SUMÁRIO  
Sumário  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais - v. 17, n. 34, jul.- dez. 2025  
EXPEDIENTE ...................................................................................................................................................... 4  
Editorial: O riso sob cerco – humor, poder e barbárie no tempo presente ....................................................... 7  
Aguinaldo Rodrigues Gomes (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil), Miguel Rodrigues de Sousa  
Neto (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil)  
DOSSIÊ  
Apresentação — Dossiê: O fim do humor? O riso sob ameaça ao longo da história .......................................... 13  
Dorothee Chouitem (Sorbonne Université, França), João Pedro Rosa Ferreira (Centro de Humanidades  
- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal), Thaís Leão Vieira  
(Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil)  
Entre a sátira e o conflito: análise das charges do Charlie Hebdo (2015-2025) e os limites da liberdade de  
expressão .......................................................................................................................................................... 20  
Deivid Mota Santana (Universidade Federal do Ceará (UFC), Brasil)  
O comediante invisível: a tradução do riso na indústria audiovisual contemporânea ..................................... 37  
Cristian Palacios (Conselho Nacional de Pesquisa Cientí ica e Tecnológica, Argentina)  
Desenhar o final do império colonial: o traço do cartoonista Augusto Cid (1966-1974) ................................... 58  
Sónia Pereira Henrique (Centro de Estudos Socioeconómicos e Territoriais, Portugal), Maria Cristina Neves  
(Universidade de Lisboa, Portugal)  
O papel do Observador-Personagem no humor gráfico de Quino ..................................................................... 84  
Francisco Ocampo (Universidade de Minnesota, Estados Unidos), Alicia Ocampo (Universidade de Minnesota,  
Estados Unidos)  
O humor na guerra colonial: o jornal Os Progressistas, dirigido por Salgueiro Maia na Guiné ........................ 105  
João Pedro Rosa Ferreira (Universidade Nova de Lisboa, Portugal)  
O paradoxo do humorista fora do lugar ........................................................................................................... 120  
Mario Tommaso (Universidade de São Paulo, Brasil)  
Do riso à argumentação: análise discursiva de pseudopregação da “igreja evangélica pica das galáxias” .. 138  
Said Slaibi (Universidade Federal de Viçosa, Brasil), Rony Petterson Gomes do Vale (Universidade Federal de  
Viçosa, Brasil)  
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SUMÁRIO  
Humor satírico no cordel “O Testamento de Getúlio”, de Cuíca de Santo Amaro ........................................ 157  
Leandro Antonio de Almeida (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil)  
Poder, violência e humor .............................................................................................................................. 185  
Ana Beatriz Flores (Universidad Nacional de Córdoba, Argentina)  
Comédias desastrosas: filmes cult .............................................................................................................. 197  
Ruben Olachea-Perez (Universidad Autonoma de Baja Califor Sur, México)  
Imagem, humor e poder racial na América Latina ........................................................................................ 209  
Alexander Ortega Marín (Universidade Federal do Maranhão, Brasil)  
ARTIGOS  
Rojo Amanecer: linguagens, memórias e resistências do 2 de outubro de 1968 no México ...................... 233  
Priscila Roberta Alves Lemos (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil), Fábio da Silva Sousa  
(Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil)  
Plantas Alimentícias Não Convencionais no Recôncavo da Bahia: biodiversidade e percepções dos  
moradores .................................................................................................................................................. 253  
Lígia Santiago da Paz da Silva (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil), Renan Luiz Albuquerque  
Vieira (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil), Adriele Nonato Oliveira (Universidade Federal do  
Recôncavo da Bahia, Brasil), Rodrigo José Araújo de Jesus (Universidade Estadual de Feira de Santana, Brasil),  
Weliton Antônio Bastos de Almeida (Centro Universitário Maria Milza, Brasil), Ana Karina da Silva Cavalcante  
(Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil)  
RESENHAS  
A dívida impagável: uma crítica feminista, racial e anticolonial do capitalismo ........................................ 271  
Allicka Cardoso (Universidade Federal de São Carlos, Brasil), Luís Brinatti (Universidade Federal de São Carlos,  
Brasil)  
Fascismo e imaginário literário: resenha de “O fascismo infinito, no real e na ficção”, de Sergio Schargel ... 281  
Melanie Steigleder (Universidade Federal Fluminense, Brasil)  
Jornal Sem Terra: um militante na redemocratização do Brasil ..................................................................... 286  
Jefferson Ribeiro da Silva (Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil)  
PARECERISTAS DESTA EDIÇÃO ........................................................................................... 292  
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EXPEDIENTE  
EXPEDIENTE  
v. 17, n. 34, jul.- dez. 2025  
b
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.25483  
Editores-chefes  
Aguinaldo Rodrigues Gomes (Doutor em Educação), Universidade Federal de Mato  
Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Miguel Rodrigues de Sousa Neto (Doutor em História), Universidade Federal de Mato  
Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Editores de seção  
Róbson Pereira da Silva (Doutor em História), Universidade Federal de São Carlos  
(UFSCar), Brasil  
Antonio Ricardo Calori de Lion (Doutor em História), Universidade Estadual de Goiás  
(UEG), Brasil  
Diagramação  
Roger Luiz Pereira da Silva (Mestre em Tecnologia e Sociedade), Universidade Tecnoló-  
gica Federal do Paraná (UTFPR), Brasil  
Coordenador do Programa de Pós-graduação em Estudos Culturais (PPGCult)  
Miguel Rodrigues de Sousa Netto, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul  
(UFMS), Brasil  
Membros pesquisadores/as do Laboratório de Estudos em Diferenças & Linguagens - LE-  
DLin - UFMS  
Aguinaldo Rodrigues Gomes, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS),  
Brasil  
Ana Letícia Bonfanti, Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, Criança, Adoles-  
cente e Idoso (DEDDICA/MT), Brasil  
Antonio Ricardo Calori de Lion, Universidade Estadual de Goiás (UEG), Brasil  
Edvaldo Correa Sotana, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Helen Paola Vieira Bueno, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Isabel Camilo de Camargo, Fundação de Apoio e Desenvolvimento do Ensino, Ciência  
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EXPEDIENTE  
e Tecnologia de Mato Grosso do Sul, (FUNDECT/MS), Brasil  
Marcos Antonio de Menezes, Universidade Federal de Jataí (UFJ), Brasil  
Miguel Rodrigues de Sousa Neto, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS),  
Brasil  
Róbson Pereira da Silva, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Brasil  
Thaís Leão Vieira, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Conselho Consultivo (biênio 2025 – 2026)  
Alexandre Busko Valim - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil  
Alexandre de Sá Avelar - Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Brasil  
Ana Paula Squinelo - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Camila Soares López - Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Brasil  
Durval Muniz de Albuquerque Junior - Universidade Federal do Rio Grande do Norte  
(UFRN), Brasil  
Eduardo José Reinato – Pontifícia Universidade de Goiás (PUC Goiás), Brasil  
Edvaldo Correa Sotana - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Fábio Henrique Lopes - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Brasil  
Flávio Vilas Boas Trovão - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Helen Paola Vieira Bueno - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Iara Quelho de Castro - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Jiani Fernando Langaro - Universidade Federal de Goiás (UFG), Brasil  
João José Caluzi - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP),  
Brasil  
João Pedro Rosa Ferreira - Universidade Nova de Lisboa (NOVA), Portugal  
José Marin - Université de Genève, Suíça  
Leonardo Lemos de Souza – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”  
(UNESP), Brasil  
Lúcia Helena Oliveira Silva- Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”  
(UNESP), Brasil  
Lúcia Regina Vieira Romano - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”  
(UNESP), Brasil  
Luisa Consuelo Soler Lizarazo – Universidad Autónoma de Chile (UA), Chile  
Márcio Pizarro Noronha – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil  
Maria Betanha Cardoso Barbosa - Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA),  
Brasil  
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EXPEDIENTE  
Marcos Antonio de Menezes – Universidade Federal de Jataí (UFJ), Brasil  
Murilo Borges Silva - Universidade Federal de Jataí (UFJ), Brasil  
Nadia Molek - Universidad de Buenos Aires (UBA), Argentina  
Patrícia Zaczuk Bassinello - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Raquel Gonçalves Salgado - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Regiane Corrêa de Oliveira Ramos – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul  
(UEMS), Brasil  
Renan Honório Quinalha - Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Brasil  
Robson Corrêa de Camargo - Universidade Federal de Goiás (UFG), Brasil  
Rosangela Patriota Ramos - Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil  
Sebastián Valverde – Universidad de Buenos Aires (UBA), Argentina  
Tadeu Pereira dos Santos - Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Brasil  
Tanya Saunders - University of Florida (UF), Estados Unidos da América  
Thaís Leão Vieira – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Tiago Duque - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Zélia Lopes da Silva - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”  
(UNESP), Brasil  
Capa  
Capa: Róbson Pereira da Silva. Imagem: Miguel REP.  
