SUMÁRIO  
Sumário  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais - v. 17, n. 34, jul.- dez. 2025  
EXPEDIENTE ...................................................................................................................................................... 4  
Editorial: O riso sob cerco – humor, poder e barbárie no tempo presente ....................................................... 7  
Aguinaldo Rodrigues Gomes (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil), Miguel Rodrigues de Sousa  
Neto (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil)  
DOSSIÊ  
Apresentação — Dossiê: O fim do humor? O riso sob ameaça ao longo da história .......................................... 13  
Dorothee Chouitem (Sorbonne Université, França), João Pedro Rosa Ferreira (Centro de Humanidades  
- Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Portugal), Thaís Leão Vieira  
(Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil)  
Entre a sátira e o conflito: análise das charges do Charlie Hebdo (2015-2025) e os limites da liberdade de  
expressão .......................................................................................................................................................... 20  
Deivid Mota Santana (Universidade Federal do Ceará (UFC), Brasil)  
O comediante invisível: a tradução do riso na indústria audiovisual contemporânea ..................................... 37  
Cristian Palacios (Conselho Nacional de Pesquisa Cientí ica e Tecnológica, Argentina)  
Desenhar o final do império colonial: o traço do cartoonista Augusto Cid (1966-1974) ................................... 58  
Sónia Pereira Henrique (Centro de Estudos Socioeconómicos e Territoriais, Portugal), Maria Cristina Neves  
(Universidade de Lisboa, Portugal)  
O papel do Observador-Personagem no humor gráfico de Quino ..................................................................... 84  
Francisco Ocampo (Universidade de Minnesota, Estados Unidos), Alicia Ocampo (Universidade de Minnesota,  
Estados Unidos)  
O humor na guerra colonial: o jornal Os Progressistas, dirigido por Salgueiro Maia na Guiné ........................ 105  
João Pedro Rosa Ferreira (Universidade Nova de Lisboa, Portugal)  
O paradoxo do humorista fora do lugar ........................................................................................................... 120  
Mario Tommaso (Universidade de São Paulo, Brasil)  
Do riso à argumentação: análise discursiva de pseudopregação da “igreja evangélica pica das galáxias” .. 138  
Said Slaibi (Universidade Federal de Viçosa, Brasil), Rony Petterson Gomes do Vale (Universidade Federal de  
Viçosa, Brasil)  
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SUMÁRIO  
Humor satírico no cordel “O Testamento de Getúlio”, de Cuíca de Santo Amaro ........................................ 157  
Leandro Antonio de Almeida (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil)  
Poder, violência e humor .............................................................................................................................. 185  
Ana Beatriz Flores (Universidad Nacional de Córdoba, Argentina)  
Comédias desastrosas: filmes cult .............................................................................................................. 197  
Ruben Olachea-Perez (Universidad Autonoma de Baja Califor Sur, México)  
Imagem, humor e poder racial na América Latina ........................................................................................ 209  
Alexander Ortega Marín (Universidade Federal do Maranhão, Brasil)  
ARTIGOS  
Rojo Amanecer: linguagens, memórias e resistências do 2 de outubro de 1968 no México ...................... 233  
Priscila Roberta Alves Lemos (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil), Fábio da Silva Sousa  
(Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil)  
Plantas Alimentícias Não Convencionais no Recôncavo da Bahia: biodiversidade e percepções dos  
moradores .................................................................................................................................................. 253  
Lígia Santiago da Paz da Silva (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil), Renan Luiz Albuquerque  
Vieira (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil), Adriele Nonato Oliveira (Universidade Federal do  
Recôncavo da Bahia, Brasil), Rodrigo José Araújo de Jesus (Universidade Estadual de Feira de Santana, Brasil),  
Weliton Antônio Bastos de Almeida (Centro Universitário Maria Milza, Brasil), Ana Karina da Silva Cavalcante  
(Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, Brasil)  
RESENHAS  
A dívida impagável: uma crítica feminista, racial e anticolonial do capitalismo ........................................ 271  
Allicka Cardoso (Universidade Federal de São Carlos, Brasil), Luís Brinatti (Universidade Federal de São Carlos,  
Brasil)  
Fascismo e imaginário literário: resenha de “O fascismo infinito, no real e na ficção”, de Sergio Schargel ... 281  
Melanie Steigleder (Universidade Federal Fluminense, Brasil)  
Jornal Sem Terra: um militante na redemocratização do Brasil ..................................................................... 286  
Jefferson Ribeiro da Silva (Universidade Federal de Mato Grosso, Brasil)  
PARECERISTAS DESTA EDIÇÃO ........................................................................................... 292  
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EXPEDIENTE  
EXPEDIENTE  
v. 17, n. 34, jul.- dez. 2025  
b
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.25483  
Editores-chefes  
Aguinaldo Rodrigues Gomes (Doutor em Educação), Universidade Federal de Mato  
Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Miguel Rodrigues de Sousa Neto (Doutor em História), Universidade Federal de Mato  
Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Editores de seção  
Róbson Pereira da Silva (Doutor em História), Universidade Federal de São Carlos  
(UFSCar), Brasil  
Antonio Ricardo Calori de Lion (Doutor em História), Universidade Estadual de Goiás  
(UEG), Brasil  
Diagramação  
Roger Luiz Pereira da Silva (Mestre em Tecnologia e Sociedade), Universidade Tecnoló-  
gica Federal do Paraná (UTFPR), Brasil  
Coordenador do Programa de Pós-graduação em Estudos Culturais (PPGCult)  
Miguel Rodrigues de Sousa Netto, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul  
(UFMS), Brasil  
Membros pesquisadores/as do Laboratório de Estudos em Diferenças & Linguagens - LE-  
DLin - UFMS  
Aguinaldo Rodrigues Gomes, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS),  
Brasil  
Ana Letícia Bonfanti, Delegacia Especializada de Defesa da Mulher, Criança, Adoles-  
cente e Idoso (DEDDICA/MT), Brasil  
Antonio Ricardo Calori de Lion, Universidade Estadual de Goiás (UEG), Brasil  
Edvaldo Correa Sotana, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Helen Paola Vieira Bueno, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Isabel Camilo de Camargo, Fundação de Apoio e Desenvolvimento do Ensino, Ciência  
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EXPEDIENTE  
e Tecnologia de Mato Grosso do Sul, (FUNDECT/MS), Brasil  
Marcos Antonio de Menezes, Universidade Federal de Jataí (UFJ), Brasil  
Miguel Rodrigues de Sousa Neto, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS),  
Brasil  
Róbson Pereira da Silva, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Brasil  
Thaís Leão Vieira, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Conselho Consultivo (biênio 2025 – 2026)  
Alexandre Busko Valim - Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil  
Alexandre de Sá Avelar - Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Brasil  
Ana Paula Squinelo - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Camila Soares López - Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Brasil  
Durval Muniz de Albuquerque Junior - Universidade Federal do Rio Grande do Norte  
(UFRN), Brasil  
Eduardo José Reinato – Pontifícia Universidade de Goiás (PUC Goiás), Brasil  
Edvaldo Correa Sotana - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Fábio Henrique Lopes - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Brasil  
Flávio Vilas Boas Trovão - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Helen Paola Vieira Bueno - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Iara Quelho de Castro - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Jiani Fernando Langaro - Universidade Federal de Goiás (UFG), Brasil  
João José Caluzi - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP),  
Brasil  
João Pedro Rosa Ferreira - Universidade Nova de Lisboa (NOVA), Portugal  
José Marin - Université de Genève, Suíça  
Leonardo Lemos de Souza – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”  
(UNESP), Brasil  
Lúcia Helena Oliveira Silva- Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”  
(UNESP), Brasil  
Lúcia Regina Vieira Romano - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”  
(UNESP), Brasil  
Luisa Consuelo Soler Lizarazo – Universidad Autónoma de Chile (UA), Chile  
Márcio Pizarro Noronha – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil  
Maria Betanha Cardoso Barbosa - Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA),  
Brasil  
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EXPEDIENTE  
Marcos Antonio de Menezes – Universidade Federal de Jataí (UFJ), Brasil  
Murilo Borges Silva - Universidade Federal de Jataí (UFJ), Brasil  
Nadia Molek - Universidad de Buenos Aires (UBA), Argentina  
Patrícia Zaczuk Bassinello - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Raquel Gonçalves Salgado - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Regiane Corrêa de Oliveira Ramos – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul  
(UEMS), Brasil  
Renan Honório Quinalha - Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Brasil  
Robson Corrêa de Camargo - Universidade Federal de Goiás (UFG), Brasil  
Rosangela Patriota Ramos - Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil  
Sebastián Valverde – Universidad de Buenos Aires (UBA), Argentina  
Tadeu Pereira dos Santos - Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Brasil  
Tanya Saunders - University of Florida (UF), Estados Unidos da América  
Thaís Leão Vieira – Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Tiago Duque - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Brasil  
Zélia Lopes da Silva - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”  
(UNESP), Brasil  
Capa  
Capa: Róbson Pereira da Silva. Imagem: Miguel REP.  
Projeto Gráfico e Diagramação  
Roger Luiz Pereira da Silva  
Contato  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais  
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) – Câmpus de Aquidauana, Unida-  
de I.  
Praça Nossa Senhora Imaculada Conceição, 163 - Centro, Aquidauana/Mato Grosso do  
Sul, Brasil.  
CEP: 79200-000  
Telefone +55 67 3241-0309  
E-mail: revista.albuquerque@ufms.br  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
EDITORIAL  
EDITORIAL: O RISO SOB CERCO – HUMOR, PODER E  
BARBÁRIE NO TEMPO PRESENTE  
EDITORIAL: LAUGHTER UNDER SIEGE – HUMOR,  
POWER, AND BARBARISM IN THE PRESENT AGE  
Aguinaldo Rodrigues Gomes1  
https://orcid.org/0000-0002-2398-8088  
http://lattes.cnpq.br/3408519048864585  
Miguel Rodrigues de Sousa Neto2  
https://orcid.org/0000-0001-9672-3315  
http://lattes.cnpq.br/1581653418017053  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.25455  
Há algo de profundamente inquietante — e ao mesmo tempo revelador — no título que  
orienta este dossiê: “O fim do humor? O riso sob ameaça ao longo da história”. A interrogação  
não é retórica. Ela se impõe como sintoma de uma época em que o riso parece tensionado até  
o limite, comprimido entre a violência extrema e a urgência ética de não silenciar diante dela.  
Esta edição da Albuquerque: revista de Estudos Culturais nos convida a habitar  
esse espaço incômodo. Ao reunir textos como “O humor na guerra colonial”, “Poder, violência  
e humor”, “Humor satírico no cordel ‘O Testamento de Getúlio”, “Do riso à argumentação”,  
“O paradoxo do humorista fora do lugar”, “Desenhar o final do império colonial”, “O papel do  
narrador-observador no humor gráfico de Quino”, “O comediante invisível”, “Entre a sátira e  
o conflito”, “Imagem, humor e poder racial na América Latina” e “Comédias desastrosas”, o  
dossiê não apenas mapeia formas de humor — ele interroga seus limites, suas ambivalências  
e, sobretudo, sua potência política.  
Vivemos um tempo em que imagens de guerra, destruição e morte circulam com  
intensidade brutal. O genocídio em Gaza, os conflitos geopolíticos atravessados pelo petróleo  
no Oriente Médio, as disputas por hegemonia global — tudo isso compõe um cenário em que a  
experiência do absurdo não é mais exceção, mas regra. Diante disso, o riso não desaparece.  
Ele se transforma.  
A tradição filosófica já nos alertava: o humor nasce da incongruência. Quando o mundo  
1 Docente do Curso de Graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em Estudos  
Culturais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail: aguinaldorod@gmail.  
com  
2 Docente do Curso de Graduação em História e do Programa de Pós-Graduação em Estudos Cul-  
turais, ambos do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).  
E-mail: miguelrodrigues.snetto@gmail.com  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
EDITORIAL  
deixa de fazer sentido, o riso emerge como resposta à fratura entre expectativa e realidade.  
Immanuel Kant afirmou: “Em tudo que é para provocar uma vívida e convulsiva risada tem de  
haver alguma coisa absurda [...]. O riso é uma afeição decorrente da transformação repentina  
de uma expectativa tensionada em nada” (como citado em Morreall, 2009 apud Tabacaru, 2015).  
Mas o que acontece quando a própria realidade se torna grotesca? Quando o absurdo não é  
mais ruptura, mas condição permanente?  
Nesse ponto, o humor deixa de ser apenas alívio e passa a operar como diagnóstico.  
Ele revela o colapso da racionalidade, expõe a violência naturalizada e desarma — ainda  
que momentaneamente — o peso do horror. Como sugeria Henri Bergson (1983), o riso pode  
funcionar como mecanismo de correção social; aqui, ele atua também como forma de  
resistência simbólica.  
O cinema oferece exemplos paradigmáticos dessa potência. O Grande Ditador, de  
Charles Chaplin (1940), permanece como um dos gestos mais radicais de enfrentamento ao  
totalitarismo. Ao ridicularizar Adolf Hitler no auge de sua força, Chaplin rompeu com o silêncio  
reverente que sustenta regimes autoritários. O riso, nesse caso, não foi fuga, fez-se ataque.  
Décadas depois, A Vida é Bela, de Roberto Benigni (1997), radicaliza essa tensão  
ao situar o humor no interior do horror absoluto do Holocausto. A estratégia de Guido, ao  
transformar o campo de concentração em um “jogo” para proteger o filho, não nega a violência,  
mas a reinscreve em outro registro, preservando a possibilidade de humanidade. Trata-se de  
uma recusa: não do fato histórico, mas da vitória simbólica da barbárie. Essa recusa é central  
para compreender o papel do humor em tempos de crise. O riso pode funcionar como escudo,  
como linguagem de sobrevivência, como gesto ético. Ele não elimina a dor, mas impede que  
ela se converta em totalidade.  
O humor também é campo de disputa. Ele pode reforçar hierarquias, naturalizar  
violências, operar como instrumento de dominação. É por isso que este dossiê insiste em sua  
ambivalência: o humor não é, por si só, emancipador. Ele depende de sua direção, de seu alvo,  
de seu contexto.  
Nesse sentido, as análises contemporâneas do humor político são particularmente  
reveladoras. Emchargesquecirculamglobalmente, figurasdepodersãosubmetidasaoridículo  
— um gesto aparentemente simples, mas profundamente subversivo. O riso desmonumentaliza.  
Eleretiradasliderançasautoritáriasaauradeinvencibilidadequesustentaseupodersimbólico.  
Um exemplo dessa função do riso é a charge publicada no X por Ali Khamenei, em  
janeiro de 2026, que representa Donald Trump como um sarcófago egípcio em ruínas, e insere-  
se em um contexto de intensa tensão geopolítica entre Irã e Estados Unidos/Israel. Ao associar  
Trump à figura de tiranos históricos, como o Faraó, a imagem mobiliza o humor político como  
estratégia de rebaixamento simbólico, sugerindo a inevitabilidade da queda de lideranças  
marcadas pela arrogância e pelo autoritarismo. A estética da ruína — com o sarcófago  
rachando e se desfazendo — reforça a ideia de decadência do poder, enquanto a circulação  
da charge em redes como o próprio X e Instagram amplia seu impacto global, transformando  
o riso em instrumento de disputa narrativa e crítica política em escala internacional. Quando  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
EDITORIAL  
uma figura como Donald Trump é representada como um “grande ditador” encerrado em um  
sarcófago em ruínas, o que está em jogo não é apenas a crítica individual, mas a desmontagem  
de uma narrativa de poder. A imagem sugere que aquilo que se apresenta como eterno já está  
em decomposição. O humor, aqui, opera como arqueologia do presente: revela o futuro como  
ruína.  
Figura 1 – charge publicada no X por Ali Khamenei  
Essa dimensão é particularmente relevante em um contexto em que acusações de  
crimes de guerra, agressões internacionais e ataques ao Estado de direito atravessam o debate  
público. O humor não substitui a justiça, mas participa da disputa simbólica que a antecede.  
Ele cria fissuras na narrativa dominante, abre espaço para o dissenso, mobiliza afetos.  
Outro exemplo dessa questão é a charge publicada pelo perfil jc_pe (@jc_pe), no  
Instagram, e assinada pelo chargista Thiago Lucas, insere-se no contexto das tensões  
geopolíticas contemporâneas ao representar Donald Trump como uma versão caricata do  
Superman, sentado e aparentemente entretido em um cenário de destruição que remete a um  
“brincar de guerra”.  
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DOSSIÊ  
Figura 2 – Charge de Thiago Lucas, publicada na página Instagram do perfil jc_pe (@jc_pe), há  
39 semanas  
.
A imagem mobiliza o contraste entre o imaginário heroico — associado à figura do  
super-herói — e a leveza infantil de quem trata conflitos globais como jogo, sugerindo uma  
crítica à condução política baseada no espetáculo, no personalismo e na banalização da  
violência. Ao transformar a guerra em brinquedo, a charge denuncia, por meio do humor, a  
irresponsabilidade e o distanciamento das consequências reais das decisões políticas,  
reforçando o papel da sátira como ferramenta de questionamento e deslegitimação simbólica  
do poder.  
Assim a charge utiliza o humor como estratégia de desestabilização simbólica da figura  
de Donald Trump ao representá-lo como uma espécie de “super-herói decadente”. Vestido  
como o Superman, ele aparece sentado de forma abatida, curvado, segurando um globo  
terrestre como se fosse um objeto frágil — ou até um brinquedo — enquanto o cenário ao seu  
redor sugere caos, destruição e negligência. Essa inversão é central para o efeito humorístico:  
o herói tradicionalmente associado à força, à salvação e ao controle absoluto surge impotente,  
cansado e incapaz de impedir o colapso que acontece literalmente aos seus pés.  
Oriso,aqui,operacomocríticapolítica.Aoinvésdeconfrontardiretamenteopodercom  
argumentos formais, a charge o esvazia por meio do ridículo. Trump não é retratado como uma  
ameaça grandiosa, mas como uma figura quase patética, deslocada de sua própria encenação  
de poder. O contraste entre o símbolo (Superman) e a atitude (passividade, descuido) produz  
um efeito de ironia que expõe a distância entre a imagem construída — de líder forte, decisivo  
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DOSSIÊ  
— e a percepção crítica do artista — de um governante incapaz de lidar com crises globais.  
Além disso, o humor visual reforça a crítica ao personalismo político. Ao colocar o  
mundo nas mãos de Trump, mas mostrar essas mãos inertes, a charge sugere que o destino  
global não pode ser reduzido à figura de um “salvador”. O riso, portanto, não é apenas zombaria:  
ele funciona como ferramenta de deslegitimação, desmontando o imaginário heroico e  
revelando suas contradições. Nesse sentido, a charge exemplifica como o humor político pode  
transformar figuras de autoridade em objetos de escárnio, enfraquecendo simbolicamente  
seu poder.  
Não por acaso, regimes autoritários frequentemente temem o riso. O medo não  
está no conteúdo explícito, mas na sua capacidade de circular, de contaminar, de produzir  
identificação. O humor é, nesse sentido, uma linguagem viral — e, como tal, difícil de controlar.  
Ao mesmo tempo, o dossiê nos lembra que o humor não se limita ao campo político  
institucional. Ele atravessa práticas culturais diversas: o cordel, o cinema, a arte gráfica, a  
literatura, a cultura popular. No cordel de Cuíca de Santo Amaro, por exemplo, a sátira opera  
como forma de comentário histórico; em Quino, o humor gráfico se torna espaço de observação  
crítica do cotidiano; nas análises sobre poder racial na América Latina, o riso revela e tensiona  
estruturas de dominação.  
Essas múltiplas formas apontam para uma questão central: o humor é uma prática  
cultural situada. Ele emerge de contextos específicos, dialoga com repertórios locais, mobiliza  
memórias coletivas. Pensá-lo exige, portanto, uma abordagem que articule estética, política  
e história.  
É nesse mesmo horizonte que os demais textos desta edição se inscrevem. O artigo  
“Rojo Amanecer” reabre o debate sobre memória e violência na América Latina; o estudo sobre  
“Plantas Alimentícias Não Convencionais no Recôncavo da Bahia” desloca o olhar para práticas  
de resistência no campo da alimentação e da cultura; as resenhas de “A dívida impagável”,  
“Fascismo e imaginário literário” e “Jornal Sem Terra” ampliam o campo de reflexão, conectando  
humor, economia, política e produção cultural.  
O conjunto evidencia que, longe de desaparecer, o humor se reconfigura. Ele se  
desloca, se reinventa, se intensifica. Em tempos de guerra — literal ou simbólica —, o riso não é  
um luxo: é uma necessidade. Mas uma necessidade que exige responsabilidade crítica.  
Talvez a pergunta que deva orientar nossa leitura não seja se estamos diante do  
fim do humor, mas que tipo de humor está em jogo. Quem ri? De quê? Contra quem? Em que  
condições?  
Responder a essas perguntas é fundamental para compreender o papel do riso no  
mundo contemporâneo. Porque, no limite, o humor é também uma forma de imaginar o possível.  
E, em tempos sombrios, imaginar já é um gesto de resistência.  
Se o riso pode ser macabro — como a hiena que ri quando ronda sua presa —, ele  
também pode ser insubmisso. Pode recusar o silêncio, desafiar o medo, expor o absurdo.  
Pode, enfim, lembrar-nos de que, mesmo diante da barbárie, a humanidade ainda insiste em  
não desaparecer.  
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DOSSIÊ  
É essa insistência que este dossiê celebra — e problematiza.  
Boa leitura.  
Referências  
BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Zahar Ed, 1983.  
Morreall, John. Comic relief: a comprehensive philosophy of humor. Malden, MA: Wiley-  
Blackwell, 2009.  
TABACARU, Sabina. Uma visão geral das Teorias do Humor: aplicação da Incongruência e  
da Superioridade ao sarcasmo. Trad. Douglas Rabelo de Sousa, Maria Gabriela Rodrigues de  
Castro, Winola Weiss Pires Cunha, Filipe Mantovani Ferreira. EID&A - Revista Eletrônica de  
Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. 9, p. 115-136, dez. 2015.  
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DOSSIÊ  
APRESENTAÇÃO - O FIM DO HUMOR? O RISO SOB  
AMEAÇA AO LONGO DA HISTÓRIA  
INTRODUCTION - THE END OF HUMOR? LAUGHTER  
UNDER THREAT THROUGHOUT HISTORY  
Dorothee Chouitem1  
https://orcid.org/0000-0003-1415-8514  
João Pedro Rosa Ferreira2  
https://orcid.org/0000-0003-0860-2471  
http://lattes.cnpq.br/7968461820931754  
Thaís Leão Vieira3  
https://orcid.org/0000-0001-8439-266X  
http://lattes.cnpq.br/4604071943987756  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.25578  
1 Docente na Sorbonne Université, França. E-mail: dorothee.chouitem@sorbonne-  
universite.fr  
2 Bacharel em História pela Universidade de Lisboa. Mestre em História Política e Cultural  
pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) e doutor em História e Teoria das  
Ideias pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH). E-mail: jprosaferreira@  
gmail.com  
3 Doutora em História pela Universidade Federal de Uberlândia (2011). Professora Asso-  
ciada da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). E-mail: thaisleaovieira@gmail.com  
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DOSSIÊ  
No sorriso há consentimento, enquanto o riso é muitas  
vezes uma recusa.  
Victor Hugo, O homem que ri  
Longe de constituir um tema periférico ou menor, o humor ocupa lugar central na  
história das ideias e na experiência humana, justamente porque mobiliza dimensões decisivas  
da vida social e simbólica: cognição, emoção, sociabilidade, racionalidade, linguagem e cultura.  
Rir nunca foi apenas um gesto espontâneo ou um efeito passageiro do entretenimento. Ao  
longo da história, o riso foi objeto de suspeita, condenação, controle, exaltação e reflexão,  
revelando-se um fenômeno complexo, ambivalente e profundamente implicado nas formas  
pelas quais os seres humanos percebem o mundo, convivem entre si e produzem sentido.  
É nesse horizonte que se inscreve o presente dossiê, “O fim do humor? O riso sob  
ameaça ao longo da história”, cujo objetivo é reunir reflexões sobre as múltiplas formas  
de aparecimento, regulação, crise e transformação do humor em diferentes tempos,  
contextos e tradições. A pergunta que dá título ao conjunto não deve ser entendida apenas  
em chave apocalíptica ou nostálgica. Interrogar o “fim do humor” significa, antes, investigar  
historicamente as condições em que o riso se torna problemático, vigiado, interditado ou  
reconfigurado; significa também perguntar de que maneira o humor sobrevive, resiste, muda  
de forma e se reinscreve nas disputas morais, políticas, estéticas e epistemológicas de cada  
época.  
Como mostra Adrian Bardon, a filosofia do humor evidencia que não é possível explicá-  
lo por uma única fórmula simplificadora. Nem a tese de que rimos por superioridade, nem a de  
que o humor se reduz a alívio emocional dão conta, por si sós, da complexidade do fenômeno.  
Embora essas interpretações revelem dimensões reais da experiência cômica, Bardon, na  
esteira de Kant e Schopenhauer, sustenta que uma das formulações filosoficamente mais  
robustas do humor está na percepção de incongruências, isto é, em mudanças cognitivas  
súbitas,reorientaçõesinterpretativasoucontrastesinesperadosentreexpectativaerealidade.  
Nessa perspectiva, o humor emerge como uma espécie de ruptura não ameaçadora de sentido,  
frequentemente acompanhada de prazer, relaxamento ou reforço social, mas não redutível a  
esses efeitos. Tal formulação é particularmente fecunda para pensar historicamente o riso,  
pois permite compreendê-lo não apenas como reação afetiva, mas como operação intelectual,  
prática cultural e forma social de percepção.  
Aomesmotempo, ocampocontemporâneodoshumoursstudies, talcomoapresentado  
por Jessica Milner Davis, mostra que o estudo do humor exige abordagem necessariamente  
multidisciplinar. Filosofia, sociologia, história, literatura, linguística, psicologia, neurociência,  
estudos da performance, religião, medicina e teoria das emoções têm contribuído para  
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DOSSIÊ  
demonstrar que o humor não admite definição simples nem função única. Se, por um lado, o  
riso pode favorecer coesão social, aliviar tensões e consolidar pertencimentos, por outro, pode  
também excluir, humilhar, marcar diferenças e intensificar violências simbólicas. Permanece  
em aberto, portanto, a questão de saber se o humor une ou divide os seres humanos, ou melhor,  
em que circunstâncias ele realiza uma ou outra dessas funções.  
Esse caráter ambivalente do humor torna ainda mais pertinente a questão central  
deste dossiê. Falar em “riso sob ameaça” implica reconhecer que o humor nunca existiu em  
estado puro ou inocente: ele sempre esteve atravessado por regimes de poder, normas de  
sensibilidade, hierarquias sociais, convenções de linguagem e disputas de legitimidade.  
Em diferentes momentos históricos, o riso foi considerado sinal de desordem moral, perda  
de autocontrole, profanação do sagrado, vulgaridade estética ou perigo político. Em outros  
contextos, foi celebrado como instrumento crítico, forma de inteligência, mecanismo de  
sobrevivência coletiva ou linguagem privilegiada da liberdade. Entre repressão e emancipação,  
entre disciplina e subversão, o humor aparece como índice privilegiado das tensões de uma  
sociedade consigo mesma. Porém, é também o humor que consegue reunir à mesma mesa  
representantes de diferentes religiões, que concordam, saudavelmente, que “Deus ri”, como  
sucedeu em Lisboa, em 2017, em um debate entre o católico (hoje cardeal) José Tolentino de  
Mendonça, o muçulmano xeque Munir e a judia Esther Mucznik, moderado por Ricardo Araújo  
Pereira e Bruno Nogueira.  
O dossiê propõe, nesse sentido, examinar o humor em sua historicidade, recusando  
tanto sua banalização quanto sua idealização. Interessa-nos compreender como o riso foi  
moldadoporinstituições, censuras, moralidadesesensibilidades;comodeterminadosgêneros  
cômicos foram valorizados ou estigmatizados; como o humor atuou na crítica de costumes, no  
enfrentamento do poder, na produção de identidades coletivas e na administração de medos,  
traumas e conflitos. Interessa-nos, igualmente, investigar os momentos em que o humor  
parece entrar em crise: quando se fala em sua impossibilidade, esgotamento, interdição ou  
captura por lógicas de mercado, polarização e vigilância social.  
