DOSSIÊ
— e a percepção crítica do artista — de um governante incapaz de lidar com crises globais.
Além disso, o humor visual reforça a crítica ao personalismo político. Ao colocar o
mundo nas mãos de Trump, mas mostrar essas mãos inertes, a charge sugere que o destino
global não pode ser reduzido à figura de um “salvador”. O riso, portanto, não é apenas zombaria:
ele funciona como ferramenta de deslegitimação, desmontando o imaginário heroico e
revelando suas contradições. Nesse sentido, a charge exemplifica como o humor político pode
transformar figuras de autoridade em objetos de escárnio, enfraquecendo simbolicamente
seu poder.
Não por acaso, regimes autoritários frequentemente temem o riso. O medo não
está no conteúdo explícito, mas na sua capacidade de circular, de contaminar, de produzir
identificação. O humor é, nesse sentido, uma linguagem viral — e, como tal, difícil de controlar.
Ao mesmo tempo, o dossiê nos lembra que o humor não se limita ao campo político
institucional. Ele atravessa práticas culturais diversas: o cordel, o cinema, a arte gráfica, a
literatura, a cultura popular. No cordel de Cuíca de Santo Amaro, por exemplo, a sátira opera
como forma de comentário histórico; em Quino, o humor gráfico se torna espaço de observação
crítica do cotidiano; nas análises sobre poder racial na América Latina, o riso revela e tensiona
estruturas de dominação.
Essas múltiplas formas apontam para uma questão central: o humor é uma prática
cultural situada. Ele emerge de contextos específicos, dialoga com repertórios locais, mobiliza
memórias coletivas. Pensá-lo exige, portanto, uma abordagem que articule estética, política
e história.
É nesse mesmo horizonte que os demais textos desta edição se inscrevem. O artigo
“Rojo Amanecer” reabre o debate sobre memória e violência na América Latina; o estudo sobre
“Plantas Alimentícias Não Convencionais no Recôncavo da Bahia” desloca o olhar para práticas
de resistência no campo da alimentação e da cultura; as resenhas de “A dívida impagável”,
“Fascismo e imaginário literário” e “Jornal Sem Terra” ampliam o campo de reflexão, conectando
humor, economia, política e produção cultural.
O conjunto evidencia que, longe de desaparecer, o humor se reconfigura. Ele se
desloca, se reinventa, se intensifica. Em tempos de guerra — literal ou simbólica —, o riso não é
um luxo: é uma necessidade. Mas uma necessidade que exige responsabilidade crítica.
Talvez a pergunta que deva orientar nossa leitura não seja se estamos diante do
fim do humor, mas que tipo de humor está em jogo. Quem ri? De quê? Contra quem? Em que
condições?
Responder a essas perguntas é fundamental para compreender o papel do riso no
mundo contemporâneo. Porque, no limite, o humor é também uma forma de imaginar o possível.
E, em tempos sombrios, imaginar já é um gesto de resistência.
Se o riso pode ser macabro — como a hiena que ri quando ronda sua presa —, ele
também pode ser insubmisso. Pode recusar o silêncio, desafiar o medo, expor o absurdo.
Pode, enfim, lembrar-nos de que, mesmo diante da barbárie, a humanidade ainda insiste em
não desaparecer.
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280