DOSSIÊ
2010, p. 74-80). Os testamentos dos bichos estavam entre as maiores predileções populares da
capital federal no início do século XX, como aponta João do Rio, de maneira nada simpática, ao
investigar as publicações mais vendidas entre os livreiros das ruas cariocas. Indigna-se contra
a persistência deste gênero cômico e de outros mais heroicos, de crimes ou sensacionalistas,
segundo ele importados de Portugal e que circulavam no Rio pelo menos desde 1840 (RIO,
1995, p. 48-49). Os livreiros informam a João do Rio que os testamentos ainda eram bastante
procurados, com tiragens muito superiores às obras dos renomados literatos nacionais (RIO,
1995, p. 50). Foi essa persistência de gosto e predileções dos leitores das camadas populares
brasileiras pelos testamentos que, na mesma época, levou Leandro Gomes de Barros a atuar
no gênero, já como autor de folhetos profissional em Pernambuco. Publicou “A Vida de Cancão
de Fogo e o seu testamento”, contando as peripécias de um finório ladrão que engana um juiz
e um escrivão no leito de morte; e, na linha dos testamentos dos bichos, lançou “O Dinheiro, ou
o testamento do Cachorro”, que conta como um cachorro de um inglês foi enterrado na igreja
após deixar em testamento vultosa soma ao bispo e ao vigário, satirizando a venalidade do
clero (MARQUES, 2014, p. 95-100).
Também é possível rastrear testamentos políticos no século XIX. Em Portugal, um dos
vários exemplos satíricos é o “Testamento que fez o D. Quixote da França”, datado de 1813, com
referência direta às invasões de Napoleão Bonaparte, ou, após a revolta Liberal do Porto, em
prosa, o crítico “Testamento que fez à hora da Morte a Ilustríssima e Excelentíssima Senhora
D. Constituição”, de 1823 (TEIXEIRA, 2017, p. 190-197). No Brasil, Câmara Cascudo menciona
o testamento de figuras políticas em fins do XIX, como o testamento do político Joaquim
Apolinário de Medeiros, de 1886, transmitido pela mãe do autor e ainda lembrado por ele em
1939 (CASCUDO, 1939, p. 53-58). Até sobre a história de Vargas há precedentes nos folhetos do
Rio, com o “Testamento d’Ele” ou “Testamento de Gegê”, publicado por Camaleão em 1945, e
composto em quadras, distanciando-se da tradição nordestina (DIEGUES JÚNIOR, 1973, p. 14).
Cuíca se apropria das antigas formas orais e das transposições escritas desse
gênero jocoso, especialmente os testamentos de Judas, ainda persistentes em Salvador do
período. O memorialista soteropolitano Geraldo Leal, referindo-se aos anos 1930, informa
que os testamentos de judas impressos e vendidos por gráficas eram aguardados pelos
que festejavam o Sábado de Aleluia. Folhas com o texto eram colocadas no bolso da calça
do boneco representando Judas, e sua leitura pública era feita à noite, em uma das ruas
dos bairros, antes da malhação do boneco. Entre as características do testamento, eram
anônimos, “quase sempre grotesco, sem métrica e, às vezes, terminava em pancadaria”, além
de “sempre atacavam políticos, negociantes desonestos e outras motivações” (LEAL, 2000,
p. 163). O mesmo memorialista registra que, nessa década, antes de compor cordéis, José
Gomes, condutor de bondes e tintureiro no Largo de Santo Antonio, também era conhecido
nas redondezas por compor testamentos de Judas (LEAL, 2000, p. 70).
Duas décadas mais tarde, Carlos Ott registrou dois jocosos testamentos de Judas,
compostos em quadras, que circulavam em Salvador durante a Quaresma, um deles adaptado
aos bairros da cidade. Comenta Ott que este último “é um desses testamentos de Judas,
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280