Nessa direção, os artigos aqui reunidos revelam a extraordinária variedade de  
formas pelas quais o humor se articula com conflito, poder e representação. Em “Entre  
a sátira e o conflito: análise das charges do Charlie Hebdo (2015-2025) e os limites da  
liberdade de expressão”, Deivid Mota Santana examina um dos casos mais emblemáticos  
da contemporaneidade, no qual sátira, violência e debate público se entrelaçam de maneira  
aguda. O estudo parte do atentado de 7 de janeiro de 2015, quando integrantes da redação  
foram assassinados em resposta a caricaturas publicadas pelo jornal, marco que intensificou  
as discussões internacionais sobre os limites do humor gráfico. A partir desse contexto, o  
artigo analisa como o Charlie Hebdo manteve sua linha editorial provocadora, fundada na sátira  
política, no anticlericalismo e na defesa radical da liberdade de expressão. O estudo sustenta  
que o Charlie Hebdo ocupa uma posição ambígua no espaço público, sendo ao mesmo tempo  
símbolo de resistência à censura e foco de controvérsia ética, contribuindo assim para o debate  
sobre os limites da liberdade de expressão e os efeitos sociais e culturais da sátira.  
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DOSSIÊ  
Já em “O comediante invisível: a tradução do riso na indústria audiovisual  
contemporânea”, Cristian Palacios desloca a discussão para os circuitos de mediação e  
adaptação do humor, interrogando os desafios de traduzir o cômico entre línguas, mercados e  
regimes culturais. Em contraposição ao lugar-comum da intraduzibilidade do humor, o autor  
demonstra que muitos mecanismos do riso sobrevivem à passagem entre línguas e culturas,  
pois não dependem exclusivamente do verbal, mas também de elementos como entonação,  
performance, ritmo, gestualidade, montagem, imagem e convenções compartilhadas da  
cultura humorística. Ao discutir questões como o castelhano neutro, a fidelidade às vozes da  
dublagem, o timing humorístico e as condições materiais da indústria, o texto mostra que a  
tradução humorística envolve invenção, negociação cultural e escolhas ideológicas.  
A centralidade histórica do humor gráfico e da caricatura aparece em diferentes  
contribuições. Em “Desenhar o final do império colonial: o traço do cartoonista Augusto  
Cid (1966-1974)”, Sónia Pereira Henrique e Maria Cristina Neves analisam o desenho satírico  
como forma de leitura crítica da crise do colonialismo português. O artigo examina a produção  
de Augusto Cid entre 1966 e 1974, destacando o papel do humor gráfico na representação da  
guerra colonial portuguesa e do fim do império. A partir dos cartoons publicados no Jornal da  
Região Militar de Angola e posteriormente reunidos no livro Que se passa na frente?!!, as autoras  
mostram como o desenho funcionou como forma de crítica social, política e moral, expondo  
o cotidiano da guerra, as contradições do colonialismo e os limites impostos pela censura. O  
estudo evidencia que, mais do que provocar riso, o cartoon de Cid atuou como instrumento de  
reflexão sobre a experiência colonial, a opinião pública e a construção de imaginários sobre  
Angola e sobre o conflito.  
Essa mesma centralidade do humor gráfico se desdobra em “O papel do observador-  
personagem no humor gráfico de Quino”, de Francisco Ocampo e Alicia Ocampo. No artigo,  
os autores investigam os mecanismos de construção do humor na obra de Quino a partir da  
figura do observador-personagem. O estudo parte da hipótese de que o artista argentino, de  
maneira intuitiva, mobiliza princípios próximos aos da abordagem biocognitiva da linguagem,  
especialmente a noção de observador como sujeito que interpreta o mundo em interação  
com seu entorno. Ao mostrar como Quino insere personagens que reagem sem humor a  
situações incongruentes, intensificando, para o leitor externo, o efeito cômico, o artigo  
ilumina a complexidade do dispositivo humorístico gráfico e o papel da recepção no processo  
de significação.  
Em chave histórica, João Pedro Rosa Ferreira, em “O humor na guerra colonial: o  
jornal Os Progressistas, dirigido por Salgueiro Maia na Guiné”, mostra como o humor pode  
operar em meio à guerra, articulando resistência, sociabilidade e observação política em  
contexto de violência e disciplina militar. O artigo examina o jornal militar Os Progressistas  
como mais do que um espaço de recreio: trata-se de um laboratório de formação ética, cívica e  
política, no qual o humor assume função crítica. O estudo mostra ainda como a ironia e a sátira  
deixam de funcionar apenas como passatempo para se tornarem formas de comentário sobre  
a guerra, a disciplina, a hierarquia e o regime político. Nesse sentido, o humor aparece como  
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DOSSIÊ  
elo entre experiência militar, amadurecimento crítico e recusa da opressão. Não por acaso,  
o fundador e diretor de Os Progressistas foi Salgueiro Maia, figura icônica da “Revolução do  
Cravos”, o capitão que impôs a rendição ao chefe do governo do regime ditatorial português  
derrubado em 25 de Abril de 1974.  
Os vínculos entre humor, nacionalidade e autoimagem cultural também ganham  
relevo. Em “O paradoxo do humorista fora do lugar”, Mario Tommaso investiga formulações de  
humoristas e intelectuais brasileiros que associam o humor a uma reflexão sobre o chamado  
“caráter nacional”, identificando uma persistente hierarquização entre formas culturais vistas  
como “brasileiras” ou “estrangeiras”. O texto revela como, sob a aparência autodepreciativa,  
certas formulações sobre o humor nacional também podem conter gestos de distinção,  
exclusão e julgamento histórico.  
Outra frente importante do dossiê reúne trabalhos que exploram o humor como forma  
discursiva e literária. Em “Do riso à argumentação: análise discursiva de pseudopregação da  
‘igreja evangélica pica das galáxias’”, Said Slaibi e Rony Petterson Gomes do Vale examinam os  
mecanismos argumentativos de uma performance humorística que se apropria da linguagem  
religiosa para produzir riso e comentário social. A partir da Teoria Semiolinguística do Discurso  
de Patrick Charaudeau, os autores mostram que o humor, nesse caso, não funciona apenas  
como entretenimento, mas como recurso argumentativo de crítica a práticas e formas de  
poder associadas ao neopentecostalismo contemporâneo. A pseudo pregação do personagem  
Bispo Arnaldo opera por paródia, imitando traços reconhecíveis do discurso evangélico para  
produzir uma tensão entre o dito e o visado. É dessa tensão que nasce, ao mesmo tempo, o  
efeito humorístico e a força crítica do texto.  
Em “Humor satírico no cordel ‘O Testamento de Getúlio’, de Cuíca de Santo Amaro”,  
Leandro Antonio de Almeida recupera a potência crítica do humor popular em diálogo com  
a tradição do cordel e com a história política brasileira. O artigo analisa o folheto no contexto  
da crise de 1954, após o suicídio de Getúlio Vargas, sustentando que ele converte a comoção  
popular em sátira agressiva por meio da tradição dos testamentos jocosos. Ao inserir o texto  
numa genealogia que remonta à Antiguidade e à Idade Média, o autor mostra que Cuíca mobiliza  
uma forma tradicional de humor baseada em distribuição paródica de heranças, rebaixamento  
simbólico e agressão moral. O riso que emerge daí não é leve nem conciliador, mas amargo,  
punitivo e politicamente orientado.  
A relação entre humor, violência e dominação constitui outro eixo forte do dossiê. Em  
“Poder, violência e humor”, Ana Beatriz Flores propõe uma inversão importante no debate  
sobre humor político: em vez de estudar o riso como crítica ao poder, analisa como o próprio  
poder mobiliza o humor como instrumento de dominação. Sua tese central é que o humor da  
extrema direita, especialmente no contexto argentino recente, transforma a comicidade em  
tecnologia de violência simbólica. Ao mesmo tempo, o texto mostra que, quando se torna alvo  
da sátira, o poder tende a responder com repressão, o que não elimina, contudo, a persistência  
de formas de resistência humorística.  
A articulação entre humor, fracasso e temporalidade é explorada por Rubén Olachea-  
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DOSSIÊ  
Perez em “Comédias desastrosas: filmes cult”. O autor investiga comédias que fracassaram  
em termos de recepção imediata, mas que, com o tempo, adquiriram estatuto cult e passaram a  
ser vistas como obras valiosas. Tomando como foco principal El asado de Satán (Satansbraten,  
1976), de Rainer Werner Fassbinder, o artigo argumenta que certas comédias fracassam  
justamente por sua complexidade, pelo desconforto que produzem ou pela distância que  
instauram entre obra e espectador. E é precisamente essa distância que, retrospectivamente,  
pode convertê-las em objetos de interesse duradouro. A análise mostra como, em Fassbinder,  
a comicidade emerge do excesso, do constrangimento, da caricatura e do entrelaçamento  
entre grotesco, autorreflexão e comentário político-cultural. Nesse caso, a comédia não se  
opõe à dor, mas a incorpora como forma crítica, distorcida e consciente.  
O dossiê dedica atenção especial, ainda, às articulações entre humor, raça e  
colonialidade. Em “Imagem, humor e poder racial na América Latina”, Alexander Ortega Marín  
oferece uma contribuição particularmente importante ao investigar como o humor gráfico,  
da caricatura do século XIX aos memes digitais, constrói e reproduz estereótipos raciais. Ao  
relacionar memes contemporâneos a arquivos coloniais de representação, o artigo demonstra  
que o humor pode funcionar como dispositivo de banalização do racismo, reativando, sob  
novas formas, velhas hierarquias visuais e simbólicas. O riso, nesse caso, aparece menos como  
liberação do que como mecanismo de reprodução da violência.  
Tomadas em conjunto, essas contribuições confirmam a fecundidade heurística do  
humor para a pesquisa histórica, filosófica, estética e cultural. Elas mostram que o riso nunca  
é mero ornamento da vida social. Ao contrário, ele participa da produção de consensos e  
dissensos, da manutenção e da corrosão de hierarquias, da gestão dos afetos coletivos, da  
crítica ideológica, da circulação de estereótipos, da reinvenção de identidades e da disputa  
pelos limites do dizível.  
Cabe, por fim, registrar nosso sincero agradecimento a todas as autoras e todos  
os autores que colaboraram com este dossiê. A diversidade de perspectivas, objetos,  
abordagens e contextos nacionais aqui reunidos constitui uma de suas maiores riquezas e  
atesta a vitalidade de um campo de estudos em contínua renovação. Ao contribuírem a partir  
de instituições sediadas no Brasil, na Argentina, em Portugal, no México e nos Estados Unidos,  
as pesquisadoras e os pesquisadores que integram este volume ampliam significativamente  
o alcance do debate e reforçam o caráter plural e internacional desta reflexão. A todas e  
todos, agradecemos pela generosidade, pelo rigor analítico e pela qualidade dos trabalhos  
que tornaram este dossiê possível. Estendemos também nosso agradecimento à International  
Society for Luso-Hispanic Humor Studies/Sociedad Internacional de Estudios del Humor  
Luso-Hispánico/Sociedade Internacional para o Estudo do Humor Luso-Hispânico (ISLHHS),  
da qual os organizadores deste dossiê são membros, por sua importância na consolidação e no  
estímulo das pesquisas dedicadas ao humor no âmbito luso-hispânico.  
“O fim do humor?”, assim, talvez designe menos um desaparecimento do riso do que  
a intensificação dos debates em torno de suas condições de legitimidade. Quando o humor  
ameaça ou é ameaçado, tornam-se visíveis os contornos de uma sociedade: aquilo que ela  
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DOSSIÊ  
tolera, o que ela protege, o que ela ridiculariza, o que ela recalca e o que ela teme. Ao historicizar  
essas tensões, este dossiê convida o leitor a levar o humor a sério, não para esvaziar sua força,  
mas para reconhecer nele uma das formas mais agudas, ambíguas e reveladoras de nossa vida  
comum.  
Referências  
BARDON, Adrian. The Philosophy of Humor. In: CHARNEY, Maurice (ed.). Comedy: a geographic  
and historical guide. Connecticut: Greenwood Press, 2005.  
MILNER DAVIS, Jessica. Taking humour and laughter seriously: the multi-disciplinary field of  
humour studies. Journal & Proceedings of the Royal Society of New South Wales, [s. l.], v.  
154, pt. 2, p. 182-200, 2021.  
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DOSSIÊ  
ENTRE A SÁTIRA E O CONFLITO: ANÁLISE DAS  
CHARGES DO CHARLIE HEBDO (2015-2025) E OS  
LIMITES DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO  
BETWEEN SATIRE AND CONFLICT: ANALYSIS OF  
CHARLIE HEBDO CARTOONS (2015-2025) AND THE  
LIMITS OF FREEDOM OF EXPRESSION  
Deivid Mota Santana1  
https://orcid.org/0000-0003-2267-7146  
http://lattes.cnpq.br/5579714779436105  
Recebido em: 12 de junho de 2025.  
Revisão final: 21 de março de 2026.  
Aprovado em: 21 de março de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23529  
1 Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação, da Universidade  
Federal do Ceará (PPGCOM-UFC), especialista em Liderança para Transformação Digital 4.0 pela  
Faculdade da Indústria e bacharel em Comunicação Social - Jornalismo, pela Universidade Federal  
do Ceará (UFC). Atua na coordenação de processos administrativos, planejamento estratégico e ges-  
tão de equipes, com foco em inovação e transformação digital. E-mail: deividmota@hotmail.com  
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DOSSIÊ  
Resumo: Este artigo analisa charges publicadas pelo jornal satírico francês Charlie Hebdo no  
período de 2015 a 2025. A pesquisa, de natureza qualitativa, adota análise documental e revi-  
são bibliográfica, focalizando representações sociopolíticas, controvérsias públicas e os limi-  
tes éticos do humor. São discutidas as tensões entre liberdade de expressão e diversidade cul-  
tural a partir da repercussão de charges polêmicas, especialmente após o atentado de 2015.  
Os resultados evidenciam como o conteúdo gráfico do periódico provoca reflexão crítica, mas  
também levanta debates sobre os impactos sociais da sátira.  
Palavras-chave: Charlie Hebdo, charges, humor, liberdade de expressão, discurso.  
Abstract: This article analyzes cartoons published by the French satirical newspaper Charlie  
Hebdo between 2015 and 2025. The qualitative research employs documentary analysis and li-  
terature review, focusing on sociopolitical representations, public controversies, and the ethi-  
cal boundaries of humor. It discusses the tensions between freedom of expression and cultu-  
ral diversity, especially after the 2015 terrorist attack. The findings show how the newspaper’s  
graphic content prompts critical reflection while also raising concerns about the sociocultural  
impact of satire.  
Keywords: Charlie Hebdo, cartoons, humor, freedom of expression, discourse.  
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DOSSIÊ  
INTRODUÇÃO  
O Charlie Hebdo é um semanário satírico francês conhecido por utilizar  
charges como instrumento de crítica política, social e religiosa. Fundado em  
1970, o periódico construiu sua identidade editorial com base na irreverência, no  
humor ácido e na defesa intransigente da liberdade de expressão, tornando-se  
símbolo de resistência à censura. Suas publicações frequentemente abordam  
temas sensíveis, como religião, imigração, terrorismo, entre outros, despertando  
reações diversas que variam entre o apoio enfático e a indignação (Correio, 2016).  
O atentado de 7 de janeiro de 2015, no qual 12 (doze) pessoas foram  
assassinadas por extremistas em resposta a caricaturas publicadas pelo jornal,  
intensificou o debate sobre os limites do humor e os riscos enfrentados por  
veículos de imprensa crítica. A tragédia consolidou o Charlie Hebdo como ícone  
global da liberdade de imprensa, mas também evidenciou tensões entre sátira,  
discurso de ódio e diversidade cultural (De Fru, 2018).  
Assim, este artigo investiga a atuação do Charlie Hebdo por meio de charges  
publicadas entre 2015 e 2025, analisando como essas imagens comunicam  
posicionamentos políticos e produzem efeitos socioculturais. Questiona-se: até  
que ponto a liberdade de expressão justifica o uso da sátira quando esta pode  
ferir sensibilidades culturais e sociais?  
O objetivo é discutir os impactos da liberdade de expressão na imprensa  
satírica, a partir de uma análise qualitativa baseada em revisão bibliográfica  
e análise documental de charges. A proposta insere-se no debate sobre o  
papel do humor gráfico nas sociedades democráticas contemporâneas, suas  
potencialidades críticas e seus limites éticos (Díaz Hernández, 2016).  
O JORNAL FRANCÊS CHARLIE HEBDO  
OCharlieHebdotemorigemnocontextodaimprensaalternativafrancesados  
anos 1960. Surge como herdeiro do espírito provocador do Hara-Kiri, publicação  
fundada por François Cavanna e Georges Bernier (conhecido como Professor  
Choron), popular por desafiar convenções sociais e políticas por meio da sátira  
gráfica.  
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O Hara-Kiri Hebdo foi interditado em 1970, após publicar uma manchete  
irreverente sobre a morte do general Charles de Gaulle. Para driblar a censura, a  
equipe relançou o jornal com o nome Charlie Hebdo, em referência ao personagem  
Charlie Brown, das tiras Peanuts, e ao ex-presidente Charles de Gaulle. Desde  
então, o periódico se consolidou como uma das principais expressões da  
imprensa satírica europeia.  
Publicando semanalmente, o Charlie Hebdo utiliza a charge como forma de  
denúncia, desconstrução de discursos e crítica mordaz a instituições políticas,  
religiosas e sociais. Sua linha editorial se ancora no princípio da laicidade e na  
tradição iluminista francesa de liberdade de crítica (Milton, 1999). Ao mesmo  
tempo, é alvo recorrente de processos judiciais, boicotes e manifestações,  
especialmente por parte de grupos religiosos e movimentos sociais que se  
sentem ofendidos com suas representações gráficas.  
O jornal não se limita às charges: editoriais, colunas e reportagens  
também compõem sua estrutura, muitas vezes com linguagem provocadora e  
politicamente “incorreta”. Essa característica coloca o Charlie Hebdo em uma  
posição controversa; ora exaltado como bastião da liberdade de imprensa, ora  
criticado por promover discursos ofensivos sob o pretexto da sátira (Mill, 2011).  
A análise das publicações do Charlie Hebdo entre 2015 e 2025 permite  
observar como o jornal manteve sua postura crítica mesmo após o atentado  
que abalou sua redação. A edição especial de 2025, intitulada “INCREVABLE!”  
(“Indestrutível!”), reafirma a continuidade da linha editorial combativa, marcada  
pela resistência e pelo humor confrontativo. Diante disso, é necessário refletir  
sobre os usos da sátira em contextos democráticos e os efeitos produzidos por  
esse tipo de comunicação (Charaudeau, 2006).  
O Charlie Hebdo, um hebdomadário, circula tradicionalmente às quartas-  
feiras, com tiragem variável, geralmente entre 30 mil e 50 mil exemplares, embora  
edições extraordinárias tenham ultrapassado 3 milhões, como ocorreu após o  
atentado de 2015.  
Cada edição conta com cerca de 16 a 32 páginas, organizadas em seções  
relativamente fixas que incluem charges, editoriais, colunas de opinião,  
reportagens breves e notas satíricas. A estrutura interna é deliberadamente  
informal e visualmente carregada, marcada por tipografia intensa, uso abundante  
de cores fortes, ilustrações de página inteira e ausência de publicidade comercial  
tradicional.  
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O conteúdo costuma abrir com uma charge de capa, quase sempre ligada  
a eventos da semana, seguida por um editorial ou texto de abertura assinado  
por membros da redação, como Riss (editor-chefe), Luz ou Charb (nos anos  
anteriores ao atentado). A partir daí, desenvolvem-se colunas como “Journal  
Bête et Méchant” (subtítulo herdado do Hara-Kiri), relatos de bastidores políticos,  
sátiras sobre a imprensa tradicional, religiões e cultura popular.  
As reportagens são curtas e opinativas, quase sempre escritas em tom  
pessoal e irônico. Em muitas edições, há também dossiês temáticos que  
combinam texto e imagem para abordar assuntos como política externa, racismo,  
imigração ou feminismo, sob uma ótica antiautoritária e anticlerical.  
O núcleo de produção do jornal é formado por um coletivo editorial fixo, com  
forte presença de cartunistas e jornalistas de formação humanística. Diferente  
da lógica de grandes redações, o Charlie Hebdo opera de modo colaborativo e  
artesanal.  
O layout é concebido de maneira integrada com o conteúdo visual, charges  
e textos são pensados como formas equivalentes de discurso. A linguagem é  
coloquial, cáustica e propositalmente desrespeitosa com convenções formais.  
Essa estrutura orgânica reforça a identidade editorial do periódico: um espaço  
de liberdade discursiva extrema, que aposta no escândalo e no absurdo como  
dispositivos políticos e estéticos.  
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA  
O humor gráfico, em especial a charge, desempenha papel importante na  
crítica social e política. De caráter opinativo, a charge mescla imagem e texto  
para provocar reflexão por meio da sátira. Parnaiba e Gobbi (2014) destacam que  
esse gênero é marcado pela atualidade, pelo posicionamento ideológico e pela  
linguagem metafórica, muitas vezes irônica ou sarcástica.  
Henri Bergson (1993), em O Riso, considera o cômico como um mecanismo  
de correção social: rimos quando observamos algo mecânico no comportamento  
humano, isto é, quando o sujeito age de forma automática, fora das normas da  
espontaneidade. Esse descompasso provoca riso, que é, por sua vez, social,  
exige um público e pressupõe uma certa distância emocional. Isso explica por  
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que determinadas charges causam indignação em públicos mais envolvidos  
afetivamente com o tema abordado.  
Vladimir Propp (1992), em Comicidade e Riso, destaca o riso sarcástico como  
um dos mais recorrentes no humor gráfico. Esse tipo de riso se baseia na crítica  
e na exposição de contradições morais, sociais ou políticas. Segundo o autor, o  
sarcasmo é uma ferramenta para revelar desigualdades e questionar estruturas  
de poder.  
Além das contribuições clássicas de Bergson e Propp, é relevante considerar  
abordagens contemporâneas que exploram a dimensão política e histórica  
do riso. Pierre Serna (2015), em “La politique du rire. Satires, caricatures et  
blasphèmes XVIe-XXIe siècles”, analisa como a sátira e a caricatura funcionaram,  
ao longo de séculos, como instrumentos de contestação do poder, mas também  
como armas de dominação e controle social. Sua perspectiva histórica ajuda a  
situar publicações como o Charlie Hebdo dentro de uma longa tradição francesa  
de imprensa satírica anticlerical e antiabsolutista, ao mesmo tempo que  
problematiza os usos do humor em contextos de tensão cultural.  
Terry Eagleton (2019), no capítulo “The politics of humour” de sua obra Humour,  
argumenta que o riso nunca é politicamente neutro. Para Eagleton, o humor pode  
servir tanto para reforçar hierarquias e excluir grupos marginalizados quanto  
para subverter autoridades e questionar normas estabelecidas.  
Essa dualidade é central para entender as reações polarizadas às charges do  
Charlie Hebdo: se, por um lado, elas se inserem em uma narrativa de resistência  
laica e crítica ao poder, por outro, podem ser percebidas como expressões de um  
etnocentrismo que desconsidera a assimetria de poder entre maiorias e minorias  
religiosas em contextos pós-coloniais.  
AschargesdoCharlieHebdoutilizamessesrecursosparaconstruirumacrítica  
contundente, frequentemente provocando desconforto. Ao utilizar exageros  
visuais, referências implícitas e ironia, os cartunistas expõem hipocrisias e  
violências estruturais. Contudo, a eficácia do humor depende do conhecimento  
prévio do público sobre o contexto retratado, o que reforça a importância da  
análise documental considerando o tempo e o espaço de produção da imagem.  
No caso do Charlie Hebdo, o uso da sátira visual em temas como religião,  
terrorismo, imigração e política internacional insere suas charges no centro de  
debates sobre ética e liberdade de expressão (Melo, 2016). Para compreender sua  
atuação e os impactos dessas representações, é necessário tratar o jornal como  
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fonte periódica e situá-lo historicamente.  
Conforme discutido, a linha editorial do Charlie Hebdo, marcada por  
irreverência e confrontação de dogmas, culminou na publicação de diversas  
caricaturas de Maomé. Essas imagens estiveram no centro das críticas religiosas  
e foram utilizadas como justificativa para o atentado terrorista de 7 de janeiro de  
2015, evento que será abordado na próxima seção.  
AS CHARGES QUE MOTIVARAM O ATENTADO DE 2015  
Entre as publicações mais controversas do Charlie Hebdo estão as  
caricaturas de Maomé. Em 2006, o jornal republicou, com capa própria, imagens  
originalmente veiculadas pelo periódico dinamarquês Jyllands-Posten. Uma das  
mais conhecidas mostra o profeta com uma bomba no turbante, provocando  
forte reação em diversos países de maioria muçulmana.  
Figura 1 — Montagem das charges que motivaram o ataque  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo  
Em 2011, ao anunciar a edição especial “Charia Hebdo”, o jornal estampou  
Maomé como editor-chefe, gerando novos protestos e o incêndio da redação. No  
ano seguinte, em 2012, o periódico publicou uma série de caricaturas do profeta  
sem vestimentas, intensificando ainda mais a controvérsia.  
Essas imagens foram consideradas ofensivas por grupos islâmicos radicais,  
que passaram a ver o Charlie Hebdo como inimigo do Islamismo. O atentado  
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de janeiro de 2015 é interpretado como resposta direta a essa linha editorial.  
Paradoxalmente, a capa da edição posterior ao ataque mostrou novamente  
Maomé, desta vez segurando um cartaz “Je suis Charlie”, com a legenda “Tout est  
pardonné” (“Está tudo perdoado”), reafirmando o espírito provocador e resistente  
do jornal.  
Tais charges estão no centro do debate sobre os limites da liberdade de  
expressão.ParaoscartunistasdoCharlieHebdo,nenhumacrençadeveestarisenta  
de crítica. Para muitos pesquisadores, porém, a reiterada publicação de imagens  
sabidamente ofensivas revela insensibilidade cultural e irresponsabilidade  
ética. Esse impasse evidencia a complexidade do humor gráfico em contextos  
multiculturais e a tensão entre crítica laica e respeito religioso.  
O ATAQUE AO CHARLIE HEBDO E A RESPOSTA EDITORIAL  
Na primeira edição publicada após o atentado (nº 1178, de 14 de janeiro de  
2015), o Charlie Hebdo reafirmou sua linha editorial em um texto comovente.  
Escrito por Laurent Léger, o editorial deixou claro que o ataque não os calaria: “O  
que nos atingiu não foi o Islã, mas os extremistas.” O texto reforça que o jornal não  
renunciaria à liberdade de criticar ideologias, dogmas ou religiões, defendendo  
que o humor é uma forma de resistência democrática.  
A edição circulou com três milhões de cópias e foi traduzida para diversos  
idiomas. A capa trazia Maomé segurando o cartaz “Je suis Charlie”, símbolo da  
solidariedade mundial, sob a legenda “Tout est pardonné”, em uma tentativa  
ambígua de conciliação e continuidade provocadora. O editorial posiciona a  
charge não como insulto gratuito, mas como parte de um combate simbólico  
pelo direito à crítica e à irreverência.  
O conteúdo editorial do Charlie Hebdo não se limita às charges provocativas  
que tornaram o jornal internacionalmente conhecido. Embora o humor gráfico  
seja sua marca registrada, a publicação também abriga colunas de opinião,  
reportagens, editoriais e artigos que refletem uma postura política clara: a defesa  
do laicismo, da crítica irrestrita a todas as religiões e ideologias, e a recusa em  
submeter o discurso jornalístico à lógica do “politicamente correto”.  
Essa linha editorial é frequentemente conduzida por um grupo fixo de  
jornalistas e cartunistas que compartilham um ethos comum: o de uma esquerda  
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libertária, anticlerical, antimilitarista e profundamente irônica.  
