DOSSIÊ  
ENTRE A SÁTIRA E O CONFLITO: ANÁLISE DAS  
CHARGES DO CHARLIE HEBDO (2015-2025) E OS  
LIMITES DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO  
BETWEEN SATIRE AND CONFLICT: ANALYSIS OF  
CHARLIE HEBDO CARTOONS (2015-2025) AND THE  
LIMITS OF FREEDOM OF EXPRESSION  
Deivid Mota Santana1  
Recebido em: 12 de junho de 2025.  
Revisão final: 21 de março de 2026.  
Aprovado em: 21 de março de 2026.  
1 Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação, da Universidade  
Federal do Ceará (PPGCOM-UFC), especialista em Liderança para Transformação Digital 4.0 pela  
Faculdade da Indústria e bacharel em Comunicação Social - Jornalismo, pela Universidade Federal  
do Ceará (UFC). Atua na coordenação de processos administrativos, planejamento estratégico e ges-  
tão de equipes, com foco em inovação e transformação digital. E-mail: deividmota@hotmail.com  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
Resumo: Este artigo analisa charges publicadas pelo jornal satírico francês Charlie Hebdo no  
período de 2015 a 2025. A pesquisa, de natureza qualitativa, adota análise documental e revi-  
são bibliográfica, focalizando representações sociopolíticas, controvérsias públicas e os limi-  
tes éticos do humor. São discutidas as tensões entre liberdade de expressão e diversidade cul-  
tural a partir da repercussão de charges polêmicas, especialmente após o atentado de 2015.  
Os resultados evidenciam como o conteúdo gráfico do periódico provoca reflexão crítica, mas  
também levanta debates sobre os impactos sociais da sátira.  
Palavras-chave: Charlie Hebdo, charges, humor, liberdade de expressão, discurso.  
Abstract: This article analyzes cartoons published by the French satirical newspaper Charlie  
Hebdo between 2015 and 2025. The qualitative research employs documentary analysis and li-  
terature review, focusing on sociopolitical representations, public controversies, and the ethi-  
cal boundaries of humor. It discusses the tensions between freedom of expression and cultu-  
ral diversity, especially after the 2015 terrorist attack. The findings show how the newspaper’s  
graphic content prompts critical reflection while also raising concerns about the sociocultural  
impact of satire.  
Keywords: Charlie Hebdo, cartoons, humor, freedom of expression, discourse.  
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INTRODUÇÃO  
O Charlie Hebdo é um semanário satírico francês conhecido por utilizar  
charges como instrumento de crítica política, social e religiosa. Fundado em  
1970, o periódico construiu sua identidade editorial com base na irreverência, no  
humor ácido e na defesa intransigente da liberdade de expressão, tornando-se  
símbolo de resistência à censura. Suas publicações frequentemente abordam  
temas sensíveis, como religião, imigração, terrorismo, entre outros, despertando  
reações diversas que variam entre o apoio enfático e a indignação (Correio, 2016).  
O atentado de 7 de janeiro de 2015, no qual 12 (doze) pessoas foram  
assassinadas por extremistas em resposta a caricaturas publicadas pelo jornal,  
intensificou o debate sobre os limites do humor e os riscos enfrentados por  
veículos de imprensa crítica. A tragédia consolidou o Charlie Hebdo como ícone  
global da liberdade de imprensa, mas também evidenciou tensões entre sátira,  
discurso de ódio e diversidade cultural (De Fru, 2018).  
Assim, este artigo investiga a atuação do Charlie Hebdo por meio de charges  
publicadas entre 2015 e 2025, analisando como essas imagens comunicam  
posicionamentos políticos e produzem efeitos socioculturais. Questiona-se: até  
que ponto a liberdade de expressão justifica o uso da sátira quando esta pode  
ferir sensibilidades culturais e sociais?  
