvação do folheto e enraizou-se na sua própria conduta. Quando o presidente Getúlio –  
de quem o poeta afirmava ser compadre e receber correspondência – esteve na Bahia, ganhou  
de Cuíca uma estatueta em gesso moldada com sua figura, cuidadosamente encomendada.  
Para conseguir chegar junto ao presidente e presenteá-lo, o poeta malandro e astucioso  
furou o cerco de segurança e conta que abraçou demoradamente seu ídolo, de quem recebeu  
elogios e agradecimentos pelo apoio constante e fiel, e a quem prometeu plena divulgação da  
proposta de governo (MATOS, 2004, p. 92).  
E comenta a reação de Cuíca após o suicídio do presidente:  
O suicídio de Getúlio abalou muito o poeta que, mal acordava, se punha a ouvir os  
noticiários nas várias emissoras de rádio, antes de sair à rua e difundir seus inflamados  
comentários. No dia 30 de agosto de 1954, foi assistir à missa de sétimo dia pela morte de  
Getúlio, que ele próprio tinha encomendado, na Igreja de Santa Luzia, na parte baixa da cidade,  
tendo então distribuído santinhos com o retrato do presidente e uma pequena oração (MATOS,  
2004, p. 92-93).  
Nos meses após a morte de Getúlio, Cuíca lançou pelo menos três folhetos relacionados  
ao tema: “O testamento de Getúlio”, que analisaremos a seguir, “O Suicídio do Maior Brasileiro”6  
e “A chegada de Getúlio no Céu”. O segundo provavelmente foi um dos primeiros a ser escrito,  
no calor das primeiras ondas e dos acontecimentos após o suicídio do presidente, e o último  
seguiu um velho macete dos trovadores, o de “conduzir seus personagens, as grandes figuras de  
atração popular, aos castigos do inferno ou às delícias do céu”, descritos em termos de sertão e  
Nordeste (LESSA, 1973, p. 131). Cuíca narra a chegada de Getúlio ao céu, onde vê amigos à espera  
como Francisco Alves, Roosenvelt e Noel Rosa, conta a Jesus sua história, suas atribulações,  
explicando as razões de sua extremada atitude e acusa várias pessoas, parentes inclusive,  
recebendo do Cristo uma promessa de vingança. Segue, portanto, as tendências mais amplas  
acerca da representação de políticos estimados que são características dos cordelistas, na  
qual “o céu subjacente das narrativas sobre a morte ou do pós-morte dos homens públicos, de  
maior destaque na cena política nacional, é apresentado como um ambiente tranquilo em que  
as articulações e acordos se mantém” (LIMA, 2020, p. 195).  
Outros cordéis políticos do poeta, lançados nos anos seguintes, continuaram a fazer  
referência a Getúlio e seus feitos, tomando-o como parâmetro máximo de moralidade política  
e dirigente preocupado com o povo. Em “Quem será o presidente?”, escrito no contexto das  
eleições de 1955, contrasta o legado do ex-presidente para o povo aos candidatos do pleito.  
Cuíca voltou a mobilizar o tema da morte em “O Espírito de Getúlio baixou na sessão”, no qual o  
autor recorre aos preceitos religiosos espíritas ao ficcionalizar como teria testemunhado uma  
6 Este título consta na listagem de cordéis de Cuíca elaborada por Edilene Matos, provavelmente  
também sobre a morte de Getúlio. Mas não temos maiores informações sobre esse cordel. MATOS,  
Edilene. Ele, o tal: Cuíca de Santo Amaro. Salvador: Fundação Pedro Calmon, 2007, p. 74.  
168  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
médium receber um texto psicografado vindo de Getúlio, cujo texto contrasta as ações do seu  
governo a fim de criticar os feitos do presidente Juscelino Kubitschek. Em todos esses folhetos  
citados, e nos paratextos como a “Oração do Getulista”, Getúlio é tomado como um duradouro  
mito político, um “modelo exemplar do que deve ser e fazer a autoridade presidencial, isto é, a  
autoridade política máxima do país” (GOMES, 1998, p. 532).  
O que torna marcante o folheto “O testamento de Getúlio” de Cuíca é o fato de expressar  
melhor o “lado vingativo nas respostas dos poetas à morte [de Getúlio]” (CURRAN, 2003, p.  
137), levando adiante certa tendência de desforra já presente em “A Chegada de Getúlio no  
Céu”. Fazendo coro com outros cordelistas que publicaram após o suicídio, Cuíca também  
representa Getúlio como um herói do povo brasileiro que fora traído pelos seus inimigos.  
Porém, diferentemente deles, o tom não foi de lamento ou puro ataque, com associações  
diretas de Getúlio a Jesus Cristo, pois sua raiva foi expressa através da sátira humorística.  
Até onde temos notícia, Cuíca provavelmente foi o único cordelista a mobilizar o humor nesse  
contexto, e o fez de uma maneira bastante peculiar. Embora o título “O testamento de Getúlio”  
faça referência direta à famosa Carta-Testamento de Getúlio Vargas, sua forma e estrutura  
não ecoam ou parafraseiam o conteúdo da carta, como fizeram outros cordelistas do período,  
a exemplo de Francisco Sales, João Ferreira de Lima, Expedito Sebastião da Silva, José de  
Santa Rita Pinheiro Nogueira (LESSA, 1973, p. 122-124; CABRAL, 2008, item 3.4). A matriz do  
folheto de Cuíca são os testamentos jocosos.  
CUÍCA E A HERANÇA DOS TESTAMENTOS JOCOSOS  
Os testamentos jocosos parodiam um traço importante e até solene do direito desde  
os romanos, o triângulo testamento-morte-herança (atribuída a alguma pessoa ou grupo  
por determinado motivo), como ocasião para o riso, frequentemente com funções satíricas.  
Remontam aos testamentos de animais como o porco, cantado aos risos pelos estudantes  
romanos no século IV d.C., mencionados por S. Gerônimo. O do asno, que utiliza o anterior  
como fonte, existe pelo menos desde o século VII ou VIII, se difundiu no século XIII, integrando  
o vasto repertório humorístico dos monges jocosos, que parodiavam risonhamente aspectos  
da religião (BAKHTIN, 1987, p. 74; TEIXEIRA, 2017). Em Portugal e no Brasil, do século XVI ao XX,  
o gênero oral se prestou a sátiras religiosas e de costumes, inicialmente em festejos ligados à  
Quaresma, incluindo os testamentos de Judas, além de testamentos de animais e personagens  
malandras (CASCUDO, 1939, p. 53-58; MARQUES, 2014, p. 95-100; TEIXEIRA, 2017).  
