RESENHAS  
A DÍVIDA IMPAGÁVEL: UMA CRÍTICA FEMINISTA, RACIAL  
E ANTICOLONIAL DO CAPITALISMO  
UNPAYABLE DEBT  
1
Allicka Cardoso Sabino Belisario  
Luís Fernando Brinatti2  
Recebido em: 29 de setembro de 2025.  
Revisão final: 25 de fevereiro de 2026.  
A p r o v a d o e m : 2 5 d e fe v e r e ir o d e 2 0 2 6 .  
1 Graduada em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia e Ciência Política, pela Universidade Federal de São Car-  
los (UFSCar), onde atualmente é discente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Membro do Laborató-  
rio de Estudos Culturais Interseccionais Históricos – Leci Brandão (LECIH). E-mail: allickasabino@estudante.ufscar.br  
2 Graduado em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia e Sociologia, pela Universidade Federal de São Carlos  
(UFSCar), onde atualmente é discente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Membro do Laboratório  
de Experimentações Etnográficas (LE-E) e do Laboratório de Estudos Culturais, Interseccionais Históricos – Leci Bran-  
dão (LECIH). E-mail: lfbrinatti@estudante.ufscar.br  
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SILVA, Denise Ferreira da. A dívida impagável: uma crítica feminista, racial e anticolonial do  
capitalismo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.  
Publicado em português no ano de 2019  
pela Editora Cobogó, A dívida impagável (2024  
[2019]) reúne uma série de ensaios da filósofa e in-  
telectual brasileira Denise Ferreira da Silva, escri-  
tos ao longo da primeira e da segunda década dos  
anos 2000. Esses textos refletem um momento de  
inflexão na teoria crítica contemporânea global,  
caracterizado pelo deslocamento do debate sobre  
raça e colonialismo das esferas sociais imediatas  
para um plano mais profundo, que envolve a crítica  
à própria estrutura epistêmica e ontológica da mo-  
dernidade ocidental.  
A argumentação da autora se estrutura em  
quatro ensaios que se encadeiam como movimen-  
tos de desmontagem da racionalidade moderna.  
Do diagnóstico epistemológico em “Nem mesmo  
pela lei daqui” à exploração do valor racializado em  
“A mais perfeita alucinação”, passando pela proposição de uma outra linguagem conceitual e  
culminando na meditação narrativa sobre a impossibilidade de reparação em “Onde a carne se  
uniu ao gesso”, a autora mostra como a modernidade se ergue sobre três operações funda-  
mentais (separabilidade, determinabilidade e sequencialidade) que servem de dispositivos de  
violência e expropriação. A estrutura da obra, portanto, não é meramente formal; ela integra  
a própria estratégia crítica de expor os limites da filosofia, da economia e do direito quando  
confrontados com a experiência negra.  
Esse movimento, por sua vez, não se deu por acaso. No plano político, assistia-se à  
intensificação de debates em torno das reparações coloniais, às mobilizações negras trans-  
nacionais contra a violência policial e o encarceramento em massa, além das primeiras mani-  
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festações que dariam origem ao movimento Black Lives Matter3. Simultaneamente, no plano  
acadêmico, a pensadora jamaicana Sylvia Wynter (2003; 2015) e os (as) pensadores (as) esta-  
dunidenses como Hortense J. Spillers (2021 [1987]), Saidiya Hartman (1997) e Fred Moten (2003;  
2013) já vinham elaborando críticas radicais ao humanismo ocidental e suas instituições.  
É nesse contexto que a filósofa insere sua obra, articulando-a a uma crítica da  
arquitetura da política neoliberal moderna e do capital global, ao argumentar que a subjugação  
racial não constitui uma anomalia, mas, ao contrário, um componente essencial sustentado  
pelos princípios fundamentais do pensamento pós-iluminista. Assim, não se trata apenas de  
mais uma contribuição ao debate, antes, propõe-se uma verdadeira ruptura com as categorias  
fundamentais que sustentam a razão moderna, da economia capitalista e o direito liberal.  
A autora brasileira, nascida no Rio de Janeiro, consolidou sua trajetória no cenário aca-  
dêmico internacional, destacando-se como uma figura singular no pensamento crítico con-  
temporâneo. Formada em Ciências Sociais no Brasil, Denise Ferreira da Silva ampliou seus  
horizontes ao se deslocar para os Estados Unidos, onde teve contato com diversas tradições  
intelectuais, incluindo as teorias críticas da raça, os estudos culturais, a filosofia política e a  
estética experimental.  