Os editoriais da publicação costumam assumir uma voz combativa,  
assumidamente parcial e provocadora. O Charlie Hebdo rejeita o modelo de  
“objetividade jornalística” tradicional, preferindo a subjetividade como estratégia  
discursiva para provocar o debate público.  
Em suas edições semanais, é comum encontrar textos que criticam não  
apenas religiões e partidos políticos, mas também setores da imprensa, ONGs  
e movimentos sociais, denunciando o que consideram formas veladas de  
autoritarismo, oportunismo ou censura ideológica. O estilo dos textos editoriais  
é direto, mordaz e repleto de referências culturais francesas, o que reforça sua  
identidade como um produto profundamente enraizado no contexto político e  
social da França.  
Essa abordagem editorial faz do Charlie Hebdo um espaço de disputa  
simbólica. Ao adotar uma retórica deliberadamente polêmica, o jornal se  
posiciona como defensor da liberdade de expressão em sua forma mais radical.  
No entanto, isso o coloca frequentemente no centro de controvérsias, acusado  
de ultrapassar os limites do respeito às minorias ou de alimentar discursos  
intolerantes sob a justificativa da crítica.  
Essa ambivalência é assumida pelos próprios editores, que consideram a  
função do periódico não apenas informar, mas perturbar e interpelar. Portanto,  
compreender o Charlie Hebdo requer ir além das imagens que circulam nas redes  
sociais digitais e mergulhar em sua lógica editorial, que articula humor, confronto  
e engajamento político como formas de intervenção pública.  
METODOLOGIA  
Este artigo adota abordagem qualitativa, com base em análise documental  
e revisão bibliográfica. A análise documental, conforme Gil (2010) e Cellard  
(2008), consiste no exame sistemático de documentos com o objetivo de extrair  
informações relevantes ao objeto de estudo. No campo da Comunicação, isso  
inclui jornais, revistas e mídias digitais, considerando-os não apenas como  
suporte, mas como construtores de discurso.  
Os documentos selecionados são exemplares do semanário Charlie Hebdo,  
publicados entre 2015 e 2025, com especial atenção às edições que contêm  
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charges de forte repercussão pública. A seleção incluiu charges sobre política  
interna francesa, imigração, conflitos internacionais e edições especiais, como  
a que marca os 10 anos do atentado de 2015.  
Além disso, a revisão bibliográfica fundamenta-se em autores que discutem  
o papel da sátira e do humor na Comunicação Social, os limites éticos da liberdade  
de expressão e a relação entre mídia, cultura e poder. Referências específicas  
sobre o uso da mídia periódica como fonte de pesquisa jornalística e histórica  
também foram incorporadas, conforme orientações metodológicas de Cellard  
(2008).  
A análise das charges leva em conta seu conteúdo visual e verbal, o contexto  
de publicação, os personagens representados e os sentidos sugeridos. Para isso,  
foram utilizadas categorias analíticas relacionadas ao discurso, à ironia, à crítica  
social e ao enquadramento simbólico da imagem (Silva, 2016).  
ANÁLISE DAS CHARGES DO CHARLIE HEBDO (2015-2025)  
A análise a seguir examina um conjunto de charges publicadas pelo Charlie  
Hebdo entre 2015 e 2025, com foco em três eixos temáticos recorrentes: a crítica  
à política interna francesa, a resposta editorial ao atentado de 2015 e a sátira de  
questões internacionais.  
Por meio da ironia, do exagero gráfico e da apropriação de contextos  
geopolíticos, o jornal constrói narrativas visuais que tensionam os limites entre  
a crítica legítima e a provocação deliberada. A primeira montagem analisada  
(Figura 2) ilustra como a publicação utiliza o conflito israelo-palestino como  
espelho para refletir e denunciar problemas sociais e políticos na França.  
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Figura 2 — Montagem de charges sobre Gaza e política francesa  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo. Disponível em: https://charliehebdo.fr/themes/politique/. Acesso  
em: 20 fev. 2025  
As charges selecionadas para esta análise foram publicadas pelo Charlie  
Hebdo em meio à intensificação do conflito Israel-Palestina. Ambas utilizam a  
devastação de Gaza como metáfora crítica ao contexto político francês.  
A primeira charge (à esquerda) retrata a Côte d’Azur em ruínas, com prédios  
destruídos e cartazes da prefeitura de Nice e do partido Les Républicains. A  
ironia reside na inversão de uma proposta real do presidente americano Donald  
Trump, que sugeriu transformar Gaza em uma nova “Côte d’Azur”. Aqui, os políticos  
francesesparecemdesejarooposto:transformaraRivieraFrancesaemumazona  
de guerra. Entre os caricaturados, nota-se figuras como Éric Ciotti, enfatizando  
a crítica à guinada securitária e xenófoba das políticas locais.  
A segunda charge (à direita) também utiliza o cenário da destruição, com  
uma placa informando que “Gaza é cidade-irmã de Villeneuve-Saint-Georges”, um  
subúrbio parisiense conhecido por sua precarização urbana. O título refere-se à  
derrota de Louis Boyard, jovem deputado do La France Insoumise, que simboliza  
uma esquerda antissistema. A fala irônica sugere que sua derrota inviabilizou  
qualquer perspectiva de paz, escancarando o ceticismo diante do discurso  
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político convencional.  
Ambas as imagens usam a guerra como alegoria para criticar o abandono das  
periferiasfrancesas,ahipocrisiapolíticaeooportunismoeleitoral.Aanalogiacom  
Gaza opera como choque visual e discursivo: uma denúncia do empobrecimento  
urbano e da violência simbólica nos centros metropolitanos europeus.  
Figura 3 — Capa comemorativa de 10 anos do atentado  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo  
A capa da edição especial de 7 de janeiro de 2025 estampa a palavra  
INCREVABLE!” (“Inquebrável!”) e mostra uma figura caricatural sentada sobre um  
fuzil AK-47, sorrindo enquanto segura a própria revista. A referência direta ao  
atentado de 2015 é reforçada pelas datas “2015-2025” ao pé da imagem.  
O fuzil, símbolo do terrorismo jihadista, é ressignificado como base literal da  
resistência editorial. A figura sorridente representa o próprio espírito do Charlie  
Hebdo, zombeteiro, provocador e resistente. O uso de amarelo vivo e traços  
simples remete ao estilo tradicional do jornal.  
À direita, uma caixa de texto informa que 76% dos franceses apoiam a  
liberdade dos cartunistas (Sondage IFOP). A metalinguagem da imagem dentro  
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da imagem, com o personagem segurando a própria edição, reforça a ideia de  
autorreferência e continuidade; mesmo sob ameaça, o jornal sobrevive e reafirma  
seu papel provocador.  
Essa imagem articula ironia e desafio, condensando a postura editorial do  
periódico após uma década de polarização em torno da liberdade de expressão e  
seus limites.  
Figura 4 — Charges internacionais (março de 2025)  
Fonte: Reprodução Charlie Hebdo. Disponível em: https://charliehebdo.fr/themes/international/.  
Acesso em: 11 mar. 2025  
A montagem acima reúne três charges publicadas em março de 2025 na  
seção internacional do periódico.  
Na Charge 1: “Groenlandeses que querem ser americanos”: um homem ártico  
constrói um iglu com a frase “não há nada melhor que um obeso para construir  
um iglu”. Trata-se de uma crítica ao imperialismo cultural dos EUA, relembrando  
a proposta de Trump de comprar a Groenlândia. A figura do obeso remete ao  
estereótipo americano e à crítica ao consumismo e à colonização simbólica.  
Na Charge 2: “Trump agradece à Kremlin Production”: Donald Trump aparece  
recebendo um prêmio César pelo “pior roteiro da Terceira Guerra Mundial”,  
ironizando sua proximidade com a Rússia e sua retórica belicista. A imagem  
subverte a celebração artística e denuncia a espetacularização da política externa  
e das alianças obscuras.  
Na Charge 3: “Abandono de cães em progressão”: a imagem mostra um  
veículo abandonando dois indivíduos amarrados no acostamento de uma estrada.  
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Um deles é claramente um homem barbudo. O título, que sugere um aumento  
no abandono de cães, é contrastado visualmente pela presença de humanos  
tratados como animais descartáveis. A analogia propõe uma crítica social à  
desumanização de populações vulneráveis, possivelmente imigrantes ou sem-  
teto, retratadas como descartáveis por políticas públicas ou pela sociedade. A  
charge provoca desconforto ao equiparar a negligência com animais à negligência  
institucional com seres humanos.  
A charge que equipara o abandono de seres humanos ao de animais (Figura 4)  
pode ser lida à luz da perspectiva de Eagleton (2019) sobre a política do humor. Ao  
provocar desconforto através da comparação chocante, o cartunista não apenas  
denuncia uma mazela social, mas também escolhe quem será o alvo da ironia e  
qual dor será tornada espetáculo. Essa escolha, como lembra Serna (2015), nunca  
é ingênua: ela reflete e reforça posições no campo de batalha simbólico que é a  
esfera pública.  
Esse tipo de leitura exige cuidado com o contexto sociopolítico francês  
recente, que envolve: crises migratórias (2023-2024), políticas de remoção  
de acampamentos de imigrantes em Paris e crescente discurso público de  
desumanização de grupos marginalizados. Essas charges usam ironia, exagero  
e violência gráfica para denunciar a banalização da barbárie, a hipocrisia dos  
discursos humanitários e o cinismo das lideranças políticas globais (Morales,  
2017).  
Bergson, em sua obra O Riso: Ensaio sobre a Significação do Cômico (1993),  
argumenta que o riso surge quando há uma mecanicidade no humano, ou seja,  
quando uma ação se torna repetitiva ou automática e perde a espontaneidade  
da vida. Além disso, ele destaca que o riso é social. O humor ocorre em um  
contexto coletivo e funciona como uma forma de correção social, expondo  
comportamentos que fogem da norma ou são considerados ridículos.  
As charges analisadas no artigo, muitas vezes, ridicularizam figuras políticas  
e situações sociais para expor hipocrisias ou incoerências. Por exemplo, a  
charge sobre Donald Trump recebendo um “César do pior roteiro para a Terceira  
Guerra Mundial” (Figura 4) utiliza a sátira para ironizar sua relação com conflitos  
internacionais. Isso se alinha à ideia bergsoniana de que o riso é um mecanismo  
de crítica social.  
Além disso, a comicidade exige distância emocional. Para o riso ocorrer, o  
público precisa estar emocionalmente distanciado do objeto da piada. O jornal  
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frequentemente explora temas sensíveis, como guerras e crises sociais, mas  
trata essas situações com humor ácido. Isso pode causar indignação entre  
aqueles que sentem proximidade emocional com os temas abordados. A rejeição  
de algumas comunidades às charges pode ser explicada pela ausência dessa  
“distância emocional” necessária para que o riso ocorra.  
Propp, em Comicidade e Riso (1992), categoriza diferentes tipos de humor  
e destaca o riso sarcástico como um dos mais recorrentes na sociedade. Esse  
tipo de riso é baseado na ridicularização e na crítica social. Propp explica que  
a sátira, principalmente a política, recorre ao sarcasmo para enfatizar falhas e  
contradições no poder.  
As charges analisadas no artigo fazem uso do sarcasmo para criticar líderes  
políticos e situações sociais. A charge que faz uma analogia entre Gaza e a cidade  
francesa de Villeneuve-Saint-Georges (Figura 1), por exemplo, usa o exagero para  
enfatizar a ideia de que certas políticas locais estão transformando cidades  
francesas em zonas de conflito.  
Segundo Propp (1992), o riso pode ser uma forma de expor desigualdades e  
revelar verdades ocultas. Muitas charges não apenas fazem rir, mas provocam  
desconforto ao revelar aspectos controversos da sociedade. A charge sobre o  
abandono de crianças, comparando-o ao abandono de cães, exemplifica essa  
abordagem ao usar uma metáfora provocativa para denunciar descasos sociais.  
Issodito,osconceitosdeBergson(1993)ePropp(1992)ajudamacompreender  
a força crítica do Charlie Hebdo. Enquanto Bergson explica por que o riso pode ser  
uma ferramenta de correção social e por que certas piadas são mais polêmicas  
dependendo da proximidade emocional do público, Propp mostra como o  
sarcasmo e a ironia são utilizados para questionar estruturas de poder. Assim, as  
charges do jornal não são apenas cômicas, mas também ferramentas de reflexão  
política e social.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Face ao exposto, a análise realizada, enriquecida por perspectivas históricas  
como a de Serna (2015) e teórico-políticas como a de Eagleton (2019), confirma  
que o humor do Charlie Hebdo é intrinsecamente político. Mais do que um  
simples exercício de crítica, suas charges atuam como gestos de demarcação de  
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fronteiras simbólicas em uma sociedade francesa profundamente marcada por  
debates sobre laicidade, identidade nacional e integração. O riso que provocam,  
seja emancipatório, seja excludente, é, portanto, um sintoma das feridas abertas  
no tecido social contemporâneo.  
A análise das charges do Charlie Hebdo, publicadas entre 2015 e 2025, revela  
a persistência de uma linguagem satírica que provoca, desafia e, por vezes,  
fere. Através do uso da ironia, do sarcasmo e da transgressão simbólica, o jornal  
francêstensionaoslimitesdaliberdadedeexpressãoemcontextosdemocráticos  
e pluriculturais (Udupa, 2023). A recorrência de temas como religião, imigração,  
conflitos geopolíticos e política interna francesa mostra que o Charlie Hebdo  
atua como um espelho distorcido da sociedade: devolve à esfera pública as suas  
contradições e hipocrisias, amplificadas pelo traço gráfico.  
A pesquisa demonstrou que, embora o humor gráfico seja um recurso  
legítimo de crítica, ele também carrega responsabilidades. O atentado de 2015  
não apenas marcou tragicamente a história do jornal, mas também acentuou  
os dilemas éticos da comunicação satírica. As charges analisadas mostram que  
o riso nem sempre é libertador; muitas vezes, ele é incômodo, divisivo ou até  
mesmo excludente (Oliveira; Almeida, 2006).  
Dessa forma, compreender o Charlie Hebdo requer um olhar crítico, atento às  
condições históricas de produção de suas charges, à intencionalidade do humor  
e às reações que ele provoca. O estudo reforça a importância de se refletir sobre  
o papel da mídia na construção de discursos sociais e sobre os limites do humor  
como forma de intervenção pública.  
Em síntese, o artigo contribui para o debate sobre liberdade de expressão  
e diversidade cultural, propondo uma leitura contextualizada das charges como  
dispositivos discursivos. Ao mesmo tempo em que defende a importância do riso  
como ferramenta de crítica, reconhece os riscos de sua instrumentalização em  
contextos de tensão política e desigualdade simbólica.  
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DOSSIÊ  
CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006.  
CORREIO, Fabio Mourilhe. Charlie Hebdo, secularização e escatologia. História, Histórias, v. 4,  
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EAGLETON, Terry. Humour. New Haven and London: Yale University Press, 2019.  
GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 2010.  
LORDES, Antonio Wallace. Pathos, ethos e logos em charges de Charlie Hebdo. 2019. Tese  
(Doutorado) – UFMG.  
MELO, Thiago Ramos. Enfrentamentos e tensões: uma análise de discursos de charges sobre  
o atentado ao Charlie Hebdo. 2016. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – UFPI.  
MILL, John Stuart. Sobre a liberdade. Trad. Pedro Madeira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,  
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MILTON, John. Areopagítica: discurso pela liberdade de imprensa ao Parlamento da Inglaterra.  
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OLIVEIRA, Neide A. A. de; ALMEIDA, Lara M. Gêneros jornalísticos opinativos de humor:  
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PARNAIBA, Cristiane S.; GOBBI, Maria C. Charge jornalística: definição, histórico e funções. XII  
Congreso de Historia de la Comunicación, 2014.  
PROPP, Vladimir. Comicidade e riso. Trad. Aurora Fornoni Bernardini; Homero F. Andrade. São  
Paulo: Ática, 1992.  
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UDUPA, Sahana; DATTATREYAN, E. G. (org.). Digital Unsettling: Decoloniality and Dispossession  
in the Age of Social Media. New York: NYU Press, 2023.  
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DOSSIÊ  
EL COMEDIANTE INVISIBLE. LA TRADUCCIÓN DE LA  
RISA EN  
LA INDUSTRIA AUDIOVISUAL CONTEMPORÁNEA  
O COMEDIANTE INVISÍVEL. A TRADUÇÃO DO RISO NA  
INDÚSTRIA AUDIOVISUAL CONTEMPORÂNEA  
THE INVISIBLE COMEDIAN. THE TRANSLATION OF  
LAUGHTER  
IN THE CONTEMPORARY AUDIOVISUAL INDUSTRY  
1
Cristian Palacios  
https://orcid.org/0000-0001-6002-3288  
Recebido em: 09 de junho de 2025.  
1ª revisão: 15 de janeiro de 2026.  
Revisão final: 21 de março de 2026.  
Aprovado em: 21 de março de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23506  
1 Doutor em Linguística, licenciado e professor no curso de Letras na Universidade de Buenos Aires  
(UBA), pesquisador do Instituto de Linguística da UBA e do CONICET. E-mail: atenalplaneta@  
gmail.com  
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DOSSIÊ  
Resumen: A través del análisis de un corpus de películas y series de comedia, buscaremos  
analizar el trabajo de traductores y subtituladores en la reproducción de chistes, referencias  
humorísticas y juegos de palabras, buscando comprender las ideologías lingüísticas que sus-  
tentan sus esfuerzos, buscando así poner en juego una hipótesis contraintuitiva: que la tra-  
ducción de lo ridículo no sólo es posible sino necesaria, y que su funcionamiento depende me-  
nos del contexto sociocultural de lo que se cree.  
Palabras Clave: humor audiovisual, tradução audiovisual, ridículo, tradução de humor.  
Resumo: Por meio da análise de um corpus de filmes e séries de comédia, buscaremos analisar  
o trabalho de tradutores e legendadores na reprodução de piadas, referências humorísticas e  
jogos de palavras, buscando compreender as ideologias linguísticas que fundamentam seus  
esforços, buscando, assim, colocar em jogo uma hipótese contraintuitiva: a de que a tradução  
do ridículo não só é possível como necessária, e que seu funcionamento depende menos do  
contexto sociocultural do que se acredita.  
Palavras-chave: humor audiovisual, tradução audiovisual, ridículo, tradução de humor.  
Abstract: Through the analysis of a corpus of comedy films and TV shows, we aim to examine  
the work of translators and subtitlers in reproducing jokes, humorous references, and word-  
play, with the goal of understanding the linguistic ideologies underlying their decisions. In this  
way, we propose a counterintuitive hypothesis: that the translation of the ridiculous is not only  
possible but necessary, and that its effectiveness depends less on the socio-cultural context  
than commonly believed.  
Keywords: audiovisual humor, audiovisual translation, ridiculous, translation of humor.  
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DOSSIÊ  
Introducción  
En un mundo que se piensa a si mismo con la impronta de lo pos-apocalíptico  
y lo pospandémico, resulta relativamente frecuente reconocer que, dentro del  
conjunto de discursos atribuibles a una comunidad discursiva específica en un  
momento histórico determinado, existen una serie de textos ligados al ejercicio  
profesionaldelarisa,apartirdeloscualessevuelveposibleconcebirlaproducción  
de lo cómico y lo humorístico como un campo social con todas las letras (Possenti,  
2010, p. 171). Los humoristas y comediantes que producen en su interior toman  
decisiones y llevan adelante operaciones, a menudo de forma inconsciente, en  
permanente tensión dialéctica con las reglas que este les impone. Llamaremos  
Discursos Irrisorios, apelando a las mayúsculas que describen una tipología, a  
todos los textos y contenidos producidos en su interior.  
Este campo posee una historia rica y compleja, que abarca tanto a los  
comediantes y caricaturistas de la modernidad como a los parásitos retratados  
por la comedia ática; tanto a los guionistas de las sitcoms contemporáneas como  
a los bufones y goliardos de las cortes medievales. Esa historia ha sido contada  
muchas veces, por ejemplo, en los trabajos de Otto (2007), Outram (2019) o Brown  
(2015), aunque rara vez desde una perspectiva que considere de manera integral la  
producción de la risa como fenómeno. Hay investigaciones dedicadas a los locos  
y bufones de la época isabelina, a los mimos de la antigua Roma o a los payasos del  
circo moderno. Pero son escasos los trabajos que intentan abarcar, en un mismo  
gesto interpretativo, el humor teatral, literario, pictórico y cinematográfico; la  
ópera bufa y la commedia dell’arte; las viñetas de Saul Steinberg y los cuentos de  
Henri-Pierre Cami.  
Dicho campo excluye aquellas operaciones que Ana Flores denomina “humor  
no-estético” (Flores 2014, p. 143), esto es, las manifestaciones irrisorias que se dan  
en la vida cotidiana o en otros ámbitos de configuración seria: tanto los chistes  
que se cuentan en el ámbito laboral como aquellas bromas que se gastan entre  
colegas o compañeros de estudios, niños, jóvenes o adolescentes, incluyendo la  
habitual humorada del político o el chiste de un profesor universitario deseoso  
de ganarse el favor de sus alumnos. Ninguno de estos casos, con la excepción,  
tal vez, del chiste social, tiene como propósito principal tan solo el hacer reír. Lo  
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DOSSIÊ  
cómico está aquí al servicio de un discurso de otro calibre: político, científico,  
académico, etc.  
A diferencia del primero, aquí no encontramos una formación en el marco  
de una profesión en la que el comediante busque ser reconocido, ni una práctica  
consolidada, ni un corpus estable de saberes performativos o intelectuales  
requerido. O, al menos, estas condiciones no se presentan de manera simultánea.  
Es fundamental comprender que, aunque existe un intercambio dialéctico  
entre ambos ámbitos, el uso profesional de la risa obedece a reglas propias.  
Algunos mecanismos cómicos habituales en el campo profesional no se utilizan  
en absoluto en el humor cotidiano: voces graciosas, tipografías exageradas,  
disfraces, gestos o expresiones deliberadas, entre otros recursos. Esto tiene un  
impacto notable en el trabajo de traductores, subtituladores y guionistas. Todos  
ellos deben conocer la diferencia entre ambos registros, y en ambas lenguas. Una  
pregunta habitual que se hacen, por ejemplo, es si deben priorizar el chiste por  
sobre el sentido literal cuando no es posible conservar ambos al mismo tiempo.  
A veces, incluso, se vuelve necesario inventar un nuevo juego de palabras o  
una ocurrencia equivalente en la lengua de destino que reemplace al original.  
Comprender lo ridículo como un campo social implica, ante todo, entender que  
las decisiones que toma un determinado dibujante en la soledad de su estudio  
están también determinadas por aquello que se espera socialmente de él.  
Mucho más problemático es el hecho de que socialmente hablando, tanto en  
los círculos de aficionados como en el de los especialistas, no se dé lugar en este  
campo a las obras de claro contenido irrisorio que se producen en el terreno del  
Gran Arte: las comedias de Shakespeare o más bien Shakespeare, cuando escribe  
comedias; las pinturas del Bosco o del viejo Bruegel, las novelas de Cervantes,  
las aguafuertes de Goya o las películas de Chaplin y Buster Keaton. Lo que se  
juega, en este sentido, es una dinámica muy particular por la cual el ingreso en un  
circuito de prestigio obtura el reconocimiento del carácter predominantemente  
gracioso de ciertas obras y autores. Lo paradójico, acaso, es que sea la crítica  
especializada mucho más que el gran público, la más renuente a admitir que poco  
se podría comprender a Molière o a Rabelais si no se los coloca bajo el signo de  
lo irrisorio. Se trata, por lo tanto, de productores profesionales de la risa que han  
sido reclamados para sí por otras instituciones cuya legitimidad social es mucho  
mayor y más amplia que la de este último.  
El campo social de la risa excluye también y finalmente, un tipo de producción  
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humorística que pasa prácticamente desapercibida frente a nuestros ojos, pese  
a que es posible encontrarla por todos lados, cuando leemos una novela de  
Irving en castellano o representamos en las tablas a Ionesco o a Pirandello, o de  
manera todavía más frecuente, cada vez que miramos una película, una sitcom,  
una serie cómica, un show de stand-up, en el cine, en la televisión abierta, por  
youtube o en una plataforma de streaming. Se trata del trabajo de los traductores,  
subtituladores y actores de doblaje que hacen inteligible para el gran público  
todas estas manifestaciones irrisorias sin que lleguemos a percatarnos de su  
presencia, aún en el caso del subtitulado que circula en letras amarillas por  
nuestras pantallas.  
Y aunque resulta innegable que el tipo de tarea que deben acometer participa  
de idénticos mecanismos a los que los comediantes acuden a la hora de plantar un  
chiste desde cero (si es que algo así sucede alguna vez), rara vez son reconocidos  
como parte del mismo grupo social ni se les da a sus producciones la importancia  
que les cabe en el complejo entramado de los discursos irrisorios. Ciñéndonos  
solo al terreno audiovisual, que es, por otra parte, el campo predilecto para el  
consumo de narrativas en la actualidad el trabajo de los traductores en todas sus  
variantes explica un poco más del 70% de los discursos cómicos o humorísticos  
audiovisuales que consumimos. Esta afirmación que puede aplicarse con rigor  
al mundo luso-hispano, podría extenderse a la gran mayoría de los territorios  
lingüísticos con excepción acaso de aquellos países donde el inglés opera como  
lingua franca.  
En las páginas que siguen intentaremos echar luz sobre el trabajo de estos  
verdaderos humoristas invisibles a la hora de reproducir chistes, referencias  
jocosas y juegos de palabras intentado comprender cuáles son las ideologías  
lingüísticas y discursivas que subyacen a sus esfuerzos, de qué clase de teoría de  
lo irrisorio se valen para llevarlo a cabo, por qué toman las decisiones que toman  
y en qué medida estas influencian y son influenciadas por el campo general del  
humorismo de la lengua de llegada. Nuestra hipótesis de base es que más allá del  
lugar común que atribuye al humor un carácter social e inherentemente situado,  
de lo cual daría cuenta su aparente intraductibilidad, la risa, en sus diversas  
manifestaciones, no solo es pasible de ser traducida, sino que dicha traducción  
forma parte de algunos de sus rasgos más característicos.  
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La risa de nunca acabar  
Acaso uno de los textos menos leídos y más incomprendidos entre aquellos  
esfuerzos por abordar el humor desde un punto de vista lingüístico y discursivo  
sea La lengua de nunca acabar, traducción castellana de La langue introuvable,  
de Françoise Gadet y Michel Pêcheux (1984), este último fundador de la Escuela  
Francesa de Análisis del Discurso, de notable influencia en los Estudios del  
Discurso en sus diversas variantes actuales. En él, los autores, comienzan  
por afirmar que el objeto, olvidado y a menudo forcluido de la lingüística y por  
extensión del análisis del discurso y de toda ciencia que pretenda decir algo  
sensato sobre el sentido es el hecho de que existe la lengua y hay lenguas  
(Pêcheux y Gadet, 1984, p. 11), esto es, la irreductibilidad fundante y radical de  
todo enunciado individual respecto de otro enunciado individual, sobre todo  
cuando este se encuentra construido hacia el interior de un sistema distinto de  
referencias. En otras palabras, que toda atribución de sentido o significación no  
puede ser comprendida sino en el aquí y ahora del espacio y el tiempo en el que  
está sucediendo.  
Dicha afirmación, que se encuentra en los fundamentos mismos de la  
perspectiva discursiva, parece darse de bruces con la voluntad última de la mayor  
parte de las teorías que a lo largo de todo el siglo XX intentaron dar cuenta del  
lenguaje, esto es, la voluntad política de acabar con la división entre las lenguas  
que se traduciría en lo que con acierto llaman la ilusión pentecostal, la postulación  
de una lengua única, babélica, que daría cuenta de todas las otras. Según ellos,  
los lingüistas, del esperanto a los lenguajes lógicos, de Ramon Llull a Noam  
Chomsky, nunca dejaron de buscar “esa nueva lengua universal que [fuera] capaz  
de reproducir el milagro de un Pentecostés científico: otra vez Babel” (Pêcheux y  
Gadet, 1984, p. 15).  