Projeto Gráfico e Diagramação  
Roger Luiz Pereira da Silva  
Contato  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais  
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) – Câmpus de Aquidauana, Unida-  
de I.  
Praça Nossa Senhora Imaculada Conceição, 163 - Centro, Aquidauana/Mato Grosso do  
Sul, Brasil.  
CEP: 79200-000  
Telefone +55 67 3241-0309  
E-mail: revista.albuquerque@ufms.br  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
EDITORIAL  
EDITORIAL: O RISO SOB CERCO – HUMOR, PODER E  
BARBÁRIE NO TEMPO PRESENTE  
EDITORIAL: LAUGHTER UNDER SIEGE – HUMOR,  
POWER, AND BARBARISM IN THE PRESENT AGE  
Aguinaldo Rodrigues Gomes1  
https://orcid.org/0000-0002-2398-8088  
http://lattes.cnpq.br/3408519048864585  
Miguel Rodrigues de Sousa Neto2  
https://orcid.org/0000-0001-9672-3315  
http://lattes.cnpq.br/1581653418017053  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.25455  
Há algo de profundamente inquietante — e ao mesmo tempo revelador — no título que  
orienta este dossiê: “O fim do humor? O riso sob ameaça ao longo da história”. A interrogação  
não é retórica. Ela se impõe como sintoma de uma época em que o riso parece tensionado até  
o limite, comprimido entre a violência extrema e a urgência ética de não silenciar diante dela.  
Esta edição da Albuquerque: revista de Estudos Culturais nos convida a habitar  
esse espaço incômodo. Ao reunir textos como “O humor na guerra colonial”, “Poder, violência  
e humor”, “Humor satírico no cordel ‘O Testamento de Getúlio”, “Do riso à argumentação”,  
“O paradoxo do humorista fora do lugar”, “Desenhar o final do império colonial”, “O papel do  
narrador-observador no humor gráfico de Quino”, “O comediante invisível”, “Entre a sátira e  
o conflito”, “Imagem, humor e poder racial na América Latina” e “Comédias desastrosas”, o  
dossiê não apenas mapeia formas de humor — ele interroga seus limites, suas ambivalências  
e, sobretudo, sua potência política.  
Vivemos um tempo em que imagens de guerra, destruição e morte circulam com  
intensidade brutal. O genocídio em Gaza, os conflitos geopolíticos atravessados pelo petróleo  
no Oriente Médio, as disputas por hegemonia global — tudo isso compõe um cenário em que a  
experiência do absurdo não é mais exceção, mas regra. Diante disso, o riso não desaparece.  
Ele se transforma.  
A tradição filosófica já nos alertava: o humor nasce da incongruência. Quando o mundo  
1 Docente do Curso de Graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em Estudos  
Culturais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: aguinaldorod@gmail.  
com  
2 Docente do Curso de Graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Cul-  
turais, ambos do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).  
E-mail: miguelrodrigues.snetto@gmail.com  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
EDITORIAL  
deixa de fazer sentido, o riso emerge como resposta à fratura entre expectativa e realidade.  
Immanuel Kant afirmou: “Em tudo que é para provocar uma vívida e convulsiva risada tem de  
haver alguma coisa absurda [...]. O riso é uma afeição decorrente da transformação repentina  
de uma expectativa tensionada em nada” (como citado em Morreall, 2009 apud Tabacaru, 2015).  
Mas o que acontece quando a própria realidade se torna grotesca? Quando o absurdo não é  
mais ruptura, mas condição permanente?  
Nesse ponto, o humor deixa de ser apenas alívio e passa a operar como diagnóstico.  
Ele revela o colapso da racionalidade, expõe a violência naturalizada e desarma — ainda  
que momentaneamente — o peso do horror. Como sugeria Henri Bergson (1983), o riso pode  
funcionar como mecanismo de correção social; aqui, ele atua também como forma de  
resistência simbólica.  
O cinema oferece exemplos paradigmáticos dessa potência. O Grande Ditador, de  
Charles Chaplin (1940), permanece como um dos gestos mais radicais de enfrentamento ao  
totalitarismo. Ao ridicularizar Adolf Hitler no auge de sua força, Chaplin rompeu com o silêncio  
reverente que sustenta regimes autoritários. O riso, nesse caso, não foi fuga, fez-se ataque.  
Décadas depois, A Vida é Bela, de Roberto Benigni (1997), radicaliza essa tensão  
ao situar o humor no interior do horror absoluto do Holocausto. A estratégia de Guido, ao  
transformar o campo de concentração em um “jogo” para proteger o filho, não nega a violência,  
mas a reinscreve em outro registro, preservando a possibilidade de humanidade. Trata-se de  
uma recusa: não do fato histórico, mas da vitória simbólica da barbárie. Essa recusa é central  
para compreender o papel do humor em tempos de crise. O riso pode funcionar como escudo,  
como linguagem de sobrevivência, como gesto ético. Ele não elimina a dor, mas impede que  
ela se converta em totalidade.  
O humor também é campo de disputa. Ele pode reforçar hierarquias, naturalizar  
violências, operar como instrumento de dominação. É por isso que este dossiê insiste em sua  
ambivalência: o humor não é, por si só, emancipador. Ele depende de sua direção, de seu alvo,  
de seu contexto.  
Nesse sentido, as análises contemporâneas do humor político são particularmente  
reveladoras. Emchargesquecirculamglobalmente, figurasdepodersãosubmetidasaoridículo  
— um gesto aparentemente simples, mas profundamente subversivo. O riso desmonumentaliza.  
Eleretiradasliderançasautoritáriasaauradeinvencibilidadequesustentaseupodersimbólico.  
Um exemplo dessa função do riso é a charge publicada no X por Ali Khamenei, em  
janeiro de 2026, que representa Donald Trump como um sarcófago egípcio em ruínas, e insere-  
se em um contexto de intensa tensão geopolítica entre Irã e Estados Unidos/Israel. Ao associar  
Trump à figura de tiranos históricos, como o Faraó, a imagem mobiliza o humor político como  
estratégia de rebaixamento simbólico, sugerindo a inevitabilidade da queda de lideranças  
marcadas pela arrogância e pelo autoritarismo. A estética da ruína — com o sarcófago  
rachando e se desfazendo — reforça a ideia de decadência do poder, enquanto a circulação  
da charge em redes como o próprio X e Instagram amplia seu impacto global, transformando  
o riso em instrumento de disputa narrativa e crítica política em escala internacional. Quando  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
EDITORIAL  
uma figura como Donald Trump é representada como um “grande ditador” encerrado em um  
sarcófago em ruínas, o que está em jogo não é apenas a crítica individual, mas a desmontagem  
de uma narrativa de poder. A imagem sugere que aquilo que se apresenta como eterno já está  
em decomposição. O humor, aqui, opera como arqueologia do presente: revela o futuro como  
ruína.  
Figura 1 – charge publicada no X por Ali Khamenei  
Essa dimensão é particularmente relevante em um contexto em que acusações de  
crimes de guerra, agressões internacionais e ataques ao Estado de direito atravessam o debate  
público. O humor não substitui a justiça, mas participa da disputa simbólica que a antecede.  