Sua obra Toward a Global Idea of Race (2007) já indicava o projeto de pensar a racia-  
lidade não como dado sociológico, mas como condição de possibilidade do mundo moderno.  
Em A dívida impagável (2024), essa intuição é levada às últimas consequências: a racialidade  
deixa de ser apenas um efeito histórico para se constituir como uma gramática epistêmica,  
inscrita nas categorias de sujeito, tempo, valor e propriedade. A filósofa tem como ferramenta  
analítica central o corpo cativo ferido na cena da subjugação, para desmantelar o que chama  
de dialética racial. Essa dialética opera como uma lógica reversa que torna a negritude tanto  
causa quanto consequência de sua própria subjugação, obscurecendo assim os mecanismos  
jurídicos e econômicos do estado liberal e do capital que produzem e lucram com ela. Nesse  
sentido, a análise desconstrói os pilares fundamentais do pensamento moderno argumentan-  
do que esses são sustentados por uma força de necessidade que opera sob um verniz de liber-  
dade.  
A ferramenta mencionada trata-se de um instrumento “re/de/compositivo” criado para  
expor e analisar o funcionamento da categoria sócio-científica da negritude, sendo inspira-  
da profundamente na obra de Hortense J. Spillers (2021 [1987]). A origem de seu pensamento  
baseia-se nas distinções feitas por Spillers entre “corpo cativo” (jurídico e econômico), “carne”  
(ético) e “cor de pele” (simbólico). Explicando de forma detalhada essas três distinções, o pri-  
3 Black Lives Matter é um movimento social criado em 2013, nos Estados Unidos, a partir da hashtag #BlackLivesMa-  
tter. Surgiu após a absolvição de George Zimmerman pela morte de Trayvon Martin, caso que gerou grande indignação  
pública. O movimento foi fundado por Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, articulando a mobilização digital e  
protestos de rua. Seu objetivo central é denunciar a violência policial e o racismo estrutural que afetam a população negra.  
Ao longo dos anos, organizou manifestações contra casos recorrentes de mortes de pessoas negras por agentes do Esta-  
do.Em 2020, ganhou dimensão global após o assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis. Milhões de  
pessoas protestaram nos EUA e em diversos países, ampliando o debate sobre desigualdade racial. O BLM também ques-  
tiona o encarceramento em massa e as disparidades no sistema de justiça criminal. Além das ruas, o movimento impactou  
debates acadêmicos, culturais e políticos sobre racismo e direitos civis. Hoje, tornou-se uma referência internacional na  
luta por justiça racial e transformação social.  
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meiro representa um status jurídico-econômico do escravizado, um ser definido como pro-  
priedade. Tal concepção interrompe explicações baseadas em diferença cultural ao destacar  
a história material de expropriação e violência total. A segunda dimensão, é a carne imaginada  
por meio da ferida (carne ferida), que expõe a realidade da violência total autorizada e a condi-  
ção de desproteção jurídica. É o local primário da consideração ética – aquilo que pode ser vio-  
lado versus o que deve ser protegido. Logo, a cor da pele, atua no nível simbólico, tornando-se  
índice de atributos morais, culturais e intelectuais; o exemplo do relatório Moynihan4 mostra  
como a “etnicidade” utiliza a pele negra para significar uma estrutura familiar patológica.  
Além da produção acadêmica, a autora atua intensamente no campo artístico, dirigin-  
do filmes, produzindo instalações e colaborando com artistas contemporâneos. Essa interlo-  
cução interdisciplinar não é secundária: na poética negra feminista que ela propõe no livro,  
estética e epistemologia se confundem como formas de conhecer e de intervir no mundo. A  
exemplo disso, é quando a tese central da filósofa é articulada por meio da metáfora da dívida  
impagável (2024), inspirada no romance Kindred (1979), da estadunidense Octavia Butler, que  
descreve uma obrigação herdada que recai sobre aqueles que não a criaram e que não podem  
ser diretamente, responsabilizados por pagá-la.  
Dana, uma mulher negra dos anos de 1970 em Los Angeles, é repetidamente transpor-  
tada para o passado, à Maryland escravista, para salvar a vida de Rufus, seu ancestral branco  
e proprietário de escravizados. Essa obrigação forçada serve como ilustração da dívida impa-  
gável. Nesse sentido, a natureza da dívida, trata-se de uma obrigação imposta a alguém que  
não é responsável por sua criação. Sendo assim, o dever de Dana de salvar Rufus não resulta  
de suas próprias decisões, mas de uma imposição histórica que viola o tempo linear e a causa-  
lidade; seu retorno ao presente, onde seu braço é decepado e permanece embutido na parede  
de sua casa, serve como a “evidência incompreensível” desse emaranhamento trans-temporal  
e violento (SILVA, 2024).  