O objetivo é discutir os impactos da liberdade de expressão na imprensa  
satírica, a partir de uma análise qualitativa baseada em revisão bibliográfica  
e análise documental de charges. A proposta insere-se no debate sobre o  
papel do humor gráfico nas sociedades democráticas contemporâneas, suas  
potencialidades críticas e seus limites éticos (Díaz Hernández, 2016).  
O JORNAL FRANCÊS CHARLIE HEBDO  
OCharlieHebdotemorigemnocontextodaimprensaalternativafrancesados  
anos 1960. Surge como herdeiro do espírito provocador do Hara-Kiri, publicação  
fundada por François Cavanna e Georges Bernier (conhecido como Professor  
Choron), popular por desafiar convenções sociais e políticas por meio da sátira  
gráfica.  
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O Hara-Kiri Hebdo foi interditado em 1970, após publicar uma manchete  
irreverente sobre a morte do general Charles de Gaulle. Para driblar a censura, a  
equipe relançou o jornal com o nome Charlie Hebdo, em referência ao personagem  
Charlie Brown, das tiras Peanuts, e ao ex-presidente Charles de Gaulle. Desde  
então, o periódico se consolidou como uma das principais expressões da  
imprensa satírica europeia.  
Publicando semanalmente, o Charlie Hebdo utiliza a charge como forma de  
denúncia, desconstrução de discursos e crítica mordaz a instituições políticas,  
religiosas e sociais. Sua linha editorial se ancora no princípio da laicidade e na  
tradição iluminista francesa de liberdade de crítica (Milton, 1999). Ao mesmo  
tempo, é alvo recorrente de processos judiciais, boicotes e manifestações,  
especialmente por parte de grupos religiosos e movimentos sociais que se  
sentem ofendidos com suas representações gráficas.  
O jornal não se limita às charges: editoriais, colunas e reportagens  
também compõem sua estrutura, muitas vezes com linguagem provocadora e  
politicamente “incorreta”. Essa característica coloca o Charlie Hebdo em uma  
posição controversa; ora exaltado como bastião da liberdade de imprensa, ora  
criticado por promover discursos ofensivos sob o pretexto da sátira (Mill, 2011).  
A análise das publicações do Charlie Hebdo entre 2015 e 2025 permite  
observar como o jornal manteve sua postura crítica mesmo após o atentado  
que abalou sua redação. A edição especial de 2025, intitulada “INCREVABLE!”  
(“Indestrutível!”), reafirma a continuidade da linha editorial combativa, marcada  
pela resistência e pelo humor confrontativo. Diante disso, é necessário refletir  
sobre os usos da sátira em contextos democráticos e os efeitos produzidos por  
esse tipo de comunicação (Charaudeau, 2006).  
O Charlie Hebdo, um hebdomadário, circula tradicionalmente às quartas-  
feiras, com tiragem variável, geralmente entre 30 mil e 50 mil exemplares, embora  
edições extraordinárias tenham ultrapassado 3 milhões, como ocorreu após o  
atentado de 2015.  
Cada edição conta com cerca de 16 a 32 páginas, organizadas em seções  
relativamente fixas que incluem charges, editoriais, colunas de opinião,  
reportagens breves e notas satíricas. A estrutura interna é deliberadamente  
informal e visualmente carregada, marcada por tipografia intensa, uso abundante  
de cores fortes, ilustrações de página inteira e ausência de publicidade comercial  
tradicional.  
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O conteúdo costuma abrir com uma charge de capa, quase sempre ligada  
a eventos da semana, seguida por um editorial ou texto de abertura assinado  
por membros da redação, como Riss (editor-chefe), Luz ou Charb (nos anos  
anteriores ao atentado). A partir daí, desenvolvem-se colunas como “Journal  
Bête et Méchant” (subtítulo herdado do Hara-Kiri), relatos de bastidores políticos,  
sátiras sobre a imprensa tradicional, religiões e cultura popular.  