A partir de esta observación, los autores se dedican a realizar el análisis  
crítico y pormenorizado de toda la historia lingüística sobre la base de este olvido,  
incluyendo en esta trayectoria no solo a las diferentes filosofías del lenguaje  
de comienzos de la centuria sino a la relativamente novedosa, para la época,  
gramática generativo-transformacional en cuyos intentos de reducir el equívoco  
y la ambigüedad del lenguaje a una estructura profunda creen encontrar, otra  
vez, el mismo gesto reconciliador. Lo interesante, sin embargo, es la asociación  
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que ellos hacen entre dicha voluntad y aquello que denominan el orden de la  
seriedad por el cual, lo que todas estas teorías excluyen, con la salvedad, quizás,  
de la lingüística saussureana y su teoría del valor, es justamente la capacidad  
irrisoria del lenguaje. La posibilidad inherente no solo a toda lengua sino a todo  
modo semiótico de significación, de hacerles decir a los signos, a las palabras, a  
las acciones, a los gestos, mucho más de lo que dicen.  
La ambigüedad, el equívoco, la falta, la irreductibilidad de unos lenguajes  
respecto de otros, (dado que las lenguas naturales no constituyen nomenclaturas,  
ni códigos, ni sistemas de etiquetado); pero también, podemos agregar  
nosotros, de unos modos semióticos respecto de otros (no puede decirse lo  
mismo con palabras que con imágenes ni mucho menos con acciones, olores,  
sabores) e incluso de ciertas teorías lingüísticas respecto de otras (esto es,  
de la semiología de tradición saussureana con la ciencia casi homónima que  
encuentra sus fundamentos en la semiótica de Peirce, para todo esto ver AUTOR,  
2018), se encuentran asociadas, en términos de Pêcheux y Gadet, justamente a  
la posibilidad de todo texto o discurso de no ser tomado en serio. Una y otra vez  
los autores citan a Antoine Culioli, cuya teoría de las operaciones enunciativas  
se asienta sobre la base de que, en efecto, la comprensión sería solo un caso  
muy particular del malentendido, dado que la axiomático no-euclideana, los  
chistes, los sinsentidos, las ecolalias infantiles, la poética, el lenguaje técnico  
de los manuales, también forman parte del funcionamiento “normal” del lenguaje  
y no pueden, por lo tanto ser excluidos de una teoría que busque dar cuenta del  
mismo.  
Lo que los autores llaman el orden de la seriedad es justamente la negación  
de todos estos desvíos en aras de la normalización de una lengua que no existe,  
que nunca ha existido, más que en los laboratorios mentales de los lingüistas. Un  
bello ejemplo de este punto son los manuales de aprendizaje de lenguas, tanto  
los de lenguas extranjeras como los manuales escolares de los primeros años del  
primario con el que los niños aprenden o aprendían a leer y escribir. Copiando el  
estilo de un manual de conversación franco-inglesa, según sus propias palabras,  
es que Eugène Ionesco llegó a concebir La cantante Calva, traducción castellana  
de La cantatrice chauve, obra inaugural del movimiento conocido como Teatro  
del Absurdo y por consecuencia, del humor que lleva ese nombre. La lengua más  
aparentemente normal, es también, sin ningún lugar a dudas, la más radicalmente  
neurótica.  
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Traductibilidad e intraductibilidad del humor  
Resulta un lugar común afirmar que el humor, lo cómico y en general la risa  
se encuentran social y culturalmente situados, tan entrelazados con la cultura y  
el lenguaje en el que se manifiestan que difícilmente pueden ser trasladados sin  
un esfuerzo considerable. Que lo que hace reír a determinadas comunidades en  
ciertas épocas no hace reír a otras tantas2. Y en efecto, una de las precondiciones  
de lo irrisorio es la cantidad de presupuestos que se dejan en entredicho, todo lo  
que el receptor debe reponer de manera inmediata para comprender y disfrutar  
de la humorada. De modo que la traducción del humor, como la de la poesía,  
deviene una tarea ciclópea. Y sin embargo, pese a la aparente evidencia de tales  
afirmaciones, es posible constatar cómo ciertas operaciones irrisorias, ciertos  
mecanismos utilizados para procurar la carcajada del auditorio, ciertos ritmos,  
personajes, modismos, estilos, temas y, más aún, incluso ciertos chistes, parecen  
sobrevivir por el espacio de décadas, siglos y aún más, de milenios, pasando de  
lengua en lengua y de contexto en contexto.  
En trabajos anteriores he procurado demostrar la desconcertante  
supervivencia de algunos chistes que circulaban de forma oral o textual, pero  
siempre anónima, en diferentes tiempos y geografías a lo largo de los siglos XIX y  
XX, documentados tanto en antologías, como en estudios sobre la materia (entre  
otros El chiste y su relación con lo inconsciente de Freud, 1990 o los Complementos  
a El Mundo como Voluntad y Representación de Schopenhauer, 2005) y que siguen  
haciéndolo aún hoy a través de las redes sociales (ver, por ejemplo, AUTOR, 2023).  
Más allá de este punto, el hecho es que la traducción del humor, como la  
de aquellas obras literarias consideradas “intraducibles”, el Finnegans Wake de  
James Joyce o La Disparition de Georges Perec, a otras lenguas, contextos y  
2 En Crocodilos, Satíricos e Humorista Involuntários (2018) Elias Thomé Saliba acuña el concep-  
to de Pacto Humorístico como un modo de dar cuenta del momento histórico en el que lo irrisorio  
adquiere una vida institucional y por lo tanto comienza a ser producido profesionalmente. Ciertos  
discursos en ciertos determinados contextos, podrán ser entonces leídos como irrisorios, más allá de  
los procedimientos que pongan en juego para lograr ese efecto. Dicho momento coincide un ciento  
por ciento con la constitución de una esfera pública y activa al mismo tiempo, de un modo quizás un  
poco paradójico, la implícita posibilidad de un humor íntimo.  
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culturas, lejos de ser un fenómeno aislado o extraordinario es, por el contrario,  
uno sumamente frecuente. Es necesario explicar, entonces, por qué, pese a la  
creencia generalizada en la relativa intraductibilidad de lo irrisorio, se da el hecho  
de que una gran parte del humor literario o teatral que consumimos y una enorme  
porción, mayoritaria, del humor audiovisual contemporáneo, series como Friends,  
Seinfeld, How I meet your mother, The Big Bang Theory, Two and a Half Men, The  
Office, películas como Airplane, The Naked Gun, Zoolander, The Hangover o The  
incredible Burt Wonderstone, rara vez llegan hasta nosotros sin ser mediadas por  
alguna clase de traducción.  
No solo eso, sino que además dichas producciones se han constituido  
como referentes ineludibles de la cultura humorística, incluso hacia el interior  
del propio contexto cultural latino o sudamericano. Aunque muchas de las series  
producidas en Argentina, México o Brasil por plataformas como Netflix, Amazon  
Prime, HBO Max o Disney +, con actores y guionistas locales tienen en promedio,  
hacia el interior de esos países y culturas, un rating más alto que aquellas que  
fueron producidas en otras latitudes, el ratio de visualización de comedias, series  
cómicas y especiales de Stand Up traducidas del inglés al castellano o portugués,  
sigue siendo de siete a uno en detrimento de las primeras3. Los cómicos locales  
generan un gran nivel de aceptación en aquellas comunidades para las cuales  
funcionan como interpretantes, pero no es menos cierto, sin embargo, que  
series como Friends, The Office y Los Simpsons logran una empatía equivalente  
en países tan distantes como Argentina, Lituania, Irlanda o la República Checa.  
Ello puede corroborarse en el uso de memes que las usan como escenografía.  
La internacionalización de la industria cinematográfica y televisiva forma  
parte de una larga tradición. En las últimas décadas, sin embargo hemos asistido a  
una profunda transformación del tipo de trabajo lingüístico asociado a esta. Cada  
film o serie, por pequeño que sea y sin importar su país de origen, es traducido,  
doblado, subtitulado y rotulado a distintos idiomas una vez que se sube a una  
3SegúnꢀlaꢀconsultoraꢀBusinessꢀBureauꢀ(2021),ꢀaꢀfinesꢀdeꢀ2020ꢀhabíaꢀenꢀArgentinaꢀ11,52ꢀmillonesꢀdeꢀ  
hogares con acceso a televisión paga, lo que representaba una penetración del 77% de los hogares.  
NetflixꢀlideraꢀampliamenteꢀlaꢀofertaꢀdeꢀserviciosꢀSVODꢀtantoꢀenꢀAméricaꢀLatinaꢀcomoꢀenꢀArgentina.ꢀ  
Este liderazgo se explica por su temprana llegada al continente en comparación con otras plataformas  
(MastriniꢀyꢀKrakowiakꢀ2021,ꢀp.ꢀ5).ꢀEnꢀcuantoꢀalꢀcontenido,ꢀaꢀcomienzosꢀdeꢀ2019ꢀNetflixꢀsoloꢀcontabaꢀ  
con un 2,3% de producciones argentinas en su catálogo, con un claro predominio de producciones  
de Estados Unidos (46%), seguidas muy de lejos por Inglaterra (10%), Corea (8%) y Japón (7,3%)  
(Rivero, 2019).  
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plataforma de streaming, con el objetivo de ingresar al mercado global. “Aunque  
sabemos mucho sobre la producción, especialización e internacionalización —  
es decir, la creciente exportación de películas más allá de su país de origen— de  
la industria cinematográfica, los procesos complejos de la globalización siguen  
estando poco investigados” (Lorenzen, 2008). La globalización no se limita solo a  
la expansión de series y películas desde uno o unos pocos países: “también implica  
la interconexión entre una multitud de países, lo que conduce a su integración en  
uno (o varios) sistemas o redes globales económicos, culturales y, hasta cierto  
punto, también políticos” (Lorenzen, 2008; ver también Stiglitz, 2002; Amin;  
Cohendet, 2004).  
Esto también tiene un impacto considerable en el consumo contemporáneo  
del humor. La globalización de la industria cinematográfica significa también  
que, día tras día, nuestras pantallas se llenan de juegos de palabras, referencias  
graciosas y chistes traducidos y subtitulados desde otros idiomas (Chiaro, 2012).  
Cada vez nos reímos más con juegos lingüísticos, bromas y chistes que han  
sido producidos en contextos culturales muy distintos. La contraparte de este  
fenómeno, dada la capacidad inherente de lo irrisorio para constituir colectivos  
identitarios (véase AUTOR, 2025), es la creciente consolidación de aquello que  
podríamos llamar una auténtica cultura global, un sistema de referencias que  
va más allá de un territorio, una región o una nación determinadas. Gente que  
ríe de lo mismo a uno y otro extremo de los continentes. Es en este sentido que  
Joanna Wilk-Racięska habla explícitamente de una comunidad de la risa cuyas  
fronteras no siempre coinciden con la de las naciones, lenguajes o territorios  
(Wilk-Racięska, 2017). Dada la creciente segregación impulsada desde las redes  
sociales por las nuevas ultraderechas, este suceso, sin duda, también merece  
ser atendido y estudiado.  
Dime cómo doblas y te diré quién eres.  
La aceptación de una serie, película o cómico extranjero como parte de  
la cultura propia resulta incluso mucho más profunda en series de televisión y  
películas de los años sesenta, setenta, ochenta y comienzos de los noventa, cuya  
circulación se daba predominantemente por la televisión abierta y en las, que  
por lo tanto, el gran público no tenía acceso a sus versiones originales. En ellas  
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se verificaba el fenómeno de la fidelidad al doblaje por el cual los espectadores  
manifestaban una notable intolerancia hacia las voces de aquellos actores  
y actrices que no fueran los que originalmente asociaron a sus personajes  
cómicos más queridos: Maxwell Smart, Bugs Bunny, El Zorro, Alf, el robot Bender,  
resultaban mayormente indigeribles cuando eran escuchados en doblajes  
alternativos o con sus voces originales, incluso en países como la Argentina o  
México, tan adeptos al subtitulado4. Para los espectadores latinoamericanos, la  
voz de Homero Simpson será mucho más la de Humberto Vélez que la de Dan  
Castellaneta, su actor original. Dichos actores y actrices forman parte también  
de esa comunidad de comediantes invisibles a los que aquí aludimos, pues eran  
ciertamente las inflexiones de sus voces y su manera cómica de decir textos que  
salían de una boca ajena las que provocaban la risa de los espectadores.  
Así, por ejemplo, en una encuesta entre traductores y subtituladores,  
respecto de las comedias televisivas preferidas de su infancia, en los años 70, 80 y  
90 surgen algunas pocas referencias locales: El capitán Piluso, La noticia rebelde,  
Peor es Nada, No toca botón, Tato Bores y una sola latinoamericana: El Chavo del  
8 frente a montones de ejemplos norteamericanos Los Simpsons (The Simpson’s),  
Alf, Los tres chiflados (The Three Stooges); Hechizada (Bewitched), El Superagente  
86 (Get Smart), La niñera (The Nanny), Blanco y negro (Diff’rent Strokes), El zorro  
(Zorro), Futurama, Seinfeld, Friends; y uno inglés: El show de Benny Hill (Benny  
Hill). Con la excepción de Friends, todos ellos consumidos de manera doblada. El  
dato es tanto más significativo cuanto que la gran mayoría de estas series fueron  
dobladas en castellano neutro, una variedad dialectal artificial de la lengua  
que tiene su base en el castellano de México y sus áreas circundantes, aunque  
suavizando los acentos y eliminando modismos específicos, en detrimento de  
otras variedades del castellano, como el peninsular o rioplatense.  
4 En 1948, una ley pareja, prohibió el doblaje para cine en películas para adultos en México y Ar-  
gentina, por considerar que se trataba de competencia desleal para con las producciones originales de  
cada uno de esos países. La restricción excluía al cine familiar, los dibujos animados, y las películas  
y series para televisión. Al contrario que en España, donde, al revés, se exigía que todas las películas  
fueran transmitidas en castellano, incluso los títulos, hecho que el franquismo aprovechó para ejercer  
esa forma particular de censura que consiste en no traducir las partes que no podían ser oídas. La ley  
deꢀprohibiciónꢀseꢀextendióꢀhastaꢀfiꢀnesꢀdeꢀlosꢀañosꢀsetenta.ꢀElloꢀexplica,ꢀenꢀparte,ꢀlaꢀgranꢀtradiciónꢀdelꢀ  
subtitulado que existe en estos países, y su casi nula práctica en la península.  
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Aunque absolutamente aceptado hoy en día, hasta el extremo de que  
cualquier otra variante del castellano es percibida como extraña, dicha variedad  
se consolidó con el auge de la industria del doblaje en México, cuyos famosos  
estudios Churubusco fueron responsables de darle voz para toda Hispanoamérica  
a algunas de las películas más emblemáticas de la Disney. Eso pese a que filmes  
como Dumbo o Pinocho habían sido previamente doblados en Argentina para  
ser lanzados incluso en el mercado español del momento. Lo que no se puede  
desconocer es que más allá de la mayor o menor fidelidad de la traducción en sí  
misma, existe un punto de extrañamiento irreductible en el hecho de que el acento  
que los espectadores escuchan no sea el que corresponde a los contextos donde  
se escuchan. Punto que impacta en mayor o menor medida en las películas serias,  
pero que no deja de aportar un plus de sentido al desvío propio de lo humorístico.  
Amenudoselleganaasociarideológicamenteciertasvariedadeslingüísticas  
con ciertas conductas y estereotipos: se atribuye, por ejemplo, al argentino, el ser  
arrogante, ventajoso y descarado y ello se hace evidente en las voces de algunos  
personajesdobladosconeseacento.Lomismosucedeconelcubano,elcastellano  
ibérico o algunas variedades del castellano de México. Cucho (Choo-Choo en el  
original) de la serie animada Top Cat, traducida como Don Gato, de Hanna Barbera,  
habla con acento Yucateco. En el caso de esta serie, en particular, el personaje  
de Benito Bodoque (Benny the Ball) cuya voz, interpretada en el inglés original  
por Maurice Gosfield, era ronca y profunda, casi como la de un gánster, adopta  
en castellano una voz extremadamente aguda e infantil, que refuerza, en lugar de  
contrastarla, la ternura del personaje. Ambos fueron interpretados por el actor  
mexicano Jorge Arvizu a cuyo olfato actoral se atribuye la decisión de hacerlo de  
esta manera. Lejos de reforzar la literalidad de la traducción, la interpretación  
del doblaje la invierte. Aunque la operación parece completamente contraria, en  
términos del desvío humorístico llega a resultar equivalente.  
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Ascenso y caída del subtitulado5.  
El auge de la televisión por cable, desde mediados de los años ochenta  
en Argentina, México o Brasil, y su consecuente evolución en sistemas de  
programación, on demand, plataformas, sitios ilegales de reproducción de  
contenido o redes sociales, así como la tecnología DVD, que incluía la posibilidad  
de optar entre voces, subtítulos y doblajes en varios idiomas, pusieron a nuestro  
alcance las versiones vernáculas de algunos de estos productos, alertando a las  
masas de espectadores respecto del origen trans-lingüístico de aquello que se  
les ofrecía en las pantallas. The Office, Friends, Two and a Half Men, Curb your  
Enthusiasm, How I meet your mother, fueron dobladas y subtituladas en la misma  
medida. No conocen el fenómeno de la fidelidad al doblaje.  
Esto forma parte de un nuevo paradigma en la industria, en el cual incluso  
se conservan los títulos originales de las series. Lost en Argentina se conoce  
como Lost (aunque en España sigue siendo Perdidos), Friends no es Amigos, sino  
Friends (incluso en España). Lo mismo ocurre con Arrested Development, Curb  
Your Enthusiasm, Modern Family, South Park, Family Guy y el resto de las series  
mencionadas previamente. Un fenómeno similar se observa con los nombres de  
lospersonajes:WonderWoman,Spiderman,TheJokeroPeppaPigsonreconocidos  
tanto como la Mujer Maravilla, el Hombre Araña, el Guasón o Peppa la cerdita  
en Argentina. No se trata de una mera anécdota, sino de una de las múltiples  
manifestaciones de una nueva conciencia lingüística de los espectadores,  
que modifica las decisiones que toman los traductores y las compañías. Y, por  
supuesto, también a la inversa.  
Los niños y niñas de hoy son conscientes de que las películas, los programas  
detelevisión,losvideojuegosylospersonajesqueconsumenhansidopreviamente  
traducidos desde un idioma que no es el suyo. Kermit the Frog, la entrañable  
rana verde de los Muppets, habitualmente reconocida como La Rana René, en  
5 “El subtitulado es la presentación de un texto escrito en la pantalla en sincronía con el mensaje  
verbal o escrito original que se muestra” (Ávila-Cabrera 2023: 6). Implica un tipo de transferencia del  
texto fuente al texto meta que requiere reducción del texto, sincronización y uso de reglas sintácticas  
yꢀestilísticas.ꢀDíazꢀCintasꢀyꢀRemaelꢀ(2021)ꢀdefinenꢀelꢀsubtituladoꢀinterlingüísticoꢀcomoꢀlaꢀprácticaꢀ  
traductora que consiste en presentar un texto escrito, en la parte inferior de la pantalla, que tiene como  
objetivo reproducir el diálogo original intercambiado entre los distintos hablantes, así como la otra  
información verbal que se transmite de forma auditiva y visual (Ávila-Cabrera, 2023; Díaz Cintas &  
Remael 2021, p. 9).  
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Latinoamerica, o Gustavo en España, es distinguida en cualquiera de sus tres  
variantes. Eso no significa que las personas, en su vida cotidiana, realmente “vean”  
y sean plenamente conscientes del trabajo de los traductores y subtituladores.  
Como muchos otros trabajadores del lenguaje, su éxito depende de que sus  
acciones pasen desapercibidas, en otras palabras, de “ser escuchados pero no  
vistos […] La naturaleza muchas veces tras bambalinas de su trabajo también  
implica que su influencia esté parcialmente oscurecida y su rol a menudo mal  
reconocido por el público en general” (Thurlow, 2020, p. 3).  
El trabajo de los traductores y subtituladores, por su propia naturaleza,  
sigue siendo invisible o cuando menos, profundamente invisibilizado. Acaso es la  
condición misma de la actividad: un proceso que ocurre frente a nuestros ojos,  
de manera literal, en el caso del subtitulado, pero que sin embargo no somos  
capaces de ver ni oír del todo. Este último es el que, de entre estas formas de  
la traducción, encarna de manera más paradigmática el boom de la traducción  
audiovisual contemporánea, especialmente desde que las plataformas  
transformaron nuestras formas de ver y consumir películas y series. Una de las  
consecuencias más evidentes de la globalización de la industria audiovisual.  
Estas pequeñas letras amarillas que se interponen entre la imagen dinámica y  
nuestros ojos, haciéndonos leer en una lengua aquello que escuchamos en otra,  
que entrelaza dos modos semióticos completamente diversos, en cierta forma  
antitéticos, el acto de leer y el de observar; resultan a todas luces un ejemplo de  
hasta qué extremo el acto de mirar un filme o una serie comporta un complejo  
proceso multimodal por el cual adosamos automáticamente la entonación y la  
performance de un actor determinado al significado de aquello que leemos en  
forma silenciosa6.  
Este fenómeno es sin duda el que permite a muchos subtituladores transferir  
el peso de las bromas a aquello que se ve y se escucha mucho más que a lo  
que se dice. El tono del actor o de la actriz, su forma de actuar, sus gestos, sus  
miradas, es lo que realmente hace al efecto cómico. A veces la decisión a todas  
luces antipática de no traducir un chiste o de traducirlo solo a medias, dada la  
dificultad que este entraña, sobre todo cuando contiene referencias culturales  
6 La demanda de traducción audiovisual ha inspirado en los últimos años numerosas investigaciones  
sobre el tema. El subtitulado es hoy “un campo muy bien posicionado gracias a una gran actividad,  
como múltiples publicaciones de investigación, congresos a nivel internacional, el desarrollo de cur-  
sos universitarios y profesionales, y la redacción de tesis académicas” (Ávila-Cabrera, 2023, p. 6).  
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muy específicas, es realmente la correcta. Cualquier opción que torne el texto  
oscuro, complejo, difícil de leer, o demasiado alejado del contexto de referencia  
podría hacer naufragar el efecto. Lo mejor que el traductor puede hacer, en estos  
casos, es quitarse de en medio.  
El timing resulta crucial en el subtitulado: anticipar el remate en un gag  
resultaría destructivo para la risa que se busca desatar. El subtitulador debe  
entoncescuidarqueeltiempodelalecturacoincidaconeltiempodelcomediante.  
Algo muy de mucha dificultad en las sitcoms, donde parte de la dimensión cómica  
del discurso reside en la velocidad con la que hablan los intérpretes. Otro error,  
muy común es tornar claro lo que es intencionalmente ambiguo. A menudo, la  
dimensión jocosa de un chiste se entiende antes de haber comprendido que se  
tratabaenverdaddeunchiste.Estoesmuchomásusualdeloqueparece:losniños  
y niñas cuentan chistes sin sentido. Entienden la forma, pero no el contenido. Ello  
se traslada luego a las audiencias que reaccionan ante una humorada sin saber  
muy bien de qué o por qué se están riendo.  
Traducciones por todas partes  
El punto a destacar es que, lejos de ser intraducibles, las diferentes  
manifestaciones de la risa parecen estar siendo traducidas en todos lados y en  
todo momento. Las dificultades que este ejercicio entraña son evidentes, sobre  
todo cuando se tienen en cuenta los bajos salarios, cada vez más bajos según  
los especialistas, que la industria destina a la tarea. Esta se mueve, además, de  
forma cada vez más vertiginosa. Procesos que habitualmente ocupaban varias  
semanas y hasta algunos meses requieren ahora ser resueltos en poco más de  
72 horas. A esto se le suma la censura, absolutamente habitual en el medio, por  
la cual los insultos, las palabras groseras, las imprecaciones, son omitidas o  
vertidas en formas léxicas suavizadas, con escasas excepciones. Por ejemplo,  
la expresión “¡Cielos!” en lugar de “¡Mierda!” para el equivalente inglés “Shit!” o  
“Fuck!” utilizada incluso, o sobre todo, en series reconocidas por el uso irrestricto  
de injurias semejantes, como South Park.  
En otros casos, la censura busca atenuar el choque cultural o ideológico que  
tal o cual expresión pudiera entrañar para los mercados de la lengua de llegada.  
Así, por ejemplo, el séptimo episodio de la tercera temporada de Los Simpsons,  
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segundo especial de Halloween de la serie, Treehouse of Horror II, llamado La casa-  
árbol del horror II en España y La casita del horror II en Hispanoamérica contiene  
una escena en la que se abrazan los representantes de Inglaterra y Argentina en  
la ONU. El primero dice entonces:  
BRITISH AMBASSADOR: Eh, sorry about the Falklands, old boy.  
ARGENTINE AMBASSADOR: Oh, forget it. We kind of knew they were yours.  
Sin embargo, en la versión que se transmitió para América Latina, el diálogo  
omite cualquier referencia a las islas:  
EMBAJADOR  
BRITANICO:  
Perdón  
por  
lo  
del  
tratado  
amigo.  
EMABAJADOR ARGENTINO: Oh, olvídate che. Habrá tiempo de recuperarnos.  
Locualnotienemuchosentido.Ladecisiónsebasasindudaenlasensibilidad  
que pudiera tener para el público latino y sobre todo de Argentina, tal alusión  
descarada al reclamo de soberanía, incluyendo la circunstancia del nombre:  
Malvinas en lugar de Falklands. Acaso una mejor decisión hubiera sido invertir los  
comentarios. Escuchar al Embajador Británico decir “siempre supimos que eran  
suyas”.  
Todo ello atenta, sin duda, contra el complejo acto de reponer una humorada  
en un contexto cultural diferente. Y si a menudo los puristas manifiestan su  
descontento por aquellos chistes que frecuentemente se pierden o incluso  
se omiten cuando no se encuentran equivalentes en la lengua de llegada, por  
aquellos giros dialectales que no se reponen, por aquellos dobles sentidos que  
no se aprovechan, no es menos cierto que la popularidad de los ejemplos citados  
más arriba nos obliga a pensar que el éxito es más frecuente que el fracaso.  
En el caso del subtitulado, este podría explicarse, también, por el hecho de  
que lo irrisorio comprende a todos y cada uno de los estratos y niveles de la vida  
colectiva y, por lo tanto, de los procesos que atañen a la producción social del  
sentido. Se trata de un fenómeno enormemente complejo en el marco del cual  
las operaciones exclusivamente lingüísticas cumplen un rol entre tantos otros,  
y ni siquiera uno preponderante, junto con aquellas que incluyen la imagen, el  
movimiento, la voz o en general cualquier modo semiótico o sistema sígnico. La  
mayor parte de los chistes (si no todos) dependen de la performance del emisor:  
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gestos, tonos, ritmos, silencios, hacen a la comprensión de una broma mucho  
más que su dimensión propiamente verbal.  
Esto nos obliga a reconocer, entonces, la existencia de un fundamento no  
lingüístico y transcultural de lo irrisorio, que ya no depende exclusivamente de  
los contextos sociales específicos o, para ser más exactos, cuyos contextos  
sociales de referencia sobrepasan las fronteras geográficas y temporales, y que  
comúnmente se vinculan con lo que previamente hemos denominado el campo  
social de la risa. Es patente la presencia de ciertos estilos de interpretación,  
como por ejemplo, ritmos, velocidades, tipos de voz, tipografías, y naturalmente,  
ciertas operaciones retóricas concretas, tales como la ruptura de la isotopía  
estilística, anacronismos, o el empleo calculado de la obscenidad y el lenguaje  
escatológico, entre otros.  
La mera existencia de dicho campo y la necesidad del humorista de recurrir a  
él constituye un fenómeno transcultural, cuyas implicancias pueden observarse  
en la traducción de la película Airplane (1980), que fue lanzada en Hispanoamérica  
bajo el título ¿Y dónde está el piloto? y en España como Aterriza como puedas. En  
ambos casos, el título adquiere un matiz humorístico ausente en el texto original.  
El éxito de esta primera fórmula generó que, con el tiempo, numerosas películas  
adoptaran el mismo método, señalando a la audiencia no solo que se trataba de  
comedias, sino también el tipo específico de humor que presentaban. Así, The  
Naked Gun (1988) se estrenó como ¿Y dónde está el policía? (1988), Repossessed  
(1990) como ¿Y dónde está el exorcista? (1990), y A Haunted House (2013) como ¿Y  
dónde está el fantasma?  