O gênero dos testamentos jocosos passa a integrar a literatura de folhetos brasileira  
na segunda metade do século XIX, inspirada na enxurrada de testamentos portugueses sobre  
animais. LunaeSilvaanalisaumfolheto, queprovavelmenteestáentreasprimeiraspublicações  
no gênero no país, o “Testamento que faz um macaco especificando suas gentilezas, gaiatices,  
sagacidade, etc.” (Recife, 1865), cotejando-o com o “Testamento do gallo augmentado com o  
Testamento da gallinha” (Lisboa, 1861), em que características animais são usadas para abordar  
comportamentos humanos, respectivamente em tom irreverente ou moralista (LUNA E SILVA,  
169  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
2010, p. 74-80). Os testamentos dos bichos estavam entre as maiores predileções populares da  
capital federal no início do século XX, como aponta João do Rio, de maneira nada simpática, ao  
investigar as publicações mais vendidas entre os livreiros das ruas cariocas. Indigna-se contra  
a persistência deste gênero cômico e de outros mais heroicos, de crimes ou sensacionalistas,  
segundo ele importados de Portugal e que circulavam no Rio pelo menos desde 1840 (RIO,  
1995, p. 48-49). Os livreiros informam a João do Rio que os testamentos ainda eram bastante  
procurados, com tiragens muito superiores às obras dos renomados literatos nacionais (RIO,  
1995, p. 50). Foi essa persistência de gosto e predileções dos leitores das camadas populares  
brasileiras pelos testamentos que, na mesma época, levou Leandro Gomes de Barros a atuar  
no gênero, já como autor de folhetos profissional em Pernambuco. Publicou “A Vida de Cancão  
de Fogo e o seu testamento”, contando as peripécias de um finório ladrão que engana um juiz  
e um escrivão no leito de morte; e, na linha dos testamentos dos bichos, lançou “O Dinheiro, ou  
o testamento do Cachorro”, que conta como um cachorro de um inglês foi enterrado na igreja  
após deixar em testamento vultosa soma ao bispo e ao vigário, satirizando a venalidade do  
clero (MARQUES, 2014, p. 95-100).  
Também é possível rastrear testamentos políticos no século XIX. Em Portugal, um dos  
vários exemplos satíricos é o “Testamento que fez o D. Quixote da França”, datado de 1813, com  
referência direta às invasões de Napoleão Bonaparte, ou, após a revolta Liberal do Porto, em  
prosa, o crítico “Testamento que fez à hora da Morte a Ilustríssima e Excelentíssima Senhora  
D. Constituição”, de 1823 (TEIXEIRA, 2017, p. 190-197). No Brasil, Câmara Cascudo menciona  
o testamento de figuras políticas em fins do XIX, como o testamento do político Joaquim  
Apolinário de Medeiros, de 1886, transmitido pela mãe do autor e ainda lembrado por ele em  
1939 (CASCUDO, 1939, p. 53-58). Até sobre a história de Vargas há precedentes nos folhetos do  
Rio, com o “Testamento d’Ele” ou “Testamento de Gegê”, publicado por Camaleão em 1945, e  
composto em quadras, distanciando-se da tradição nordestina (DIEGUES JÚNIOR, 1973, p. 14).  
Cuíca se apropria das antigas formas orais e das transposições escritas desse  
gênero jocoso, especialmente os testamentos de Judas, ainda persistentes em Salvador do  
período. O memorialista soteropolitano Geraldo Leal, referindo-se aos anos 1930, informa  
que os testamentos de judas impressos e vendidos por gráficas eram aguardados pelos  
que festejavam o Sábado de Aleluia. Folhas com o texto eram colocadas no bolso da calça  
do boneco representando Judas, e sua leitura pública era feita à noite, em uma das ruas  
dos bairros, antes da malhação do boneco. Entre as características do testamento, eram  
anônimos, “quase sempre grotesco, sem métrica e, às vezes, terminava em pancadaria”, além  
de “sempre atacavam políticos, negociantes desonestos e outras motivações” (LEAL, 2000,  
p. 163). O mesmo memorialista registra que, nessa década, antes de compor cordéis, José  
Gomes, condutor de bondes e tintureiro no Largo de Santo Antonio, também era conhecido  
nas redondezas por compor testamentos de Judas (LEAL, 2000, p. 70).  
Duas décadas mais tarde, Carlos Ott registrou dois jocosos testamentos de Judas,  
compostos em quadras, que circulavam em Salvador durante a Quaresma, um deles adaptado  
aos bairros da cidade. Comenta Ott que este último “é um desses testamentos de Judas,  
170  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
impressos numa folha verde, com a figura de judas enforcado numa árvore no meio que no  
sábado de aleluia se distribuem nas ruas e nos bondes”. Tinha tanto legados positivos, como  
“Em primeiro lugar / À miss do Ferreira Santos / Deixo um apertado abraço / E o meu livro de  
cantos”, e outros negativos, com tiradas satíricas voltadas a pessoas conhecidas de bairros da  
cidade, como “Às mateiras da Liberdade / Que são muito arruaceiras / Por tanta Barbaridade /  
Deixo minhas velhas esteiras”, ou satirizando profissões: “Motorneiros, condutores / Inspetores  
e fiscais, / Metidos a grans senhores / [deixo] Os meus sujos enxovais”, ou então “Enfim para  
os taverneiros / Que ao povo vive explorar / Deixo um xadrez no inferno / Para os seus crimes  
pagar” (OTT, 1957). Ao relacionar pessoas ou grupos ao legado devido, as alusões a pessoas e  
referências ou estereótipos sobre os bairros e profissões oscilam entre deboches brincalhões  
e irrupções de ressentimentos sociais arraigados, em um tom próximo ao que Cuíca mobilizou  
em seu folheto.  
Cuíca constrói seu texto com essa referência formal, fazendo uma paródia política dos  
testamentos de Judas, pressupondo o contexto festivo satírico que era familiar à população  
soteropolitana. Ao invés de composto em quadras, o “Testamento de Getúlio”, de Cuíca de Santo  
Amaro (em anexo), segue o formato nordestino. É um folheto de 8 páginas, capa ilustrada com  
rosto de Getúlio, e 8 páginas com 32 estrofes de seis versos, sextilhas que rimam o 2º com o  
4º e 6º verso. Ao contrário de grande parte dos folhetos políticos de Cuíca, que geralmente  
trazem uma narrativa, “O testamento de Getúlio” segue a forma dos testamentos jocosos. A  
maior parte das estrofes apresenta a herança ou heranças do morto a uma pessoa, junto com  
os motivos do legado e às vezes características do herdeiro. Embora não haja continuidade de  
uma estrofe a outra, tornando cada estrofe semelhante a uma piada, é possível perceber um  
andamento.  