As reportagens são curtas e opinativas, quase sempre escritas em tom  
pessoal e irônico. Em muitas edições, há também dossiês temáticos que  
combinam texto e imagem para abordar assuntos como política externa, racismo,  
imigração ou feminismo, sob uma ótica antiautoritária e anticlerical.  
O núcleo de produção do jornal é formado por um coletivo editorial fixo, com  
forte presença de cartunistas e jornalistas de formação humanística. Diferente  
da lógica de grandes redações, o Charlie Hebdo opera de modo colaborativo e  
artesanal.  
O layout é concebido de maneira integrada com o conteúdo visual, charges  
e textos são pensados como formas equivalentes de discurso. A linguagem é  
coloquial, cáustica e propositalmente desrespeitosa com convenções formais.  
Essa estrutura orgânica reforça a identidade editorial do periódico: um espaço  
de liberdade discursiva extrema, que aposta no escândalo e no absurdo como  
dispositivos políticos e estéticos.  
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA  
O humor gráfico, em especial a charge, desempenha papel importante na  
crítica social e política. De caráter opinativo, a charge mescla imagem e texto  
para provocar reflexão por meio da sátira. Parnaiba e Gobbi (2014) destacam que  
esse gênero é marcado pela atualidade, pelo posicionamento ideológico e pela  
linguagem metafórica, muitas vezes irônica ou sarcástica.  
Henri Bergson (1993), em O Riso, considera o cômico como um mecanismo  
de correção social: rimos quando observamos algo mecânico no comportamento  
humano, isto é, quando o sujeito age de forma automática, fora das normas da  
espontaneidade. Esse descompasso provoca riso, que é, por sua vez, social,  
exige um público e pressupõe uma certa distância emocional. Isso explica por  
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que determinadas charges causam indignação em públicos mais envolvidos  
afetivamente com o tema abordado.  
Vladimir Propp (1992), em Comicidade e Riso, destaca o riso sarcástico como  
um dos mais recorrentes no humor gráfico. Esse tipo de riso se baseia na crítica  
e na exposição de contradições morais, sociais ou políticas. Segundo o autor, o  
sarcasmo é uma ferramenta para revelar desigualdades e questionar estruturas  
de poder.  
Além das contribuições clássicas de Bergson e Propp, é relevante considerar  
abordagens contemporâneas que exploram a dimensão política e histórica  
do riso. Pierre Serna (2015), em “La politique du rire. Satires, caricatures et  
blasphèmes XVIe-XXIe siècles”, analisa como a sátira e a caricatura funcionaram,  
ao longo de séculos, como instrumentos de contestação do poder, mas também  
como armas de dominação e controle social. Sua perspectiva histórica ajuda a  
situar publicações como o Charlie Hebdo dentro de uma longa tradição francesa  
de imprensa satírica anticlerical e antiabsolutista, ao mesmo tempo que  
problematiza os usos do humor em contextos de tensão cultural.  
Terry Eagleton (2019), no capítulo “The politics of humour” de sua obra Humour,  
argumenta que o riso nunca é politicamente neutro. Para Eagleton, o humor pode  
servir tanto para reforçar hierarquias e excluir grupos marginalizados quanto  
para subverter autoridades e questionar normas estabelecidas.  
Essa dualidade é central para entender as reações polarizadas às charges do  
Charlie Hebdo: se, por um lado, elas se inserem em uma narrativa de resistência  
laica e crítica ao poder, por outro, podem ser percebidas como expressões de um  
etnocentrismo que desconsidera a assimetria de poder entre maiorias e minorias  
religiosas em contextos pós-coloniais.  
AschargesdoCharlieHebdoutilizamessesrecursosparaconstruirumacrítica  
contundente, frequentemente provocando desconforto. Ao utilizar exageros  
visuais, referências implícitas e ironia, os cartunistas expõem hipocrisias e  
violências estruturais. Contudo, a eficácia do humor depende do conhecimento  
prévio do público sobre o contexto retratado, o que reforça a importância da  
análise documental considerando o tempo e o espaço de produção da imagem.  