Vemos aquí como un chiste que a primera vista puede parecer intraducible  
puede ser trasladado a otra lengua mediante procedimientos muy similares a los  
del texto original. En una de las escenas más icónicas del filme, el doctor Rumack  
pregunta al traumatizado piloto Ted Striker si es capaz de aterrizar el avión:  
RUMACK: Can you fly this plane and land it?  
TED: Surely you can’t be serious.  
RUMACK: I am serious, and don’t call me Shirley.  
Aquí, la homofonía entre “surely” y “Shirley” genera la confusión que provoca  
el efecto humorístico. La versión subtitulada para España omite por completo el  
juego de palabras:  
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RUMACK: ¿Puede pilotarlo y aterrizar?  
TED: No puede estar hablando en serio.  
RUMACK: Le estoy hablando en serio.  
En cambio, la versión doblada para Latinoamérica introduce una leve  
modificación para conservar la comicidad a través de un mecanismo irrisorio  
análogo al original, aprovechando no la homofonía sino la ambigüedad del vocativo  
divino:  
RUMACK: ¿Podrá volar el avión y aterrizarlo?  
TED: ¡Dios! No hablará en serio.  
RUMACK: Hablo en serio, y yo no soy Dios.  
Si bien es cierto que el nombre Shirley desaparece de la escena, la confusión  
permanece y el chiste, por lo tanto, funciona. No solo eso: funciona bastante bien.  
En sus ensayos “La tarea del traductor” (1971) y “Sobre el lenguaje en general y  
sobre el lenguaje de los hombres” (1986), Walter Benjamin aborda la problemática  
de la traducción literaria, preguntándose qué distingue realmente al escritor del  
traductor. Benjamin concluye que la labor del traductor consiste en encontrar, en  
la lengua de llegada, una actitud que despierte un eco del original. Una traducción  
que solo pretendiera ser un intermediario no lograría más que transmitir un  
mensaje, lo cual en el caso de la lengua poética carece de verdadera relevancia.  
“¿Qué ‘dice’ una obra literaria? ¿Qué comunica? Muy poco a quien la entiende.  
Su razón de ser fundamental no es la comunicación ni la afirmación” (Benjamin,  
1971). Esto es así porque la lengua no es únicamente un medio para comunicar lo  
comunicable, sino, más aún, un símbolo de aquello que no puede ser comunicado  
en absoluto (Benjamin, 1986).  
Walter Benjamin identifica en el nombre propio —la respuesta a la pregunta  
“¿quién eres?”— una de las singularidades más intraducibles del lenguaje, aunque  
simultáneamente reconoce que dicho nombre debe necesariamente traducirse,  
pues está inextricablemente vinculado a un rostro y a un cuerpo particulares.  
De esta manera, la posibilidad misma de la traducción se sostiene en la medida  
en que la lengua existe, dado que toda lengua puede concebirse como una  
traducción de otras lenguas anteriores. Tanto la práctica poética como la  
humorística, al tensionar la identidad misma del lenguaje, parecen regirse por  
las mismas leyes que gobiernan la traducción. Desde una perspectiva semiótica,  
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esto resulta incuestionable, pues un signo funciona siempre como sustituto de  
otra cosa, pero únicamente bajo un determinado aspecto o cualidad. En otras  
palabras, todo es traducible en cierto sentido, pero nada puede ser trasladado  
íntegramente en todos sus aspectos7. Ello coincide con la propia experiencia  
de los traductores quienes, ante la pregunta por la dificultad de traducir lo  
irrisorio han respondido, contra la creencia común y generalizada, que es una  
tarea difícil, pero no particularmente difícil. No más difícil que la traducción de  
ciertos modismos, expresiones dialectales, juegos de palabras no-humorísticos  
e incluso ciertos textos científicos.  
La propia existencia de lo irrisorio depende de esta diferencia fundamental  
entre lo que expresamos y lo que creemos entender. Nuestro sentido del humor  
forma parte de una tradición cultural que no es ni exclusivamente verbal ni  
mayoritariamentelingüística.Hansidosiglosdeaprendizajeparacomprenderque  
pensamos a través del lenguaje, lo cual a su vez nos permite entender que no es  
únicamentepormediodelalenguaquepensamos. Meatrevoinclusoasugerirque,  
aunque de forma mínima y ocasional, lo irrisorio logra eludir tangencialmente la  
mercantilización del lenguaje característica del neoliberalismo que atravesamos  
actualmente.  
Lejos de ser intraducibles, los mecanismos que producen lo irrisorio  
recurren a operaciones semióticas que constituyen la base misma de la  
generación de sentido, así como las formas en que este circula y organiza el  
lenguaje, el pensamiento y la realidad. La traducción del humor no solo es  
posible, sino también, en cierto sentido, indispensable. Representa una de las  
múltiples expresiones de esa cultura popular subterránea de la risa que Bajtin  
quiso poner en evidencia, y que se expande más allá de las barreras idiomáticas y  
geográficas. Los traductores audiovisuales actúan como mediadores culturales  
de esta herencia milenaria cuando buscan el equivalente en la lengua receptora  
de una broma, un chiste o un juego de palabras.  
Contrario a lo que suele pensarse, estos profesionales generalmente logran  
su cometido. Esto sucede, desde nuestra perspectiva, porque esos chistes y  
7 En Dire Quasi la Stessa Cosa. Esperienze di traduzione (2003) Umberto Eco aboga por una mirada  
práctica del asunto, según la cual la traducción es posible porque efectivamente se realizan traduccio-  
nes todo el tiempo, sea por la circunstancia que sea. Y a menudo son los mismos traductores los que  
juzgan buenas o malas determinadas operaciones de traducción basados pura y exclusivamente en las  
reglas internas del campo.  
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juegos lingüísticos son apenas la manifestación visible de una cultura popular  
compartida por toda la cultura occidental, una cultura capaz de generar una  
comunidad humana que trasciende las fronteras sociales.  
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DOSSIÊ  
AUTOR 2023  
AUTOR 2018  
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DESENHAR O FINAL DO IMPÉRIO COLONIAL: O TRAÇO  
DO CARTOONISTA AUGUSTO CID (1966-1974)  
DRAWING THE END OF THE COLONIAL EMPIRE: THE  
WORK OF CARTOONIST AUGUSTO CID (1966-1974)  
1
Sónia Pereira Henrique  
https://orcid.org/0000-0001-8374-8919  
2
Maria Cristina Neves  
https://orcid.org/0009-0003-8217-0475  
Recebido em: 27 de maio de 2025.  
Revisão final: 20 de agosto de 2025.  
Aprovado em: 16 de janeiro 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23456  
1 Doutora em História, com especialidade em Arquivos Históricos (23/01/2020) e Mestre em Ciên-  
cias da Informação e Documentação, na variante de Arquivística desde 30/11/2010. Ambos os graus  
académicosꢀforamꢀcertifiꢀcadosꢀpelaꢀUniversidadeꢀNovaꢀdeꢀLisboaꢀ-ꢀFaculdadeꢀdeꢀCiênciasꢀSociaisꢀeꢀ  
Humanas, em Lisboa, Portugal. Investigadora Integrada do DINÂMIACET-Iscte - Centro de Estudos  
Socioeconómicos e Territoriais (ECSH) grupo Cidades e Territórios, Lisboa, Portugal. E-mail: sonia.  
pereira.henrique@gmail.com  
2 Mestranda em Ciências da Documentação e Informação na Universidade de Lisboa e o Mestrado  
emꢀMuseologiaꢀeꢀMuseografiꢀaꢀnaꢀFaculdadeꢀdeꢀBelasꢀArtesꢀdaꢀUniversidadeꢀdeꢀLisboa.ꢀÉꢀpós-gradu-  
ada em Património, Gestão e Participação, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universi-  
dade Nova de Lisboa (2023-2024) e a Especializada em Ciências Documentais, variante de Bibliote-  
cas e Centros de Documentação e variante Arquivo pela Universidade Lusófona de Humanidades e  
Tecnologias (2007-2010). E-mail: cristinasoaresneves@gmail.com  
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DOSSIÊ  
Resumo: O desenho da espacialidade colonial através do cartoon e a sua leitura em contex-  
to, conforme outras tipologias documentais nos arquivos, permitem equacionar um espaço  
público, um território hermenêutico no qual crítica social, função moral, expressão artística  
e impacto cultural operam enquanto fronteiras, possibilitando reavaliar valores, mesmo em  
momentos-chave, conforme a guerra colonial, em África. Assim, a representou Cid, partici-  
pante ativo durante a guerra, com o seu desenho e depois desta, enfrentando a censura ao seu  
trabalho.  
Palavras-chave: guerra, humor, opinião pública, imprensa.  
Abstract: The utilisation of cartoons as a medium to depict colonial spatiality and its contex-  
tual reading alongside other documentary typologies in the archives enables us to equate pub-  
lic space, a hermeneutic territory in which social criticism, moral function, artistic expression  
and cultural impact act as frontiers. This enables a re-evaluation of social values, even during  
pivotal moments such as the colonial war in Africa. Cid’s approach conveys his artistic repre-  
sentation of the conflict, both as an active part of it and as a result of censorship.  
Keywords: humour, press, public opinion, war.  
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Introdução  
O presente artigo ao revisitar a expressão artística de Augusto Cid (1966-  
1974), na sua qualidade de cartoonista, intersecta o impacto do seu processo  
humorístico ao nível da opinião pública na formação do Portugal contemporâneo3.  
A cronologia definida compreende a montante o ano de 1966, o qual marca o início  
da publicação deste seu trabalho, em Angola – aquando da sua participação na  
guerra colonial – e a jusante o ano de 1974, considerando que a publicação da  
obra “Que se passa na frente?!!”, na qual foi republicado algum deste trabalho, foi  
editada em dezembro de 1973 tendo sido efetivamente distribuída em fevereiro  
de 1974.  
Asquestõesdegovernaçãoeadministraçãoaludindoaosplanosdefomento  
e aos avanços e recuos de um território que se distanciava da metrópole – foram  
mapeados através deste compromisso entre a Arte e a informação, que o trabalho  
de Augusto Cid representou, sem perder de vista a inscrição nos arquivos. O  
acesso ao seu arquivo pessoal, atualmente em depósito no Arquivo Histórico  
de Cascais4, e o cruzamento com documentos localizados em outras unidades  
culturais, permitiram estudar a leitura que o olhar acutilante do autor trouxe de  
tópicos políticos complexos como o foram a guerra colonial. Um exercício que se  
pode empreender, conforme pretende o texto explorar, a dois níveis – observando  
a qualidade de participante externo, e ou observando a qualidade de participante  
ativo, na última fase do colonialismo português tardio.  
De um ponto de vista metodológico o texto explora o estudo do humor, bem  
comoasuaintersecçãocomaimprensaeosestudoshistóricosdepolíticacolonial,  
recorrendo ao cartoon enquanto fonte primária. Esta opção metodológica, na  
qual se optou por analisar a produção do autor, outrora miliciano nas fileiras  
em Angola – papel que lhe permitiu protagonizar o episódio “Linha da Frente”  
– é justificada considerando o facto de que estes ensaios visuais constituem  
3 Neste artigo as autoras seguem a norma do português europeu. Adicionalmente, optaram pela utili-  
zação dos termos cartoonista e cartoon, consagrados pelo uso em Portugal, em detrimento dos termos  
cartunista, cartum ou charge.  
4 Os documentos de arquivo podem ser consultados no Arquivo Histórico Municipal de Cascais.  
Código de referência: PT/CMCSC-AHMCSC/APSS/AJMSC. A história administrativa e custodial  
do fundo encontra-se acessível em: Cid, Augusto José de Matos Sobral. Arquivo Digital Cascais.  
Disponível em: https://arquivodigital.cascais.pt/xarqweb/Result.aspx?id=400773&type=PCD. Aces-  
so em: 15 ago. 2025.  
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um campo de investigação determinante para a análise do tempo histórico  
conjugando mensagens, horizonte de expectativa e conotação de imagem. A boa  
receção deste trabalho gráfico em Angola, aquando da sua produção, contrasta  
com a censura recebida, mais tarde em Portugal, quando regressado o autor  
procura republicar aquele trabalho. Nesse sentido e enquanto argumento, a  
escolha dos desenhos não poderia recair sobre outra amostra documental.  
No que respeitou a guerra colonial, na qual Portugal e Angola foram parte  
ativa, edaqualseconsidera,nesteestudo,comoseusatoresprincipaisoshomens  
que estiveram no teatro de operações – a chamada linha da frente – justifica-se a  
escolha do tema não porque não tenha sido alvo de diversos estudos ao longo do  
tempo, mas porque no que se refere à retórica da imagem, este ainda configura  
um tópico científico com diversas facetas por explorar. Não obstante, o trabalho  
que agora se apresenta visa contribuir para o aprofundamento da compreensão  
sobre o cartoon produzido em contexto de guerra. Ter recorrido ao trabalho, em  
nosso ver, singular, de um autor e artista gráfico português como o foi Augusto  
Cid, deve-se à sua qualidade e ao facto de este ter sido participante na linha da  
frente – o que para estudiosos de temas pretéritos possibilita problematizar a  
temática complexa dos conflitos de libertação, homenageando, em simultâneo,  
o fenómeno comunicacional gráfico.  
O humor na imprensa impressa portuguesa - origens e desenvolvimento  
A história da imprensa portuguesa desde a sua origem até 1865 abordou a  
importância do humor na comunicação impressa em momentos de particular  
dificuldade, como foram a transição do Antigo Regime para o Estado Liberal  
(TENGARRINHA, 2013). Este fenómeno, de conseguir abordar temas de extrema  
conflitualidade e fragilidade, inevitavelmente, impactou a formação de opinião  
pública (ALVES, 2015). Este hiato, considerado desde a Antiguidade um espaço  
intermédio entre a ignorância e a ciência (PLATÃO, 2001, p. 263-264). Em Portugal,  
e ao nível de política editorial, o Almocreve de Petas (1797-1800) considera-se o  
primeiro periódico a recorrer ao humor (FERREIRA, 2018). Apesar da publicação  
não conter imagética, conforme se pode verificar na compilação publicada por  
J.F.M. de Campos em 1819, a qual se encontra disponível na biblioteca digital  
Internet Archive (2009), os seus conteúdos trouxeram apontamentos que  
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marcaram a transição da nação ao nível, sobretudo, da sua opinião pública para  
um Estado liberal (FERREIRA, 2020). Ainda demorou até que se assistisse no  
país, à introdução de imagem na imprensa, a qual acontece com o suplemento ao  
jornal diário O Patriota (1843-1853), O Burlesco em 1847.  
Figura 1- Imagem gráfica do suplemento ao jornal O Patriota O Burlesco até 1847-08-26.  
Fonte: Hemeroteca Municipal de Lisboa (HML).  
Figura 2 - Imagem gráfica adotada suplemento ao jornal O Patriota O Burlesco.  
Fonte: Série II, nº 1079 (1848-01-10). Hemeroteca Municipal de Lisboa (HML).  
Este suplemento compreendia uma folha político-satírica ilustrada,  
propriedade de Manuel de Jesus Coelho, que apresentava inicialmente uma  
imagem austera vindo a modificar o seu branding ainda durante a sua 1ª série.  
Este refrescamento ao nível da imagem aconteceu após a publicação do seu nº 5  
a 26 de agosto de 1847, e foi assim que o periódico testemunhou o processo que  
conduziu ao golpe regenerador de 1851 – viabilizado por cartistas e setembristas  
moderados, e à primeira reforma da Carta Constitucional, através do Acto  
Adicional de 1852 (HEMEROTECA, 2016).  
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Figura 3 - Ilustração alusiva às Obras Públicas do Reino  
Fonte: O Burlesco, I, nº 5 (1847-08-26). Suplemento ao nº966 do jornal O Patriota, p.19. Hemeroteca Mu-  
nicipal de Lisboa (HML).  
A sátira, enquanto forma de crítica social, tanto pode ser divertida quanto  
incisiva, utilizando elementos humorísticos para provocar reflexão, o que inclui  
o recurso a dialética de subalternos (DETERALA, 2020). Aguiar e Silva (2002)  
explorou a sátira em diferentes contextos históricos e culturais, destacando a sua  
importância na literatura e na comunicação social ao expor as falhas verificadas  
na sociedade, em particular na crítica das figuras e instituições políticas, visando  
temas como a corrupção política, a inoperabilidade e a incompetência. O que nos  
leva a questionar o funcionamento do discurso icónico, em contexto de conflito,  
em particular nos tópicos associados à política colonial. E no qual parece haver  
razoabilidade no facto de que o colonialismo não civilizou, desumanizando tanto  
o colonizado quanto o colonizador (CÉSAIRE, 2024)5.  
Historicamente, e do que se encontra publicado, o discurso icónico tem  
desempenhado um papel significativo na formação da opinião pública e das  
narrativas políticas durante os conflitos coloniais. Na segunda metade de XIX,  
os lançamentos de periódicos de humor de Raphael Augusto Prostes Bordallo  
Pinheiro (1846-1905) trouxeram outro fôlego à imprensa de humor portuguesa.  
Começando por lançar o Binóculo (1870), jornal de crítica teatral, lançando pouco  
depois A Berlinda (1871), de que saíram sete números Bordalo teve uma passagem  
5 A 1ª edição deste manifesto contra o colonialismo e o racismo institucionalizado surge em 1950  
com o título Discours sur le colonialisme. Trata-se de uma referência central para os estudos pós-co-  
loniais,ꢀinfluenciandoꢀaꢀtítuloꢀdeꢀexemploꢀFrantzꢀFanon,ꢀEdwardꢀSaidꢀeꢀNgũgĩꢀwaꢀThiong’o.  
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entre 1873 e 1874 pelo Ilustrated London News, como correspondente em Madrid,  
na qual impôs o seu nome artístico, Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) fundando,  
em 1875, A Lanterna Mágica (MATOS, 2013). Sendo neste último, um mês após o  
seu lançamento, que Bordalo publicou o seu cartoon mais icónico o “Zé Povinho”,  
conforme se pode verificar na figura 4.  
Figura 4 - A “S. Pedro … Paio” Litografia de R. Bordallo Pinheiro  
Fonte: A Lanterna Mágica, 26-06-1875, p. 52-53. Hemeroteca Municipal de Lisboa (HML).  
Este arquétipo desenhado por Bordalo, compreendia uma figura grotesca a  
qual representava um camponês analfabeto, que apesar de soberano do tudo e do  
nada (OLÍMPIO, 2013, p. 16), foi adotada como personificação nacional portuguesa  
(FRANÇA, 2004), ainda hoje se mantendo como um ícone.  
Figura 5 - Capa do 1º número do periódico A Paródia (1900).  
Fonte: Hemeroteca Municipal de Lisboa (HML).  
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Mais tarde, A Paródia (1900-1907) – o terceiro projeto editorial de Bordalo –  
procurou colocar a ilustração ao serviço de uma crítica dirigida à coisa pública,  
a qual o próprio nomeia por “a anedota pública”. Ainda assim, não se pense que  
Bordalo apenas criticava a política nacional. Aquando deste último projeto  
podemos compreender que e, no âmbito da sua atividade profissional, o artista  
operou, inclusive, ao nível diplomático (DIOGO, URZE, SIMÕES, 2023). Não se  
tratava de criticar para ridicularizar ou para suscitar riso, mas de criticar para  
infundir algum tipo de melhoria, e isso foi evidente com a sua participação pública  
no âmbito das pressões a que Portugal esteve sujeito, no seguimento do ultimato  
inglês.  
Uma cultura visual colonial ou um arquivo visual colonial?  
Compreende-se que o humor encontrado na imprensa, conforme explorado e  
conforme se verifica no trabalho de Augusto Cid, não tem o objetivo primordial de  
levar o público a rir, mas a pensar nos acontecimentos (FERNANDES, 2016, p. 216).  
No caso, não se trata diretamente do humor ou do riso como categoria filosófica  
ou psicológica, mas de oferecer uma crítica que pode estar e ser relacionada  
ao tema da identidade, representação e alienação (FANON, 2008), e mesmo de  
como o outro fora forçado a viver sob uma identidade imposta, construída por  
olhares externos (SAID, 2004). A denúncia desta violência simbólica associada ao  
colonialismo decorreu em várias frentes, sendo encontrada em diversos teóricos.  
Fanon, a título de exemplo, fê-lo através da psicologia e da linguagem; Said  
através da crítica literária e cultural. Pese embora, Said não analise diretamente  
o humor, a sua crítica ao discurso orientalista permite pensar o humor nonsense  
como forma de resistência.  
As imagens políticas criadas em tempo de conflito ou disputa são disso bons  
exemplos, nos quais percebemos no desenho a estigmatização do adversário  
(RAVI, BENHAÏM, 2022). E se durante o período monárquico o protagonismo desta  
representação era parcelado entre o inimigo, Napoleão, e os seus opositores,  
encarnadosatravésdeperfis:opatriota(Espanha),ocamponês(Rússia),osimples  
soldado (Alemanha) ou o homem comum (Inglaterra, França, Holanda, Alemanha)  
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(RÉGNIER, 1996, p. 83) e Portugal. Durante a Primeira República (1910-1926), a  
cultura visual que incidia no colonialismo português mediava uma dialética na  
qual a infantilização e a feminização das colónias, embora empregues, não eram  
exclusivos do caso português, verificando-se contexto idêntico nas imprensas  
francesa e britânica (SCHIBELINSKI, 2016, p. 79).  
O desenrolar da guerra colonial no ultramar português (1961-1974) possibilitou  
que se assistisse a um momento estruturante para a imprensa, principalmente  
para o serviço de noticiários. Mantendo lógicas propagandistas, como foi o caso  
da revista Antena (01-03-1965 a 15-10-1968), ao serviço da estação de rádio sua  
proprietária, a qual foi utilizada como montra promocional da primeira, ao invés  
de um canal para debate alargado (HENRIQUES, 2016). Este exemplo, ilustra o  
facto de que não são apenas os padrões, conforme o veículo através do qual era  
transmitidaamensagem,quetêmasuaimportâncianoprocessocomunicacional.  
E neste âmbito, a imprensa ilustrada desempenhara um importante papel tanto  
na divulgação quanto na “criação” do império colonial português (MARTINS, 2012).  
Poroutrolado,acaricatura,conformerevisitadonaspublicaçõesdeXIX,tende  
a aumentar e a destacar um aspeto narrativo na imprensa ilustrada, permitindo  
ao artista gráfico colocar em agenda determinado tópico, não raro implicando  
um ataque (OLIMPÍO, 2013, p. 125), através de uma imagem estereotipada (ROCHA,  
2022, p. 31). Por sua vez, o cartoon representa uma proposta de eliminação dos  
sinais de identificação do referente, mantendo-o, todavia, dentro do contexto  
cultural conhecido acompanhada de uma declaração crítica (FERNANDES, 2016,  
p. 217) e de um manifesto de intervenção (OLIMPÍO, 2013, p. 125). Contudo, e  
concordando com Ana Rocha (2022) não parece ser possível tecer considerações  
sobre o humor, na qualidade de discurso social, sem entender a relação entre  
criador-imagem-recetor, bem como a sua dimensão social e política.  
Adicionalmente, sabendo que todo o discurso social é proliferante, já que  
se expande de um modo contínuo, sobretudo quando se menciona a união entre  
discurso social e imprensa periódica, ao abordar o contexto da guerra colonial  
importa ter presente que não é tão importante quem pode falar como quem vai  
ouvir (SPIVAK, 2012). A questão da compreensão do signo, conforme a explorou  
Peirce(1978),oqueéaimagem,oquediz,ecomoodiznecessitadeprotocolospara  
a leitura. A teoria semiótica de Peirce auxilia na medida que a iconografia de um  
tema ou de assunto deve ser acompanhada de um estudo de significado da obra.  
E neste ponto a obra de Cid, aqui abordada, parece-nos paradigmática. Porque  
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este trabalho hermenêutico, inevitavelmente, implica compreender significados  
primários, significados secundários e significados intrínsecos (JOLY, 2008).  
Em 2020, Jair Rattner6 publicou um artigo no qual estudou os jornais  
publicados por soldados portugueses da guerra colonial, que, como refere, é um  
tema pouco explorado nos estudos da história do jornalismo em Portugal. Nesse  
estudo há uma proposta de classificação do uso do satírico na imprensa mediante  
categorias: o dia-a-dia; os militares e os civis; a situação militar ineficiências; o  
inimigo e as hierarquias militares. Para a proposta, o autor utilizou como objetos  
de estudo e fontes cerca de 240 jornais de unidades existentes na Biblioteca do  
Exército, que foram escritos e publicados em Angola, Moçambique, Cabo Verde,  
Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe (RATTNER, 2020). Inevitavelmente, todas as  
classificações propostas foram encontradas no trabalho de Augusto Cid.  
Rosseau, conforme os clássicos, preferia uma sociedade na qual a moral  
fosse cultivada pela educação e pela razão, não considerando o riso um regulador  
social legítimo, mas um reflexo de insensibilidade e mesmo de desigualdade  
(ROSSEAU, 2015). Ao reler a teoria de Hobbes (2020), o qual considera o riso  
perigoso por alimentar o orgulho e a desigualdade, é reconhecido que o riso pode  
funcionar como um instrumento de regulação social, corrigindo comportamentos  
desviantes ou ridículos. Ainda que tal pareça uma forma negativa de correção,  
baseada na humilhação pública, e não na educação ou na empatia.  
O trabalho de Cid e a sua expressão no colonialismo tardio português  
Augusto José Matos de Sobral Cid (1941-2019), natural da cidade da Horta,  
na ilha do Faial, Açores exerceu durante grande parte da sua vida a atividade  
de desenhador de cartoons de cariz satírico e político, publicando ao longo de  
cerca de quatro décadas em revistas e jornais, alguns dos quais ideologicamente  
comprometidos, como o Jornal Povo Livre do Partido Social Democrata, o Diabo  
dirigido por Vera Lagoa, o Independente e nos últimos anos de atividade, o  
semanário SOL.  
Em 1962, um ano após o início do conflito armado entre as forças militares  
portuguesas e os movimentos nacionalistas emergentes nas colónias africanas  
6 Doutor em Ciências da Comunicação, mestre em Língua e Cultura Portuguesas e graduado em  
Jornalismo.ꢀÉꢀjornalistaꢀdesdeꢀ1983,ꢀsendoꢀatualmenteꢀinvestigadorꢀdoꢀICNovaꢀ(PT).  
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administradas e governadas por Portugal, o então jovem de 21 anos Augusto  
Cid inscrevia-se nas provas de aptidão na Escola Superior de Belas-Artes de  
Lisboa (ESBAL)7, tendo sido admitido. Vencidas duas matrículas, uma em 1962  
e outra em 1964, mas insatisfeito com o sistema de ensino, desistiu do curso  
de Escultura8. Esta sequência de eventos, determinou o ingresso no serviço  
militar e a mobilização na qualidade de furriel miliciano atirador, integrado na  
Companhia de Cavalaria do Batalhão de Cavalaria (CCav/BCav), com destino a  
Angola9. Havendo sido destacado para Caripande, Cid descreverá mais tarde o  
local como um…  
minúsculo posto de fronteira com a Zâmbia no leste de Angola onde o Governo  
Português persistia em manter meia dúzia de funcionários da Guarda Fiscal e um  
pelotão de cavalaria com a missão de zelar por esse posto de fronteira se bem que a  
escassa população da zona tivesse há muito desaparecido e com ela o comércio com o  
outro lado da fronteira (CID, 1997, p.[1]).  
Cerca de um ano depois da sua chegada, a qual aconteceu no final do ano de  
1965, Cid começa a colaborar, no Jornal da R.M.A. (Região Militar de Angola)10. O  
jornal tinha redação e administração no Quartel-General da Região Militar Angola  
(QG, R.M.A.) e era composto e impresso na NEOGRÁFICA, em Luanda. Tratava-se  
de um periódico mensal, saindo para as bancas a cada dia 15, tendo sido impresso  
pela primeira vez em agosto de 1966. Em dezembro, quando se encontrava a  
compilar o seu 5.º número, Cid iniciou a sua colaboração, que foi continua até  
outubro de 1967.  