Diante disso, o nexo ético-econômico diz que a dívida impagável é utilizada para ana-  
lisar lógica que rege crises modernas. Nesse sentido, nos deparamos com acontecimentos  
específicos, tais como a crise financeira de 20085, em que pessoas negras e latinas com em-  
préstimos subprime eram inicialmente vistas como economicamente valiosas, justamente por  
4 O relatório de Moynihan de 1965 é uma articulação típica da dialética racial. Após recordar séculos de escravidão  
e décadas de segregação, e de registrar como a expropriação (renda, padrões de vida) caracteriza a situação econômica  
dos estadunidenses negros nos Estados Unidos,12 ele conclui que o “problema fundamental” é a “estrutura familiar”, o  
fato de ela estar “desmoronando”, e argumenta que, “enquanto essa situação persistir, o ciclo de pobreza e desvantagem  
continuará a se repetir” (SILVA, 2024, p. 24).  
5 A crise financeira de 2008 foi uma das maiores crises econômicas globais desde a Grande Depressão de 1929.  
Teve origem nos Estados Unidos, a partir do colapso do mercado imobiliário e da concessão de empréstimos de alto  
risco, conhecidos como “subprime”. Bancos e instituições financeiras concederam crédito a pessoas sem condições de  
pagamento, estimulados por especulação e desregulamentação. Essas dívidas foram transformadas em produtos finan-  
ceiros complexos e vendidos no mercado internacional. Quando muitos mutuários deixaram de pagar suas hipotecas, o  
sistema começou a entrar em colapso. Em setembro de 2008, o banco Lehman Brothers declarou falência, agravando o  
pânico global. Diversas instituições financeiras enfrentaram quebras ou precisaram de resgates bilionários do governo. A  
crise se espalhou para a Europa e outras regiões, provocando recessão mundial. Milhões de pessoas perderam empregos,  
casas e poupanças. O episódio revelou fragilidades do sistema financeiro internacional e gerou debates sobre regulação e  
responsabilidade econômica.  
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sua provável inadimplência e quando essa inadimplência se concretizou, foram responsabili-  
zadas eticamente pelo colapso iminente da economia global e também a violência policial, em  
que a mesma lógica aparece nos assassinatos de pessoas negras desarmadas pela polícia e a  
morte é atribuída a uma suposta falha moral ou uma ameaça inerente da vítima, justificando  
a violência. Sendo assim, em ambos os casos, está em operação uma dialética racial, ou seja,  
um mecanismo que faz a subjugação racial parecer alheia às estruturas centrais do liberalismo  
político ao transformar crises econômicas e jurídicas em falhas éticas atribuídas à diferença  
racial.  
No capítulo “Futuro Anterior”, nos deparamos logo de início com a seguinte advertên-  
cia: “qualquer tentativa de resumir um capítulo – e, nesse sentido, todo o livro – será insatisfa-  
tória e muito provavelmente distorcerá, já que uma descrição do que é feito não pode repetir  
como é feito” (SILVA, 2024, p. 18). Cientes dessa limitação, mas também movidos pelo desejo  
de compartilhar a densidade das reflexões apresentadas, nos propomos aqui a caminhar com  
atenção e respeito pelos principais pontos desenvolvidos, buscando preservar, tanto quanto  
possível, a complexidade do texto original. Nesse sentido, como citado anteriormente, a obra  
está organizada em quatro ensaios, cada um dedicado a uma dimensão específica da crítica  
proposta pela filósofa.  
No primeiro, intitulado “Nem mesmo pela lei daqui”, a autora expõe seu projeto metodo-  
lógico, que consiste em desmontar as chamadas “leis do entendimento moderno”, sintetizadas  
em três princípios fundamentais antes mencionados. O que a filósofa analisa é que o corpo ca-  
tiva ferida aqui desestabiliza a separação entre humano versus coisa, mostrando que a escrava  
é ao mesmo tempo mercadoria e algo que excede qualquer categorização natural ou artificial.  
Esses dispositivos, herdados da filosofia moderna, especialmente de pensadores europeus  
como René Descartes (1641), Immanuel Kant (1791), Georg F. Hegel (1807), fundamentam tanto a  
organização do conhecimento quanto às práticas jurídicas e econômicas.  