No caso do Charlie Hebdo, o uso da sátira visual em temas como religião,  
terrorismo, imigração e política internacional insere suas charges no centro de  
debates sobre ética e liberdade de expressão (Melo, 2016). Para compreender sua  
atuação e os impactos dessas representações, é necessário tratar o jornal como  
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fonte periódica e situá-lo historicamente.  
Conforme discutido, a linha editorial do Charlie Hebdo, marcada por  
irreverência e confrontação de dogmas, culminou na publicação de diversas  
caricaturas de Maomé. Essas imagens estiveram no centro das críticas religiosas  
e foram utilizadas como justificativa para o atentado terrorista de 7 de janeiro de  
2015, evento que será abordado na próxima seção.  
AS CHARGES QUE MOTIVARAM O ATENTADO DE 2015  
Entre as publicações mais controversas do Charlie Hebdo estão as  
caricaturas de Maomé. Em 2006, o jornal republicou, com capa própria, imagens  
originalmente veiculadas pelo periódico dinamarquês Jyllands-Posten. Uma das  
mais conhecidas mostra o profeta com uma bomba no turbante, provocando  
forte reação em diversos países de maioria muçulmana.  
Figura 1 — Montagem das charges que motivaram o ataque  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo  
Em 2011, ao anunciar a edição especial “Charia Hebdo”, o jornal estampou  
Maomé como editor-chefe, gerando novos protestos e o incêndio da redação. No  
ano seguinte, em 2012, o periódico publicou uma série de caricaturas do profeta  
sem vestimentas, intensificando ainda mais a controvérsia.  
Essas imagens foram consideradas ofensivas por grupos islâmicos radicais,  
que passaram a ver o Charlie Hebdo como inimigo do Islamismo. O atentado  
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de janeiro de 2015 é interpretado como resposta direta a essa linha editorial.  
Paradoxalmente, a capa da edição posterior ao ataque mostrou novamente  
Maomé, desta vez segurando um cartaz “Je suis Charlie”, com a legenda “Tout est  
pardonné” (“Está tudo perdoado”), reafirmando o espírito provocador e resistente  
do jornal.  
Tais charges estão no centro do debate sobre os limites da liberdade de  
expressão.ParaoscartunistasdoCharlieHebdo,nenhumacrençadeveestarisenta  
de crítica. Para muitos pesquisadores, porém, a reiterada publicação de imagens  
sabidamente ofensivas revela insensibilidade cultural e irresponsabilidade  
ética. Esse impasse evidencia a complexidade do humor gráfico em contextos  
multiculturais e a tensão entre crítica laica e respeito religioso.  
O ATAQUE AO CHARLIE HEBDO E A RESPOSTA EDITORIAL  
Na primeira edição publicada após o atentado (nº 1178, de 14 de janeiro de  
2015), o Charlie Hebdo reafirmou sua linha editorial em um texto comovente.  
Escrito por Laurent Léger, o editorial deixou claro que o ataque não os calaria: “O  
que nos atingiu não foi o Islã, mas os extremistas.” O texto reforça que o jornal não  
renunciaria à liberdade de criticar ideologias, dogmas ou religiões, defendendo  
que o humor é uma forma de resistência democrática.  
A edição circulou com três milhões de cópias e foi traduzida para diversos  
idiomas. A capa trazia Maomé segurando o cartaz “Je suis Charlie”, símbolo da  
solidariedade mundial, sob a legenda “Tout est pardonné”, em uma tentativa  
ambígua de conciliação e continuidade provocadora. O editorial posiciona a  
charge não como insulto gratuito, mas como parte de um combate simbólico  
pelo direito à crítica e à irreverência.  