Apesar do estudo que agora se apresenta, incidir nesta produção do artista,  
Cid não foi o único a retratar a guerra colonial. E, em todas as ex-províncias do  
império português, foram verificados contributos semelhantes em outros jornais  
(TORRES, 2012). Em Angola, e antes de Cid, a título de exemplo, a revista Notícia  
7 Atual Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.  
8 Conforme livro de registos da Universidade de Lisboa, estava inscrito nas seguintes Cadeiras do 1.º  
ano: Desenho de estátua, Iniciação de pintura, Iniciação de escultura, Geometria aplicada, 1.ª parte;  
História Geral da Arte, 1ª parte; Tecnologia da Pintura (noções gerais); Tecnologia da Escultura (no-  
ções gerais).  
9VigoravaꢀentãoꢀaꢀLeiꢀdoꢀRecrutamentoꢀeꢀServiçoꢀMilitarꢀdeꢀ1ꢀdeꢀsetembroꢀdeꢀ1937ꢀ(Leiꢀnº.ꢀ1:961)ꢀ  
que determinava que todos os indivíduos do sexo masculino que completassem vinte anos entre ja-  
neiro e dezembro fossem recenseados no mês de janeiro. Em 1968, a Lei do Serviço Militar, nº. 2135,  
de 11 de julho, vem alterar a idade de recenseamento para os 18 anos de idade.  
10 Acoleção de jornais da R.M.A. foi consultada na Biblioteca do Exército, em Lisboa. Cota: 1.845/A.  
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publicava cartoons criados por Fernando Gonçalves, sendo o mais destacado o  
arquétipo “Zé da Fisga”, na qual era apresentado o soldado português destacado  
para Angola, durante a Guerra Colonial. Este cartoon que ocupava uma das  
páginas centrais do semanário – impressa a cores – manifestava um traço no qual  
não se evidencia maior observação crítica retratando-se um soldado português  
infantilizado – um bom rapaz, quase ingénuo, no contexto de guerra.  
Figura 6 – “Zé da Fisga” na revista ilustrada A Notícia.  
Fonte: TORRES, 2012: anexos xvi.  
O trabalho gráfico apresentado pelo Jornal onde publicava Cid, tinha outra  
complexidade comparativamente ao da revista Notícia, podendo ler-se nos  
trabalhos várias camadas compositivas. No Jornal da R.M.A., os cartoons eram  
publicados na secção humorística denominada “Calhambeque”, normalmente na  
página 17, na qual, a par de Augusto Cid, publicavam autores como Tony Bastos,  
Fernando Higino Abreu, Rui Manuel, entre outros.  
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Figura 7 - Página humorística Calhambeque do Jornal da R.M.A, n.º 10, (15-05-1967).  
Fonte: Fotografia de Neves, C. (2023).  
Na edição de março de 1967, do Jornal da R.M.A., é impressa na ficha técnica  
uma miniatura do desenho da capa com a seguinte legenda «É tempo de Páscoa,  
Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade. (Desenho  
do furriel miliciano, José Augusto Cid [sic], SPM11 9816)». Nesse mesmo número,  
na página 6, Cid é anunciado como vencedor do primeiro prémio para a rubrica  
de “Desenho de capa”, o qual lhe valeu 250 escudos12, e da rubrica de “Anedota  
ilustrada” – este um pouco mais expressivo no valor de 300 escudos13 – e ainda da  
categoria “Correspondência” granjeando as seguintes palavras da redação: «Não  
há dúvida que continuou e bem. Todas as anedotas que enviou foram apreciadas,  
algumas das quais vão já publicadas. As outras poderão vir a ser publicadas nos  
próximos números. Os meus parabéns!.  
11 Serviço Postal Militar.  
12 Moeda em vigor em Portugal, e nas ex-colónias administradas e governadas por Portugal, à época.  
Estaꢀquantia,ꢀatualmente,ꢀcorrespondeꢀaꢀcercaꢀdeꢀ103€ꢀconsiderandoꢀaꢀinflação.ꢀOꢀacessoꢀaꢀestesꢀcál-  
culosꢀpodeꢀserꢀrealizadoꢀatravésꢀdoꢀsimuladorꢀdeꢀinflaçãoꢀdaꢀPordata,ꢀoꢀportalꢀestatísticoꢀdaꢀFundaçãoꢀ  
FranciscoꢀManuelꢀdosꢀSantosꢀlançadoꢀemꢀ2010.ꢀReferenciadoꢀnaꢀbibliografia.ꢀ  
13 Cercaꢀdeꢀ124€,ꢀconformeꢀindicadoꢀnoꢀsimuladorꢀdeꢀinflaçãoꢀdaꢀPordata.  
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Figura 8 - Desenho da autoria de Cid para a capa do Jornal da R.M.A, n.º 8, de 15 de março de 1967  
Fonte: Fotografia de Neves, C. (2023).  
O facto de as ilustrações de Cid terem sido objeto de capa apontam o modo  
como eram recebidos os seus trabalhos. A este respeito, ficamos a saber através  
do próprio, que os cartoons eram bem aceites, como comentou, anos mais tarde  
numa entrevista14: «Esses pequenos cartoons eram depois enviados a uma  
revista militar em Luanda, que começou a habituar-se a esses meus desenhos e  
que reclamava sempre que não recebia pontualmente essa minha colaboração»  
(UM DIA COM…, 1973).  
No entanto, o motivo que levou Cid a Angola foi o mesmo que anunciou o final  
da sua colaboração com o Jornal da R.M.A.. Assim, ao terminar a 12 de dezembro  
de 1967 a sua comissão, Cid regressava a Portugal continental. Teria ainda uma  
participação no Jornal da R.M.A., a 15 de junho de 1968, com a publicação de uma  
ilustração para o texto intitulado “O garoto de Massangano” de autoria de João  
Silva Maia. Um texto de pendor humanista que narrava a deslocação do militar  
14 Para o programa da RTP, Um dia com…”, realizado em 1973.  
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à povoação histórica15. Na publicação, a determinado ponto pode ler-se «Hoje,  
que conheço Massangano, sinto que o passado tem muito pouca importância  
se não formos dignos dele». Valorizando a educação, concretiza “precisamos de  
todos, urgentemente de todos […] de «todos os garotos de Massangano», que  
existem por esta Angola fora”, nos bancos das escolas. Porque receava o militar  
no porvir «e algum dia eu souber que ninguém agarrou naquele garoto e o trouxe  
para a cidade». Um emblemático desenho de Augusto Cid, utilizado para criticar  
o poder e os costumes portugueses.  
Figura 9 - Desenho da autoria de Cid para o Jornal da R.M.A, n.º 23, (15-06-1968)  
Fonte: Fotografia de Neves, C. (2023).  
Ao longo de um ano e meio, Cid contribuiu com cerca de 33 desenhos, alguns  
dos quais redesenhados e posteriormente publicados no livro “Que se passa  
na frente?!!”. Como elucida na segunda capa o coeditor Carlos Jorge Peres:  
«Augusto Cid começara a reunir material para um futuro livro, ao qual juntou  
outros desenhos». O resultado da coleta foi publicado num álbum de 126 páginas,  
15 Sobre esta povoação histórica destacam-se as obras do Arquitecto Fernando Batalha, “Em Defesa  
da Vila do Dondo” (1963) e “Em Defesa do Património Histórico e Tradicional de Angola (1963).  
Batalha dedicou mais de 50 anos à preservação, defesa e inventário do património de Angola (1935-  
1991),colaborandocomoInstitutodeInvestigaçãoCientíficaꢀdoUltramar,oGabinetedeUrba-  
nização do Ultramar e a Comissão Provincial dos Monumentos Nacionais de Angola. A defesa do  
património de Massangano torna a merecer destaque na obra Povoações Históricas de Angola (BA-  
TALHA, 2008, p.49-65). O seu espólio encontra-se à guarda da Academia Nacional de Belas Artes,  
em Lisboa desde 2012.  
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não numeradas, impresso em dezembro de 1973, na Litografia de Portugal, na  
Rua da Rosa, Lisboa, num total de 5.000 exemplares. O álbum teria um custo de  
100 escudos para Portugal Continental e Ilhas, e 125 escudos para as Províncias  
Ultramarinas.  
Tabela 1 - N.º de ilustrações publicadas  
Jornal da R.M.A.  
Ano n.º  
Data  
N.º de ilustrações  
1
1
1
1
1
1
1
1
2
2
2
2
5
6
15/dez/66  
15/jan/67  
15/fev/67  
15/mar/67  
15/abr/67  
15/mai/67  
15/jun/67  
15/jul/67  
15/ago/67  
15/set/67  
15/out/67  
15/jun/68  
3
3
2
8
1
2
2
3
1
4
3
1
7
8
9
10  
11  
12  
13  
14  
15  
23  
Fonte: Neves, C. (2023).  
Mais de duas décadas depois, em 1997, entrevistado pela jornalista Clara  
FerreiraAlvesparaprogramaFalatóriodaRTP2,comotema“OCartoonPolítico”,Cid  
descrevia os acontecimentos que envolveram a publicação desse álbum. Durante  
vários anos, o autor se deparou com a dificuldade de encontrar um editor, tendo  
sido por diversas vezes recusado na sua intenção de republicar aquele trabalho. O  
que levava os editores a recusar o trabalho de Cid, parece ter sido, por um lado, a  
polémica do tema, uma vez que o artista representava graficamente os militares  
e alguns dos seus comportamentos no palco de guerra, recorrendo a caricaturas.  
Por outro lado, a conotação associada às suas mensagens era bastante crítica. E  
isso fez com que o modo como o trabalho foi recebido em Angola, durante a sua  
produção e publicação inicial, fosse contrastante com a receção do trabalho em  
Portugal. Sujeito à censura militar em Portugal, o seu trabalho foi reduzido para  
metade.  
Naaltura, eapesardarejeição, mantendoaintençãodepublicarosdesenhos,  
apesar dos constrangimentos a que foi sujeito, Cid contra-argumentou a censura  
que o seu trabalho sofreu alegando a prévia publicação no Jornal da R.M.A.,  
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ao que obteve como resposta: «uma coisa é a frente do ataque, outra coisa é  
a retaguarda, na retaguarda não se pode brincar com a guerra» (O CARTOON  
político, 1997). Perante esses fatos, o autor resolveu produzir uma edição própria,  
correndo o risco consciente e enfrentando a possibilidade de ser preso. O que na  
sua opinião sequer faria sentido, considerando que este trabalho compreendia a  
republicação de cartoons previamente publicados em Angola. Adicionalmente, ao  
publicar o álbum, Cid partilhava, sobretudo, a sua experiência na guerra colonial  
através dos cartoons, desde o momento de embarque até ao regresso a Portugal  
continental. Um depoimento no qual se percebe o seu olhar observador, crítico e  
irónico, mas também humorístico.  
A viagem, ali, inicia-se em um cais de embarque de um porto, com um ato  
de despedida do soldado que abraça uma jovem desconhecida que enverga  
uma minissaia. Em seguida, as más condições do alojamento no paquete e a  
lotação das cabines foram alvo de registo, desenhando beliches sobrepostos  
até ao limite da página. Caricaturou a inexperiência dos jovens recrutas atirados  
para o cenário de guerra, as emboscadas no mato, as dificuldades encontradas  
no ambiente natural e os encontros indesejados com animais selvagens, e as  
conversas sem sentido atrás das barricadas: a preocupação inusitada sobre  
o ingrediente principal da próxima refeição, as trocas de mantimentos, ou  
o resultado de um jogo de futebol relatado no rádio. Retrata as dificuldades e  
morosidade das comunicações, contornadas com subtileza por um soldado que  
pretendia enviar notícias para a sua família de forma mais célere, e onde se lê na  
legenda: «Descobri que quando escrevo “A bem da Nação” no aerograma ele chega  
lá mais depressa»16. Relata ainda a precariedade das instalações no terreno por  
analogia à fragilidade da situação política, representadas por uma torre de vigia  
que um pica-pau ameaça derrubar, ou mesmo por uma ponte que se desmorona,  
no momento da inauguração.  
16ꢀSaudaçãoꢀcomumenteꢀutilizadaꢀparaꢀterminarꢀumꢀtextoꢀoficial,ꢀduranteꢀoꢀEstado Novo.  
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Figura 10 - Desenho Publicado no Jornal R.M.A. a 15-12-1966 (esquerda), e redesenho publicado na 1.ª e  
2.ª edições do livro “Que se passa na frente?!!.  
Fonte: Fotografias de Neves, C. (2023 e 2025).  
A proposta de classificação de Rattner (2020) relativa ao uso do satírico na  
imprensa por categorias além do quotidiano dos militares referia, de igual modo,  
as ineficiências associadas à situação militar, o que inevitavelmente incluía  
a menção ao inimigo, mas também as hierarquias militares. E neste ponto, é  
interessante ler como o traço de Cid inverte o sentido da guerra, colocando o  
soldado português à frente da arma da criança angolana, denunciando a aparente  
falta de critério na seleção de soldados – recrutados, independentemente,  
de especialidade – ou mesmo do despreparo dos recrutas, demonstrado pelo  
soldado que em lugar da arma carrega uma tuba pelo mato.  
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Figura 11 - Desenho publicado no Jornal R.M.A. a 15-06-1967 (esquerda), e redesenho publicado na 1.ª e  
2.ª edições do livro “Que se passa na frente?!!.  
.
Fonte: Fotografias de Neves, C. (2023 e 2025).  
Ironiza o gozo da licença, com o mergulho de um soldado nas águas de um  
rio que delimita a guerrilha. Mas, também observa as relações dos soldados  
com a comunidade nativa, sobretudo com as mulheres, que representa com  
contornos curvilíneos. O livro termina com a viagem de retorno, aludindo ao cais  
de desembarque, explorando o choque entre um Portugal fechado – representado  
pelas mães e esposas que aguardam os soldados num momento muito desejado  
– mas, ainda assim, bastante diferente do esperado.  
Figura 12 - Imagem das capas dos álbuns “Que se passa na frente?!!” da autoria de Cid. Da esquerda para  
a direita, 1.ª e 2.ª edição  
Fonte: Fotografia de Neves, C. (2025).  
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O álbum foi distribuído em fevereiro de 1974, nas vésperas do golpe militar  
em 25 de abril, que terminaria com 41 anos de um regime político ditatorial, o  
Estado Novo – fundado por Oliveira Salazar e continuado por Marcelo Caetano  
entre 1968 e 1974. O fim de um regime desgastado também pelas consequências  
dos conflitos com Angola, Guiné e Moçambique, e a pressão da comunidade  
internacional contra o colonialismo.  
Mais tarde, no mesmo ano em que foi entrevistado por Clara Ferreira Alves,  
em 1997, deu-se a publicação da 2.ª edição do livro “Que se passa na frente?!!”,  
dado que 1.ª edição se encontra esgotada desde 198617. Com o editor no Porto,  
ContemporâneaEditora, Lda., anovaediçãoérevistaeaumentada, contandocom  
132 páginas não numeradas. Acresce uma introdução a esta edição onde o autor  
descreve textualmente o aquartelamento onde estava instalada a Companhia  
dois tristes torrões, uma velha casa de chefe de posto que servia de abrigo aos  
graduados, uma caserna e duas outras casas onde viviam os guardas fiscais, …contava  
ainda com um novo edifício da P.I.D.E.18 por estrear e uma velha loja que a ausência de  
comércio havia transformado numa ruína. (CID, 1997, p. [1])  
E acrescenta que nesse local inacessível, desolador e de abandono, onde  
o reabastecimento era realizado via aérea ou fluvial, estavam 40 homens, entre  
a guerrilha do M.P.L.A.19 e uma força destacada para a fronteira pela Zâmbia,  
entregues à “patriótica missão de soberania”.  
Em 2016, entrevistado por José Cabrita Saraiva para o semanário SOL, Cid,  
então com 75 anos, partilha a memória do embarque no Vera Cruz, o paquete que  
levava cerca de 3.000 homens, o equivalente a 3 batalhões. Recorda a saída do  
barco do cais, em cenas difíceis de imaginar, «porque as pessoas despediam-se  
como se os filhos não voltassem», menciona as más condições no porão, onde  
iam os soldados, acondicionados em seis beliches uns em cima dos outros e  
relata vários episódios de guerra em circunstâncias difíceis. Nesse contexto,  
continuou a desenhar, fazia a “sua guerra”, e quando chegava ao destacamento,  
utilizava os lápis de cores e as aguarelas criando um cartoon sobre o que estava  
a vivenciar.  
17 Informação retirada do verso da folha de rosto do (CID, 1987).  
18 P.I.D.E. - Polícia Internacional e de Defesa do Estado.  
19 M.P.L.A. - Movimento Popular de Libertação de Angola.  
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Nos bolsos laterais da farda levava sempre um pocket book, «coisas inglesas  
ou americanas», referindo-os como as suas munições literárias. Quando se  
apercebeu que existiam páginas para publicar cartoons em uma revista militar,  
decidiu colaborar. Embora, fosse pago por cada cartoon no valor de 150 escudos,  
afirmava que auferia maior valor pecuniário com os desenhos do que no exercício  
do posto de furriel.  
Anos mais tarde, o mesmo semanário, SOL, publicava a 14 de março de  
2019 a notícia do falecimento de Cid. Num apontamento biográfico referia o seu  
trabalho em vários jornais, O Diabo, Vida Mundial e o semanário SOL, e a publicação  
de vários livros ao longo da sua carreira, a título de exemplo “Que se passa na  
frente?!!”, “Porreiro, pá!” e “Soares é fish”. (SOL, 2019). No entanto, note-se a  
relevância deste seu primeiro álbum “Que se passa na frente?!!” na sua carreira, o  
qual mesmo depois de mais de 30 títulos publicados, continua a ser mencionado.  
Considerações finais  
Em Angola, enquanto furriel miliciano atirador, para enfrentar a “difícil e  
inexplicável lógica da guerra” e a sua expressão nonsense, Cid utilizou o cartoon  
como um refúgio e fonte de força interior, como terá referido no prefácio à edição  
de 1997. Ao publicar a primeira edição do álbum “Que se passa na frente?!!”, em  
Portugal continental no ano de 1974, num ato de coragem e inconformismo,  
manifestou liberdade de expressão e vontade de mudança, num momento em  
que ainda vigorava um regime autoritário, embora caduco e desgastado.  
Crítico, irreverente, mas – e – assertivo, Cid retratou com humor o ambiente  
que viveu em Angola, denunciando as condições em que os militares operavam,  
num registo antagónico ao que a propaganda do Governo na metrópole tentava  
veicular. Cid manteve essa atitude ao longo da sua carreira enquanto cartoonista.  
Repetindo-a em outras publicações, em jornais e álbuns, sobretudo, entre 1974  
e 1976, no período apelidado de Processo Revolucionário em Curso (PREC), o que  
levou à apreensão de exemplares com direito a julgamento na barra do tribunal  
durante os primeiros anos de Democracia. Mas também pela qual foi reconhecido  
e homenageado, ao se ter destacado e prestado serviços na expansão da  
cultura portuguesa, da sua história e valores, tendo recebido pela mão do então  
Presidente da Républica Portuguesa, Mário Soares, o grau da ordem honorífica  
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portuguesa de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, em 1994. Dez anos  
depois, em 2004, granjeou o epíteto de “Cavaleiro do Cartoon”, justificado por ter  
utilizado o lápis ao serviço das suas ideias, e por exercer o jornalismo em defesa  
da liberdade, numa exposição antológica da responsabilidade do Museu Nacional  
da Imprensa, que reuniu trabalhos realizados para a imprensa nacional, ao longo  
de 30 anos.  
Embora a totalidade da obra do cartoonista Augusto Cid esteja por estudar,  
os desenhos para o Jornal da R.M.A. e o livro “Que se passa na frente?!!” foram  
alvo de textos académicos produzidos na última década. Paolo La Valle analisou  
os desenhos incindindo sobre os estereótipos racistas e sexistas, procurando  
mudanças na representação das mulheres negras em Portugal durante os anos  
da guerra colonial (LA VALLE, 2017).  
Atualmente, esse conjunto de cartoons, contribui para um maior  
entendimento da questão colonial, sobretudo o papel da imprensa produtora e  
difusora de imagens sobre a África portuguesa, neste caso Angola, e a opinião  
militar e mesmo pública que se pretendia mobilizada na defesa dos interesses  
coloniais portugueses. Constituem igualmente, fonte para o entendimento da  
produção de elementos/construção de um imaginário acerca regiões africanas  
sobre a influência ou soberania nacional e para o estudo das relações coloniais  
construídas naquele período entre Portugal e Angola como território.  
Asinfluênciashistóricasrelativasàrepresentaçãodocolonialismonocartoon  
modelaram a utilização de estereótipos e desafiaram narrativas. A utilização do  
humor nas imagens visuais do cartoon de guerra permite criticar os estereótipos  
coloniais, enquanto reflete as complexidades da resistência colonial e pós-  
colonial, bem como os desafios éticos associados à produção cultural e mesmo à  
receção pelo público. Assim, e conforme se verifica, o tópico não se esgota neste  
estudo, e a disponibilização do arquivo pessoal de Augusto Cid, permitirá que em  
breve novas abordagens e resultados de investigação surjam.  
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DOSSIÊ  
EL ROL DEL OBSERVADOR-PERSONAJE EN EL HUMOR  
GRÁFICO DE QUINO1  
O PAPEL DO OBSERVADOR-PERSONAGEM NO HUMOR  
GRÁFICO DE QUINO  
THE ROLE OF THE CHARACTER-OBSERVER IN QUINO’S  
GRAPHIC HUMOR  
2
Francisco Ocampo  
https://orcid.org/0000-0002-3349-8533  
3
Alicia Ocampo  
https://orcid.org/0000-0001-8295-8842  
Recebido em: 04 de junho de 2025.  
Revisão final: 21 de março de 2026.  
Aprovado em: 21 de março de 2026  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23494  
1 “La autorización para el uso de la tira cómica de humor de Quino en la presente publicación no  
implica, por parte del autor o los autorizantes, conformidad o adhesión al contenido de la misma.” –  
Sucesores de J. S. Lavado C.B.  
2 Professor associado no Departamento de Estudos de Português e Espanhol, Universidade de Min-  
nesota (UMN), Estados Unidos. E-mail: focampo@umn.edu  
3 Professora permanente na Universidade de Minnesota (UMN), Estados Unidos, com atuação nas  
áreasꢀdeꢀlinguísticaꢀhispânica,ꢀepistemologia,ꢀfiꢀlosofiꢀaꢀdaꢀlinguagemꢀeꢀfiꢀlosofiꢀa.ꢀE-mail:ocamp001@  
alumni.umn.edu  
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DOSSIÊ  
RESUMEN: A través del análisis de una selección de sus dibujos, mostramos aquí que Quino  
aplica intuitivamente el modelo biocognitivo de aproximación al estudio de la lengua con centro  
en el observador (Maturana 1970, Kravchenko 2006). Quino crea situaciones incongruentes  
que presentan generalmente una violación a las normas sociales (Veatch 1998). En este tipo  
de escenario inserta un observador-personaje que reacciona en forma no humorística. Por  
su parte, el lector de la historieta – el observador externo – sí experimenta humor ante la  
incongruencia, a lo que se suma el humor que le provoca la percepción de la reacción emotiva  
del observador-personaje (Howe 2002). De este modo, este personaje tiene la función de lente  
de aumento del efecto humorístico para el lector.  
Palabras clave: Quino, humor gráfico, biolingüística, observador, incongruencia.  
RESUMO: Através da análise de uma seleção de seus desenhos, mostramos aqui que Quino  
aplica intuitivamente o modelo biocognitivo de estudo da linguagem centrado no observador  
(Maturana 1970, Kravchenko 2006). Quino cria situações incongruentes que apresentam,  
geralmente, uma violação das normas sociais (Veatch 1998). Nesse tipo de cenário, ele insere  
um observador -personagem que reage de forma não humorística. Em contraste, o leitor  
da história em quadrinhos o observador externode fato experiencia o humor diante da  
incongruência, ao qual se soma o humor provocado pela percepção da reação emotiva do  
observador-personagem (Howe 2002). Dessa forma, o observador-personagem tem a função  
de lente de aumento do efeito humorístico para o leitor.  
PALABRAS-CHAVE: Quino, humor gráfico, biolinguística, observador, incongruência.  
ABSTRACT: Through the analysis of a selection of his drawings, we aim to show that Quino  
intuitively applies the biocognitive model of language study centered on the observer  
(Maturana 1970, Kravchenko 2006). Quino creates incongruous situations that frequently  
present a violation of social norms (Veatch 1998). In this scenario, he inserts a character-  
observer who reacts in a non-humorous manner. In contrast, the cartoon reader the external  
observer experiences humor when facing incongruity. This effect is further heightened by  
the perception of the character-observer’s emotional reaction (Howe 2002). In this way, the  
character-observer functions as a magnifying glass, intensifying the humorous impact for the  
reader.  
KEYWORDS: Quino, graphic humor, biolinguistics, observer, incongruity.  
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DOSSIÊ  
Introducción  
Joaquín Salvador Lavado Tejón, Quino, (1932-2020), artista gráfico nacido  
en Mendoza, Argentina, fue convirtiéndose en una notable figura cultural en  
las Américas y Europa. Además de la historieta Mafalda, su obra más difundida  
–y más celebrada– publicó numerosos libros de humor gráfico. En el presente  
trabajo, a través del análisis de una selección de sus dibujos, mostraremos que  
Quino, como artista dotado de una gran intuición, incorpora entre sus personajes  
la noción de observador, incrementando la complejidad en la interpretación de  
sus creaciones y, por ende, el humor. De esta manera, el arte de Quino valida  
una de las nociones centrales de la aproximación biocognitiva a la lingüística,  
mostrando que los seres humanos se vuelven observadores en sus interacciones  
en forma no consciente. Esto refuerza la idea de que la función de observador  
no constituye un producto elaborado por el investigador dentro de un modelo  
lingüístico explicativo, sino que es inherente al rol de todo participante en un  
intercambio comunicativo.  
Marco teórico  
En la actualidad, en oposición al paradigma formalista saussureano/  
chomskiano del Siglo XX (Kuhn 1970) –cuyo poder explicativo es muy restringido–  
se está desarrollando una aproximación a la lingüística con fundamentos tanto  
interactivos (Bajtín 1981, Linell 2009) como biológicos (Maturana 1970, Kravchenko  
2006). Una de las nociones centrales del nuevo paradigma es la capacidad  
fundamental de los sistemas vivientes denominada autopoiesis4 (Maturana y  
Varela 1975): todo sistema viviente (en oposición a un sistema sin vida) está  
organizado de manera que todos sus elementos y procesos puedan llegar a  
producir sus propios componentes y funciones, tomando solamente alimento  
del entorno. De este modo, se establece una entidad autónoma autoproductora  
(Mingers 1989). En consecuencia, la organización autopoiética de los sistemas  
vivientes garantiza la regeneración –y continuidad– de su propia existencia.  
Los seres humanos ya no habitan primariamente en un medio ambiente  
natural, cuyo conocimiento se hacía por medio de la percepción sensorial: un  
4 del griego αυτόςꢀ+ꢀποίησιςꢀ‘autofabricante’,ꢀ‘autocreador’.  
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ser humano viviendo solitario en una cueva llegaría a conocer los límites de su  
hábitat por medio de sus sentidos. Como resultado de su evolución biológica,  
el Homo Sapiens llegó a crear su propio entorno, denominado civilización y  
cultura (Betalanffy 1967, citado por Kravchenko 2022). Este nuevo hábitat sería  
muy diferente y complejo para poder sobrevivir aislado. Era necesario el apoyo  
de otros seres humanos –una sociedad– para ayudarse a convivir, coordinar  
comportamientos cooperativos y comprender el nuevo hábitat. Eso hubiera sido  
imposible sin la comunicación mutua lograda por la lengua: una combinación de  
fonemas(ysonidos)consignificadosquepudieranreferirseaelementosconcretos  
o abstractos teniendo en cuenta lo que no está perceptualmente presente. Por  
ello, el lenguajeo5 fue fundamental, ya que los cinco sentidos no alcanzaban para  
manejarse en un universo de abstracciones –como lo es la civilización humana.  