Se a referência e o chamariz maior do título é a morte de Getúlio Vargas em 24 de agosto  
de 1954, o conteúdo do testamento faz referência direta a outros eventos políticos próximos,  
separados por poucos meses: o atentado da Rua Tonelero (em 5 de agosto), a pressão e  
campanha dos opositores pela renúncia de Vargas (que durou até o suicídio), e as eleições  
de 3 de outubro, as quais, na Bahia, elegeram senadores, deputados federais e estaduais,  
governadores, prefeito e vereadores. A eles mais ou menos correspondem as partes do folheto:  
uma introdução de praxe, com 3 estrofes, que trata como “o grande Getúlio Vargas” deixou um  
testamento; 7 estrofes contra personagens do atentado da rua Toneleiro; 10 estrofes com  
personagens da política nacional (3 familiares, 4 opositores e 3 aliados); 8 estrofes seguintes  
sobre políticos baianos, atuantes no Rio e na Bahia; e, mais ao fim, 4 estrofes com legados para  
sete grupos sociais (aqui, em algumas estrofes, Cuíca se refere a mais de um grupo).  
Este andamento, com partes bem marcadas do folheto orientadas a eventos distintos,  
parece indicar que elas foram escritas em momentos diferentes. Outro detalhe, que pode  
evidenciar uma escrita fragmentada, é a mudança da voz a partir da 12ª estrofe: da 3ª pessoa  
([Getúlio] deixou para...) para a 1ª do singular (deixo para...), quando encerra as estrofes  
referentes às personagens envolvidas no atentado a Lacerda. Outro indício de uma escrita  
rápida para divulgação, com reaproveitamento de versos, é a repetição da expressão “se não  
171  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
estou enganado” em dois versos de estrofes iniciais (5ª e 6ª), referentes a Climério e Alcino,  
executores do atentado da rua Toneleiro, uma hesitação que pode indicar que Cuíca ainda não  
estivesse plenamente informado sobre o caso quando os redigiu. Reforça essa impressão a  
própria capa do folheto, elaborada para pedir votos na campanha do PTB às eleições de 1950,  
aqui foi reaproveitada para noticiar a morte de Getúlio. O reaproveitamento de imagens de  
capas para cordéis de assuntos diferentes era uma prática comum de Cuíca e também de  
Rodolfo Coelho Cavancanti.  
De qualquer forma, esse testamento sintetiza as posturas políticas presentes nos  
folhetos políticos de Cuíca: elogia políticos e personalidades, ataca satiricamente seus  
adversários e adversários de quem ele simpatiza, vocifera contra as agruras causadas pela  
elite política e econômica ao povo e aos trabalhadores, ao lado dos quais o poeta se alinha.  
Podemos perceber essa síntese através da análise da distribuição da herança, em uma escala  
de sete categorias, que vai da extrema punição até os prêmios duradouros, com quatro legados  
negativos e três positivos (ver a esquematização no apêndice).  
Neste cordel, os mais duradouros ganhos vão para o “povo brasileiro”, que recebe as  
Leis Trabalhistas”, e para “todo trabalhador”, que recebe direitos e um Ministério do Trabalho  
para fazer valê-los. Esse legado se nutre e reforça a imagem de Getúlio como comprometido  
com o povo e a classe trabalhadora, afirmada nas primeiras estrofes, e, por extensão, a de  
Cuíca como sua voz. Abaixo dela estão os prêmios decorrentes da eleição de outubro de 1954,  
mais passageiros, para figuras da grande política baiana às quais Cuíca se mostra simpático:  
o governador Antônio Balbino, os senadores Juracy Magalhães e Lima Teixeira, o prefeito de  
Salvador Hélio Machado. Acaba sendo uma forma de Cuíca noticiar pelo cordel o resultado das  
eleições, de maneira comentada e se posicionando. Nessa categoria se enquadram também  
outros prêmios, como o prestígio político do governador que deixa o cargo, pois o legado para  
Régis Pacheco faz referência a uma marcante realização de seu mandato, o início da construção  
da hidrelétrica de Funil, no interior baiano. O prêmio econômico, como o cofre da nação, é dado  
a duas classes conectadas, aos candidatos e marreteiros, para pagar dívidas de campanha. A  
inclusão dos marreteiros, aqui no sentido de trapaceiro, dota esse legado de ironia a respeito  
das práticas eleitorais. As ironias abundam no item a seguir, que contém prêmios irrisórios  
ou jocosos, legados a aliados e opositores: João Goulart recebe uma nota escrita incitando-o  
a deixar a política, Caiado de Castro um alazão “para cair fora”, Benjamin Vargas os selos da  
nação “para as horas amargas”, Simões Filho uma barba postiça e um bode (para aumentar  
a mamata), Juarez Távora a Casa da Moeda para que a defenda, e Góes Monteiro a adega de  
Getúlio.  
Os legados negativos também podem ser dispostos em uma escala. No primeiro grupo  
estão aqueles legados que atingem o psicológico dos herdeiros. À mulher de Vargas, Darcy,  
embora elogiada, Cuíca deixa “as minhas tristezas”, o que leva a construção da imagem neutra  
apesar do prêmio negativo. Já em relação às duas outras personalidades a ambiguidade  
desaparece, pois ambos se ligam indiretamente ao crime da rua Toneleiro: a Lutero Vargas,  
filho do presidente, é legado o fantasma desse evento, pois à época ele chegou a ser apontado  
172  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
como mandante do crime; e Eduardo Gomes, candidato contra Vargas duas vezes derrotado,  
também envolvido nas investigações da Aeronáutica, legou a imagem da sua caveira. Em outro  
grupo de herança, esse aspecto macabro é levado às vias de fato, com legados sugerindo  
uma pena radical, a morte dos herdeiros: a Climério é deixada “a porta do cemitério aberta”,  
a Manhães “aquele velho revolver”, ao Euvaldo Lodi “uma garrafa de veneno”, ao Valente “um  
bom osso / e a minha velha espada / para cortar-lhe o pescoço”, ao Mangabeira “um frasco de  
formicida / para ele se matar / e a minha velha cova, para ele se enterrar”, e ao Joel Presídio  
“um atestado de óbito e uma velha sepultura”. Os três primeiros foram indiciados por no  
Inquérito Militar Policial referente ao atentado da rua Toneleiro, um deles com participação  
direta. Os outros participavam da política baiana: Joel Presídio era deputado estadual pelo  
PTB, enquanto Octávio Mangabeira, ex-governador, era um histórico adversário de Getúlio  
Vargas que também protagonizou a campanha pela sua renúncia ou para sua deposição. Em  
outro grupo, mais diverso, a pena é menos radical, traz algum prejuízo social mais amplo. Aos  
envolvidos no atentado, por causa da traição, ficam a prisão e julgamento, como a Gregório  
(“grades do Galeão”) e Mendes de Morais (“ficará o tribunal”). Ao vice-presidente udenista Café-  
Filho, pela conspiração e sucessão, ficam “as dívidas da Nação”, um grande problema. Os dois  
últimos prejuízos sociais se destinam a classes, os derrotados na eleição, que legam o “exílio  
no estrangeiro”, e os Tubarões, aos quais restam os castigos do Ministério do Trabalho. Por fim,  
o último grupo de heranças é integrado por quem provocou as maiores desgraças a Getúlio  
Vargas, que recebem punições sobrenaturais, em proporções diferentes: ao pistoleiro Alcino,  
quem matou Eduardo Vaz, fica “a maldição”, e ao jornalista Carlos Lacerda, feroz opositor de  
Vargas, “por ordem do Pai Eterno” ficaram “as caldeiras do inferno”.  
