RESENHAS
meiro representa um status jurídico-econômico do escravizado, um ser definido como pro-
priedade. Tal concepção interrompe explicações baseadas em diferença cultural ao destacar
a história material de expropriação e violência total. A segunda dimensão, é a carne imaginada
por meio da ferida (carne ferida), que expõe a realidade da violência total autorizada e a condi-
ção de desproteção jurídica. É o local primário da consideração ética – aquilo que pode ser vio-
lado versus o que deve ser protegido. Logo, a cor da pele, atua no nível simbólico, tornando-se
índice de atributos morais, culturais e intelectuais; o exemplo do relatório Moynihan4 mostra
como a “etnicidade” utiliza a pele negra para significar uma estrutura familiar patológica.
Além da produção acadêmica, a autora atua intensamente no campo artístico, dirigin-
do filmes, produzindo instalações e colaborando com artistas contemporâneos. Essa interlo-
cução interdisciplinar não é secundária: na poética negra feminista que ela propõe no livro,
estética e epistemologia se confundem como formas de conhecer e de intervir no mundo. A
exemplo disso, é quando a tese central da filósofa é articulada por meio da metáfora da dívida
impagável (2024), inspirada no romance Kindred (1979), da estadunidense Octavia Butler, que
descreve uma obrigação herdada que recai sobre aqueles que não a criaram e que não podem
ser diretamente, responsabilizados por pagá-la.
Dana, uma mulher negra dos anos de 1970 em Los Angeles, é repetidamente transpor-
tada para o passado, à Maryland escravista, para salvar a vida de Rufus, seu ancestral branco
e proprietário de escravizados. Essa obrigação forçada serve como ilustração da dívida impa-
gável. Nesse sentido, a natureza da dívida, trata-se de uma obrigação imposta a alguém que
não é responsável por sua criação. Sendo assim, o dever de Dana de salvar Rufus não resulta
de suas próprias decisões, mas de uma imposição histórica que viola o tempo linear e a causa-
lidade; seu retorno ao presente, onde seu braço é decepado e permanece embutido na parede
de sua casa, serve como a “evidência incompreensível” desse emaranhamento trans-temporal
e violento (SILVA, 2024).
Diante disso, o nexo ético-econômico diz que a dívida impagável é utilizada para ana-
lisar lógica que rege crises modernas. Nesse sentido, nos deparamos com acontecimentos
específicos, tais como a crise financeira de 20085, em que pessoas negras e latinas com em-
préstimos subprime eram inicialmente vistas como economicamente valiosas, justamente por
4 “O relatório de Moynihan de 1965 é uma articulação típica da dialética racial. Após recordar séculos de escravidão
e décadas de segregação, e de registrar como a expropriação (renda, padrões de vida) caracteriza a situação econômica
dos estadunidenses negros nos Estados Unidos,12 ele conclui que o “problema fundamental” é a “estrutura familiar”, o
fato de ela estar “desmoronando”, e argumenta que, “enquanto essa situação persistir, o ciclo de pobreza e desvantagem
continuará a se repetir” (SILVA, 2024, p. 24).
5 A crise financeira de 2008 foi uma das maiores crises econômicas globais desde a Grande Depressão de 1929.
Teve origem nos Estados Unidos, a partir do colapso do mercado imobiliário e da concessão de empréstimos de alto
risco, conhecidos como “subprime”. Bancos e instituições financeiras concederam crédito a pessoas sem condições de
pagamento, estimulados por especulação e desregulamentação. Essas dívidas foram transformadas em produtos finan-
ceiros complexos e vendidos no mercado internacional. Quando muitos mutuários deixaram de pagar suas hipotecas, o
sistema começou a entrar em colapso. Em setembro de 2008, o banco Lehman Brothers declarou falência, agravando o
pânico global. Diversas instituições financeiras enfrentaram quebras ou precisaram de resgates bilionários do governo. A
crise se espalhou para a Europa e outras regiões, provocando recessão mundial. Milhões de pessoas perderam empregos,
casas e poupanças. O episódio revelou fragilidades do sistema financeiro internacional e gerou debates sobre regulação e
responsabilidade econômica.
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280