DOSSIÊ
demonstrar que o humor não admite definição simples nem função única. Se, por um lado, o
riso pode favorecer coesão social, aliviar tensões e consolidar pertencimentos, por outro, pode
também excluir, humilhar, marcar diferenças e intensificar violências simbólicas. Permanece
em aberto, portanto, a questão de saber se o humor une ou divide os seres humanos, ou melhor,
em que circunstâncias ele realiza uma ou outra dessas funções.
Esse caráter ambivalente do humor torna ainda mais pertinente a questão central
deste dossiê. Falar em “riso sob ameaça” implica reconhecer que o humor nunca existiu em
estado puro ou inocente: ele sempre esteve atravessado por regimes de poder, normas de
sensibilidade, hierarquias sociais, convenções de linguagem e disputas de legitimidade.
Em diferentes momentos históricos, o riso foi considerado sinal de desordem moral, perda
de autocontrole, profanação do sagrado, vulgaridade estética ou perigo político. Em outros
contextos, foi celebrado como instrumento crítico, forma de inteligência, mecanismo de
sobrevivência coletiva ou linguagem privilegiada da liberdade. Entre repressão e emancipação,
entre disciplina e subversão, o humor aparece como índice privilegiado das tensões de uma
sociedade consigo mesma. Porém, é também o humor que consegue reunir à mesma mesa
representantes de diferentes religiões, que concordam, saudavelmente, que “Deus ri”, como
sucedeu em Lisboa, em 2017, em um debate entre o católico (hoje cardeal) José Tolentino de
Mendonça, o muçulmano xeque Munir e a judia Esther Mucznik, moderado por Ricardo Araújo
Pereira e Bruno Nogueira.
O dossiê propõe, nesse sentido, examinar o humor em sua historicidade, recusando
tanto sua banalização quanto sua idealização. Interessa-nos compreender como o riso foi
moldadoporinstituições, censuras, moralidadesesensibilidades;comodeterminadosgêneros
cômicos foram valorizados ou estigmatizados; como o humor atuou na crítica de costumes, no
enfrentamento do poder, na produção de identidades coletivas e na administração de medos,
traumas e conflitos. Interessa-nos, igualmente, investigar os momentos em que o humor
parece entrar em crise: quando se fala em sua impossibilidade, esgotamento, interdição ou
captura por lógicas de mercado, polarização e vigilância social.
Nessa direção, os artigos aqui reunidos revelam a extraordinária variedade de
formas pelas quais o humor se articula com conflito, poder e representação. Em “Entre
a sátira e o conflito: análise das charges do Charlie Hebdo (2015-2025) e os limites da
liberdade de expressão”, Deivid Mota Santana examina um dos casos mais emblemáticos
da contemporaneidade, no qual sátira, violência e debate público se entrelaçam de maneira
aguda. O estudo parte do atentado de 7 de janeiro de 2015, quando integrantes da redação
foram assassinados em resposta a caricaturas publicadas pelo jornal, marco que intensificou
as discussões internacionais sobre os limites do humor gráfico. A partir desse contexto, o
artigo analisa como o Charlie Hebdo manteve sua linha editorial provocadora, fundada na sátira
política, no anticlericalismo e na defesa radical da liberdade de expressão. O estudo sustenta
que o Charlie Hebdo ocupa uma posição ambígua no espaço público, sendo ao mesmo tempo
símbolo de resistência à censura e foco de controvérsia ética, contribuindo assim para o debate
sobre os limites da liberdade de expressão e os efeitos sociais e culturais da sátira.
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280