A análise que a autora propõe fazer mostra os pilares centrais do pensamento pós-ilu-  
minista, afirmando que seus conceitos fundamentais não são neutros, mas sim construídos  
como forma a necessitar e perpetuar a violência. Diante disso, os princípios se encarregam  
de mostrar a ideia de que entidades são distintas e não podem ser conhecidas isoladamen-  
te; a análise propõe uma realidade de implicação profunda (separabilidade). Por outro lado, o  
determinismo se dá como princípio de que o conhecimento consiste em identificar causas e  
efeitos. A autora propõe a indeterminabilidade, reconhecendo a complexidade infinita de tudo  
que existe. Já a sequencialidade, por sua vez, expressa a fé em um tempo linear, progressivo,  
que estrutura tanto a narrativa histórica quanto a economia capitalista. Dessa forma, a autora  
demonstra como esses princípios não apenas organizaram o pensamento, mas possibilitaram  
práticas de dominação racial: a escravização e a colonização só puderam ser concebidas por-  
que a racionalidade moderna produziu sujeitos universais e, ao mesmo tempo, relegou corpos  
racializados à condição de “coisas”, incapazes de agência ou de titularidade.  
Em sequência, o segundo ensaio, intitulado “a mais perfeita alucinação” aprofunda esse  
diagnóstico, examinando a articulação entre racialidade e valor. Aqui a interlocução com Karl  
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Marx (1894) é explícita. Se para Marx a acumulação primitiva foi um momento inicial do capita-  
lismo, marcado pela violência da expropriação, para Denise Ferreira a escravidão e a coloniza-  
ção não são episódios transitórios, mas constitutivos e permanentes da lógica do valor. Nesse  
sentido, vemos como a demonstração do valor criado pelo “trabalho escravizado” é sistema-  
ticamente apagado da equação de valor de Marx, sendo relegado a um estágio pré-capitalista  
de acumulação primitiva.  
Esse apagamento, facilita um processo de acumulação negativa para os descenden-  
tes dos escravizados; um déficit econômico que a dialética racial transborda em uma falha  
moral ou biológica inerente. Diante disso, se propõe uma reimaginação radical da existência  
para além dos limites da epistemologia moderna, advogando por uma ontologia baseada na  
implicação profunda, na infinitude e na complexidade fractal; um arcabouço desenhado para  
dissolver o próprio conceito de valor e pôr fim ao mundo sustentado pela violência.  
Portanto, o capital não existe sem racialidade. Mais do que isso: o próprio trabalho es-  
cravizado, em sua capacidade criativa, foi apropriado como capital, de tal modo que a “carne”  
negra não apenas produziu mercadorias, mas converteu-se, ela própria, em mercadoria. Esse  
processo de mercantilização da vida negra não se encerra no século XIX. Ao contrário, ressur-  
ge nas formas contemporâneas de financeirização, como o crédito hipotecário e a securitiza-  
ção de dívidas. Tais dispositivos revelam a persistência de mecanismos de captura da vida,  
que reafirmam a lógica de exploração e objetificação racial (SILVA, 2024).  
Ao enfatizar essa continuidade, Silva (2024) distancia-se de interpretações que tratam  
a escravidão como uma anomalia ou acidente histórico. Para a autora, o capitalismo é estru-  
turalmente racializado, e toda crítica que não reconheça esse traço permanece incompleta e,  
portanto, insuficiente. A autora, nesse sentido, denuncia como o pensamento moderno subs-  
tituiu o determinismo científico do século XIX por um regime interpretativo que, no entanto,  
não rompeu com as estruturas raciais anteriores. A corpo cativa, reintroduz o problema jurídi-  
co-econômico rompendo com a lógica hegeliana do reconhecimento e expondo a dominação  
como baseada na propriedade.  
O terceiro ensaio da obra, intitulado “uma outra língua”, apresenta possivelmente o ges-  
to teórico mais ousado da autora: uma formulação matemática que enuncia a impossibilida-  
de de calcular a vida negra segundo os parâmetros do valor moderno. Nesse ponto, a fórmula  
apresentada pela autora: “1 (Vida) ÷ 0 (Negridade) = ∞” aparece como gesto conceitual e poéti-  
co de grande força. Do ponto de vista matemático, dividir por zero é uma operação impossível,  
pois não há número real que satisfaça a equação. Entretanto, se observada como limite, a ra-  
zão tende ao infinito.  
