DOSSIÊ
(RÉGNIER, 1996, p. 83) e Portugal. Durante a Primeira República (1910-1926), a
cultura visual que incidia no colonialismo português mediava uma dialética na
qual a infantilização e a feminização das colónias, embora empregues, não eram
exclusivos do caso português, verificando-se contexto idêntico nas imprensas
francesa e britânica (SCHIBELINSKI, 2016, p. 79).
O desenrolar da guerra colonial no ultramar português (1961-1974) possibilitou
que se assistisse a um momento estruturante para a imprensa, principalmente
para o serviço de noticiários. Mantendo lógicas propagandistas, como foi o caso
da revista Antena (01-03-1965 a 15-10-1968), ao serviço da estação de rádio sua
proprietária, a qual foi utilizada como montra promocional da primeira, ao invés
de um canal para debate alargado (HENRIQUES, 2016). Este exemplo, ilustra o
facto de que não são apenas os padrões, conforme o veículo através do qual era
transmitidaamensagem,quetêmasuaimportâncianoprocessocomunicacional.
E neste âmbito, a imprensa ilustrada desempenhara um importante papel tanto
na divulgação quanto na “criação” do império colonial português (MARTINS, 2012).
Poroutrolado,acaricatura,conformerevisitadonaspublicaçõesdeXIX,tende
a aumentar e a destacar um aspeto narrativo na imprensa ilustrada, permitindo
ao artista gráfico colocar em agenda determinado tópico, não raro implicando
um ataque (OLIMPÍO, 2013, p. 125), através de uma imagem estereotipada (ROCHA,
2022, p. 31). Por sua vez, o cartoon representa uma proposta de eliminação dos
sinais de identificação do referente, mantendo-o, todavia, dentro do contexto
cultural conhecido acompanhada de uma declaração crítica (FERNANDES, 2016,
p. 217) e de um manifesto de intervenção (OLIMPÍO, 2013, p. 125). Contudo, e
concordando com Ana Rocha (2022) não parece ser possível tecer considerações
sobre o humor, na qualidade de discurso social, sem entender a relação entre
criador-imagem-recetor, bem como a sua dimensão social e política.
Adicionalmente, sabendo que todo o discurso social é proliferante, já que
se expande de um modo contínuo, sobretudo quando se menciona a união entre
discurso social e imprensa periódica, ao abordar o contexto da guerra colonial
importa ter presente que não é tão importante quem pode falar como quem vai
ouvir (SPIVAK, 2012). A questão da compreensão do signo, conforme a explorou
Peirce(1978),oqueéaimagem,oquediz,ecomoodiznecessitadeprotocolospara
a leitura. A teoria semiótica de Peirce auxilia na medida que a iconografia de um
tema ou de assunto deve ser acompanhada de um estudo de significado da obra.
E neste ponto a obra de Cid, aqui abordada, parece-nos paradigmática. Porque
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280