O HUMOR NO FOLHETO “O TESTAMENTO DE GETÚLIO”  
A fantasia da distribuição da herança de Getúlio permite a Cuíca fazer algumas coisas.  
Primeiro, reafirmar o mito de Getúlio Vargas como “Pai dos Pobres”, “Amigo do Povo”, expresso  
pelos seus legados e também pela caracterização do ex-presidente como “grande”, “brasileiro  
cem por cento”, “espírito muito forte”. Essa imagem que o próprio Cuíca se arroga ao se tornar,  
pelo texto, a voz das aspirações do presidente suicidado, fazendo com que o movimento de  
legitimação entre o mito e o cordelista seja de mão dupla. Segundo, elogiar os vencedores  
da eleição de outubro de 1954 por quem nutre alguma simpatia ou talvez almeje favores,  
promovendo-os junto ao público local. Terceiro, atacar aqueles que prejudicaram Vargas, seus  
adversários políticos e a quem o próprio Cuíca nutre antipatias, integrando, aproveitando e  
mobilizandoosentimentogeraldeindignaçãopelamortedoex-presidente.Parafuncionarjunto  
ao público, cada aspecto acima elencado necessita de exigência crescente de familiarização  
com o contexto da época: a imagem de Getúlio e sua ligação ao trabalhismo era conhecida  
há duas décadas, fazendo com que a referência seja compreendida quase imediatamente. Os  
resultados das eleições e suas repercussões deveriam estar na ordem do dia e faziam parte do  
noticiário e da vida política soteropolitana de fins de 1954. Já o rol dos nomes envolvidos nos  
173  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
escândalos, das inimizades e antipatias de Vargas e Cuíca exigia familiaridade do ouvinte ou  
leitor com a dinâmica política do noticiário nos meses precedentes para serem compreendidos,  
sendo que, em alguns dos legados relatados no folheto, tal familiaridade devia ser estendida à  
cultura política do período.  
Uma parte do humor no folheto requeria essa familiaridade. Primeiramente, aquele  
marcado pelas ironias, melhor exemplificado no legado a Góes Monteiro: “Ao amigo Góis [sic]  
Monteiro / Eu sei que ele não nega / Como já está usado / Não pode fazer mais piega / Deixo  
pro seu governo / A chave da Minha adega”. Aqui há referências à atuação de Góes junto a  
Getúlio em fins dos anos 1930, a reconciliação nos anos 1950, a idade e problemas de saúde e,  
principalmente, sua relação com a bebida, motivo de zombarias e piadas, que Cuíca mobiliza  
para compor o gancho final do verso. Alguma familiaridade seria também requerida para  
entender os legados negativos, relacionados à oposição de figuras políticas a Getúlio, como  
Eduardo Gomes “Por querer minha cadeira”, referência às suas duas derrotas nas eleições de  
1946 e 1950; a todas aquelas pessoas envolvidas no episódio do atentado, ou Café Filho, que  
herdou “as dívidas da Nação”, em referência aos problemas econômicos do governo Vargas.  
Mesmo as pessoas que não são abertamente alvejadas, ou próximas ao ex-presidente, podem  
ensejar humor pela situação, como é o caso de João Goulart, que recebe uma recomendação  
para sair da vida política, ou Caiado de Castro, que recebe um alazão para fugir. Nesse caso,  
a referência é feita à crise política e institucional, com uma situação futura negativamente  
percebida e projetada por Cuíca, se tornando engraçada por ser o contrário das atitudes  
esperadas de líderes políticos ou militares.  
Porém, mesmo a quem escapasse esses subentendidos poderia desfrutar do humor  
do cordel, que se manifestava nas palavras usadas no texto. É nesse nível que funciona o  
direcionamento de Cuíca contra as pessoas e constrói imagens acerca delas, fossem elas  
conhecidas publicamente ou não. Primeiramente, Cuíca relaciona nomes dos herdeiros a  
atributos, disposições e ações que caracterizam, para o ouvinte, de maneira jocosa, sua  
pessoa, abertamente ofendendo-as. Como exemplo de características, algumas forçadas  
para caber na rima, o deputado Euvaldo Lodi é apresentado como “ganancioso” ao achar que  
“seu lucro era pequeno”, Alcino como “sujeito cretino”, Climério “jamais teve critério” e Góes  
Monteiro “já está usado” (velho). Com disposições emotivas exageradas aparecem Mangabeira  
“só por ele me odiar”, e Joel Presídio “pela sua bravura / e viver ofendendo / toda e qualquer  
criatura”. Dentre as ações mais citadas, que depõem contra o caráter de quem as executa,  
está a traição, referenciada contra Gregório “para o mesmo pagar o preço da sua traição”,  
Mendes de Morais “o qual eu fiz general / e depois me traiu”, e o próprio filho Lutero Vargas.  
Para aqueles familiarizados com a tradição católica e/ou dos testamentos jocosos, poderiam  
associar essas personagens à figura bíblica de Judas Iscariotes, cuja traição levou os inimigos  
fariseus a crucificarem Jesus, aqui associado a Getúlio. Essa era um dos talentos de Cuíca,  
pelo qual ficou notabilizado, o de utilizar as palavras com sentido ofensivo porém engraçado,  
para criar uma disposição social acerca de uma determinada pessoa.  
Outra fonte da sátira do texto está no teor exagerado de algumas heranças. A morte  
174  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
aparece abundantemente, através de metonímias que se referem a objetos usados para matar  
(revolver, espada, veneno, formicida), substantivos que evocam imagens associada à morte  
(caveira, ossos, cemitério, fantasma, cova, sepultura, atestado de óbito) e verbos ligados ao  
morrer (se matar, se enterrar, cortar o pescoço). A Otávio Mangabeira é legado “um frasco de  
formicida / para ele se matar / e a minha velha cova / para ele se enterrar”, a Joel Presídio “um  
atestado de óbito / e uma velha sepultura”, a Euvaldo Lodi “deixou como lembrança / uma garrafa  
de veneno”, a Valente “(...) um bom osso / e a minha velha espada / para cortar-lhe o pescoço”, e  
a Climério “deixou também aberta / a porta do cemitério”. O efeito satírico, humorístico, advém  
do contraste entre os versos nos quais nomeia e caracteriza o herdeiro e esse legado macabro.  
Tais legados negativos funcionam como forma de desforra, compensando simbolicamente  
a injustiça do suicídio de Vargas, direcionando aos alvos a raiva pela perda do líder querido,  
fazendo alguns adversários pagarem na mesma moeda. À semelhança dos outros cordelistas  
nordestinos,Cuícamobilizaparaseurisosímbolosmacabros,expressosemimagensconcretas,  
alguns longamente presentes na cultura das camadas pobres da população. Ria ao pé da cova,  
empurrando os adversários e desafetos para dentro dela, em gesto de vingança.  