Nesse sentido, a autora mobiliza essa ambivalência para expressar que, se a vida é co-  
locada em relação com uma negridade reduzida à nulidade pelo regime moderno, o resultado  
é um excesso incalculável. Assim, a fórmula condensa de modo performativo a falência do cál-  
culo capitalista diante da experiência negra: aquilo que é tomado como zero explode a lógica  
do valor, revelando um infinito que não pode ser reparado nem mensurado.  
Essa formalização matemática, inserida no corpo do texto, cumpre papel duplo. De um  
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lado, é um recurso conceitual que radicaliza a crítica, ao traduzir em notação a impossibilidade  
de subsumir a vida negra às categorias modernas. De outro, é estratégia poética que se alinha  
à “poética negra feminista” que a autora reivindica como método, deslocando a expectativa  
do leitor entre filosofia e literatura, entre cálculo e ética. Lida nesse registro, a fórmula não é  
apenas metáfora, mas parte do próprio método: instaurar uma ética de leitura que reconheça  
o caráter impagável da dívida e a irredutibilidade da vida negra.  
Diante disso, nota-se a forma que a autora confronta a teoria de Marx (1859) ao mostrar  
como o Capital é construído mediante a exclusão do trabalho escravizado e das colônias. A  
abstração do trabalho como medida de valor depende de um princípio ético – a liberdade do  
trabalhador. Ao inserir a corpo cativa ferida (que aparece no algodão, matéria-prima marcada  
por trabalho escravo), a autora rompe com essa abstração; Mostra-se, então, que o valor total  
do Capital contém o excedente extraído do corpo escravizado, dissolvendo a fronteira entre  
trabalho livre e escravo.  
Essa estratégia aproxima-se de autoras como Hortense Spillers (1987) e Saidiya Hartman  
(1997), que também ressaltam o caráter inassimilável da experiência negra. Contudo, a autora  
brasileira opera uma inflexão própria ao traduzir tal excesso em termos conceituais e formais,  
abrindo uma brecha na racionalidade matemática e econômica. O resultado é a constatação  
de que toda tentativa de reparar a escravidão e o colonialismo através de indenizações mone-  
tárias ou políticas de reconhecimento está fadada a fracassar, pois permanece prisioneira à  
lógica que produziu a própria expropriação.  
Por fim, o último ensaio, “onde a carne se uniu ao gesso”, que dá título ao livro, condensa  
de forma precisa a tese central de Silva (2024): a dívida é impagável. Ao mobilizar a narrativa de  
Kindred, de Octavia Butler (1979), a autora demonstra como a temporalidade linear da moderni-  
dade, frequentemente representada como uma flecha do tempo, inviabiliza qualquer possibili-  
dade de realização da justiça histórica. O passado não pode ser saldado por compensações no  
presente, porque o débito não é quantificável nem recuperável (SILVA, 2024).  
A conclusão é uma especulação filosófica sobre o fim do mundo moderno tal como o  
conhecemos. A corpo cativa ferida se mostra irredutível tanto ao sujeito moderno quanto ao  
conceito de trabalho. Em seu lugar, a autora propõe uma nova imagem da existência, baseada  
na implicação profunda (um emaranhamento de tudo com tudo) e no corpus infinitum (a re-  
composição perpétua de tudo que existe). Nesse horizonte, o fardo de Dana torna-se a dívida  
colonial de todos, que só pode ser paga com o fim das categorias que sustentam a opressão  
racial, jurídica e econômica.  
A noção de dívida impagável, portanto, extrapola o diagnóstico crítico do presente; ela  
se constitui como um convite à formulação de outras possibilidades de justiça – uma justiça  
que não se fundamenta na propriedade nem no contrato, mas na criação de mundos impli-  
cados, plenos, nos quais as relações não sejam organizadas pela lógica da apropriação e do  
valor. É nesse contexto que a autora propõe a poética crítica negra feminista como método  
e como horizonte; tal poética, inspirada em pensadoras como Wynter (2003), Spillers (1987),  
Hartman (1997) e em artistas visuais como Kara Walker, configura-se como uma prática de lei-  
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tura e criação que busca imaginar outros regimes de sensibilidade. Regimes capazes de aco-  
lher o excesso da vida, sua irredutibilidade, sua singularidade, sem subsumi-las às estruturas  
de dominação do capital, do Estado ou da razão moderna.  
Isto posto, um dos maiores méritos da obra A Dívida Impagável (2024), de Denise Fer-  
reira, reside na sua capacidade de articular, de forma coerente, diversas tradições críticas.  