Debemos entender que no se habría podido asegurar la autopoiesis del Homo  
Sapiens sin la existencia de las lenguas. De esta manera, el lenguajeo se convierte  
en una nueva necesidad para la preservación de la autopoiesis humana. Por ello,  
de acuerdo a la aproximación biocognitiva a la lingüística, la lengua hablada es el  
resultado de la evolución biológica del ser humano.  
El lenguajeo –la actividad de lenguajear– permite a la gente orientarse  
mutuamente dentro de este dominio consensual creado. La noción de dominio  
consensualdesignauncontextocompartidodentrodelcuallossereshumanosque  
interactúan producen acciones coordinadas que contribuyen al mantenimiento  
de la autopoiesis. Por esta razón, un cambio cualitativo ocurre en la evolución del  
mecanismo adaptativo de orientación mutua de los miembros de la sociedad: así  
es como el Homo Sapiens desarrolla el lenguajeo como parte indispensable de la  
adaptación a su propia civilización y cultura y, por ende, para su supervivencia.  
De este modo, esta evolución resulta en el establecimiento de la lengua  
como un dominio consensual, dentro del cual los seres humanos operan como  
observadores (Kravchenko 2022). Es de notar que el concepto de observador no  
conlleva aquí una idea de pasividad sino que supone una actividad del participante  
humano en lainteracción. AlvaNoëexpresaquepercibiresuna forma deproceder,  
es algo que hacemos: el mundo se manifiesta al perceptor (observador) mediante  
5 Tomamos este término del inglés languaging (Linell 2009, Kravchenko 2022), para evitar la metá-  
foraꢀ‘usoꢀdelꢀlenguaje’,ꢀqueꢀimplicaꢀunaꢀconcepciónꢀtradicionalꢀdeꢀlaꢀlenguaꢀcomoꢀunꢀobjetoꢀexterno,  
creadoꢀporꢀlosꢀhumanosꢀyꢀnoꢀcomoꢀparteꢀdeꢀsuꢀbiología.ꢀDeꢀacuerdoꢀaꢀMaturanaꢀyꢀVerdenꢀZöllerꢀ(2008ꢀ  
(citado por Kravchenko 2022)), los humanos viven en la lengua.  
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el movimiento y la interacción de éste con el entorno (Noë 2006).  
El comportamiento de un organismo orienta a otro organismo, es decir que  
dirige su atención hacia una interacción que ambos tienen en común. En este  
entorno, el lenguajeo puede entenderse como una coordinación consensual  
de acciones, en la que los humanos que orientan a otros humanos son ambos  
observadores: “todo lo dicho está dicho por un observador a otro observador”  
(Maturana 1970, Kravchenko 2022).  
De acuerdo a lo anterior, los sistemas vivientes –incluidos los humanos– son  
unidades de interacción que existen en un entorno; la parte del entorno con la cual  
interactúan se denomina nicho. Sin embargo, no debe entenderse el concepto  
de nicho solamente como el espacio físico, sino que también se debe incluir la  
gama de interacciones que un organismo puede tener con su medio ambiente  
y las acciones de los otros ocupantes del nicho (Kravchenko 2006). Los seres  
vivos son sistemas inferenciales porque reaccionan basados en la interpretación  
de cada estímulo del nicho. Es decir que no reaccionan mecánicamente al  
estímulo, sino que lo interpretan. El proceso de vivir, entonces, consiste en  
interpretar situaciones continuas en un nicho, ejerciendo así un constante poder  
de adaptación. En los seres humanos esto supone que, cuando la gente habla,  
el significado de los signos fónicos no se percibe pasivamente (como lo implica  
el esquema saussureano), sino que se crea durante la interacción con otros  
humanos (Linell 2009). Debemos entender entonces que el lenguajeo implica un  
proceso continuo de creación de significados, y que esta creación se produce en  
cada instancia interactiva.  
De acuerdo a Kravchenko (2006), el observador (humano) percibe al mismo  
tiempo un organismo (que puede ser humano o no) y el entorno. Desde el punto  
de vista del observador, el nicho del organismo es la porción del entorno donde el  
organismo vive e interactúa. Pero el punto de vista del organismo no coincide con  
el del observador. En este sentido habrá diferencias en dos aspectos:  
(a) El organismo percibe el nicho como la totalidad de su mundo interactivo,  
no como parte de una unidad mayor. Es decir que, para el organismo, el nicho es la  
realidad que percibe: es su dominio consensual (su hábitat). La interpretación de  
que el nicho es solamente un segmento del medio ambiente es una construcción  
de la mente del observador (externo al nicho).  
(b) Otra diferencia entre la percepción del observador y la del organismo es  
que el observador interpreta el comportamiento del organismo como un modo de  
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descripción (Kravchenko 2006) del nicho. Pero el organismo no tiene esa intención  
de describir el nicho, sino que está reaccionando de forma inferencial a estímulos  
que recibe. En nuestra opinión, esto se explicaría mejor utilizando la noción de  
índice (Peirce 1958): para el observador externo, las reacciones del organismo a  
estímulos dentro de su nicho serían índices de lo que existe u ocurre en el nicho.  
El establecimiento de la lengua como un dominio consensual de índole  
biológica y cognitiva posibilita la creación de un universo del discurso (Givón 1989)  
asignado por los participantes de una interacción. Givón (1989) expresa que los  
términos lingüísticos (sustantivos, sobre todo) no refieren a entidades existentes  
en el mundo real, 6 sino a entidades establecidas por la lengua en un universo del  
discurso. Estas entidades –referentes– son las realidades sociales compartidas  
temporalmente, creadas por los participantes de una comunicación (Rommetveit  
1974, citado por Linell 2009).  
Lo presentado hasta ahora se aplica al dominio lingüístico. Lo notable es  
que Quino, por medio de su humor gráfico, compone un universo del discurso  
comparable al existente en el lenguajeo, que permite también hacer inferencias  
espaciales y temporales.  
El humor gráfico de Quino  
Para explicar el rol del observador-personaje en los dibujos de Quino es  
necesario utilizar la noción de incongruencia. Es de notar que las teorías de la  
incongruencia constituyen la aproximación más difundida al estudio del humor.  
La hipótesis principal es que el humor nace de la percepción por parte del  
observador humano de una incongruencia entre: las expectativas que origina un  
entorno determinado y lo percibido realmente (Attardo 2003). El novelista Arthur  
Koestler explica este proceso como una bisociación de planos (Koestler 1964).  
Un acto humorístico comprende dos planos de contenido que son mutuamente  
incompatibles, pero que tienen una parte en común, la cual hace posible el paso  
de uno al otro. La audiencia comienza a interpretar un plano y procede hasta  
que la interpretación encuentra un obstáculo semántico y falla. Esta dificultad  
desencadena un proceso cognitivo para superar la contradicción, por medio del  
cual la audiencia descubre la existencia de otra inferencia que hasta ese momento  
6 mundo real: los humanos no lo conocemos directamente, sino indirectamente, por medio de los  
sentidos (Mingers 1990).  
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había estado oculta (Krikmann 2006). Este proceso de inferencia escalonada fue  
concebido teniendo en cuenta la lengua, sobre todo en la explicación del humor  
de los chistes: narrativas breves que pueden estudiarse teniendo en cuenta su  
contexto limitado. Por ejemplo:  
Un individuo de aspecto tosco entra a un bar con un loro en el hombro. El  
barman le pregunta: “¿Habla el animal?” El loro responde: “¿Y yo qué sé?”.  
En (1), la audiencia o el lector interpretan inicialmente la palabra animal con  
significado literal y asignan el loro como su referente. Al percibir que es el loro  
quien responde y no el individuo, experimentan una incongruencia y la resuelven:  
tomando en cuenta el aspecto tosco del individuo, reasignan a éste como  
referente del término mencionado y lo reinterpretan con sentido metafórico.  
La inferencia humorística solamente es posible si la audiencia presume que el  
universo del discurso creado es un universo lúdico. Llegan a esta conclusión  
teniendo en cuenta la forma de la narrativa que comienza con una expresión  
que suele enmarcar un chiste –(X entra a un bar…)– y posiblemente el contexto  
anterior, donde el hablante anuncia o sugiere que va a contar un chiste.  
Es de notar que en los dibujos de Quino analizados, el humor es gráfico, no  
lingüístico.Enestoscasos,laexplicaciónpormediodelateoríadelaincongruencia  
no tendría en cuenta la progresión lingüística, sino solamente el proceso cognitivo  
de inferencia en la mente de la audiencia. El siguiente dibujo de Quino ejemplifica  
la incongruencia gráfica:  
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© Sucesores de Joaquín Salvador Lavado, QUINO  
(a) Mundo Quino  
Aquí no aparece ningún personaje: hay solamente un observador externo  
(el lector), quien percibe en primera instancia la imagen de un piano. Esta  
percepción general, gestáltica, genera expectativas acerca de los componentes  
de este instrumento musical. Pero, en su mente se presenta una incongruencia  
al descubrir en el dibujo dos elementos pertenecientes a otro campo semántico:  
el automovilismo. La diferencia con el proceso mental que se da en el chiste  
(1) es que aquí la incongruencia no se resuelve; o sea, permanece como tal. El  
observador externo entonces interpreta que en ella reside el humor. Para esto  
toma en cuenta el universo del discurso lúdico en el que aparece el dibujo: el  
conocimiento sobre Quino y el contexto (libro de humor gráfico).  
En el caso de las imágenes de Quino analizadas a continuación es posible  
añadir al proceso de inferencia del humor la teoría de la violación de Thomas  
Veatch. Según Veatch (1998), debe haber tres condiciones para que exista  
percepción del humor: violación, normalidad y simultaneidad. La violación implica  
que la situación se percibe como violación de un principio moral;7 la normalidad  
significa que la situación es vista como normal; la simultaneidad indica que  
normalidad y violación son simultáneas en la mente de la audiencia. El equilibrio  
7 Un principio con el que la audiencia tiene un compromiso afectivo: la manera correcta de com-  
portarse, la disposición apropiada del mundo social y natural, etc. Estas creencias pueden entenderse  
como ideologías.  
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entre ambas interpretaciones es esencial para que exista percepción del humor.  
Si hay solamente ofensa, no habrá́humor; y si hay solo normalidad, ¿dónde estaría  
el humor? Por eso, la audiencia debe sentir que la situación es normal pese a  
la violación. Por otra parte, aquí hacemos notar que también es posible que un  
observador reconozca la intención humorística del autor, pero que asimismo la  
rechace debido a la inflexibilidad de sus principios.  
Tanto la teoría de la incongruencia como la teoría de la violación tienen  
en común que toda incongruencia es, de alguna manera, una violación de las  
expectativas sociales sobre el entorno, como puede observarse en el dibujo del  
piano (a). El análisis de las imágenes siguientes, nos mostrará que cada teoría  
aporta elementos importantes.  
El observador  
Al estudiar las imágenes de Quino diferenciamos entre observador externo y  
observador-personaje. El primero designa al lector de las imágenes; el segundo  
es un personaje que Quino inserta en sus dibujos para aumentar el humor.  
Quino coloca al observador-personaje en un nicho marcado por algún tipo de  
incongruencia que viola normas o expectativas sociales. El observador-personaje  
es el organismo que percibe la incongruencia y reacciona negativamente ante  
este estímulo con gestos y posiciones corporales. Estos funcionan como índices  
de lo que ocurre en el nicho en ese momento. El observador externo percibe la  
reacción física del observador-personaje, lo que genera en él inferencias acerca  
de sus sentimientos. Esto es posible por la orientación hacia los demás que posee  
el Homo Sapiens (Linell 2009). Se trata de una habilidad que permite deducir los  
estados mentales de los humanos con quienes se interactúa. La percepción  
del observador externo en relación al estado mental del observador-personaje  
provoca humor en su mente.8  
Como resultado, el observador externo percibe simultáneamente los  
dos puntos opuestos de la incongruencia/violación: el agente y el paciente.  
Mientras el agente actúa la incongruencia, el paciente la experimenta al recibir  
personalmente el impacto de tal ‘desnaturalización’, evidenciando esto con  
reacciones gestuales. Por otra parte, el observador externo, captando las  
8 Nuestra interpretación de Howe (2002).  
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infamias del ofensor junto con los sufrimientos del ofendido, logra componer un  
cuadro completo que refuerza el humorismo dentro del marco lúdico provisto.  
Este cuadro completo solo lo tiene el observador externo. En otras palabras, el  
cuadro del dibujo representa el nicho –el hábitat– de los ofensores y el ofendido.  
Allí dentro no existe el marco humorístico, que es el agregado con que cuenta el  
observador externo para su propia interpretación de lo que está ocurriendo. O  
sea, el nicho del observador-personaje es un compartimiento estanco dentro del  
cual el observador-personaje no tiene acceso al marco lúdico. 9 Desde su punto  
de vista, la situación es dramática o peligrosa; sus gestos describen la situación  
como negativa. En cambio, el punto de vista del observador externo contiene más  
información, más elementos de juicio: así entiende que todo es un juego para  
producir humor. La situación ya no resulta peligrosa, sino que se conceptualiza  
como humorística. 10  
Comprobamos entonces que las nociones de observador y orientación hacia  
los demás no son meras creaciones del analista, sino que Quino las valida al  
utilizarlas de forma intuitiva para aumentar el humor de su arte gráfico.  
El observador-personaje  
A continuación, analizaremos cinco composiciones en las que Quino crea  
una situación incongruente, introduciendo al mismo tiempo un observador-  
personaje.  
9 Esto se corresponde con la sección (a) de la explicación del concepto de nicho (Kravchenko 2006)  
10 Cf. sección (b) del concepto de nicho (Kravchenko 2006).  
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© Sucesores de Joaquín Salvador Lavado, QUINO  
(b) Hombres de Bolsillo  
En esta imagen Quino crea un universo del discurso caracterizado por una  
incongruencia provocada por la violación a una expectativa social: no se espera  
que los cirujanos se diviertan arrojando bisturíes a una figura humana mientras  
aguardan la llegada del paciente. Dentro de esta situación improcedente, Quino  
inserta dos observadores-personaje para duplicar el efecto: el paciente que llega  
en camilla y la enfermera que lo traslada. Al unísono, estos personajes muestran  
que la percepción de su contexto funciona de acuerdo al comportamiento del  
organismo que interpreta su nicho como la totalidad del dominio consensual.  
Para ellos, el nicho se limita a esta situación discordante y reaccionan de forma  
inferencial al estímulo, interpretándolo: describen el efecto que les causa el  
entorno por medio de un gesto facial y su posición corporal (movimiento de la  
cabezahacialaactividaddeloscirujanos).Puededecirseentoncesqueelpaciente  
crea significado: el cuestionamiento de la capacidad profesional de los cirujanos  
que lo van a operar. Esto no contiene humor sino desasosiego y desconfianza,  
lo cual se ve aumentado por el hecho de que el paciente de alguna manera es un  
prisionero de la situación –o sea que es verdaderamente paciente, en el sentido  
de que carece de toda agentividad.  
Para el observador externo, a la incongruencia de la situación que viola  
normassocialessesumalapercepcióndelareacciónmentaldelosobservadores-  
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personaje. Así, en (b), Quino provoca humor y lo incrementa mediante la  
introducción de un dúo de observadores-personaje.  
No obstante, Quino no se contenta con solo dos: también incluye múltiples  
observadores, prisioneros de una situación, como puede verse en la siguiente  
imagen (c).  
© Sucesores de Joaquín Salvador Lavado, QUINO  
(c) Bien gracias. ¿Y usted?  
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Aquí, se presenta una incongruencia provocada por una fuerte violación a  
las costumbres sociales –y también a las leyes. Los pasajeros/observadores-  
personaje reaccionan físicamente ante la situación, deteniéndose en la escalera,  
girando la cabeza y orientando la mirada hacia los pilotos alcoholizados.  
Los observadores externos podemos captar las expresiones de sorpresa y  
desconfianza, e inferimos su cuestionamiento de la capacidad de los pilotos  
para controlar el avión en esos momentos. Sus rostros no expresan humor, sino  
terror: se sienten prisioneros de la situación, ya que todo el proceso encamina a  
los pasajeros a subir al avión.  
Si comparamos (b) y (c), se podría decir que (c) es una versión aumentada  
de (b). En (c) las víctimas de la situación presentada se multiplican; todos son  
pacientes sin poder de control; la situación misma es mucho más peligrosa en  
el avión que en el quirófano; y además, las probabilidades de un desastre son  
mayores.  
Para el observador externo, el humor provocado por la incongruencia se  
intensifica al inferir los sentimientos de los pasajeros. Es de notar que el humor es  
aceptado aquí porque la situación está insertada en un marco lúdico. Alguien que  
observara la fotografía de un escenario similar en la vida real no la consideraría  
humorística: la violación superaría a la normalidad dentro del esquema de Veatch  
(1998).  
En las dos imágenes anteriores (b) y (c), el observador externo percibe la  
incongruencia inmediatamente, no es necesario inferir una acción anterior. En el  
caso siguiente (d), esta inferencia es necesaria.  
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© Sucesores de Joaquín Salvador Lavado, QUINO  
(d) Bien gracias. ¿Y usted?  
Para percatarse de la incongruencia, el observador externo debe inferir el  
proceso que la generó: antes de la salida a escena del pianista, dos espectadores  
suben al escenario y uno de ellos comienza a ejecutar una música popular, al  
compás de la cual la audiencia sale a bailar. Con esta imagen, Quino presenta  
un cuadro donde una ostensible violación a las expectativas sociales crea una  
situación incongruente. Dentro de ésta, Quino coloca un observador-personaje:  
el concertista. Sus gestos faciales y corporales (ojos muy abiertos; boca y brazos  
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hacia abajo) permiten al observador externo inferir en él un sentimiento de  
sorpresa y disgusto ante la invasión del espacio –su nicho–; la desacralización de  
la ceremonia del concierto con la ejecución de música popular, y la consiguiente  
pérdida de autoridad (Kojève 2006). La inferencia de la reacción emotiva del  
concertista aumenta en el observador externo el humor ya provocado por la  
violación, inserto todo esto dentro del marco lúdico del universo Quino.  
Es de notar que la audiencia que está bailando también está compuesta  
de observadores-personaje que reaccionan con gestos de preocupación  
ante la llegada del concertista, volviendo apresuradamente a sus asientos  
como escolares sorprendidos en falta por la maestra. Esto evidencia que son  
conscientes de su violación a las expectativas sociales. Esta superposición  
entre la solemnidad esperada de un concierto y la travesura escolar ocurrida  
produce una transgresión enfáticamente humorística. En la escena, todos los  
participantes son observadores-personaje que tienen algún rol y contribuyen al  
humor.  
Los dibujos anteriores construyen el universo del discurso por medio de  
una sola imagen. Los dos siguientes (e) y (f) presentan dinámicamente una breve  
narrativa utilizando una sucesión de imágenes.  
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© Sucesores de Joaquín Salvador Lavado, QUINO  
(e) ¡A mí no me grite!  
En las imágenes anteriores (con excepción de (a)), Quino añade un  
observador-personaje a una situación incongruente ya creada. A causa de  
esto, es posible quitarlo sin afectar la incongruencia. Pero en €, el observador-  
personaje es el agente que, involuntariamente, origina la incongruencia y, por  
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lo tanto, su presencia es central. Aquí, la incongruencia reside en la relación  
desproporcionada causa-efecto entre la acción de arrojar una piedrita para  
ahuyentar al pájaro y la inesperada destrucción de la estatua, con el ave posada  
en la cabeza –que, irónicamente, es lo que el guardián quería evitar en primer  
lugar. Quino muestra su reacción física, que permite al observador externo inferir  
las emociones de sorpresa y culpa del observador-personaje ante el resultado  
de su acción protectora: cejas levantadas, ojos abiertos, mano sobre la boca  
curvada hacia abajo.  
Como en las imágenes anteriores, el observador externo experimenta humor  
ante el efecto inesperado causado por la acción del guardián, quien, sin querer,  
destruye su propio nicho; el estado cognitivo de incredulidad y desasosiego del  
observador-personaje –que intuye el observador externo– intensifica el humor.  
Veremos por último que la imagen (f) nos presenta la fusión del rol del  
observador-personaje con la incongruencia.  
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(f) Bien gracias. ¿Y usted?  
EstacomposicióndeQuinoesquizáslamáscomplejaeinteresanteenrelación  
a su tratamiento del observador-personaje. En una secuencia de tres imágenes,  
el observador externo contempla un teatro lírico donde los espectadores –  
observadores por definición– se preparan en el auditorio para presenciar una  
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función. Tradicionalmente, la estructura de un teatro se compone principalmente  
del escenario (donde se presenta el espectáculo) y el auditorio (donde se sientan  
los espectadores). En (f), al correrse el telón, grande es la sorpresa cuando,  
en lugar de un ballet o una ópera, el espectáculo consiste en otro auditorio  
similar lleno de espectadores, también sorprendidos. Aquí, el espectáculo está  
compuesto de observadores-personaje a uno y otro lado del telón, enfrentados,  
cuya actividad consiste en observarse mutuamente, o sea, de forma recíproca.  
Esto produce una situación surreal, donde ambas partes enfrentadas resultan  
ser simultáneamente observadores y observados: agentes y pacientes. Al haber  
solamente observadores para observar, en vez del espectáculo esperado, la  
incongruencia alcanza lo absurdo, ya que esta situación desafía la realidad y la  
lógica.  
Losobservadores-personaje,insertosensunichodeauditoriosenfrentados,  
tratandeinterpretarlasituaciónsinllegaraentenderla.Susprocesosinferenciales,  
basados en lo culturalmente esperado, no logran resolver el absurdo. A ellos solo  
les queda la sorpresa, que manifiestan físicamente. Es que, para poder interpretar  
el porqué del absurdo, es necesario observar esta escena desde afuera del nicho.  
Así, el observador externo es el único que puede lograr comprenderlo, ya que,  
desde su perspectiva, puede integrar el contexto lúdico creado por Quino como  
dato indispensable para poder llegar a interpretar la situación y su entorno en  
totalidad. Así, el observador externo supera la sorpresa y llega a la captación del  
humor.  
Conclusiones  
En las imágenes analizadas hemos visto distintas relaciones entre el  
observador-personaje y la incongruencia: un observador-personaje paciente  
que se siente víctima de la situación incongruente presenciada en un quirófano  
(b); la multiplicación de observadores-personaje pacientes que temen las  
consecuencias fatales de un vuelo descontrolado (c); los observadores-personaje  
que forman la audiencia de un concierto adquieren agentividad y producen  
incongruencia al convertir una sala de conciertos en un salón de baile popular  
(d); un observador-personaje agente que provoca la incongruencia en un parque  
(e); y finalmente, la presencia surreal de observadores-personaje (con rol de  
espectadores) a ambos lados del telón en un teatro lírico, que literalmente actúan  
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la incongruencia (f).  
Limitado por su propio nicho, el observador-personaje se frustra ante la  
rotura de lo que considera ‘normal’ según sus expectativas y su conocimiento del  
mundo (ya sea en un plano físico o sociocultural). Siempre provee una reacción  
emotiva negativa ante lo incongruente: dada su falta de acceso al marco lúdico,  
no puede experimentar humor; solo sorpresa o disgusto.  
Por otra parte, el lector tiene el rol de observador externo y es el destinatario  
del mensaje humorístico de Quino, que incluye tanto la escena incongruente como  
la reacción del observador-personaje. A diferencia de este último, el observador  
externo sí experimenta humor ante la incongruencia situacional porque tiene  
acceso al universo Quino: el marco lúdico. A esto se suma su percepción de la  
reacción emotiva del observador-personaje, que intensifica el efecto.  
Así, concluimos que la función que Quino le asigna a este observador  
presencial, insertado en el contexto mismo de la situación, es la de lente de  
aumento del efecto humorístico.  
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O HUMOR NA GUERRA COLONIAL: O JORNAL OS  
PROGRESSISTAS, DIRIGIDO POR SALGUEIRO MAIA NA  
GUINÉ  
THE HUMOR IN THE COLONIAL WAR: THE NEWSPAPER  
OS PROGRESSISTAS, DIRECTED BY SALGUEIRO MAIA IN  
GUINEA  
1
João Pedro Rosa Ferreira  
https://orcid.org/0000-0003-0860-2471  
http://lattes.cnpq.br/7968461820931754  
Recebido em: 08 de maio de 2025.  
Revisão final: 28 de junho de 2025.  
Aprovado em: 16 de janeiro de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23353  
1 Bacharel em História pela Universidade de Lisboa. Mestre em História Política e Cultural pela  
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) e doutor em História e Teoria das Ideias pela Fa-  
culdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH). E-mail: jprosaferreira@gmail.com  
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RESUMO: Este artigo tem por objeto o papel desempenhado por Fernando José Salgueiro Maia (1944-  
1992) enquanto diretor do periódico Os Progressistas, jornal da unidade militar que comandou na então  
Guiné Portuguesa (atual Guiné-Bissau) durante a guerra colonial. A fonte do artigo é o referido jornal,  
conservado na Biblioteca do Exército em Lisboa, e que até à data não fora objeto de pesquisa académica.  
O recorte temporal é o período da publicação do jornal, 1971-1973. O escopo da discussão é o lugar do  
humor em Os Progressistas, visando a hierarquia militar e o regime ditatorial em vigor em Portugal.  
A leitura desta publicação de uma unidade militar durante a guerra colonial permite acompanhar a  
evolução do pensamento do capitão Salgueiro Maia, ajudando a entender e contextualizar a ação que  
protagonizou a 25 de Abril de 1974, com o seu papel decisivo na Revolução dos Cravos.  
PALAVRAS-CHAVE: guerra colonial, jornais militares, humor, Os Progressistas, Salgueiro Maia,  
Revolução dos Cravos em Portugal  
ABSTRACT: This article focuses on the role played by Fernando José Salgueiro Maia (1944-1992) as  
editor of the newspaper Os Progressistas, a newspaper of the military unit he commanded in what was  
then Portuguese Guinea (now Guinea-Bissau) during the Portuguese colonial war in Africa. The source  
of the article is the aforementioned newspaper, kept in the Army Library in Lisbon, and which had not  
been the subject of academic research to date. The time frame is the period in which the newspaper was  
published, 1971-1973. The scope of the discussion is the place of humor in Os Progressistas, targeting  
the military hierarchy and the Portuguese dictatorship then in force. This newspaper published by a  
military unit during the colonial war gives testimony of the evolution of Captain Salgueiro Maia’s thought,  
helping to understand and contextualize the action he led on April 25, 1974, with his decisive role in the  
Carnation Revolution.  
KEYWORDS: Colonial war, military newspapers, humor, Os Progressistas, Salgueiro Maia, Carnation  
Revolution in Portugal  
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Introdução  
Para os que o viram em ação naquela quinta-feira de há 51 anos e para todos os outros que só  
o conhecem das fotos, dos documentários televisivos, dos filmes, das estátuas ou dos livros  
(banda desenhada incluída), Fernando José Salgueiro Maia (1944-1992) foi o primeiro rosto do  
25 de Abril. Mais do que isso: Salgueiro Maia é o eterno rosto da pureza dos ideais de liberdade  
da Revolução dos Cravos. Mas frases épicas como “Às vezes é preciso desobedecer” ou “Vamos  
acabar com o estado a que isto chegou” não surgiram por geração espontânea. A origem do  
pensamento por detrás da acção que viu nascer o “dia inicial inteiro e limpo” (ANDRESEN, 2015)  
encontramo-la na sua experiência concreta da guerra colonial em Moçambique (1967-1969) e  
na Guiné (1971-1973), plasmada nos editoriais, artigos ou notas de reflexão para o jornal que  
fundou e dirigiu em Bula. Não foi por acaso que escolheu para o jornal da sua unidade (como  
escolhera antes para a sua Companhia de Cavalaria 3420) um nome diferente do de todos os  
congéneres. Os Progressistas é um cabeçalho que vale por uma declaração de princípios e por  
todo um programa de intervenção cívica.  