O conteúdo editorial do Charlie Hebdo não se limita às charges provocativas  
que tornaram o jornal internacionalmente conhecido. Embora o humor gráfico  
seja sua marca registrada, a publicação também abriga colunas de opinião,  
reportagens, editoriais e artigos que refletem uma postura política clara: a defesa  
do laicismo, da crítica irrestrita a todas as religiões e ideologias, e a recusa em  
submeter o discurso jornalístico à lógica do “politicamente correto”.  
Essa linha editorial é frequentemente conduzida por um grupo fixo de  
jornalistas e cartunistas que compartilham um ethos comum: o de uma esquerda  
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libertária, anticlerical, antimilitarista e profundamente irônica.  
Os editoriais da publicação costumam assumir uma voz combativa,  
assumidamente parcial e provocadora. O Charlie Hebdo rejeita o modelo de  
“objetividade jornalística” tradicional, preferindo a subjetividade como estratégia  
discursiva para provocar o debate público.  
Em suas edições semanais, é comum encontrar textos que criticam não  
apenas religiões e partidos políticos, mas também setores da imprensa, ONGs  
e movimentos sociais, denunciando o que consideram formas veladas de  
autoritarismo, oportunismo ou censura ideológica. O estilo dos textos editoriais  
é direto, mordaz e repleto de referências culturais francesas, o que reforça sua  
identidade como um produto profundamente enraizado no contexto político e  
social da França.  
Essa abordagem editorial faz do Charlie Hebdo um espaço de disputa  
simbólica. Ao adotar uma retórica deliberadamente polêmica, o jornal se  
posiciona como defensor da liberdade de expressão em sua forma mais radical.  
No entanto, isso o coloca frequentemente no centro de controvérsias, acusado  
de ultrapassar os limites do respeito às minorias ou de alimentar discursos  
intolerantes sob a justificativa da crítica.  
Essa ambivalência é assumida pelos próprios editores, que consideram a  
função do periódico não apenas informar, mas perturbar e interpelar. Portanto,  
compreender o Charlie Hebdo requer ir além das imagens que circulam nas redes  
sociais digitais e mergulhar em sua lógica editorial, que articula humor, confronto  
e engajamento político como formas de intervenção pública.  
METODOLOGIA  
Este artigo adota abordagem qualitativa, com base em análise documental  
e revisão bibliográfica. A análise documental, conforme Gil (2010) e Cellard  
(2008), consiste no exame sistemático de documentos com o objetivo de extrair  
informações relevantes ao objeto de estudo. No campo da Comunicação, isso  
inclui jornais, revistas e mídias digitais, considerando-os não apenas como  
suporte, mas como construtores de discurso.  
Os documentos selecionados são exemplares do semanário Charlie Hebdo,  
publicados entre 2015 e 2025, com especial atenção às edições que contêm  
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charges de forte repercussão pública. A seleção incluiu charges sobre política  
interna francesa, imigração, conflitos internacionais e edições especiais, como  
a que marca os 10 anos do atentado de 2015.  
Além disso, a revisão bibliográfica fundamenta-se em autores que discutem  
o papel da sátira e do humor na Comunicação Social, os limites éticos da liberdade  
de expressão e a relação entre mídia, cultura e poder. Referências específicas  
sobre o uso da mídia periódica como fonte de pesquisa jornalística e histórica  
também foram incorporadas, conforme orientações metodológicas de Cellard  
(2008).  
A análise das charges leva em conta seu conteúdo visual e verbal, o contexto  
de publicação, os personagens representados e os sentidos sugeridos. Para isso,  
foram utilizadas categorias analíticas relacionadas ao discurso, à ironia, à crítica  
social e ao enquadramento simbólico da imagem (Silva, 2016).  
ANÁLISE DAS CHARGES DO CHARLIE HEBDO (2015-2025)  
A análise a seguir examina um conjunto de charges publicadas pelo Charlie  
Hebdo entre 2015 e 2025, com foco em três eixos temáticos recorrentes: a crítica  
à política interna francesa, a resposta editorial ao atentado de 2015 e a sátira de  
questões internacionais.  