Ele cria fissuras na narrativa dominante, abre espaço para o dissenso, mobiliza afetos.  
Outro exemplo dessa questão é a charge publicada pelo perfil jc_pe (@jc_pe), no  
Instagram, e assinada pelo chargista Thiago Lucas, insere-se no contexto das tensões  
geopolíticas contemporâneas ao representar Donald Trump como uma versão caricata do  
Superman, sentado e aparentemente entretido em um cenário de destruição que remete a um  
“brincar de guerra”.  
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DOSSIÊ  
Figura 2 – Charge de Thiago Lucas, publicada na página Instagram do perfil jc_pe (@jc_pe), há  
39 semanas  
.
A imagem mobiliza o contraste entre o imaginário heroico — associado à figura do  
super-herói — e a leveza infantil de quem trata conflitos globais como jogo, sugerindo uma  
crítica à condução política baseada no espetáculo, no personalismo e na banalização da  
violência. Ao transformar a guerra em brinquedo, a charge denuncia, por meio do humor, a  
irresponsabilidade e o distanciamento das consequências reais das decisões políticas,  
reforçando o papel da sátira como ferramenta de questionamento e deslegitimação simbólica  
do poder.  
Assim a charge utiliza o humor como estratégia de desestabilização simbólica da figura  
de Donald Trump ao representá-lo como uma espécie de “super-herói decadente”. Vestido  
como o Superman, ele aparece sentado de forma abatida, curvado, segurando um globo  
terrestre como se fosse um objeto frágil — ou até um brinquedo — enquanto o cenário ao seu  
redor sugere caos, destruição e negligência. Essa inversão é central para o efeito humorístico:  
o herói tradicionalmente associado à força, à salvação e ao controle absoluto surge impotente,  
cansado e incapaz de impedir o colapso que acontece literalmente aos seus pés.  
Oriso,aqui,operacomocríticapolítica.Aoinvésdeconfrontardiretamenteopodercom  
argumentos formais, a charge o esvazia por meio do ridículo. Trump não é retratado como uma  
ameaça grandiosa, mas como uma figura quase patética, deslocada de sua própria encenação  
de poder. O contraste entre o símbolo (Superman) e a atitude (passividade, descuido) produz  
um efeito de ironia que expõe a distância entre a imagem construída — de líder forte, decisivo  
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DOSSIÊ  
— e a percepção crítica do artista — de um governante incapaz de lidar com crises globais.  
Além disso, o humor visual reforça a crítica ao personalismo político. Ao colocar o  
mundo nas mãos de Trump, mas mostrar essas mãos inertes, a charge sugere que o destino  
global não pode ser reduzido à figura de um “salvador”. O riso, portanto, não é apenas zombaria:  
ele funciona como ferramenta de deslegitimação, desmontando o imaginário heroico e  
revelando suas contradições. Nesse sentido, a charge exemplifica como o humor político pode  
transformar figuras de autoridade em objetos de escárnio, enfraquecendo simbolicamente  
seu poder.  
Não por acaso, regimes autoritários frequentemente temem o riso. O medo não  
está no conteúdo explícito, mas na sua capacidade de circular, de contaminar, de produzir  
identificação. O humor é, nesse sentido, uma linguagem viral — e, como tal, difícil de controlar.  
Ao mesmo tempo, o dossiê nos lembra que o humor não se limita ao campo político  
institucional. Ele atravessa práticas culturais diversas: o cordel, o cinema, a arte gráfica, a  
literatura, a cultura popular. No cordel de Cuíca de Santo Amaro, por exemplo, a sátira opera  
como forma de comentário histórico; em Quino, o humor gráfico se torna espaço de observação  
crítica do cotidiano; nas análises sobre poder racial na América Latina, o riso revela e tensiona  
estruturas de dominação.  
Essas múltiplas formas apontam para uma questão central: o humor é uma prática  
cultural situada. Ele emerge de contextos específicos, dialoga com repertórios locais, mobiliza  
memórias coletivas. Pensá-lo exige, portanto, uma abordagem que articule estética, política  
e história.  
É nesse mesmo horizonte que os demais textos desta edição se inscrevem. O artigo  
“Rojo Amanecer” reabre o debate sobre memória e violência na América Latina; o estudo sobre  
“Plantas Alimentícias Não Convencionais no Recôncavo da Bahia” desloca o olhar para práticas  
de resistência no campo da alimentação e da cultura; as resenhas de “A dívida impagável”,  
“Fascismo e imaginário literário” e “Jornal Sem Terra” ampliam o campo de reflexão, conectando  
humor, economia, política e produção cultural.  
O conjunto evidencia que, longe de desaparecer, o humor se reconfigura. Ele se  
desloca, se reinventa, se intensifica. Em tempos de guerra — literal ou simbólica —, o riso não é  
um luxo: é uma necessidade. Mas uma necessidade que exige responsabilidade crítica.  
Talvez a pergunta que deva orientar nossa leitura não seja se estamos diante do  
fim do humor, mas que tipo de humor está em jogo. Quem ri? De quê? Contra quem? Em que  
condições?  
Responder a essas perguntas é fundamental para compreender o papel do riso no  
mundo contemporâneo. Porque, no limite, o humor é também uma forma de imaginar o possível.  
E, em tempos sombrios, imaginar já é um gesto de resistência.  
Se o riso pode ser macabro — como a hiena que ri quando ronda sua presa —, ele  
também pode ser insubmisso. Pode recusar o silêncio, desafiar o medo, expor o absurdo.  
Pode, enfim, lembrar-nos de que, mesmo diante da barbárie, a humanidade ainda insiste em  
não desaparecer.  
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DOSSIÊ  
É essa insistência que este dossiê celebra — e problematiza.  
Boa leitura.  
Referências  
BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Zahar Ed, 1983.  
Morreall, John. Comic relief: a comprehensive philosophy of humor. Malden, MA: Wiley-  
Blackwell, 2009.  
TABACARU, Sabina. Uma visão geral das Teorias do Humor: aplicação da Incongruência e  
da Superioridade ao sarcasmo. Trad. Douglas Rabelo de Sousa, Maria Gabriela Rodrigues de  
Castro, Winola Weiss Pires Cunha, Filipe Mantovani Ferreira. EID&A - Revista Eletrônica de  
Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 9, p. 115-136, dez. 2015.  
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DOSSIÊ  
APRESENTAÇÃO - O FIM DO HUMOR? O RISO SOB  
AMEAÇA AO LONGO DA HISTÓRIA  
INTRODUCTION - THE END OF HUMOR? LAUGHTER  
UNDER THREAT THROUGHOUT HISTORY  
Dorothee Chouitem1  
https://orcid.org/0000-0003-1415-8514  
João Pedro Rosa Ferreira2  
https://orcid.org/0000-0003-0860-2471  
http://lattes.cnpq.br/7968461820931754  
Thaís Leão Vieira3  
https://orcid.org/0000-0001-8439-266X  
http://lattes.cnpq.br/4604071943987756  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.25578  
1 Docente na Sorbonne Université, França. E-mail: dorothee.chouitem@sorbonne-  
universite.fr  
2 Bacharel em História pela Universidade de Lisboa. Mestre em História Política e Cultural  
pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) e doutor em História e Teoria das  
Ideias pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH). E-mail: jprosaferreira@  
gmail.com  
3 Doutora em História pela Universidade Federal de Uberlândia (2011). Professora Asso-  
ciada da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). E-mail: thaisleaovieira@gmail.com  
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DOSSIÊ  
No sorriso há consentimento, enquanto o riso é muitas  
vezes uma recusa.  
Victor Hugo, O homem que ri  
Longe de constituir um tema periférico ou menor, o humor ocupa lugar central na  
história das ideias e na experiência humana, justamente porque mobiliza dimensões decisivas  
da vida social e simbólica: cognição, emoção, sociabilidade, racionalidade, linguagem e cultura.  
