APRESENTAÇÃO - O FIM DO HUMOR? O RISO SOB

AMEAÇA AO LONGO DA HISTÓRIA


INTRODUCTION - THE END OF HUMOR? LAUGHTER UNDER THREAT THROUGHOUT HISTORY


Dorothee Chouitem1 https://orcid.org/0000-0003-1415-8514


João Pedro Rosa Ferreira2 https://orcid.org/0000-0003-0860-2471 http://lattes.cnpq.br/7968461820931754


Thaís Leão Vieira3 https://orcid.org/0000-0001-8439-266X http://lattes.cnpq.br/4604071943987756


https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.25578


  1. Docente na Sorbonne Université, França. E-mail: dorothee.chouitem@sorbonne-universite.fr

  2. Bacharel em História pela Universidade de Lisboa. Mestre em História Política e Cultural pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) e doutor em História e Teoria das Ideias pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH). E-mail: jprosaferreira@ gmail.com

  3. Doutora em História pela Universidade Federal de Uberlândia (2011). Professora Asso-ciada da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). E-mail: thaisleaovieira@gmail.com


No sorriso há consentimento, enquanto o riso é muitas

vezes uma recusa.

Victor Hugo, O homem que ri


Longe de constituir um tema periférico ou menor, o humor ocupa lugar central na história das ideias e na experiência humana, justamente porque mobiliza dimensões decisivas da vida social e simbólica: cognição, emoção, sociabilidade, racionalidade, linguagem e cultura. Rir nunca foi apenas um gesto espontâneo ou um efeito passageiro do entretenimento. Ao longo da história, o riso foi objeto de suspeita, condenação, controle, exaltação e reflexão, revelando-se um fenômeno complexo, ambivalente e profundamente implicado nas formas pelas quais os seres humanos percebem o mundo, convivem entre si e produzem sentido.

É nesse horizonte que se inscreve o presente dossiê, “O fim do humor? O riso sob ameaça ao longo da história”, cujo objetivo é reunir reflexões sobre as múltiplas formas de aparecimento, regulação, crise e transformação do humor em diferentes tempos, contextos e tradições. A pergunta que dá título ao conjunto não deve ser entendida apenas em chave apocalíptica ou nostálgica. Interrogar o “fim do humor” significa, antes, investigar historicamente as condições em que o riso se torna problemático, vigiado, interditado ou reconfigurado; significa também perguntar de que maneira o humor sobrevive, resiste, muda de forma e se reinscreve nas disputas morais, políticas, estéticas e epistemológicas de cada época.

Como mostra Adrian Bardon, a filosofia do humor evidencia que não é possível explicá-lo por uma única fórmula simplificadora. Nem a tese de que rimos por superioridade, nem a de que o humor se reduz a alívio emocional dão conta, por si sós, da complexidade do fenômeno. Embora essas interpretações revelem dimensões reais da experiência cômica, Bardon, na esteira de Kant e Schopenhauer, sustenta que uma das formulações filosoficamente mais robustas do humor está na percepção de incongruências, isto é, em mudanças cognitivas súbitas, reorientações interpretativas ou contrastes inesperados entre expectativa e realidade. Nessa perspectiva, o humor emerge como uma espécie de ruptura não ameaçadora de sentido, frequentemente acompanhada de prazer, relaxamento ou reforço social, mas não redutível a esses efeitos. Tal formulação é particularmente fecunda para pensar historicamente o riso, pois permite compreendê-lo não apenas como reação afetiva, mas como operação intelectual, prática cultural e forma social de percepção.

Ao mesmo tempo, o campo contemporâneo dos humours studies, tal como apresentado por Jessica Milner Davis, mostra que o estudo do humor exige abordagem necessariamente multidisciplinar. Filosofia, sociologia, história, literatura, linguística, psicologia, neurociência, estudos da performance, religião, medicina e teoria das emoções têm contribuído para

demonstrar que o humor não admite definição simples nem função única. Se, por um lado, o riso pode favorecer coesão social, aliviar tensões e consolidar pertencimentos, por outro, pode também excluir, humilhar, marcar diferenças e intensificar violências simbólicas. Permanece em aberto, portanto, a questão de saber se o humor une ou divide os seres humanos, ou melhor, em que circunstâncias ele realiza uma ou outra dessas funções.