Por meio da ironia, do exagero gráfico e da apropriação de contextos  
geopolíticos, o jornal constrói narrativas visuais que tensionam os limites entre  
a crítica legítima e a provocação deliberada. A primeira montagem analisada  
(Figura 2) ilustra como a publicação utiliza o conflito israelo-palestino como  
espelho para refletir e denunciar problemas sociais e políticos na França.  
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Figura 2 — Montagem de charges sobre Gaza e política francesa  
em: 20 fev. 2025  
As charges selecionadas para esta análise foram publicadas pelo Charlie  
Hebdo em meio à intensificação do conflito Israel-Palestina. Ambas utilizam a  
devastação de Gaza como metáfora crítica ao contexto político francês.  
A primeira charge (à esquerda) retrata a Côte d’Azur em ruínas, com prédios  
destruídos e cartazes da prefeitura de Nice e do partido Les Républicains. A  
ironia reside na inversão de uma proposta real do presidente americano Donald  
Trump, que sugeriu transformar Gaza em uma nova “Côte d’Azur”. Aqui, os políticos  
francesesparecemdesejarooposto:transformaraRivieraFrancesaemumazona  
de guerra. Entre os caricaturados, nota-se figuras como Éric Ciotti, enfatizando  
a crítica à guinada securitária e xenófoba das políticas locais.  
A segunda charge (à direita) também utiliza o cenário da destruição, com  
uma placa informando que “Gaza é cidade-irmã de Villeneuve-Saint-Georges”, um  
subúrbio parisiense conhecido por sua precarização urbana. O título refere-se à  
derrota de Louis Boyard, jovem deputado do La France Insoumise, que simboliza  
uma esquerda antissistema. A fala irônica sugere que sua derrota inviabilizou  
qualquer perspectiva de paz, escancarando o ceticismo diante do discurso  
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político convencional.  
Ambas as imagens usam a guerra como alegoria para criticar o abandono das  
periferiasfrancesas,ahipocrisiapolíticaeooportunismoeleitoral.Aanalogiacom  
Gaza opera como choque visual e discursivo: uma denúncia do empobrecimento  
urbano e da violência simbólica nos centros metropolitanos europeus.  
Figura 3 — Capa comemorativa de 10 anos do atentado  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo  
A capa da edição especial de 7 de janeiro de 2025 estampa a palavra  
INCREVABLE!” (“Inquebrável!”) e mostra uma figura caricatural sentada sobre um  
fuzil AK-47, sorrindo enquanto segura a própria revista. A referência direta ao  
atentado de 2015 é reforçada pelas datas “2015-2025” ao pé da imagem.  
O fuzil, símbolo do terrorismo jihadista, é ressignificado como base literal da  
resistência editorial. A figura sorridente representa o próprio espírito do Charlie  
Hebdo, zombeteiro, provocador e resistente. O uso de amarelo vivo e traços  
simples remete ao estilo tradicional do jornal.  
À direita, uma caixa de texto informa que 76% dos franceses apoiam a  
liberdade dos cartunistas (Sondage IFOP). A metalinguagem da imagem dentro  
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da imagem, com o personagem segurando a própria edição, reforça a ideia de  
autorreferência e continuidade; mesmo sob ameaça, o jornal sobrevive e reafirma  
seu papel provocador.  
Essa imagem articula ironia e desafio, condensando a postura editorial do  
periódico após uma década de polarização em torno da liberdade de expressão e  
seus limites.  
Figura 4 — Charges internacionais (março de 2025)  
Acesso em: 11 mar. 2025  
A montagem acima reúne três charges publicadas em março de 2025 na  
seção internacional do periódico.  