Rir nunca foi apenas um gesto espontâneo ou um efeito passageiro do entretenimento. Ao  
longo da história, o riso foi objeto de suspeita, condenação, controle, exaltação e reflexão,  
revelando-se um fenômeno complexo, ambivalente e profundamente implicado nas formas  
pelas quais os seres humanos percebem o mundo, convivem entre si e produzem sentido.  
É nesse horizonte que se inscreve o presente dossiê, “O fim do humor? O riso sob  
ameaça ao longo da história”, cujo objetivo é reunir reflexões sobre as múltiplas formas  
de aparecimento, regulação, crise e transformação do humor em diferentes tempos,  
contextos e tradições. A pergunta que dá título ao conjunto não deve ser entendida apenas  
em chave apocalíptica ou nostálgica. Interrogar o “fim do humor” significa, antes, investigar  
historicamente as condições em que o riso se torna problemático, vigiado, interditado ou  
reconfigurado; significa também perguntar de que maneira o humor sobrevive, resiste, muda  
de forma e se reinscreve nas disputas morais, políticas, estéticas e epistemológicas de cada  
época.  
Como mostra Adrian Bardon, a filosofia do humor evidencia que não é possível explicá-  
lo por uma única fórmula simplificadora. Nem a tese de que rimos por superioridade, nem a de  
que o humor se reduz a alívio emocional dão conta, por si sós, da complexidade do fenômeno.  
Embora essas interpretações revelem dimensões reais da experiência cômica, Bardon, na  
esteira de Kant e Schopenhauer, sustenta que uma das formulações filosoficamente mais  
robustas do humor está na percepção de incongruências, isto é, em mudanças cognitivas  
súbitas,reorientaçõesinterpretativasoucontrastesinesperadosentreexpectativaerealidade.  
Nessa perspectiva, o humor emerge como uma espécie de ruptura não ameaçadora de sentido,  
frequentemente acompanhada de prazer, relaxamento ou reforço social, mas não redutível a  
esses efeitos. Tal formulação é particularmente fecunda para pensar historicamente o riso,  
pois permite compreendê-lo não apenas como reação afetiva, mas como operação intelectual,  
prática cultural e forma social de percepção.  
Aomesmotempo, ocampocontemporâneodoshumoursstudies, talcomoapresentado  
por Jessica Milner Davis, mostra que o estudo do humor exige abordagem necessariamente  
multidisciplinar. Filosofia, sociologia, história, literatura, linguística, psicologia, neurociência,  
estudos da performance, religião, medicina e teoria das emoções têm contribuído para  
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DOSSIÊ  
demonstrar que o humor não admite definição simples nem função única. Se, por um lado, o  
riso pode favorecer coesão social, aliviar tensões e consolidar pertencimentos, por outro, pode  
também excluir, humilhar, marcar diferenças e intensificar violências simbólicas. Permanece  
em aberto, portanto, a questão de saber se o humor une ou divide os seres humanos, ou melhor,  
em que circunstâncias ele realiza uma ou outra dessas funções.  
Esse caráter ambivalente do humor torna ainda mais pertinente a questão central  
deste dossiê. Falar em “riso sob ameaça” implica reconhecer que o humor nunca existiu em  
estado puro ou inocente: ele sempre esteve atravessado por regimes de poder, normas de  
sensibilidade, hierarquias sociais, convenções de linguagem e disputas de legitimidade.  
Em diferentes momentos históricos, o riso foi considerado sinal de desordem moral, perda  
de autocontrole, profanação do sagrado, vulgaridade estética ou perigo político. Em outros  
contextos, foi celebrado como instrumento crítico, forma de inteligência, mecanismo de  
sobrevivência coletiva ou linguagem privilegiada da liberdade. Entre repressão e emancipação,  
entre disciplina e subversão, o humor aparece como índice privilegiado das tensões de uma  
sociedade consigo mesma. Porém, é também o humor que consegue reunir à mesma mesa  
representantes de diferentes religiões, que concordam, saudavelmente, que “Deus ri”, como  
sucedeu em Lisboa, em 2017, em um debate entre o católico (hoje cardeal) José Tolentino de  
Mendonça, o muçulmano xeque Munir e a judia Esther Mucznik, moderado por Ricardo Araújo  
Pereira e Bruno Nogueira.  
O dossiê propõe, nesse sentido, examinar o humor em sua historicidade, recusando  
tanto sua banalização quanto sua idealização. Interessa-nos compreender como o riso foi  
moldadoporinstituições, censuras, moralidadesesensibilidades;comodeterminadosgêneros  
cômicos foram valorizados ou estigmatizados; como o humor atuou na crítica de costumes, no  
enfrentamento do poder, na produção de identidades coletivas e na administração de medos,  
traumas e conflitos. Interessa-nos, igualmente, investigar os momentos em que o humor  
parece entrar em crise: quando se fala em sua impossibilidade, esgotamento, interdição ou  
captura por lógicas de mercado, polarização e vigilância social.  
Nessa direção, os artigos aqui reunidos revelam a extraordinária variedade de  
formas pelas quais o humor se articula com conflito, poder e representação. Em “Entre  
a sátira e o conflito: análise das charges do Charlie Hebdo (2015-2025) e os limites da  
liberdade de expressão”, Deivid Mota Santana examina um dos casos mais emblemáticos  
da contemporaneidade, no qual sátira, violência e debate público se entrelaçam de maneira  
aguda. O estudo parte do atentado de 7 de janeiro de 2015, quando integrantes da redação  
foram assassinados em resposta a caricaturas publicadas pelo jornal, marco que intensificou  
as discussões internacionais sobre os limites do humor gráfico. A partir desse contexto, o  
artigo analisa como o Charlie Hebdo manteve sua linha editorial provocadora, fundada na sátira  
política, no anticlericalismo e na defesa radical da liberdade de expressão. O estudo sustenta  
que o Charlie Hebdo ocupa uma posição ambígua no espaço público, sendo ao mesmo tempo  
símbolo de resistência à censura e foco de controvérsia ética, contribuindo assim para o debate  
sobre os limites da liberdade de expressão e os efeitos sociais e culturais da sátira.  
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DOSSIÊ  
Já em “O comediante invisível: a tradução do riso na indústria audiovisual  
contemporânea”, Cristian Palacios desloca a discussão para os circuitos de mediação e  
adaptação do humor, interrogando os desafios de traduzir o cômico entre línguas, mercados e  
regimes culturais. Em contraposição ao lugar-comum da intraduzibilidade do humor, o autor  
demonstra que muitos mecanismos do riso sobrevivem à passagem entre línguas e culturas,  
pois não dependem exclusivamente do verbal, mas também de elementos como entonação,  
performance, ritmo, gestualidade, montagem, imagem e convenções compartilhadas da  
cultura humorística. Ao discutir questões como o castelhano neutro, a fidelidade às vozes da  
dublagem, o timing humorístico e as condições materiais da indústria, o texto mostra que a  
tradução humorística envolve invenção, negociação cultural e escolhas ideológicas.  
A centralidade histórica do humor gráfico e da caricatura aparece em diferentes  
contribuições. Em “Desenhar o final do império colonial: o traço do cartoonista Augusto  
Cid (1966-1974)”, Sónia Pereira Henrique e Maria Cristina Neves analisam o desenho satírico  
como forma de leitura crítica da crise do colonialismo português. O artigo examina a produção  
de Augusto Cid entre 1966 e 1974, destacando o papel do humor gráfico na representação da  
guerra colonial portuguesa e do fim do império. A partir dos cartoons publicados no Jornal da  
Região Militar de Angola e posteriormente reunidos no livro Que se passa na frente?!!, as autoras  
mostram como o desenho funcionou como forma de crítica social, política e moral, expondo  
o cotidiano da guerra, as contradições do colonialismo e os limites impostos pela censura. O  
estudo evidencia que, mais do que provocar riso, o cartoon de Cid atuou como instrumento de  
reflexão sobre a experiência colonial, a opinião pública e a construção de imaginários sobre  
Angola e sobre o conflito.  