Esse caráter ambivalente do humor torna ainda mais pertinente a questão central deste dossiê. Falar em “riso sob ameaça” implica reconhecer que o humor nunca existiu em estado puro ou inocente: ele sempre esteve atravessado por regimes de poder, normas de sensibilidade, hierarquias sociais, convenções de linguagem e disputas de legitimidade. Em diferentes momentos históricos, o riso foi considerado sinal de desordem moral, perda de autocontrole, profanação do sagrado, vulgaridade estética ou perigo político. Em outros contextos, foi celebrado como instrumento crítico, forma de inteligência, mecanismo de sobrevivência coletiva ou linguagem privilegiada da liberdade. Entre repressão e emancipação, entre disciplina e subversão, o humor aparece como índice privilegiado das tensões de uma sociedade consigo mesma. Porém, é também o humor que consegue reunir à mesma mesa representantes de diferentes religiões, que concordam, saudavelmente, que “Deus ri”, como sucedeu em Lisboa, em 2017, em um debate entre o católico (hoje cardeal) José Tolentino de Mendonça, o muçulmano xeque Munir e a judia Esther Mucznik, moderado por Ricardo Araújo Pereira e Bruno Nogueira.

O dossiê propõe, nesse sentido, examinar o humor em sua historicidade, recusando tanto sua banalização quanto sua idealização. Interessa-nos compreender como o riso foi moldado por instituições, censuras, moralidades e sensibilidades; como determinados gêneros cômicos foram valorizados ou estigmatizados; como o humor atuou na crítica de costumes, no enfrentamento do poder, na produção de identidades coletivas e na administração de medos, traumas e conflitos. Interessa-nos, igualmente, investigar os momentos em que o humor parece entrar em crise: quando se fala em sua impossibilidade, esgotamento, interdição ou captura por lógicas de mercado, polarização e vigilância social.

Nessa direção, os artigos aqui reunidos revelam a extraordinária variedade de formas pelas quais o humor se articula com conflito, poder e representação. Em “Entre a sátira e o conflito: análise das charges do Charlie Hebdo (2015-2025) e os limites da liberdade de expressão”, Deivid Mota Santana examina um dos casos mais emblemáticos da contemporaneidade, no qual sátira, violência e debate público se entrelaçam de maneira aguda. O estudo parte do atentado de 7 de janeiro de 2015, quando integrantes da redação foram assassinados em resposta a caricaturas publicadas pelo jornal, marco que intensificou as discussões internacionais sobre os limites do humor gráfico. A partir desse contexto, o artigo analisa como o Charlie Hebdo manteve sua linha editorial provocadora, fundada na sátira política, no anticlericalismo e na defesa radical da liberdade de expressão. O estudo sustenta que o Charlie Hebdo ocupa uma posição ambígua no espaço público, sendo ao mesmo tempo símbolo de resistência à censura e foco de controvérsia ética, contribuindo assim para o debate sobre os limites da liberdade de expressão e os efeitos sociais e culturais da sátira.

Já em “O comediante invisível: a tradução do riso na indústria audiovisual contemporânea”, Cristian Palacios desloca a discussão para os circuitos de mediação e adaptação do humor, interrogando os desafios de traduzir o cômico entre línguas, mercados e regimes culturais. Em contraposição ao lugar-comum da intraduzibilidade do humor, o autor demonstra que muitos mecanismos do riso sobrevivem à passagem entre línguas e culturas, pois não dependem exclusivamente do verbal, mas também de elementos como entonação, performance, ritmo, gestualidade, montagem, imagem e convenções compartilhadas da cultura humorística. Ao discutir questões como o castelhano neutro, a fidelidade às vozes da dublagem, o timing humorístico e as condições materiais da indústria, o texto mostra que a tradução humorística envolve invenção, negociação cultural e escolhas ideológicas.

A centralidade histórica do humor gráfico e da caricatura aparece em diferentes contribuições. Em “Desenhar o final do império colonial: o traço do cartoonista Augusto Cid (1966-1974)”, Sónia Pereira Henrique e Maria Cristina Neves analisam o desenho satírico como forma de leitura crítica da crise do colonialismo português. O artigo examina a produção de Augusto Cid entre 1966 e 1974, destacando o papel do humor gráfico na representação da guerra colonial portuguesa e do fim do império. A partir dos cartoons publicados no Jornal da Região Militar de Angola e posteriormente reunidos no livro Que se passa na frente?!!, as autoras mostram como o desenho funcionou como forma de crítica social, política e moral, expondo o cotidiano da guerra, as contradições do colonialismo e os limites impostos pela censura. O estudo evidencia que, mais do que provocar riso, o cartoon de Cid atuou como instrumento de reflexão sobre a experiência colonial, a opinião pública e a construção de imaginários sobre Angola e sobre o conflito.

