DOSSIÊ
pode ser diferente dessa previsão inicial (Charaudeau, 2011).
Além disso, ao destinatário é atribuída a possibilidade de preencher diferentes papéis:
ele pode ser um cúmplice do ato humorístico proposto pelo locutor, ou pode ser uma vítima
(Charaudeau, 2011). Caso seja cúmplice, o seu papel previsto é o de compartilhar a visão de
mundo proposta pelo locutor. Agora, caso seja a vítima, o destinatário cumpre o papel de alvo
de um julgamento negativo (Charaudeau, 2011).
Vimos, até agora, dois elementos, dos três, que compõem o dispositivo comunicacional
e enunciativo do ato humorístico para Charaudeau (2011): o locutor/enunciador e o receptor/
destinatário. O terceiro elemento é o alvo, ou seja, sobre quem ou o quê recai o ato humorístico.
Conforme Charaudeau (2011), esse alvo pode ser formado por somente um indivíduo ou por
um grupo social, bem como pode ser formado por uma abstração, como as ideias, crenças e
opiniões. De toda forma, há sempre um direcionamento para o ato humorístico: há uma crítica,
um julgamento, uma piada sobre alguém ou alguma coisa.
De toda forma, o ato humorístico é uma aposta lançada pelo humorista, o qual faz uma
certa proposição ao destinatário com relação à visão criada pelo ato humorístico (Charaudeau,
2006). Isto é, o humorista deseja que o seu destinatário “compre” o seu ato humorístico e tenha
aderência à proposta, ação responsável por gerar os efeitos possíveis do ato humorístico
(Charaudeau, 2006).
Charaudeau (2006) nos aponta quatro possíveis efeitos, sendo eles: i) a conivência
lúdica, na qual o efeito do ato humorístico é mais livre de espírito crítico e ocorre simplesmente
pelo prazer de ser; ii) a conivência crítica, na qual acontece a crítica a uma ordem do mundo
estabelecida, como uma denúncia de falsos valores escondidos sob um manto de falsa
virtude; iii) a conivência cínica, detentora de um efeito de destruição e desvalorização de
valores da vida social, como a vida e a morte, por exemplo; iv) a conivência de derrisão, relativa
a “desqualificação do alvo ao rebaixá-lo, isto é, ao fazer descê-lo do pedestal no qual ele estava”
(Charaudeau, 2006, p. 37 - tradução nossa).7 Para Charaudeau (2015):
o humor é transgressivo. É a sua razão de ser. O ato humorístico quebra o espelho das
convenções sociais, quebra os julgamentos de bom senso, estilhaça os estereótipos
identitários, derruba visões de mundo, fazendo descobrir o inverso daquilo que se dava
como evidência incontestável (Charaudeau, 2015, p. 137 - tradução nossa)8
Segundo Charaudeau (2015), o ato humorístico teria a capacidade de se suplantar a
uma aparente ordem do mundo, ao colocar em evidência a desordem. Além disso, Charaudeau
(2015) adiciona outra capacidade para o ato humorístico: a de triunfar sobre as convenções
estabelecidas e a moral social. Disso decorre que “Toda fala humorística é dotada de um
7 Do original: “La dérision vise à disqualifier la cible en la rabaissant, c’est-à-dire en la faisant des-
cendre du piédestal sur lequel elle était” (Charaudeau, 2006, p. 37).
8 Do original: “l’humour est transgressif. C’est sa raison d’être. L’acte humoristique brise le miroir
des conventions sociales, casse les jugements bien-pensants, fait voler en éclats les stéréotypes identi-
taires, renverse les visions du monde faisant découvrir l’envers de ce qui se donnait comme évidence
inattaquable” (Charaudeau, 2015, p. 137).
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280