Ainda que compartilhe com Marx (1859) a crítica ao capital, a autora insiste na centralidade da  
racialidade como elemento estruturante do capitalismo. Acompanhando Sylvia Wynter (2003),  
adere à crítica ao universalismo do homem, mas enfatiza as determinações econômicas da ex-  
clusão. Dialogando com o filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe (2003), apro-  
xima-se da noção de necropolítica, sem deixar de destacar que a administração da morte se  
ancora em categorias epistêmicas racializadas (SILVA, 2024).  
Avançando um pouco mais, a interlocução teórica amplia-se com autoras como a ame-  
ricana Judith Butler (2004), cuja noção de despossessão é radicalizada por Silva (2024) na di-  
reção da negridade. Além disso, com Donna Haraway (1991;2016), partilha-se a recusa do hu-  
manismo tradicional, contudo, tal recusa é reconfigurada a partir da experiência negra. Assim,  
esses diálogos trata-se de uma apropriação que resulta em uma teoria com gramática própria,  
ainda que alimentada por múltiplas fontes.  
Do ponto de vista metodológico, a obra propõe uma contribuição do pensamento filo-  
sófico e contemporâneo político: a poética negra feminista como método. Ao recusar a dico-  
tomia entre razão e estética, a autora afirma que a arte não apenas ilustra, mas produz a teoria.  
Interpretar cenas de valor, analisar imagens e narrativas especulativas não é um desvio teóri-  
co, mas uma via legítima para acessar aquilo que a racionalidade moderna recusa como objeto  
de conhecimento. Essa perspectiva aproxima-se do que Hartman (2008) denominou critical  
fabulation, bem como de tradições afro-diaspóricas que reconhecem, há muito, a oralidade,  
o mito e a performance como formas legítimas de conhecimento. A diferença fundamental  
é que, ao formalizar tais práticas como método filosófico, Silva (2024) contribui para sua le-  
gitimação como epistemologia rigorosa, capaz de disputar, em seu próprio terreno, com os  
paradigmas da razão ocidental.  
Contudo, a densidade do texto não pode ser ignorada. A linguagem experimental, a  
erudição filosófica e as formulações conceituais exigem do leitor uma disposição prolongada  
para o trabalho interpretativo. Essa exigência, no entanto, não deve ser vista como obstáculo,  
mas com parte da proposta teórica da autora. A complexidade do texto reflete a complexidade  
do lugar que a autora busca descrever. Nesse sentido, o livro ultrapassa o campo estrito da  
teoria acadêmica e se apresenta como instrumento político. A filósofa não está em busca de  
oferecer soluções imediatas, mas sim de propor, antes, um deslocamento radical do terreno  
do debate. Enquanto boa parte dos discursos sobre reparação se limitam à lógica do reconhe-  
cimento, a autora propõe uma restituição ontológica, que exige a desestabilização das cate-  
gorias de valor, propriedade e tempo.  
A crítica positiva que se impõe é a rara capacidade da autora de transitar entre campos  
diversos como a filosofia, economia, direito, literatura e arte sem sacrificar a consistência  
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teórica. A interdisciplinaridade aqui não é um gesto superficial, mas um projeto que possui ta-  
manha rigorosidade diante das diferentes referências mobilizadas e integradas a um horizonte  
mais amplo, cuja ambição é nada menos que a reinvenção do mundo.  
Se há limites, eles residem justamente na radicalidade. Ao declarar a dívida impagável, a au-  
tora abre um horizonte ético-político, mas não oferece soluções operacionais. Esse aspecto,  
antes de ser uma falha, pode ser compreendido como um convite, em que cabe às coletivida-  
des, aos movimentos, às práticas artísticas e jurídicas traduzir essa crítica em intervenções  
concretas. O livro não fecha um projeto; inaugura um campo.  
Em conclusão, A dívida impagável (2024) é uma obra incontornável para qualquer reflexão  
séria sobre capitalismo, racismo e colonialidade. Sua relevância está não apenas na crítica  
profunda às categorias fundacionais da modernidade, mas na coragem de propor caminhos  
alternativos de pensamento e de ação. Ao insistir que a dívida é impagável, Denise Ferreira da  
Silva não convida ao desespero, mas à invenção. De outras formas de justiça, de outras formas  
de vida, de outros mundos. A dívida é impagável, mas o pensamento que ela mobiliza é incal-  
culavelmente fecundo.  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280