Essa mesma centralidade do humor gráfico se desdobra em “O papel do observador-personagem no humor gráfico de Quino”, de Francisco Ocampo e Alicia Ocampo. No artigo, os autores investigam os mecanismos de construção do humor na obra de Quino a partir da figura do observador-personagem. O estudo parte da hipótese de que o artista argentino, de maneira intuitiva, mobiliza princípios próximos aos da abordagem biocognitiva da linguagem, especialmente a noção de observador como sujeito que interpreta o mundo em interação com seu entorno. Ao mostrar como Quino insere personagens que reagem sem humor a situações incongruentes, intensificando, para o leitor externo, o efeito cômico, o artigo ilumina a complexidade do dispositivo humorístico gráfico e o papel da recepção no processo de significação.

Em chave histórica, João Pedro Rosa Ferreira, em “O humor na guerra colonial: o jornal Os Progressistas, dirigido por Salgueiro Maia na Guiné”, mostra como o humor pode operar em meio à guerra, articulando resistência, sociabilidade e observação política em contexto de violência e disciplina militar. O artigo examina o jornal militar Os Progressistas como mais do que um espaço de recreio: trata-se de um laboratório de formação ética, cívica e política, no qual o humor assume função crítica. O estudo mostra ainda como a ironia e a sátira deixam de funcionar apenas como passatempo para se tornarem formas de comentário sobre a guerra, a disciplina, a hierarquia e o regime político. Nesse sentido, o humor aparece como

elo entre experiência militar, amadurecimento crítico e recusa da opressão. Não por acaso, o fundador e diretor de Os Progressistas foi Salgueiro Maia, figura icônica da “Revolução do Cravos”, o capitão que impôs a rendição ao chefe do governo do regime ditatorial português derrubado em 25 de Abril de 1974.

Os vínculos entre humor, nacionalidade e autoimagem cultural também ganham relevo. Em “O paradoxo do humorista fora do lugar”, Mario Tommaso investiga formulações de humoristas e intelectuais brasileiros que associam o humor a uma reflexão sobre o chamado “caráter nacional”, identificando uma persistente hierarquização entre formas culturais vistas como “brasileiras” ou “estrangeiras”. O texto revela como, sob a aparência autodepreciativa, certas formulações sobre o humor nacional também podem conter gestos de distinção, exclusão e julgamento histórico.

Outra frente importante do dossiê reúne trabalhos que exploram o humor como forma discursiva e literária. Em “Do riso à argumentação: análise discursiva de pseudopregação da ‘igreja evangélica pica das galáxias’”, Said Slaibi e Rony Petterson Gomes do Vale examinam os mecanismos argumentativos de uma performance humorística que se apropria da linguagem religiosa para produzir riso e comentário social. A partir da Teoria Semiolinguística do Discurso de Patrick Charaudeau, os autores mostram que o humor, nesse caso, não funciona apenas como entretenimento, mas como recurso argumentativo de crítica a práticas e formas de poder associadas ao neopentecostalismo contemporâneo. A pseudo pregação do personagem Bispo Arnaldo opera por paródia, imitando traços reconhecíveis do discurso evangélico para produzir uma tensão entre o dito e o visado. É dessa tensão que nasce, ao mesmo tempo, o efeito humorístico e a força crítica do texto.

Em “Humor satírico no cordel ‘O Testamento de Getúlio’, de Cuíca de Santo Amaro”, Leandro Antonio de Almeida recupera a potência crítica do humor popular em diálogo com a tradição do cordel e com a história política brasileira. O artigo analisa o folheto no contexto da crise de 1954, após o suicídio de Getúlio Vargas, sustentando que ele converte a comoção popular em sátira agressiva por meio da tradição dos testamentos jocosos. Ao inserir o texto numa genealogia que remonta à Antiguidade e à Idade Média, o autor mostra que Cuíca mobiliza uma forma tradicional de humor baseada em distribuição paródica de heranças, rebaixamento simbólico e agressão moral. O riso que emerge daí não é leve nem conciliador, mas amargo, punitivo e politicamente orientado.

A relação entre humor, violência e dominação constitui outro eixo forte do dossiê. Em “Poder, violência e humor”, Ana Beatriz Flores propõe uma inversão importante no debate sobre humor político: em vez de estudar o riso como crítica ao poder, analisa como o próprio poder mobiliza o humor como instrumento de dominação. Sua tese central é que o humor da extrema direita, especialmente no contexto argentino recente, transforma a comicidade em tecnologia de violência simbólica. Ao mesmo tempo, o texto mostra que, quando se torna alvo da sátira, o poder tende a responder com repressão, o que não elimina, contudo, a persistência de formas de resistência humorística.