Essa mesma centralidade do humor gráfico se desdobra em “O papel do observador-  
personagem no humor gráfico de Quino”, de Francisco Ocampo e Alicia Ocampo. No artigo,  
os autores investigam os mecanismos de construção do humor na obra de Quino a partir da  
figura do observador-personagem. O estudo parte da hipótese de que o artista argentino, de  
maneira intuitiva, mobiliza princípios próximos aos da abordagem biocognitiva da linguagem,  
especialmente a noção de observador como sujeito que interpreta o mundo em interação  
com seu entorno. Ao mostrar como Quino insere personagens que reagem sem humor a  
situações incongruentes, intensificando, para o leitor externo, o efeito cômico, o artigo  
ilumina a complexidade do dispositivo humorístico gráfico e o papel da recepção no processo  
de significação.  
Em chave histórica, João Pedro Rosa Ferreira, em “O humor na guerra colonial: o  
jornal Os Progressistas, dirigido por Salgueiro Maia na Guiné”, mostra como o humor pode  
operar em meio à guerra, articulando resistência, sociabilidade e observação política em  
contexto de violência e disciplina militar. O artigo examina o jornal militar Os Progressistas  
como mais do que um espaço de recreio: trata-se de um laboratório de formação ética, cívica e  
política, no qual o humor assume função crítica. O estudo mostra ainda como a ironia e a sátira  
deixam de funcionar apenas como passatempo para se tornarem formas de comentário sobre  
a guerra, a disciplina, a hierarquia e o regime político. Nesse sentido, o humor aparece como  
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DOSSIÊ  
elo entre experiência militar, amadurecimento crítico e recusa da opressão. Não por acaso,  
o fundador e diretor de Os Progressistas foi Salgueiro Maia, figura icônica da “Revolução do  
Cravos”, o capitão que impôs a rendição ao chefe do governo do regime ditatorial português  
derrubado em 25 de Abril de 1974.  
Os vínculos entre humor, nacionalidade e autoimagem cultural também ganham  
relevo. Em “O paradoxo do humorista fora do lugar”, Mario Tommaso investiga formulações de  
humoristas e intelectuais brasileiros que associam o humor a uma reflexão sobre o chamado  
“caráter nacional”, identificando uma persistente hierarquização entre formas culturais vistas  
como “brasileiras” ou “estrangeiras”. O texto revela como, sob a aparência autodepreciativa,  
certas formulações sobre o humor nacional também podem conter gestos de distinção,  
exclusão e julgamento histórico.  
Outra frente importante do dossiê reúne trabalhos que exploram o humor como forma  
discursiva e literária. Em “Do riso à argumentação: análise discursiva de pseudopregação da  
‘igreja evangélica pica das galáxias’”, Said Slaibi e Rony Petterson Gomes do Vale examinam os  
mecanismos argumentativos de uma performance humorística que se apropria da linguagem  
religiosa para produzir riso e comentário social. A partir da Teoria Semiolinguística do Discurso  
de Patrick Charaudeau, os autores mostram que o humor, nesse caso, não funciona apenas  
como entretenimento, mas como recurso argumentativo de crítica a práticas e formas de  
poder associadas ao neopentecostalismo contemporâneo. A pseudo pregação do personagem  
Bispo Arnaldo opera por paródia, imitando traços reconhecíveis do discurso evangélico para  
produzir uma tensão entre o dito e o visado. É dessa tensão que nasce, ao mesmo tempo, o  
efeito humorístico e a força crítica do texto.  
Em “Humor satírico no cordel ‘O Testamento de Getúlio’, de Cuíca de Santo Amaro”,  
Leandro Antonio de Almeida recupera a potência crítica do humor popular em diálogo com  
a tradição do cordel e com a história política brasileira. O artigo analisa o folheto no contexto  
da crise de 1954, após o suicídio de Getúlio Vargas, sustentando que ele converte a comoção  
popular em sátira agressiva por meio da tradição dos testamentos jocosos. Ao inserir o texto  
numa genealogia que remonta à Antiguidade e à Idade Média, o autor mostra que Cuíca mobiliza  
uma forma tradicional de humor baseada em distribuição paródica de heranças, rebaixamento  
simbólico e agressão moral. O riso que emerge daí não é leve nem conciliador, mas amargo,  
punitivo e politicamente orientado.  
A relação entre humor, violência e dominação constitui outro eixo forte do dossiê. Em  
“Poder, violência e humor”, Ana Beatriz Flores propõe uma inversão importante no debate  
sobre humor político: em vez de estudar o riso como crítica ao poder, analisa como o próprio  
poder mobiliza o humor como instrumento de dominação. Sua tese central é que o humor da  
extrema direita, especialmente no contexto argentino recente, transforma a comicidade em  
tecnologia de violência simbólica. Ao mesmo tempo, o texto mostra que, quando se torna alvo  
da sátira, o poder tende a responder com repressão, o que não elimina, contudo, a persistência  
de formas de resistência humorística.  
A articulação entre humor, fracasso e temporalidade é explorada por Rubén Olachea-  
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DOSSIÊ  
Perez em “Comédias desastrosas: filmes cult”. O autor investiga comédias que fracassaram  
em termos de recepção imediata, mas que, com o tempo, adquiriram estatuto cult e passaram a  
ser vistas como obras valiosas. Tomando como foco principal El asado de Satán (Satansbraten,  
1976), de Rainer Werner Fassbinder, o artigo argumenta que certas comédias fracassam  
justamente por sua complexidade, pelo desconforto que produzem ou pela distância que  
instauram entre obra e espectador. E é precisamente essa distância que, retrospectivamente,  
pode convertê-las em objetos de interesse duradouro. A análise mostra como, em Fassbinder,  
a comicidade emerge do excesso, do constrangimento, da caricatura e do entrelaçamento  
entre grotesco, autorreflexão e comentário político-cultural. Nesse caso, a comédia não se  
opõe à dor, mas a incorpora como forma crítica, distorcida e consciente.  
O dossiê dedica atenção especial, ainda, às articulações entre humor, raça e  
colonialidade. Em “Imagem, humor e poder racial na América Latina”, Alexander Ortega Marín  
oferece uma contribuição particularmente importante ao investigar como o humor gráfico,  
da caricatura do século XIX aos memes digitais, constrói e reproduz estereótipos raciais. Ao  
relacionar memes contemporâneos a arquivos coloniais de representação, o artigo demonstra  
que o humor pode funcionar como dispositivo de banalização do racismo, reativando, sob  
novas formas, velhas hierarquias visuais e simbólicas. O riso, nesse caso, aparece menos como  
liberação do que como mecanismo de reprodução da violência.  
Tomadas em conjunto, essas contribuições confirmam a fecundidade heurística do  
humor para a pesquisa histórica, filosófica, estética e cultural. Elas mostram que o riso nunca  
é mero ornamento da vida social. Ao contrário, ele participa da produção de consensos e  
dissensos, da manutenção e da corrosão de hierarquias, da gestão dos afetos coletivos, da  
crítica ideológica, da circulação de estereótipos, da reinvenção de identidades e da disputa  
pelos limites do dizível.  
Cabe, por fim, registrar nosso sincero agradecimento a todas as autoras e todos  
os autores que colaboraram com este dossiê. A diversidade de perspectivas, objetos,  
abordagens e contextos nacionais aqui reunidos constitui uma de suas maiores riquezas e  
atesta a vitalidade de um campo de estudos em contínua renovação. Ao contribuírem a partir  
de instituições sediadas no Brasil, na Argentina, em Portugal, no México e nos Estados Unidos,  
as pesquisadoras e os pesquisadores que integram este volume ampliam significativamente  
o alcance do debate e reforçam o caráter plural e internacional desta reflexão. A todas e  
todos, agradecemos pela generosidade, pelo rigor analítico e pela qualidade dos trabalhos  
que tornaram este dossiê possível. Estendemos também nosso agradecimento à International  
Society for Luso-Hispanic Humor Studies/Sociedad Internacional de Estudios del Humor  
Luso-Hispánico/Sociedade Internacional para o Estudo do Humor Luso-Hispânico (ISLHHS),  
da qual os organizadores deste dossiê são membros, por sua importância na consolidação e no  
estímulo das pesquisas dedicadas ao humor no âmbito luso-hispânico.  