Na Charge 1: “Groenlandeses que querem ser americanos”: um homem ártico  
constrói um iglu com a frase “não há nada melhor que um obeso para construir  
um iglu”. Trata-se de uma crítica ao imperialismo cultural dos EUA, relembrando  
a proposta de Trump de comprar a Groenlândia. A figura do obeso remete ao  
estereótipo americano e à crítica ao consumismo e à colonização simbólica.  
Na Charge 2: “Trump agradece à Kremlin Production”: Donald Trump aparece  
recebendo um prêmio César pelo “pior roteiro da Terceira Guerra Mundial”,  
ironizando sua proximidade com a Rússia e sua retórica belicista. A imagem  
subverte a celebração artística e denuncia a espetacularização da política externa  
e das alianças obscuras.  
Na Charge 3: “Abandono de cães em progressão”: a imagem mostra um  
veículo abandonando dois indivíduos amarrados no acostamento de uma estrada.  
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Um deles é claramente um homem barbudo. O título, que sugere um aumento  
no abandono de cães, é contrastado visualmente pela presença de humanos  
tratados como animais descartáveis. A analogia propõe uma crítica social à  
desumanização de populações vulneráveis, possivelmente imigrantes ou sem-  
teto, retratadas como descartáveis por políticas públicas ou pela sociedade. A  
charge provoca desconforto ao equiparar a negligência com animais à negligência  
institucional com seres humanos.  
A charge que equipara o abandono de seres humanos ao de animais (Figura 4)  
pode ser lida à luz da perspectiva de Eagleton (2019) sobre a política do humor. Ao  
provocar desconforto através da comparação chocante, o cartunista não apenas  
denuncia uma mazela social, mas também escolhe quem será o alvo da ironia e  
qual dor será tornada espetáculo. Essa escolha, como lembra Serna (2015), nunca  
é ingênua: ela reflete e reforça posições no campo de batalha simbólico que é a  
esfera pública.  
Esse tipo de leitura exige cuidado com o contexto sociopolítico francês  
recente, que envolve: crises migratórias (2023-2024), políticas de remoção  
de acampamentos de imigrantes em Paris e crescente discurso público de  
desumanização de grupos marginalizados. Essas charges usam ironia, exagero  
e violência gráfica para denunciar a banalização da barbárie, a hipocrisia dos  
discursos humanitários e o cinismo das lideranças políticas globais (Morales,  
2017).  
Bergson, em sua obra O Riso: Ensaio sobre a Significação do Cômico (1993),  
argumenta que o riso surge quando há uma mecanicidade no humano, ou seja,  
quando uma ação se torna repetitiva ou automática e perde a espontaneidade  
da vida. Além disso, ele destaca que o riso é social. O humor ocorre em um  
contexto coletivo e funciona como uma forma de correção social, expondo  
comportamentos que fogem da norma ou são considerados ridículos.  
As charges analisadas no artigo, muitas vezes, ridicularizam figuras políticas  
e situações sociais para expor hipocrisias ou incoerências. Por exemplo, a  
charge sobre Donald Trump recebendo um “César do pior roteiro para a Terceira  
Guerra Mundial” (Figura 4) utiliza a sátira para ironizar sua relação com conflitos  
internacionais. Isso se alinha à ideia bergsoniana de que o riso é um mecanismo  
de crítica social.  
Além disso, a comicidade exige distância emocional. Para o riso ocorrer, o  
público precisa estar emocionalmente distanciado do objeto da piada. O jornal  
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frequentemente explora temas sensíveis, como guerras e crises sociais, mas  
trata essas situações com humor ácido. Isso pode causar indignação entre  
aqueles que sentem proximidade emocional com os temas abordados. A rejeição  
de algumas comunidades às charges pode ser explicada pela ausência dessa  
“distância emocional” necessária para que o riso ocorra.  
Propp, em Comicidade e Riso (1992), categoriza diferentes tipos de humor  
e destaca o riso sarcástico como um dos mais recorrentes na sociedade. Esse  
tipo de riso é baseado na ridicularização e na crítica social. Propp explica que  
a sátira, principalmente a política, recorre ao sarcasmo para enfatizar falhas e  
contradições no poder.  
