DOSSIÊ
homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimação penosa
da cultura europeia, procuravam estilizar para nós, seus descendentes, os sentimentos
que experimentavam, as observações que faziam – dos quais se formaram os nossos.
(CANDIDO, 2000a [1957], p. 10, grifo nosso)
Seu olhar profundamente dialético encontra-se no impasse de, demonstrando o
provincianismo fundador do “desejo dos brasileiros de terem uma literatura”, reconhecer os
seus“equívocos” e não incorrer no outro provincianismo, o servile, porassimdizer, deslumbrado
com as referências estrangeiras, como advertiria, décadas depois, na Abralic.
É, talvez, a desleitura da literatura, da história e da filosofia das metrópoles em suas
entrelinhas, ou a não leitura dos autores mestres em ler entrelinhas (os irônicos, os cômicos,
os absurdos, como nossa própria literatura sedia um Machado ou um Oswald, parentes de
Sterne ou de Nietzsche) que nos cega para os dualismos do lá e do cá, em visões restritas do
específico nacional cujos termos de comparação são geralmente os espectros que a posição
subalterna do texto projeta, deslizando em falso no trilho de dicotomias: alto/ baixo, puro/
impuro, branco/ nativo/ negro/ mestiço, sério/ jocoso, original/ imitado, autêntico/ impostor,
natural/ inventado etc. Se lermos o que já escrevera Nietzsche em 1886, podemos refletir a
respeito da mimese e do humor em um contexto mais abrangente e histórico das relações
entre etnias e classes, em um processo que a todo momento faz paródia do provincianismo
que orienta as impossibilidades ditadas pela crítica:
O mestiço europeu – um plebeu razoavelmente feio, afinal de contas – precisa
absolutamente de um traje de fantasia: ele tem necessidade da história como um
depósito de fantasias. Sem dúvida percebe que nenhuma delas lhe cai muito bem –
está sempre mudando-as. Considere-se, no século XIX, as súbitas predileções e
mudanças das mascaradas de estilo; e também os momentos de desespero porque
“nada assenta”. – Inútil apresentar-se como romântico, ou clássico, cristão, florentino,
barroco ou “nacional”, in moribus et artibus [nos costumes e nas artes]: “não cai!” Mas
o “espírito”, em especial o “espírito histórico”, divisa também uma vantagem nesse
desespero: repetidamente, um novo pedaço do passado e do exterior é experimentado,
vestido, retirado, guardado, sobretudo estudado – somos a primeira época estudiosa in
puncto [em matéria de] “fantasias”, quero dizer morais, artigos de fé, gostos artísticos
e religiões, preparada, como nenhuma época anterior, para o Carnaval de grande estilo,
para a mais espiritual gargalhada e exuberância momesca, para a altura transcendental
da suprema folia e derrisão aristofânica do mundo. (NIETZSCHE, 1996 [1886], p. 128)
Com Nietzsche podemos, portanto, desfazer a impressão de que a impostura, o caráter
postiço, inautêntico, imitado, os efeitos culturais da mestiçagem e do hibridismo, a sucessão
de máscaras das identidades coletivas e, em última análise, as reapropriações das ruínas
após a ruptura com a tradição sejam a propriedade e a negatividade exclusiva dos países
periféricos. Eis uma plataforma dialética compreensiva de uma república mundial do Carnaval
nas Letras, que recoloca a periferia no atraso do centro, pois em todo o mundo dito ou ideado
moderno – e que jamais o foi plenamente, na conhecida formulação do antropólogo Bruno
Latour (2004) –, conflituoso e contraditório, que não é o melhor dos possíveis, muita coisa é
“precisamente como não deverá ser” e – também por isso – o humor tem seu lugar, ao contrário
do que predicara Mendes Fradique.
130
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280