“O fim do humor?”, assim, talvez designe menos um desaparecimento do riso do que  
a intensificação dos debates em torno de suas condições de legitimidade. Quando o humor  
ameaça ou é ameaçado, tornam-se visíveis os contornos de uma sociedade: aquilo que ela  
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DOSSIÊ  
tolera, o que ela protege, o que ela ridiculariza, o que ela recalca e o que ela teme. Ao historicizar  
essas tensões, este dossiê convida o leitor a levar o humor a sério, não para esvaziar sua força,  
mas para reconhecer nele uma das formas mais agudas, ambíguas e reveladoras de nossa vida  
comum.  
Referências  
BARDON, Adrian. The Philosophy of Humor. In: CHARNEY, Maurice (ed.). Comedy: a geographic  
and historical guide. Connecticut: Greenwood Press, 2005.  
MILNER DAVIS, Jessica. Taking humour and laughter seriously: the multi-disciplinary field of  
humour studies. Journal & Proceedings of the Royal Society of New South Wales, [s. l.], v.  
154, pt. 2, p. 182-200, 2021.  
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DOSSIÊ  
ENTRE A SÁTIRA E O CONFLITO: ANÁLISE DAS  
CHARGES DO CHARLIE HEBDO (2015-2025) E OS  
LIMITES DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO  
BETWEEN SATIRE AND CONFLICT: ANALYSIS OF  
CHARLIE HEBDO CARTOONS (2015-2025) AND THE  
LIMITS OF FREEDOM OF EXPRESSION  
Deivid Mota Santana1  
https://orcid.org/0000-0003-2267-7146  
http://lattes.cnpq.br/5579714779436105  
Recebido em: 12 de junho de 2025.  
Revisão final: 21 de março de 2026.  
Aprovado em: 21 de março de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23529  
1 Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação, da Universidade  
Federal do Ceará (PPGCOM-UFC), especialista em Liderança para Transformação Digital 4.0 pela  
Faculdade da Indústria e bacharel em Comunicação Social - Jornalismo, pela Universidade Federal  
do Ceará (UFC). Atua na coordenação de processos administrativos, planejamento estratégico e ges-  
tão de equipes, com foco em inovação e transformação digital. E-mail: deividmota@hotmail.com  
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DOSSIÊ  
Resumo: Este artigo analisa charges publicadas pelo jornal satírico francês Charlie Hebdo no  
período de 2015 a 2025. A pesquisa, de natureza qualitativa, adota análise documental e revi-  
são bibliográfica, focalizando representações sociopolíticas, controvérsias públicas e os limi-  
tes éticos do humor. São discutidas as tensões entre liberdade de expressão e diversidade cul-  
tural a partir da repercussão de charges polêmicas, especialmente após o atentado de 2015.  
Os resultados evidenciam como o conteúdo gráfico do periódico provoca reflexão crítica, mas  
também levanta debates sobre os impactos sociais da sátira.  
Palavras-chave: Charlie Hebdo, charges, humor, liberdade de expressão, discurso.  
Abstract: This article analyzes cartoons published by the French satirical newspaper Charlie  
Hebdo between 2015 and 2025. The qualitative research employs documentary analysis and li-  
terature review, focusing on sociopolitical representations, public controversies, and the ethi-  
cal boundaries of humor. It discusses the tensions between freedom of expression and cultu-  
ral diversity, especially after the 2015 terrorist attack. The findings show how the newspaper’s  
graphic content prompts critical reflection while also raising concerns about the sociocultural  
impact of satire.  
Keywords: Charlie Hebdo, cartoons, humor, freedom of expression, discourse.  
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DOSSIÊ  
INTRODUÇÃO  
O Charlie Hebdo é um semanário satírico francês conhecido por utilizar  
charges como instrumento de crítica política, social e religiosa. Fundado em  
1970, o periódico construiu sua identidade editorial com base na irreverência, no  
humor ácido e na defesa intransigente da liberdade de expressão, tornando-se  
símbolo de resistência à censura. Suas publicações frequentemente abordam  
temas sensíveis, como religião, imigração, terrorismo, entre outros, despertando  
reações diversas que variam entre o apoio enfático e a indignação (Correio, 2016).  
O atentado de 7 de janeiro de 2015, no qual 12 (doze) pessoas foram  
assassinadas por extremistas em resposta a caricaturas publicadas pelo jornal,  
intensificou o debate sobre os limites do humor e os riscos enfrentados por  
veículos de imprensa crítica. A tragédia consolidou o Charlie Hebdo como ícone  
global da liberdade de imprensa, mas também evidenciou tensões entre sátira,  
discurso de ódio e diversidade cultural (De Fru, 2018).  
Assim, este artigo investiga a atuação do Charlie Hebdo por meio de charges  
publicadas entre 2015 e 2025, analisando como essas imagens comunicam  
posicionamentos políticos e produzem efeitos socioculturais. Questiona-se: até  
que ponto a liberdade de expressão justifica o uso da sátira quando esta pode  
ferir sensibilidades culturais e sociais?  
O objetivo é discutir os impactos da liberdade de expressão na imprensa  
satírica, a partir de uma análise qualitativa baseada em revisão bibliográfica  
e análise documental de charges. A proposta insere-se no debate sobre o  
papel do humor gráfico nas sociedades democráticas contemporâneas, suas  
potencialidades críticas e seus limites éticos (Díaz Hernández, 2016).  
O JORNAL FRANCÊS CHARLIE HEBDO  
OCharlieHebdotemorigemnocontextodaimprensaalternativafrancesados  
anos 1960. Surge como herdeiro do espírito provocador do Hara-Kiri, publicação  
fundada por François Cavanna e Georges Bernier (conhecido como Professor  
Choron), popular por desafiar convenções sociais e políticas por meio da sátira  
gráfica.  
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O Hara-Kiri Hebdo foi interditado em 1970, após publicar uma manchete  
irreverente sobre a morte do general Charles de Gaulle. Para driblar a censura, a  
equipe relançou o jornal com o nome Charlie Hebdo, em referência ao personagem  
Charlie Brown, das tiras Peanuts, e ao ex-presidente Charles de Gaulle. Desde  
então, o periódico se consolidou como uma das principais expressões da  
imprensa satírica europeia.  
Publicando semanalmente, o Charlie Hebdo utiliza a charge como forma de  
denúncia, desconstrução de discursos e crítica mordaz a instituições políticas,  
religiosas e sociais. Sua linha editorial se ancora no princípio da laicidade e na  
tradição iluminista francesa de liberdade de crítica (Milton, 1999). Ao mesmo  
tempo, é alvo recorrente de processos judiciais, boicotes e manifestações,  
especialmente por parte de grupos religiosos e movimentos sociais que se  
sentem ofendidos com suas representações gráficas.  
O jornal não se limita às charges: editoriais, colunas e reportagens  
também compõem sua estrutura, muitas vezes com linguagem provocadora e  
politicamente “incorreta”. Essa característica coloca o Charlie Hebdo em uma  
posição controversa; ora exaltado como bastião da liberdade de imprensa, ora  
criticado por promover discursos ofensivos sob o pretexto da sátira (Mill, 2011).  
A análise das publicações do Charlie Hebdo entre 2015 e 2025 permite  
observar como o jornal manteve sua postura crítica mesmo após o atentado  
que abalou sua redação. A edição especial de 2025, intitulada “INCREVABLE!”  
(“Indestrutível!”), reafirma a continuidade da linha editorial combativa, marcada  
pela resistência e pelo humor confrontativo. Diante disso, é necessário refletir  
sobre os usos da sátira em contextos democráticos e os efeitos produzidos por  
esse tipo de comunicação (Charaudeau, 2006).  