Ao maior opositor político de Vargas no período é reservada a punição mais extremada  
possível: “Para o Carlos Lacerda / Incluir no seu caderno / Deixou-lhe Getúlio Vargas / Por ordem  
do Pai Eterno / Para este jornalista / As caldeiras do inferno”. É a única estrofe onde intervém  
poderes sobrenaturais de maneira explícita e concreta, ecoando os dois mais importantes  
espaços e personagens do além-vida na concepção do catolicismo, especialmente o popular,  
à qual a maior parte da população brasileira era devota no período. Aqui a luta entre forças  
políticas ganha revestimento mítico, estendendo-se além da vida terrena, com Getúlio no Céu  
junto com Pai Eterno, (um eco do folheto A Chegada de Getúlio no Céu) e Carlos Lacerda com  
uma punição exemplar que perdura após a morte, uma dor pela eternidade sofrida de modo  
concreto, pelo fogo que queima a pele, no espaço dominado pelo Diabo. Mesmo quem não  
conhece Lacerda, tem a impressão que “esse jornalista” é a pior pessoa possível, execrável,  
impressão que aumenta quando se conhece sua atuação contra Vargas. Cuíca busca colar essa  
imagem nele a partir de significados religiosos cristalizados, conscientes ou inconscientes,  
que contrasta com a esfera política moderna. Tanto essa mudança brusca do plano discursivo  
quanto o flagrante exagero da imagem são fontes de humor.  
Assim, em partes do cordel “O testamento de Getúlio”, o humor é construído pela  
mobilização e cruzamento de três dimensões: (1) a referência às circunstâncias políticas, colada  
aos personagens e eventos do momento, de historicidade rápida; (2) a mobilização de técnicas  
humorísticas mais universais, ambiguidade, gancho verbal, ironias, sobreposição de scripts,  
exageros etc.; (3) elementos culturais de longa duração, como as imagens e significados  
calcados no catolicismo popular brasileiro, suas referências macabras e religiosas. Se as  
circunstâncias e personagens oferecem a matéria-prima da ordem do dia para o cordel, serão  
o gênero do testamento jocoso e as imagens macabras e religiosas importantes recursos que  
transmutam o mero ataque em sátira. O gênero e as imagens introduzem o elemento de fantasia  
e o enquadramento a partir do qual as técnicas humorísticas serão empregadas, para lhes dar  
175  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
o caráter de jogo, e também carregam significados socialmente valorados, que permitem ao  
leitor captar o padrão moral explícito e/ou subjacente (no caso, o trabalhismo) e a distância  
do assunto (legado) em relação a ele, positivo ou negativo. Tais referências culturais também  
permitem inferir o público-alvo de Cuíca, especialmente as camadas pobres de Salvador dos  
anos 1950, familiarizadas com o suporte, formato e gênero – o testamento jocoso publicado em  
um folheto nordestino com versos em sextilhas.  
Se a própria estruturação do folheto como testamento já introduz um elemento de  
jogo e fantasia na relação de Getúlio com seus herdeiros fictícios, é na estrofe contra Carlos  
Lacerda que Cuíca dá um maior acabamento a essa construção. Aqui, o liberalismo de Lacerda  
e o trabalhismo de Vargas são transformados em polos políticos extremados (ignora-se o  
comunismo); em seguida a figura mitificada de Vargas e suas benesses aos trabalhadores  
transformam o trabalhismo na régua moral fonte de todo o bem do país; e, então, esse  
esquematismo político polarizado é traduzido em termos religiosos. O efeito da operação  
é triplo: a polarização política é dotada de um caráter cósmico, é revestida de imagens  
culturalmente arraigadas, e o campo semântico orienta a valoração – Getúlio é associado  
ao Céu e Lacerda ao Inferno. Vale para essa caricatura verbal de Cuíca aquilo que Gombrich  
comentou acerca da sátira pictórica: acredite o público literalmente no inferno ou o tomem  
metaforicamente como significando o mal ou culpa extrema, a imagem mobilizada tem eficácia  
por sua atuação semiconsciente ou inconsciente a partir de sua presença na linguagem e, por  
isso, se tornam manancial de motivos e estereótipos para os artistas, especialmente aqueles  
que desejam atacar a persona social de algum alvo (GOMBRICH, 2003). Desse modo, Cuíca  
associa a pessoas do cenário político local e nacional imagens cristalizadas que orientam e  
formatam conceitos e emoções de seus ouvintes e leitores. O poeta busca criar ou modificar  
as disposições de seu público através da fixação de representações aos nomes que menciona.  
É importante lembrar que o uso do grotesco e do macabro, de referências religiosas e  
sobrenaturais, da ironia e elementos das circunstâncias estão presentes em outros poemas  
satíricos, de outros períodos, no qual Cuíca atacava políticos e outras categorias sociais.  
Porém, este cordel específico, que parece ter sido escrito em momentos diferentes de 1954  
com uma distância de meses, foi publicado quando a produção cordelística nordestina já saíra  
do tom noticioso acerca do suicídio e explorava melhor os feitos e a vida do presidente, mesmo  
fazendo referência à sua morte. Então, com relativo atraso, voluntário ou não, em relação ao  
dinâmico circuito do cordel noticioso nordestino, a primeira e a segunda parte do testamento  
elaborado por Cuíca contribuem para a perpetuação satírica do sentimento de raiva e desforra.  
Um sentimento destilado pela população pobre logo após suicídio de Getúlio, a qual chegou a  
realizar ataques a pessoas e símbolos da oposição e as pessoas que prejudicaram o presidente,  
e alimentada pelos cordelistas profissionais ou amadores. Simbólica e satiricamente, Cuíca  
manteveamesmaposturaemseufolheto, reavivandonopúblicoamemóriadoloridadasinjúrias  
e das traições, com nome e sobrenome, contra um Getúlio já mais mitificado. Lembremos  
também que a referência aos testamentos de Judas evocava a familiaridade do público com um  
tipo de sátira comunitária cujo sentimento de raiva estava presente na malhação do boneco,  
176  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
com sentido de expiação dos males pela morte de Cristo. Ao mesmo tempo, alguns legados  
irônicos parecem expressar a descrença do autor na política nacional, seu potencial como  
instância de mediação para conduzir os assuntos estatais e sociais, especialmente favorecer  
a população mais desamparada.  