As charges analisadas no artigo fazem uso do sarcasmo para criticar líderes  
políticos e situações sociais. A charge que faz uma analogia entre Gaza e a cidade  
francesa de Villeneuve-Saint-Georges (Figura 1), por exemplo, usa o exagero para  
enfatizar a ideia de que certas políticas locais estão transformando cidades  
francesas em zonas de conflito.  
Segundo Propp (1992), o riso pode ser uma forma de expor desigualdades e  
revelar verdades ocultas. Muitas charges não apenas fazem rir, mas provocam  
desconforto ao revelar aspectos controversos da sociedade. A charge sobre o  
abandono de crianças, comparando-o ao abandono de cães, exemplifica essa  
abordagem ao usar uma metáfora provocativa para denunciar descasos sociais.  
Issodito,osconceitosdeBergson(1993)ePropp(1992)ajudamacompreender  
a força crítica do Charlie Hebdo. Enquanto Bergson explica por que o riso pode ser  
uma ferramenta de correção social e por que certas piadas são mais polêmicas  
dependendo da proximidade emocional do público, Propp mostra como o  
sarcasmo e a ironia são utilizados para questionar estruturas de poder. Assim, as  
charges do jornal não são apenas cômicas, mas também ferramentas de reflexão  
política e social.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Face ao exposto, a análise realizada, enriquecida por perspectivas históricas  
como a de Serna (2015) e teórico-políticas como a de Eagleton (2019), confirma  
que o humor do Charlie Hebdo é intrinsecamente político. Mais do que um  
simples exercício de crítica, suas charges atuam como gestos de demarcação de  
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fronteiras simbólicas em uma sociedade francesa profundamente marcada por  
debates sobre laicidade, identidade nacional e integração. O riso que provocam,  
seja emancipatório, seja excludente, é, portanto, um sintoma das feridas abertas  
no tecido social contemporâneo.  
A análise das charges do Charlie Hebdo, publicadas entre 2015 e 2025, revela  
a persistência de uma linguagem satírica que provoca, desafia e, por vezes,  
fere. Através do uso da ironia, do sarcasmo e da transgressão simbólica, o jornal  
francêstensionaoslimitesdaliberdadedeexpressãoemcontextosdemocráticos  
e pluriculturais (Udupa, 2023). A recorrência de temas como religião, imigração,  
conflitos geopolíticos e política interna francesa mostra que o Charlie Hebdo  
atua como um espelho distorcido da sociedade: devolve à esfera pública as suas  
contradições e hipocrisias, amplificadas pelo traço gráfico.  
A pesquisa demonstrou que, embora o humor gráfico seja um recurso  
legítimo de crítica, ele também carrega responsabilidades. O atentado de 2015  
não apenas marcou tragicamente a história do jornal, mas também acentuou  
os dilemas éticos da comunicação satírica. As charges analisadas mostram que  
o riso nem sempre é libertador; muitas vezes, ele é incômodo, divisivo ou até  
mesmo excludente (Oliveira; Almeida, 2006).  
Dessa forma, compreender o Charlie Hebdo requer um olhar crítico, atento às  
condições históricas de produção de suas charges, à intencionalidade do humor  
e às reações que ele provoca. O estudo reforça a importância de se refletir sobre  
o papel da mídia na construção de discursos sociais e sobre os limites do humor  
como forma de intervenção pública.  
Em síntese, o artigo contribui para o debate sobre liberdade de expressão  
e diversidade cultural, propondo uma leitura contextualizada das charges como  
dispositivos discursivos. Ao mesmo tempo em que defende a importância do riso  
como ferramenta de crítica, reconhece os riscos de sua instrumentalização em  
contextos de tensão política e desigualdade simbólica.  
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