O Charlie Hebdo, um hebdomadário, circula tradicionalmente às quartas-  
feiras, com tiragem variável, geralmente entre 30 mil e 50 mil exemplares, embora  
edições extraordinárias tenham ultrapassado 3 milhões, como ocorreu após o  
atentado de 2015.  
Cada edição conta com cerca de 16 a 32 páginas, organizadas em seções  
relativamente fixas que incluem charges, editoriais, colunas de opinião,  
reportagens breves e notas satíricas. A estrutura interna é deliberadamente  
informal e visualmente carregada, marcada por tipografia intensa, uso abundante  
de cores fortes, ilustrações de página inteira e ausência de publicidade comercial  
tradicional.  
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O conteúdo costuma abrir com uma charge de capa, quase sempre ligada  
a eventos da semana, seguida por um editorial ou texto de abertura assinado  
por membros da redação, como Riss (editor-chefe), Luz ou Charb (nos anos  
anteriores ao atentado). A partir daí, desenvolvem-se colunas como “Journal  
Bête et Méchant” (subtítulo herdado do Hara-Kiri), relatos de bastidores políticos,  
sátiras sobre a imprensa tradicional, religiões e cultura popular.  
As reportagens são curtas e opinativas, quase sempre escritas em tom  
pessoal e irônico. Em muitas edições, há também dossiês temáticos que  
combinam texto e imagem para abordar assuntos como política externa, racismo,  
imigração ou feminismo, sob uma ótica antiautoritária e anticlerical.  
O núcleo de produção do jornal é formado por um coletivo editorial fixo, com  
forte presença de cartunistas e jornalistas de formação humanística. Diferente  
da lógica de grandes redações, o Charlie Hebdo opera de modo colaborativo e  
artesanal.  
O layout é concebido de maneira integrada com o conteúdo visual, charges  
e textos são pensados como formas equivalentes de discurso. A linguagem é  
coloquial, cáustica e propositalmente desrespeitosa com convenções formais.  
Essa estrutura orgânica reforça a identidade editorial do periódico: um espaço  
de liberdade discursiva extrema, que aposta no escândalo e no absurdo como  
dispositivos políticos e estéticos.  
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA  
O humor gráfico, em especial a charge, desempenha papel importante na  
crítica social e política. De caráter opinativo, a charge mescla imagem e texto  
para provocar reflexão por meio da sátira. Parnaiba e Gobbi (2014) destacam que  
esse gênero é marcado pela atualidade, pelo posicionamento ideológico e pela  
linguagem metafórica, muitas vezes irônica ou sarcástica.  
Henri Bergson (1993), em O Riso, considera o cômico como um mecanismo  
de correção social: rimos quando observamos algo mecânico no comportamento  
humano, isto é, quando o sujeito age de forma automática, fora das normas da  
espontaneidade. Esse descompasso provoca riso, que é, por sua vez, social,  
exige um público e pressupõe uma certa distância emocional. Isso explica por  
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que determinadas charges causam indignação em públicos mais envolvidos  
afetivamente com o tema abordado.  
Vladimir Propp (1992), em Comicidade e Riso, destaca o riso sarcástico como  
um dos mais recorrentes no humor gráfico. Esse tipo de riso se baseia na crítica  
e na exposição de contradições morais, sociais ou políticas. Segundo o autor, o  
sarcasmo é uma ferramenta para revelar desigualdades e questionar estruturas  
de poder.  
Além das contribuições clássicas de Bergson e Propp, é relevante considerar  
abordagens contemporâneas que exploram a dimensão política e histórica  
do riso. Pierre Serna (2015), em “La politique du rire. Satires, caricatures et  
blasphèmes XVIe-XXIe siècles”, analisa como a sátira e a caricatura funcionaram,  
ao longo de séculos, como instrumentos de contestação do poder, mas também  
como armas de dominação e controle social. Sua perspectiva histórica ajuda a  
situar publicações como o Charlie Hebdo dentro de uma longa tradição francesa  
de imprensa satírica anticlerical e antiabsolutista, ao mesmo tempo que  
problematiza os usos do humor em contextos de tensão cultural.  
Terry Eagleton (2019), no capítulo “The politics of humour” de sua obra Humour,  
argumenta que o riso nunca é politicamente neutro. Para Eagleton, o humor pode  
servir tanto para reforçar hierarquias e excluir grupos marginalizados quanto  
para subverter autoridades e questionar normas estabelecidas.  
Essa dualidade é central para entender as reações polarizadas às charges do  
Charlie Hebdo: se, por um lado, elas se inserem em uma narrativa de resistência  
laica e crítica ao poder, por outro, podem ser percebidas como expressões de um  
etnocentrismo que desconsidera a assimetria de poder entre maiorias e minorias  
religiosas em contextos pós-coloniais.  
AschargesdoCharlieHebdoutilizamessesrecursosparaconstruirumacrítica  
contundente, frequentemente provocando desconforto. Ao utilizar exageros  
visuais, referências implícitas e ironia, os cartunistas expõem hipocrisias e  
violências estruturais. Contudo, a eficácia do humor depende do conhecimento  
prévio do público sobre o contexto retratado, o que reforça a importância da  
análise documental considerando o tempo e o espaço de produção da imagem.  
No caso do Charlie Hebdo, o uso da sátira visual em temas como religião,  
terrorismo, imigração e política internacional insere suas charges no centro de  
debates sobre ética e liberdade de expressão (Melo, 2016). Para compreender sua  
atuação e os impactos dessas representações, é necessário tratar o jornal como  
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fonte periódica e situá-lo historicamente.  
Conforme discutido, a linha editorial do Charlie Hebdo, marcada por  
irreverência e confrontação de dogmas, culminou na publicação de diversas  
caricaturas de Maomé. Essas imagens estiveram no centro das críticas religiosas  
e foram utilizadas como justificativa para o atentado terrorista de 7 de janeiro de  
2015, evento que será abordado na próxima seção.  
AS CHARGES QUE MOTIVARAM O ATENTADO DE 2015  
Entre as publicações mais controversas do Charlie Hebdo estão as  
caricaturas de Maomé. Em 2006, o jornal republicou, com capa própria, imagens  
originalmente veiculadas pelo periódico dinamarquês Jyllands-Posten. Uma das  
mais conhecidas mostra o profeta com uma bomba no turbante, provocando  
forte reação em diversos países de maioria muçulmana.  
Figura 1 — Montagem das charges que motivaram o ataque  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo  
Em 2011, ao anunciar a edição especial “Charia Hebdo”, o jornal estampou  
Maomé como editor-chefe, gerando novos protestos e o incêndio da redação. No  
ano seguinte, em 2012, o periódico publicou uma série de caricaturas do profeta  
sem vestimentas, intensificando ainda mais a controvérsia.  
Essas imagens foram consideradas ofensivas por grupos islâmicos radicais,  
que passaram a ver o Charlie Hebdo como inimigo do Islamismo. O atentado  
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de janeiro de 2015 é interpretado como resposta direta a essa linha editorial.  
Paradoxalmente, a capa da edição posterior ao ataque mostrou novamente  
Maomé, desta vez segurando um cartaz “Je suis Charlie”, com a legenda “Tout est  
pardonné” (“Está tudo perdoado”), reafirmando o espírito provocador e resistente  
do jornal.  
Tais charges estão no centro do debate sobre os limites da liberdade de  
expressão.ParaoscartunistasdoCharlieHebdo,nenhumacrençadeveestarisenta  
de crítica. Para muitos pesquisadores, porém, a reiterada publicação de imagens  
sabidamente ofensivas revela insensibilidade cultural e irresponsabilidade  
ética. Esse impasse evidencia a complexidade do humor gráfico em contextos  
multiculturais e a tensão entre crítica laica e respeito religioso.  
O ATAQUE AO CHARLIE HEBDO E A RESPOSTA EDITORIAL  
Na primeira edição publicada após o atentado (nº 1178, de 14 de janeiro de  
2015), o Charlie Hebdo reafirmou sua linha editorial em um texto comovente.  