Na última parte do folheto as coisas aparecem de maneira diferente: a felicitação aos  
eleitos no pleito baiano e reafirmação da perenidade dos legados ex-presidente para proteger  
e beneficiar o povo e o trabalhador parecem expressar confiança no mito Getúlio Vargas (já  
feita inclusive por outros cordelistas) e na política regional, no testamento simbolicamente  
legitimada pelos elogios do presidente morto aos eleitos. Não por acaso nesta parte o humor  
reflui, sendo a sátira pessoal aplicada pontualmente a um desafeto regional (Joel Presídio) e  
dirigindo-se levemente a dois grupos, aos derrotados na eleição, por sua má fortuna, e aos  
tubarões, alvo da ação de Getúlio, o que reafirma a imagem de Pai dos Pobres. Apenas em  
uma única estrofe dessa parte Cuíca se vale da ironia, quando deixa o cofre da nação aos  
candidatos e aos marreteiros, ironia que parece uma piscadela no meio dos elogios, ao apontar  
e descortinar o funcionamento patrimonialista do sistema político.  
CONCLUSÃO  
Àluzdoqueanalisamosatéaqui,talvezvalhaentãoaconstataçãodeMarkCurran,segundo  
o qual “o testamento tal como descrito por Cuíca é cínico e amargo, e, deixa pouca esperança  
para o futuro” (CURRAN, 1990, p. 172). Ou, precisamente, um momento amargo, colado ao clima  
gerado pelo suicídio de Getúlio e ecoando suas dores e raivas, por meio sátiras pessoais que  
não visam corrigir mas sim destruir aqueles que prejudicaram o presidente, e de ironias que  
expressam descrença no sistema político e econômico. É seguido por um momento cínico, no  
qual se afirmam o mito Getúlio Vargas e as utopias trabalhistas, cujas sombras se projetam em  
um importante instante da democracia brasileira como as eleições, sem deixar de enxergar  
suas brechas nos objetivos subterrâneos daqueles que sempre lucram. De qualquer forma, é  
notável como o folheto “O Testamento de Getúlio” apresenta uma pluralidade de percepções e  
sentimentos, por vezes contraditórios, expressos por meio de recursos humorísticos, e sob  
diversas formas e artefatos culturais familiares a seu público, em diálogo com os processos  
históricos de meados dos anos 1950.  
Acreditamos que analisar e contextualizar o cordel seja uma primeira contribuição  
de nosso texto, já que apresenta uma peculiar intervenção humorística acerca de uma crise  
políticanacional, suarepercussão regionalna Bahia, a partirde suportes e gêneros nordestinos,  
cujo conteúdo mobiliza formas culturais familiares e de grande repercussão entre as camadas  
pobres, ao lado do mito em torno de Getúlio Vargas. Essa análise também nos previne de  
desconsiderar a complexidade que pode estar presente em artefatos considerados “populares”,  
como o cordel, especialmente o cordel humorístico. Ao mesmo tempo, considerando o  
projeto mais amplo de uma história cultural do humor brasileiro e sua relação com o espaço  
público, permite mapear formas e matrizes humorísticas cuja trajetória se distingue embora  
177  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
dialogue com circuitos hegemônicos de produção e circulação cultural, especialmente os  
grandes meios de comunicação de massa como a imprensa, cinema, o rádio e a televisão. E a  
perceber como a sátira áspera, amarga, permeada pelo macabro, grotesco, com referências  
e tendências mítico e religiosas, antecedem as formas que emergiram com a internet. Ajuda  
a entender, portanto, caminhos, processos históricos, das representações, circuitos e usos  
do humor por mediadores culturais, inclusive em momentos de grande crise e comoção, onde  
menos esperamos que elas ocorram.  
REFERÊNCIAS  
AMARO, Cuíca de Santo. (pseud. de José Gomes). O testamento de Getúlio. s/l:s/d, 8p.  
[provavelmente Salvador: 1954] IN: BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da Literatura de  
Cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977, p. 226 (capa), 229-231 (texto).  
ATHAYDE, João Martins. “Cangaceiros e Valentões” (Entrevista a Paulo Pedroza). Diário de  
Pernambuco, Recife, 13 de janeiro de 1944, p. 3.  
BAHIA, Secretaria de Cultura e Turismo. Coordenação de Cultura. Antologia baiana da  
literatura de cordel. Salvador: A Secretaria, 1997, p. 278.  
BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de  
François Rabelais. São Paulo: Hucitec; Brasília: UnB, 1987  
BAUM, Ana. (org.) Vargas, agosto de 54: a história contada pelas ondas do rádio. Rio de  
Janeiro: Garamond, 2004.  
BERGER, Peter. Cômico como arma – La sátira. In: BERGER, Peter. Risa Redentora: La  
dimension cômica de la experiência humana. Barcelona: Kairos, 1998 (1997), p. 255-281.  
CABRAL, Geovanni. Representações do Poder no corpus de folhetos de 1945 a 1954: leituras  
da “Era Vargas”. Dissertação (Mestrado em História), Recife, UFPE, 2008  
CANTEL, Raymond. O uso de temas da atualidade na literatura do Nordeste: a morte de  
Getúlio Vargas. In: Temas da atualidade na literatura de cordel. São Paulo: USP, 1972 (1967), pp.  
4-31  
CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores. S/l: Ediouro, s/d (1939)  
CAVANCANTE,RodolfoCoelho.AMortedoGrandePresidenteGetúlioVargas.Salvador,s.n.,1954,  
178  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
de%20Cordel%20-%20C0001%20a%20C7176&PagFis=15343  
CONDREN, Conal. Satire and definition. Humor, De Gruyter, 2012, v. 25, n. 4, 375-400.  
CONDREN, Conal. Satire. In: ATTARDO, Salvatore (ed.) Enciclopedia of Humor Studies, v. 2, Los  
Angeles: Sage, 2016, p. 661-664.  
CURRAN, Mark J. A sátira e a crítica social na literatura de cordel. IN: PROENÇA, Manoel C.  
Literatura Popular em Verso: Estudos. Tomo I. Belo Horizonte: Editora da Universidade de São  
Paulo Fundação casa Rui Barbosa. 1986; pp. 271-310  
CURRAN, Mark. Cuíca de Santo Amaro: poeta-repórter da Bahia. Salvador: Fundação Casa de  
Jorge Amado, 1990  
CURRAN, Mark. História do Brasil em Cordel. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 2003  
DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Ciclos temáticos na literatura de cordel. PROENÇA, Manoel C.  
Literatura Popular em Verso: Estudos. Tomo I. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e  
Cultura / Fundação Casa de Rui Barbosa, 1973, pp. 1-152  
FAUSTO, Boris. Getúlio: o poder e o sorriso. São Paulo: Companhia das Letras, 2006  
FERREIRA, Jorge. O carnaval da tristeza: os motins urbanos de 24 de agosto. IN: O imaginário  
trabalhista: getulismo, PTB e a cultura política popular 1945-1964. Rio de Janeiro: Civilização  
Brasileira, 2005, pp. 163-210.  
FRYE, Northrop. Anatomia da Crítica. São Paulo: Cultrix, 1973.  
GOMBRICH, Ernst. Magia, mito y metáfora; reflexiones sobre la sátira pictórica. In: Los Usos  
de las imágenes. Porto Alegre, Bookman, 2003, pp. 184-211  
GOMES, Ângela de Castro. A política brasileira em busca pela modernidade: na fronteira  
entre o público e o privado. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (org). História da Vida Privada no Brasil,  
v. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, pp. 489-558.  