A articulação entre humor, fracasso e temporalidade é explorada por Rubén Olachea-

Perez em “Comédias desastrosas: filmes cult”. O autor investiga comédias que fracassaram em termos de recepção imediata, mas que, com o tempo, adquiriram estatuto cult e passaram a ser vistas como obras valiosas. Tomando como foco principal El asado de Satán (Satansbraten, 1976), de Rainer Werner Fassbinder, o artigo argumenta que certas comédias fracassam justamente por sua complexidade, pelo desconforto que produzem ou pela distância que instauram entre obra e espectador. E é precisamente essa distância que, retrospectivamente, pode convertê-las em objetos de interesse duradouro. A análise mostra como, em Fassbinder, a comicidade emerge do excesso, do constrangimento, da caricatura e do entrelaçamento entre grotesco, autorreflexão e comentário político-cultural. Nesse caso, a comédia não se opõe à dor, mas a incorpora como forma crítica, distorcida e consciente.

O dossiê dedica atenção especial, ainda, às articulações entre humor, raça e colonialidade. Em “Imagem, humor e poder racial na América Latina”, Alexander Ortega Marín oferece uma contribuição particularmente importante ao investigar como o humor gráfico, da caricatura do século XIX aos memes digitais, constrói e reproduz estereótipos raciais. Ao relacionar memes contemporâneos a arquivos coloniais de representação, o artigo demonstra que o humor pode funcionar como dispositivo de banalização do racismo, reativando, sob novas formas, velhas hierarquias visuais e simbólicas. O riso, nesse caso, aparece menos como liberação do que como mecanismo de reprodução da violência.

Tomadas em conjunto, essas contribuições confirmam a fecundidade heurística do humor para a pesquisa histórica, filosófica, estética e cultural. Elas mostram que o riso nunca é mero ornamento da vida social. Ao contrário, ele participa da produção de consensos e dissensos, da manutenção e da corrosão de hierarquias, da gestão dos afetos coletivos, da crítica ideológica, da circulação de estereótipos, da reinvenção de identidades e da disputa pelos limites do dizível.

Cabe, por fim, registrar nosso sincero agradecimento a todas as autoras e todos os autores que colaboraram com este dossiê. A diversidade de perspectivas, objetos, abordagens e contextos nacionais aqui reunidos constitui uma de suas maiores riquezas e atesta a vitalidade de um campo de estudos em contínua renovação. Ao contribuírem a partir de instituições sediadas no Brasil, na Argentina, em Portugal, no México e nos Estados Unidos, as pesquisadoras e os pesquisadores que integram este volume ampliam significativamente o alcance do debate e reforçam o caráter plural e internacional desta reflexão. A todas e todos, agradecemos pela generosidade, pelo rigor analítico e pela qualidade dos trabalhos que tornaram este dossiê possível. Estendemos também nosso agradecimento à International Society for Luso-Hispanic Humor Studies/Sociedad Internacional de Estudios del Humor Luso-Hispánico/Sociedade Internacional para o Estudo do Humor Luso-Hispânico (ISLHHS), da qual os organizadores deste dossiê são membros, por sua importância na consolidação e no estímulo das pesquisas dedicadas ao humor no âmbito luso-hispânico.

“O fim do humor?”, assim, talvez designe menos um desaparecimento do riso do que a intensificação dos debates em torno de suas condições de legitimidade. Quando o humor ameaça ou é ameaçado, tornam-se visíveis os contornos de uma sociedade: aquilo que ela

tolera, o que ela protege, o que ela ridiculariza, o que ela recalca e o que ela teme. Ao historicizar essas tensões, este dossiê convida o leitor a levar o humor a sério, não para esvaziar sua força, mas para reconhecer nele uma das formas mais agudas, ambíguas e reveladoras de nossa vida comum.


Referências

BARDON, Adrian. The Philosophy of Humor. In: CHARNEY, Maurice (ed.). Comedy: a geographic and historical guide. Connecticut: Greenwood Press, 2005.


MILNER DAVIS, Jessica. Taking humour and laughter seriously: the multi-disciplinary field of humour studies. Journal & Proceedings of the Royal Society of New South Wales, [s. l.], v. 154, pt. 2, p. 182-200, 2021.