Escrito por Laurent Léger, o editorial deixou claro que o ataque não os calaria: “O  
que nos atingiu não foi o Islã, mas os extremistas.” O texto reforça que o jornal não  
renunciaria à liberdade de criticar ideologias, dogmas ou religiões, defendendo  
que o humor é uma forma de resistência democrática.  
A edição circulou com três milhões de cópias e foi traduzida para diversos  
idiomas. A capa trazia Maomé segurando o cartaz “Je suis Charlie”, símbolo da  
solidariedade mundial, sob a legenda “Tout est pardonné”, em uma tentativa  
ambígua de conciliação e continuidade provocadora. O editorial posiciona a  
charge não como insulto gratuito, mas como parte de um combate simbólico  
pelo direito à crítica e à irreverência.  
O conteúdo editorial do Charlie Hebdo não se limita às charges provocativas  
que tornaram o jornal internacionalmente conhecido. Embora o humor gráfico  
seja sua marca registrada, a publicação também abriga colunas de opinião,  
reportagens, editoriais e artigos que refletem uma postura política clara: a defesa  
do laicismo, da crítica irrestrita a todas as religiões e ideologias, e a recusa em  
submeter o discurso jornalístico à lógica do “politicamente correto”.  
Essa linha editorial é frequentemente conduzida por um grupo fixo de  
jornalistas e cartunistas que compartilham um ethos comum: o de uma esquerda  
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libertária, anticlerical, antimilitarista e profundamente irônica.  
Os editoriais da publicação costumam assumir uma voz combativa,  
assumidamente parcial e provocadora. O Charlie Hebdo rejeita o modelo de  
“objetividade jornalística” tradicional, preferindo a subjetividade como estratégia  
discursiva para provocar o debate público.  
Em suas edições semanais, é comum encontrar textos que criticam não  
apenas religiões e partidos políticos, mas também setores da imprensa, ONGs  
e movimentos sociais, denunciando o que consideram formas veladas de  
autoritarismo, oportunismo ou censura ideológica. O estilo dos textos editoriais  
é direto, mordaz e repleto de referências culturais francesas, o que reforça sua  
identidade como um produto profundamente enraizado no contexto político e  
social da França.  
Essa abordagem editorial faz do Charlie Hebdo um espaço de disputa  
simbólica. Ao adotar uma retórica deliberadamente polêmica, o jornal se  
posiciona como defensor da liberdade de expressão em sua forma mais radical.  
No entanto, isso o coloca frequentemente no centro de controvérsias, acusado  
de ultrapassar os limites do respeito às minorias ou de alimentar discursos  
intolerantes sob a justificativa da crítica.  
Essa ambivalência é assumida pelos próprios editores, que consideram a  
função do periódico não apenas informar, mas perturbar e interpelar. Portanto,  
compreender o Charlie Hebdo requer ir além das imagens que circulam nas redes  
sociais digitais e mergulhar em sua lógica editorial, que articula humor, confronto  
e engajamento político como formas de intervenção pública.  
METODOLOGIA  
Este artigo adota abordagem qualitativa, com base em análise documental  
e revisão bibliográfica. A análise documental, conforme Gil (2010) e Cellard  
(2008), consiste no exame sistemático de documentos com o objetivo de extrair  
informações relevantes ao objeto de estudo. No campo da Comunicação, isso  
inclui jornais, revistas e mídias digitais, considerando-os não apenas como  
suporte, mas como construtores de discurso.  
Os documentos selecionados são exemplares do semanário Charlie Hebdo,  
publicados entre 2015 e 2025, com especial atenção às edições que contêm  
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charges de forte repercussão pública. A seleção incluiu charges sobre política  
interna francesa, imigração, conflitos internacionais e edições especiais, como  
a que marca os 10 anos do atentado de 2015.  
Além disso, a revisão bibliográfica fundamenta-se em autores que discutem  
o papel da sátira e do humor na Comunicação Social, os limites éticos da liberdade  
de expressão e a relação entre mídia, cultura e poder. Referências específicas  
sobre o uso da mídia periódica como fonte de pesquisa jornalística e histórica  
também foram incorporadas, conforme orientações metodológicas de Cellard  
(2008).  
A análise das charges leva em conta seu conteúdo visual e verbal, o contexto  
de publicação, os personagens representados e os sentidos sugeridos. Para isso,  
foram utilizadas categorias analíticas relacionadas ao discurso, à ironia, à crítica  
social e ao enquadramento simbólico da imagem (Silva, 2016).  
ANÁLISE DAS CHARGES DO CHARLIE HEBDO (2015-2025)  
A análise a seguir examina um conjunto de charges publicadas pelo Charlie  
Hebdo entre 2015 e 2025, com foco em três eixos temáticos recorrentes: a crítica  
à política interna francesa, a resposta editorial ao atentado de 2015 e a sátira de  
questões internacionais.  
Por meio da ironia, do exagero gráfico e da apropriação de contextos  
geopolíticos, o jornal constrói narrativas visuais que tensionam os limites entre  
a crítica legítima e a provocação deliberada. A primeira montagem analisada  
(Figura 2) ilustra como a publicação utiliza o conflito israelo-palestino como  
espelho para refletir e denunciar problemas sociais e políticos na França.  
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Figura 2 — Montagem de charges sobre Gaza e política francesa  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo. Disponível em: https://charliehebdo.fr/themes/politique/. Acesso  
em: 20 fev. 2025  
As charges selecionadas para esta análise foram publicadas pelo Charlie  
Hebdo em meio à intensificação do conflito Israel-Palestina. Ambas utilizam a  
devastação de Gaza como metáfora crítica ao contexto político francês.  
A primeira charge (à esquerda) retrata a Côte d’Azur em ruínas, com prédios  
destruídos e cartazes da prefeitura de Nice e do partido Les Républicains. A  
ironia reside na inversão de uma proposta real do presidente americano Donald  
Trump, que sugeriu transformar Gaza em uma nova “Côte d’Azur”. Aqui, os políticos  
francesesparecemdesejarooposto:transformaraRivieraFrancesaemumazona  
de guerra. Entre os caricaturados, nota-se figuras como Éric Ciotti, enfatizando  
a crítica à guinada securitária e xenófoba das políticas locais.  
A segunda charge (à direita) também utiliza o cenário da destruição, com  
uma placa informando que “Gaza é cidade-irmã de Villeneuve-Saint-Georges”, um  
subúrbio parisiense conhecido por sua precarização urbana. O título refere-se à  
derrota de Louis Boyard, jovem deputado do La France Insoumise, que simboliza  
uma esquerda antissistema. A fala irônica sugere que sua derrota inviabilizou  
qualquer perspectiva de paz, escancarando o ceticismo diante do discurso  
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político convencional.  
Ambas as imagens usam a guerra como alegoria para criticar o abandono das  
periferiasfrancesas,ahipocrisiapolíticaeooportunismoeleitoral.Aanalogiacom  
Gaza opera como choque visual e discursivo: uma denúncia do empobrecimento  
urbano e da violência simbólica nos centros metropolitanos europeus.  
Figura 3 — Capa comemorativa de 10 anos do atentado  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo  
A capa da edição especial de 7 de janeiro de 2025 estampa a palavra  
INCREVABLE!” (“Inquebrável!”) e mostra uma figura caricatural sentada sobre um  
fuzil AK-47, sorrindo enquanto segura a própria revista. A referência direta ao  
atentado de 2015 é reforçada pelas datas “2015-2025” ao pé da imagem.  
O fuzil, símbolo do terrorismo jihadista, é ressignificado como base literal da  
resistência editorial. A figura sorridente representa o próprio espírito do Charlie  
Hebdo, zombeteiro, provocador e resistente. O uso de amarelo vivo e traços  
simples remete ao estilo tradicional do jornal.  
À direita, uma caixa de texto informa que 76% dos franceses apoiam a  
liberdade dos cartunistas (Sondage IFOP). A metalinguagem da imagem dentro  
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