GOMES, Ângela de Castro. Introdução. In: GOMES, Ângela de Castro e HANSEN, Patrícia Santos  
(Org). Intelectuais mediadores: práticas culturais e ação política. Rio de Janeiro: Civilização  
Brasileira, 2016, pp. 7-37  
IBGE. População nos Censos Demográficos, segundo os municípios das capitais - 1872/2010.  
KUNZ, Martine. Rodolfo Coelho Cavalcante: Poete populaire du nord-est bresilien. These.  
179  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
Univ. de la Sourbonne Nouvelle (Paris III), U.E.R D’études iberique, 1982. Acervo Casa Rui  
Barbosa.  
LEAL, Geraldo da Costa. Salvador dos contos, cantos e encantos. Salvador: Santa Helena,  
2000  
LESSA, Origenes. Getúlio Vargas na Literatura de Cordel. Rio de Janeiro: Documentário, 1973  
LIMA, Marinalva. Loas que carpem: a morte na literatura de cordel. João Pessoa-PB: CCTA,  
2020  
LUNA E SILVA, Vera Lúcia. Primórdios da literatura de cordel no Brasil – um folheto de 1865.  
Grafos, João Pessoa, v. 12, n. 12, dez/2010  
MARQUES, Francisco Claudio Alves. Um pau com formigas ou o mundo às avessas: a sátira na  
poesia popular de Leandro Gomes de Barros. São Paulo: Edusp, 2014.  
MATOS, Edilene. Cuíca de Santo Amaro: o boquirroto de megafone e cartola. Rio de Janeiro:  
Manati, 2004  
MATOS, Edilene. Ele, o tal: Cuíca de Santo Amaro. Salvador: Fundação Pedro Calmon, 2007  
MENESES, Ulpiano T. Bezerra de. A literatura de cordel como patrimônio cultural. Revista  
do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, Brasil, n. 72, p. 225–244, 2019. Disponível em:  
OTT, Carlos. Formação e Evolução Étnica da Cidade de Salvador (O Folclore Bahiano).  
Salvador: Tipografia Manu Editora, 1957, v. 2  
RIO, João. Os mercadores de livros e a leitura das ruas. In: A alma encantadora das ruas. Rio  
de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1995 [1908], pp. 47-50. Disponível em: https://  
SALIBA, Elias Thomé. Envolvidos na vida, nós a vemos mal? A sátira humorística nas crônicas  
de Lima Barreto (1907-1922). In: Crocodilos, satíricos e humoristas involuntários: Ensaios de  
História Cultural do Humor. São Paulo: Intermeios, 2018, p. 67-80.  
SANTOS, Milton. O centro da cidade de Salvador. 2ª ed. São Paulo: Edusp; Salvador: Edufba,  
2008 [1959]  
SEVCENKO, Nicolau. Introdução: O prelúdio republicano. In: História da Vida Privada no Brasil,  
v. 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 7-48.  
180  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
SOUZA, Guaraci. Urbanização e fluxos migratórios para Salvador. In: SOUZA, Guaraci. (org).  
Salvador de todos os pobres. Petropolis: Vozes / Cebrap, 1980, pp. 103-123  
SOUZA, Liedo Maranhão de. Classificação popular da literatura de Cordel. Petrópolis, RJ:  
Vozes, 1976  
TEIXEIRA, Almerinda. Testamentos Carnavalescos: tradição discursiva satírica. Tese  
(doutorado em Literatura), Universidade de Évora, Évora, 2017  
WANKE, Eno Teodoro. Vida e luta do trovador Rodolfo Coelho Cavalcante. Rio de Janeiro,  
Folha Carioca Editora, 1983  
ZUMTHOR, Paul. A Escrita e a Voz (de uma literatura popular brasileira). 1980. Tradução de  
plural.digitalia.com.br/index70fd.html?option=com_content&view=article&id=478:numero-  
12-textes-et-documents&catid=36:contes-croniques-poesie&Itemid=57  
181  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
Apêndice: Escala dos legados do folheto de Cuíca de Santo Amaro, O testamento de Getúlio.  
Legenda: fonte normal (nome próprio ou coletivo), itálico (aquilo que é legado), negrito (motivo ou característica para a herança).  
Punição  
Prêmio  
- - - -  
Punição sobrenatural  
Carlos Lacerda  
Caldeiras do inferno  
- - -  
Morte  
Climério  
- -  
-
Afeto psicológico  
Eduardo Gomes  
Caveira na mente  
+
++  
+++  
Mudança social  
Ganhos irrisórios ou jocosos  
Ganhos devido à eleição  
Ganhos permanentes  
Povo Brasileiro  
Gregório  
Jango Goulart  
Balbino  
Porta do cemitério aberta  
Grades do Galeão  
Nota para se retirar da política Palácio Rio Branco e colchões de Leis Trabalhistas para liberdade  
mola do Aclamação  
Ordem do pai eterno  
Indivíduo que jamais teve critério  
Getúlio deu proteção / Pagar  
o preço da traição  
Por querer minha cadeira  
Só terá derrota após morte  
Vargas  
É de obrigação  
Juracy  
Me tinham amizade  
Alcino  
Maldição  
Manhães  
Mendes de Moraes  
Lutero  
Benjamin Vargas  
Todo Trabalhador  
Velho revolver  
Selos da Nação para horas  
amargas  
Tribunal  
Fantasma da Toneleiros, para  
seu maior desespero  
Cadeira do Senado  
Direito e Ministério do Trabalho  
Sujeito cretino / criado  
na malandragem  
Sempre foi braço forte  
Fez general / Traiu  
Sempre foi bom soldado  
Ter igualdade de condições e  
direito igual aos patrões  
Tem costas largas  
[acusado de ser mandante]  
Euvaldo Lodi  
Café Filho  
Darcy  
Juarez  
Lima Teixeira  
Tristezas de Vargas  
Garrafa de veneno  
Dívidas da Nação  
Ficou na gestão  
Casa da Moeda para ele  
Outra cadeira do Senado  
defender  
Agir muito sereno / ganancioso – lucro  
Por não haver no mundo  
mulher igual  
Sempre cumpriu seu dever  
Gois Monteiro  
Chave da Adega  
Está usado / não pode fazer  
mais piega [bêbado]  
Caiado de Castro  
Lhe tinha simpatia  
pequeno  
Valente  
Osso e espada  
Aos Derrotados  
Regis Pacheco  
Exílio no estrangeiro  
Pela sua infeliz sorte  
5 usinas em São Borja  
Rapaz forte ainda moço  
Por suportar esta corja  
Mangabeira  
Tubarões  
Hélio Machado  
Formicida e cova  
Só por ele me odiar  
Ministério do trabalho  
Cavalo alazão para  
ele cair fora  
Cadeira da Prefeitura  
Para serem castigados [ao  
explorar trabalhador]  
Por ser boa criatura e grande  
figura para defender o povo  
Quando ouvir gritar “Pessoal  
está na hora”  
Joel Presídio  
Simões Filho  
Candidatos e marreteiros  
Atestado de óbito e velha sepultura  
Só pela sua bravura / ficar ofendendo  
toda e qualquer criatura  
Barba postiça para servir de  
gravata e bode irlandês para  
aumentar mamata  
Cofre da Nação no Rio  
Pelas eleições gastaram todo o  
seu dinheiro  
Por gostar muito de prata  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
182  
DOSSIÊ  
Anexo: O testamento de Getúlio  
O Grande Getúlio Vargas  
Brasileiro cem por cento  
Antes de morrer  
Cumpriu o seu juramento  
Deixando pros seus herdeiros  
Um riquíssimo testamento  
Deixou a maldição  
Deixou ao Café Filho  
O qual ficou na gestão  
Para aumentar  
A sua consumição  
Ficou como lembrança  
As dívidas da Nação  
Deixo ao Eduardo Gomes  
Por querer minha cadeira  
A noite ao deitar-se  
Para a sua brincadeira  
Ficará na sua mente  
Para um sujeito cretino  
Criado na malandragem  
Desde os tempos de menino  
Se não estou enganado  
Tem o nome de Alcino  
Somente a minha caveira  
Quando ele resolveu  
A sair deste planeta  
Deixou o seu testamento  
Também a sua caneta  
E os seus velhos óculos  
Dentro de uma gaveta  
Para o Carlos Lacerda  
Incluir no seu caderno  
Deixou-lhe Getúlio Vargas  
Por ordem do Pai Eterno  
Para este jornalista  
Ao meu filho Jango Goulart  
Deixo escrito nesta nota  
Retire-se da política  
Pra não cortar mais patota  
Pois depois da minha morte  
Tu só terás a derrota  
Para o Mendes de Moraes  
O qual eu o fiz general  
E depois me traiu  
Na Capital Federal  
Para pagar o seu crime  
Ficará o tribunal  
As caldeiras do inferno  
Ele que tinha antes  
Deixou para o Manhães  
Que sempre foi braço forte  
Deixou-lhe Getúlio Vargas  
Bem depois da sua Morte  
Aquele velho revólver  
Ao meu filho Benjamin  
Que subscreve de Vargas  
Deixo ao meu querido  
Que tem as costas bem largas  
Os selos da Nação  
Deixarei ao Juarez  
O qual sempre fez valer  
Como sempre ele  
Cumpriu o seu dever  
Deixo a Casa da Moeda  
Para ele defender  
Um espírito muito forte  
Saiu deste hemisfério  
Para melhorar de sorte  
Deixando pra muita gente  
O legado de sua morte  
O qual lhes dera o transporte  
Pras suas horas amargas  
Ao Gregório por exemplo  
A quem ele deu proteção  
Para o mesmo pagar  
O preço da sua traição  
Deixou-lhe o Getúlio Vargas  
As grades do Galeão.  
Deixou ao Euvaldo Lodi  
Por agir muito sereno  
Achando o ganancioso  
Que seu lucro era pequeno  
Deixou-lhe como lembrança  
Uma garrafa de veneno  
Deixo também ao Lutero  
Pra seu maior desespero  
O fantasma que ficou  
Lá no Rio de Janeiro  
Ele deve se lembrar  
Ao amigo Góis Monteiro  
Eu sei que ele não nega  
Como já está usado  
Não pode fazer mais piega  
Deixo pro seu governo  
A chave da minha adega  
O da Rua do Toneleros  
Deixou também aberta  
A porta do cemitério  
Para um certo indivíduo  
Que jamais teve critério  
Se não estou enganado  
Tem o nome de Climério  
Deixou para o Valente  
Rapaz forte ainda moço  
Para este elemento  
Deixou-lhe um bom osso  
E a minha velha espada  
Para cortar-lhe o pescoço  
Deixo à minha Darcy  
A minha santa rainha  
Por não haver no mundo  
Mulher igual à minha  
Deixo as minhas tristezas  
Em tê-la deixado sozinha  
Deixo ao Caiado de Castro  
Como ninguém ignora  
Quando ele ouvir gritar  
Pessoal está na hora  
O meu cavalo alazão  
Para ele cair fora  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
183  
DOSSIÊ  
Deixo ao Mangabeira  
Só por ele me odiar  
Um frasco de formicida  
Para ele se matar  
E a minha velha cova  
Para ele se enterrar  
Deixo ao Régis Pacheco  
Por suportar esta corja  
As minhas cinco Usinas  
As quais estão em São Borja  
Não há bala que penetre  
Pois a parede não forja  
Deixo o cofre da Nação  
Lá no Rio de Janeiro  
Para os candidatos  
E pra todo marreteiro  
Que pelas eleições  
Gastaram o seu dinheiro  
Deixo ao Simões Filho  
Por gostar muito de prata  
Uma barba postiça  
Pra lhe servir de gravata  
E um bode Irlandês  
Deixo ao Joel Presídio  
Só pela sua bravura  
E viver ofendendo  
Toda e qualquer criatura  
Um atestado de óbito  
E uma velha sepultura  
Deixo para os derrotados  
Pela sua infeliz sorte  
O exílio no Estrangeiro  
Deixo este passaporte  
É este, meus herdeiros!  
O Legado da minha morte.  
Para aumentar-lhe a mamata  
Deixo para o Balbino  
Porque é de obrigação  
O Palácio Rio Branco  
Com toda satisfação  
E os colchões de mola  
Que tem no Aclamação  
Deixo ao povo Brasileiro  
Os quais me tinham amizade  
Elas!... as Leis Trabalhistas  
Para a sua liberdade  
Deixo ela para o povo  
Antes de ir pra a eternidade  
AMARO, Cuíca de Santo. (pseud.  
de José Gomes). O testamento de  
Getúlio. s/l:s/d, 8p. [provavelmente  
Salvador: 1954]  
IN: BATISTA, Sebastião Nunes.  
Antologia da Literatura de Cordel.  
Natal: Fundação José Augusto,  
1977, p. 226 (capa) e p. 229-231  
(texto)  
Deixo ao Juracy  
Que sempre foi bom soldado  
Para presenteá-lo  
Com um posto mais elevado  
Deixando pro meu amigo  
A cadeira do Senado  
Deixo a todo trabalhador  
Igualdade de condições  
Isto é... o direito  
Que também tem os patrões  
E o Ministério do Trabalho  
Pra castigar os Tubarões  
Deixo ao Lima Teixeira  
Pois lhe tinha simpatia  
Uma outra cadeira  
A qual se acha vazia  
Junto ao Juracy Magalhães  
Pra lhe fazer companhia  
Deixo ao Hélio Machado  
Por ser boa criatura  
Porque sei que ele fará  
Uma brilhante figura  
Para defender o povo  
A cadeira da Prefeitura  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
184