“Jornal do mato”  
Os Progressistas, publicado num total de 41 números, entre 21 de Julho de 1972 e 24 de  
Março de 1973, teve como subtítulo desde o nº 1 até ao nº 13, de 24 de Janeiro de 1972, “Órgão de  
divulgação e cultura da Comp. Cav. 3420”. A partir do nº 14, de 9 de Fevereiro de 1972, até ao nº  
41, mudou o subtítulo para “Quinzenário de divulgação, cultura e recreio”.  
Como a generalidade dos jornais das unidades militares, também chamados “jornais de  
caserna” ou “jornais do mato”, era dactilografado em stencil e policopiado. Tinha o formato de  
uma folha A4 e cada edição era composta por 8 páginas, com excepção do nº 24, de 9 de Julho  
de 1972, número especial de aniversário, que teve 12 páginas. Até ao número 13 tinha apenas  
página de rosto. A partir do nº 14 passou a ter capa separada do miolo. Mais tarde passou a ter  
também contracapa ilustrada.  
Os jornais das unidades, dirigidos pelos comandantes, produzidos pelos militares  
e circulando entre militares, tinham a particularidade de – ao contrário de toda a imprensa  
periódica legal da época – não estarem submetidos à censura. Isso criou, além do espírito  
de corpo, um espaço público com um nível de liberdade que é fundamental assinalar. José  
Manuel Tengarrinha sublinhou as suas características inovadoras e considerou-os “fontes de  
muito valor para o estudo da guerra colonial na perspectiva inabitual dos múltiplos aspectos  
da comunicação escrita periódica a partir das forças armadas portuguesas” (TENGARRINHA  
2003, p. 17).  
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O director e a sua equipa  
Além de director, Salgueiro Maia participou como colaborador em muitos números  
do jornal, assinados com o próprio nome, “Salgueiro Maia, Capitão de Cavalaria” (no primeiro  
número assinou “Cap. J. Maia” – J. de José, o seu segundo nome próprio), mas também com  
o pseudónimo “O Progressista-mor”. Foi também autor de peças não assinadas ou assinadas  
“Um progressista”. A atribuição de autoria justifica-se pelo tema e estilo do artigo e também  
pelo facto de o seu nome aparecer duas vezes, como director e como colaborador, na ficha  
técnica dos números em que isso aconteceu.  
A equipa redactorial e de colaboradores de Os Progressistas incluiu 41 membros da  
companhia, ou seja, cerca de 27% dos efectivos. Destacaram-se, como editores, o alferes  
miliciano José Luís Mendonça, o 1º cabo Francisco Pouseiro, o furriel miliciano Eduardo Silva  
ou o soldado António Alvarenga. Entre os colaboradores, o mais assíduo foi, de longe, o soldado  
António J. Fernandes “Bigodes”, que após as primeiras colaborações passou a assinar apenas  
com a alcunha. Realce também para as colaborações do alferes capelão Antero Ferreira, do  
alferes Carlos Alberto Queiroz, dos sargentos António Beliz e Isidoro Carreteiro ou do soldado  
condutor Ilídio Nunes.  
Os Progressistas para quê?  
O editorial do nº 1 do jornal é o cartão de apresentação de Os Progressistas. Diz ao que  
vai, enunciando os seus objectivos, desde logo um muito prático: “Considerando que nem só  
de pão vive o homem, mas também do que a sua inteligência apreende através da leitura e dos  
conhecimentos adquiridos pela experiência… Considerando que nada há de mais prejudicial  
do que a tendência para a estagnação ou a perda do hábito de leitura…” Reafirma a qualidade  
comum de progressistas e diz o que pretende com o jornal: “… expressar as nossas alegrias,  
os nossos sentimentos, as nossas ideias… será a nossa fonte de inspiração” (Progressistas, 1,  
p. 1).  
Daí a importância concedida à empatia, patente na publicação de textos significativos  
para os soldados, assinalando na secção “Efemérides” as datas dos aniversários de todos os  
militares da companhia, abrindo as páginas a poemas e prosas da autoria dos membros da  
mesma, sem olhar a postos – oficiais, sargentos e praças –, bem como a textos que de algum  
modo celebravam datas com significado: o Natal, o Ano Novo, o aniversário da chegada à Guiné.  
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Reflexões ético-filosóficas  
Egoístas versus idealistas  
Os editoriais e artigos de Salgueiro Maia permitem acompanhar a evolução de um  
pensamento humanista, idealista, porventura próximo da corrente filosófica do personalismo  
cristão. Nessas reflexões ético-filosóficas nota-se um crescendo de crítica social que  
progressivamente vai tomando contornos políticos, embora não evidenciem a adopção de uma  
linha ideológica clara.  
Para este posicionamento crítico em relação à organização e funcionamento da  
sociedade, à hierarquia militar, à guerra e ao regime político vigente não foi certamente  
estranha a experiência acumulada na primeira comissão militar em Moçambique, em 1967-68,  
enquanto alferes integrado numa companhia de comandos que chegou a comandar (depois  
de tanto o comandante como o segundo comandante terem sido feridos em combate), nem  
o contacto directo com um meio universitário em efervescência, em plena crise académica  
de 1969, precisamente o ano em que começou a frequentar o curso de Antropologia no então  
ISCSPU (viria a licenciar-se em 1978).  
Um exemplo é o artigo “Divagando”, assinado Salgueiro Maia, Cap. Cav., publicado  
a 24 de Agosto de 1971, onde pode ler-se: “É uma constante da sociedade actual, a falta de  
idealismo. Presentemente, tem-se como incentivo viver o mais comodamente possível,  
arriscando o menos possível. Deste modo, tudo o que envolve um sacrifício que não seja bem  
pago a curto prazo não tem adeptos, assim se justifica a actual falta de médicos, padres e  
Oficiais do Exército. Em resumo, cada vez há mais egoístas, cada vez há menos idealistas…”  
(Progressistas, 3, p. 6).  
“O Cidadão”  
Publicado um ano depois, no nº 26, de 9 de Agosto de 1972, o editorial “O Cidadão” é um  
dos textos mais representativos do pensamento de Salgueiro Maia.  
Palavra bonita, que poucos interpretam no seu pleno significado…  
O cidadão é o indivíduo no gozo dos seus direitos cívicos e políticos.  
O cidadão, para além dos seus direitos, garantidos pela sociedade, tem também  
obrigações, que poucos exigem sejam cumpridas.  
O cidadão deve zelar pelos interesses da sociedade.  
Que cada um de nós seja um verdadeiro cidadão no cumprimento dos deveres e na  
vivência dos direitos (Progressistas, 26, p. 1).  
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As Forças Armadas  
Um artigo cuja segunda parte foi publicada poucos dias depois de Salgueiro Maia ter  
sido ferido em combate, a 19 de Outubro de 1971, no decurso da Operação Rumo Direito I, é  
revelador da forma como concebe o papel das Forças Armadas:  
“A horda nasce de um impulso biológico de afirmação ou de defesa e constitui-se ao  
sabor de sentimentos primários. As Forças armadas nascem da ideia de um serviço…  
Por isso as Forças Armadas entraram na guerra e logo a livram de ser o puro caos, a  
pura destruição sem lei. Levam para ela tudo quanto elas próprias são, ou seja, uma  
poderosa disciplina. Dão-lhe regras. Em resumo: Humanizam-na. … não podendo  
acabar com elas [as guerras], foram a pouco e pouco limitando a sua fúria destruidora,  
humanizando os seus processos” (Progressistas, 6, p. 7).  
“O soldado é um homem que aprende a fazer a guerra, que não tem medo de a travar,  
que, para o efeito, mobiliza todas as energias da sua inteligência e do seu físico: mas que,  
subjacente a tudo isso, tem o culto da paz, como, de resto, qualquer cidadão” (Progressistas,  
7, p. 5)  
“O Povo” segundo Eça  
“O Povo” é um panfleto que testemunha o empenhamento cívico de Eça de Queirós  
do período da sua aproximação ao socialismo. Salgueiro Maia publicou-o no nº 36 de Os  
Progressistas, a 9 de Janeiro de 1973. O capitão apreciava este texto e tinha-o como referência  
a ponto de o ter emoldurado, tal como se encontra actualmente em exposição no museu que  
lhe foi dedicado na sua terra natal, Castelo de Vide, a Casa da Cidadania:  
“… estes homens são o povo. Estes homens estão sob o peso do calor e do sol, transidos  
pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na,  
gastam a sua vida a sua força, para criar pão, o alimento de todos. Estes são o povo,  
e são os que nos alimentam… que nos vestem… que nos enriquecem… que nos  
defendem… É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar  
e combater pelo Povo. E ainda que não sejam escutados têm na amizade dele uma  
consolação suprema” (Progressistas, 36, p. 2).  
Cultura: da história e geografia à questão ambiental e às mudanças climáticas  
A leitura de Os Progressistas permite acompanhar a evolução do pensamento de  
Salgueiro Maia, o amadurecimento da sua consciência cívica e política. É disso exemplo a  
publicação no jornal de artigos de filósofos e escritores famosos. O mais citado é, de longe,  
Sun Tzu, cuja Arte da Guerra é fonte abundante da secção “Pensamentos” ao longo de toda  
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a publicação. É também o caso de Ortega y Gasset, na edição de 9 de outubro de 1971: “De  
há um século a esta parte, padece a Europa de uma perniciosa propaganda de desprestígio  
da força (…) segundo a qual se tem conseguido impor à opinião pública europeia uma noção  
errada sobre o que é a força das armas. Apresentaram-na como coisa infra-humana, torpe  
resíduo da animalidade persistente no homem. Fez-se da força o contraposto [contraponto]  
do espírito ou, quando muito, uma manifestação espiritual de carácter inferior. […] Medite-se  
um pouco na quantidade de sentimentos, de virtudes elevadíssimas, de golpes de génio, de  
energia vital que é preciso acumular para pôr em pé um bom Exército. Como nos negaremos  
a ver nele uma das mais maravilhosas criações da espiritualidade humana? A força das armas  
não é força bruta, mas força espiritual” (Progressistas, 6, pp. 2-3, excerto traduzido da primeira  
parte de España Invertebrada, de Ortega y Gasset). É também o caso do brigadeiro capelão-  
mor das Forças Armadas, bispo de Madarsuma, António (significativamente sem “Dom”) dos  
Reis Rodrigues, autor do editorial transcrito no nº 7, de 24 de Outubro de 1971, p.1. Ou ainda  
Elbert Hubbard, de quem, após a explicação do sentido da expressão “levar a carta a Garcia”, é  
citado um extenso trecho de Uma Carta para Garcia no nº 4, de 8 de Setembro de 1971, pp. 1-3.  
Menos conhecidos é um autor como o pastor metodista e capelão do exército dos EUA  
Earl F. Stover2, de quem é transcrito, a 24 de Janeiro de 1972, um texto revelador do sentir  
das messes de oficiais provavelmente em exércitos de todo o mundo, publicado na revista  
norte-americana Army: “Se acaba de assumir o comando, é-lhe necessário algum tempo para  
conhecer a sua unidade. Se comanda a unidade já há algum tempo, é altura de se ir embora.  
[…] Se chegou rapidamente aos postos superiores, é muito novo para a sua patente. Se foi  
promovido na sua altura normal, não é um génio. Se resolve pessoalmente todos os assuntos,  
devia delegar mais autoridade. Se delega a sua autoridade, não está para se ralar. […] Se ouve  
a opinião dos seus oficiais e sargentos, deixa-se dominar pelos seus subordinados. Se discute  
as suas ideias, desencoraja-os dando-lhes um complexo de inferioridade. […] Se poupa os  
homens, acostuma-os mal… Se é duro com eles, é um sádico. […] Mas faço o que fizer nunca  
terá razão. É um milagre ainda estar na tropa. Devia ir-se embora enquanto ainda é tempo…”  
(Os Progressistas, 13, pp. 1-2).  
A realidade da guerra, os seus paradoxos e o modo como influencia a sociedade e os  
comportamentos individuais ajuda a explicar a opção editorial de Salgueiro Maia ao incluir, a  
9 de Janeiro de 1972, no primeiro número publicado após o seu regresso de licença, um texto  
da Antiguidade Clássica, “Proclamação de Lucius Emilius Paulus, cônsul romano, nomeado  
para conduzir a guerra contra os macedónios no ano 180 a. C.”, onde se afirma: “Eu não sou  
daqueles que os Chefes nunca devem ouvir conselhos […]. Por conseguinte, se algum de vós  
se julga qualificado para dar conselhos respeitantes à guerra que vou conduzir e que pode ter  
2 Além de pastor e capelão, Stover foi historiador da assistência religiosa no exército dos EUA, autor  
de From its European antecedants to 1791: the United States Army Chaplaincy e Up from Handymen:  
The United States Army Chaplaincy 1865-1920.ꢀvol.ꢀ3.ꢀPublishedꢀbyꢀOfficeofꢀtheꢀChiefꢀofꢀChaplains,ꢀ  
Department of the Army, Washington DC, 1977.  
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vantagem pública, não deve negar o seu tributo à Nação, mas sim vir comigo para a Macedónia  
[…]” (Os Progressistas, 12, p. 1).  
Abundam os “resumos históricos” e apontamentos geográficos e económicos sobre a  
Guiné (nº 6, 9 de Outubro de 1971, p. 6; nº 7, 24 de Outubro de 1971, pp. 3-4; nº 8, 9 de Novembro  
de 1971, pp. 2-3; nº 9, 24 de Novembro de 1971, pp. 4-5; nº 18, 9 de Abril de 1972, p. 1, adoptando  
a partir desta edição o título “A nossa Guiné” que retomará nos números seguintes); Angola (nº  
27, 24 de Agosto de 1972, p. 1); S. Tomé e Príncipe (nº 28, 9 de Setembro de 1972, pp. 1-2) ; mas  
também de um país vizinho apoiante da guerrilha independentista, caso do Senegal (nº 12, 9 de  
Janeiro de 1972, pp. 3-4).  
A história está também presente nos artigos dedicados a figuras como Camões - “IV  
Centenário da publicação de Os Lusíadas”, nº 24, 9 de Julho de 1972, pp. 2- 4, adaptação do  
soldado C.A.R. Nunes) ou Vasco da Gama e em apontamentos dispersos na secção “Efemérides”.  
Merecem particular destaque dois artigos que evidenciam um grau de consciência  
cívica e sensibilidade a temas e problemas sociais pouco frequentes, para não dizer raros, na  
época. Um é o texto da autoria de uma pioneira do feminismo em Portugal, a advogada Elina  
Guimarães (1904-1991), mulher de Adelino da Palma Carlos, que seria o primeiro-ministro do 1º  
Governo provisório do regime democrático que Salgueiro Maia ajudou a instaurar: “A Arte de  
ser infeliz” (Nº 11, 24/12/1971, p. 3). O outro, publicado no último número de Os Progressistas,  
é um assinalável alerta para a questão ambiental e as mudanças climáticas, com o título: “A  
poluição da atmosfera e o aumento de dióxido de carbono poderão comprometer seriamente o  
equilíbrio climático da Terra” (nº 41, 24 de Março de 1973, p. 5), assinado pelo soldado “Bigodes”  
(António J. Fernandes).  
Poesia  
Da sensibilidade humanista e da aproximação ao ideário da liberdade é também  
testemunha a publicação do poema “Sacrifício”, do poeta e cantor brasileiro Vinicius de Moraes  
(Nº 12, 9/1/1972, p. 5). Entre os poetas consagrados presentes nas páginas de Os Progressistas  
destacam-se igualmente Rudyard Kipling (“Se”, nº 6, 9 de Outubro de 1971, p. 1. “If”, na versão  
original, Kipling 1910); José Régio (“O Caminho”, nº 4, 8 de Setembro de 1971, p. 6; António Aleixo  
(vários poemas, a começar por “Há luta por mil doutrinas…”, nº 4, 8 de Setembro de 1971, p. 6).  
Já dar à estampa o “Fado de Bula” (Nº 18, 9 de Abril de1972, p. 6), atribuído nas páginas do jornal  
a “autor desconhecido”, equivale a um salto qualitativo no processo de afastamento do regime  
e de adesão gradual à contestação aos governantes e a um sistema político em que perdera a  
confiança.  
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O lugar do humor  
O humor marca presença nas páginas de Os Progressistas desde o primeiro número, em  
que encontramos uma secção de “Anedotas”, sem ilustrações. No nº 3 aparecem os primeiros  
desenhos humorísticos, a seguir às palavras cruzadas. No nº 14, de 9 de fevereiro de 1972,  
aparece a secção “Ria connosco” e no nº 15, de 24/2/72, sob o título “Vamos Rir”, a pág.3 é toda  
ela consagrada ao humor – que vai ganhando progressivamente mais destaque até que na  
edição especial de aniversário, o nº 24, de 9 de Julho de 1972, ocupa várias páginas, sendo uma  
delas totalmente ilustrada: “3420 em festa”.  
Das piadas de caserna à ironia  
O conteúdo das “piadas de caserna” – por vezes apresentadas precisamente com esse  
título, tirado das populares Selecções do Reader’s Digest, cuja edição em português chegou a  
ser coordenada, a partir de Nova Iorque, pelo escritor José Rodrigues Miguéis – remete para  
um entretenimento típico do universo masculino da época, por vezes apimentado por anedotas  
machistas, com insinuações brejeiras e ilustrações de um erotismo ‘soft-core’, ao estilo do  
humorista José Vilhena. Que foi, como se sabe, o autor com mais obras proibidas pela censura  
do Estado Novo.  
Mas o que faz a diferença no humor de Os Progressistas - e constitui uma espécie de  
assinatura de Salgueiro Maia - é o lugar ocupado pela ironia nas páginas do jornal. A começar  
pela curta publicada logo a 24 de Agosto de 1971, intitulada “Simples diferença”, a partir de uma  
conhecida boutade anticomunista: “Os comunistas comem o pequeno-almoço das crianças.  
Os fascistas comem as crianças ao pequeno-almoço” (Progressistas, 3, p. 7).  
Exemplo de ironia é a desassombrada autocrítica no primeiro nº de Natal, a 24 de  
Dezembro de 1971, quando, ao fazer o balanço dos primeiros seis meses na Guiné, faz um  
retrato da evolução companhia e dos seus membros, sublinhando, num editorial assinado O  
Progressista-mor: “perdemos as penas de periquitos e alguns arranjaram penugens de pavão  
e com o correr dos tempos mais aves raras teremos”.  
Outro exemplo dessa ironia é o texto “Consequências do crescimento capilar não  
compensado pelo devido corte”, no nº 12, 9 de Janeiro de 1972. Entre essas consequências  
realça o  
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mau aspecto geral sob o ponto de vista estético-militar;… aumento de detritos e  
outras substâncias que, entrando em putrefacção, podem originar a formação de  
forças inimigas que, acoitadas na densa vegetação e com o apoio local, podem  
constituir grave perigo para a colectividade… aumento do déficit orçamental devido a  
maior despesa com shampoo ou sabão… formação de um excesso de volume de caixa  
bestuntal não permitindo a colocação do protector de cabeça da ordem… aumento da  
temperatura crítica craniana durante a elaboração do raciocínio (Progressistas, 12, p.  
2).  
Uma gralha “atrapalhadora”  
Da ironia à sátira vai um passo que, pelo menos numa ocasião foi dado com recurso  
a uma oportuna e cirúrgica gralha ou erro dactilográfico. No nº 13, de 24 de Janeiro de 1972,  
um texto aparentemente anódino sobre uma peça de armamento transforma-se numa crítica  
contundente, ao transformar a Metralhadora Ligeira M/70 em Atrapalhadora…  
Curiosamente, a crítica de Maia à condução da guerra em África passa também pela  
consciência, conforme explica nas suas memórias, da progressiva inferioridade do nosso  
equipamento face à maior qualidade e eficácia do armamento do inimigo, exemplificando com  
os lança-granadas RPG 2 e 7 e com a superioridade da espingarda automática Kalashnikov  
sobre a G3.  
Ironia, sátira, sarcasmo, marcas de um humor que torna mais leve e, portanto, menos  
insuportável – “Em resumo, que a comissão não nos pese” (Um Progressista, Progressistas,  
Nº 35, 24 de Dezembro de 1972, p. 5) – o ambiente da vida no mato, mas que também leva os  
leitores, neste caso, os soldados, a pensar nas causas das coisas que acontecem.  
Textos satíricos e subversivos  
Ironia e sátira bem doseadas é o que voltamos a encontrar num texto aparentemente  
insólito, publicado no nº especial de aniversário, 9 de Julho de 1972 – certamente não por  
mera coincidência, escasso par de semanas antes da data marcada para a reeleição, por  
colégio eleitoral, do almirante Américo Tomás para um terceiro mandato como Presidente da  
República, ou, como costumavam dizer os jornais e a televisão, a “veneranda figura do chefe do  
Estado”. O texto tem um título que soa a apelo patriótico: “Às Urnas”, seguido de “Cumpra o seu  
dever de cidadão, vote no melhor”, para rematar com um iconoclástico “Vote no sr. Peter Pan”:  
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Fortaleça o patriotismo amolecido.  
Tanto protege os da esquerda como os da direita [...]  
Se Franco mandou erguer um monumento aos caídos, Peter Pan fez dos caídos um  
monumento.  
Peter Pan está em verdadeira concorrência com a Margarina Vaqueiro, porque torna  
tudo mais apetitoso [era o jingle de um anúncio então muito em voga à Margarina  
Vaqueiro] (Progressistas, 24, p. 5).  
Se o apelo ao voto em Peter Pan era uma metáfora com alguma dose de provocação sobre  
a situação política portuguesa, que dizer da carga subversiva do texto bombástico publicado  
no nº 41, o último, a 24 de Março de 1973, com o título “Utilidades diferentes do material de  
campanha”:  
Começando pela arma, a G-3, faz parte integrante do militar (por mim dispensava-a  
bem), é um elemento transportador de poeiras, não radioactivas mas minúsculas,  
terrosas, oriundas da picada.  
Oxida com grande facilidade e por esse motivo é limpa com frequência (é o eras!). […]  
Quanto a granadas de morteiro, os meninos (Pop) poderiam usá-las presas com  
um cordãozinho muito pop, penduradas ao pescoço e num baile yé yé. (era aquele  
estrondo). […]  
Naquelas peças de teatro chatas, principalmente nas touradas (à portuguesa), o  
público para manifestar o seu agrado, em vez de mandar sapatos, almofadas, flores,  
chapéus, etc., mandava antes granadas de mão. Poderia não agradar muito, mas pelo  
menos manifestava-se mais ruidosamente.  
Quando aquela pessoa que nos pede lume várias vezes, se torna chata, chata, chata,  
a gente dá-lhe então uma granada incendiária. Vocês querem apostar que ela nunca  
mais nos chateia? […]  
Vocês gostariam de provocar um desastre de automóvel espectacular?  
Então coloquem um óbus (com uma granada de 45 kg), num cruzamento da baixa de  
Lisboa e depois digam o resultado. […]  
Você tem algum pomar? Cultiva melões e costuma ser assaltado de noite? Então  
coloque umas minas anti-pessoal, lá e vai ver como tudo isso acaba.  
Quando você está atrasado para o trabalho, e desconfia que o seu autocarro virá cheio,  
coloque uma minas…… zinhas anti-carro no local onde ele passa, e vá de táxi, a pé, de  
metro, a cavalo, de eléctrico, de bicicleta, enfim, desenrasque-se (não fique é para ver  
o espectáculo). […]  
O seu vizinho costuma pisar o seu jardim?  
Então meta-se dentro de um tanque M-47, ponha-o em andamento e, (vá lá, seja  
educado), pergunte ao seu vizinho, se pode passar por cima do jardim dele.  
O AMIGO BIGODES SEMPRE AO DISPOR (Progressistas, 41, p. 1-2)  
Não foi ainda possível apurar se este artigo assinado pelo soldado António J. Fernandes  
com o pseudónimo “O Bigodes” teve alguma relação, directa ou indirecta, com a interrupção  
da publicação do jornal cerca de dois meses antes da data marcada para o fim da comissão.  
É, contudo, impossível, lê-lo sem lembrar o capítulo “Crónica dos Cacimbados” dedicado por  
Salgueiro Maia, no seu livro de memórias póstumo – Capitão de Abril. Histórias da guerra do  
Ultramar e do 25 de abril. Depoimentos –, aos “cacimbados” ou “apanhados pelo clima”, um deles  
com o sugestivo subtítulo “O cacimbo não escolhia postos”. Nesses textos, Maia refere-se ao  
que testemunhou com respeito às alterações provocadas pelo stress de guerra na psicologia  
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e comportamento de vários camaradas de armas, tanto subordinados como superiores (MAIA,  
1994, p. 13-29).  
O momento de dizer não  
O “Fado de Bula”, de autor desconhecido, publicado no nº 18, de 9 de abril de 1972, é  
uma versão soft de poemas como os do Cancioneiro do Niassa, que Salgueiro Maia trouxe de  
Moçambique. Aí figuram letras de canções como o “Fado de Mueda”. Já na Guiné, os militares  
acrescentaram “J. Cristo estou tão farto disto”, paródia da canção de Roberto Carlos Jesus  
Cristo, eu estou aqui, um êxito lançado em Dezembro de 1970. Ou ainda “Eu fui à Spinolândia”,  
versão do tema de José Afonso Os Bravos, adaptado da canção tradicional dos Açores Eu fui à  
terra do bravo.  
O mais célebre tema do Cancioneiro do Niassa foi o “Hino do Lunho”, com música de  
Os Vampiros, de José Afonso. Tinha como refrão “Estou farto deles/ Estou farto deles/ Só  
mandam vir / E não fazem nada”. Conta Salgueiro Maia:  
Por cantar esta canção num convívio com oficiais e sargentos, no ano de 1972, em Bula,  
foi-me levantado um auto de averiguações e consequente processo disciplinar por, no dizer  
dos participantes, “nunca terem visto tão injuriada a instituição militar”. Moral da história: era  
complicado dizer as verdades! (MAIA, 1994, p. 60)  
Mordacidade contra a hierarquia  
Em diferentes momentos, Salgueiro Maia recordou um incidente ocorrido no Dia da  
Cavalaria, comemorado em Bula a 21 de Julho de 1972, presididopelogovernador e comandante-  
chefe, general Spínola, acompanhado pelos oficiais do seu Estado-Maior. Quando, já depois da  
cerimónia, decorria o convívio a que se referiu, Maia fez questão de dirigir o coro que entoou  
o “Hino do Lunho”. Alguns oficiais – Spínola já não estava presente – saíram e manifestaram  
a sua indignação pelo atrevimento. O caso só não ganhou maior gravidade porque o oficial  
mais indignado era de patente igual, mas com menor antiguidade, a outro, que não se sentiu  
incomodado. Acabou tudo com uma chamada à presença do comandante em que, segundo a  
biografia de António Sousa Duarte, “Maia não se acanha e defende o espírito da iniciativa, que  
não pretendia ser ofensivo mas apenas mordaz” (DUARTE, 2022, p. 72. Ver também ROSADO,  
2022, p. 55-56)  
Epílogo: O “implicado”, de Guidage ao Largo do Carmo  
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Dois meses depois da publicação do último número de Os Progressistas, a comissão de  
serviço de Salgueiro Maia e da Companhia de Cavalaria 3420 na Guiné terminou. O relato está  
na primeira pessoa no capítulo “Crónica dos feitos por Guidage” de Capitão de Abril:  
No dia 22 de Maio de 1973, a minha companhia tem tudo pronto para seguir o Cumoré  
com vista a regressar a Portugal. […] Pelas 19 horas recebo uma chamada de Bissau que  
me informa ir receber uma mensagem ordenando que a nossa companhia não seguisse  
para o Cumoré, mas para outro lado, com vista a fazer uma operação de seis dias antes  
de embarcar. […] Como eu previra, íamos seguir para Binta-Farim com vista a, com  
mais uma companhia de comandos, uma companhia de indígenas e outra companhia  
de atiradores de Farim, abrir o cerco a Guidage, ao mesmo tempo que os sitiados  
tentavam também abrir caminho. Pergunto: porquê a minha companhia, quando já  
tinha cumprido a comissão? A resposta deixa-me elucidado. Íamos nós por não haver  
mais ninguém, isto é, tudo o que estava disponível era o pessoal que ia regressar à  
metrópole e, de entre este, a nossa companhia, porque tinha tido bom comportamento  
em combate, “foi escolhida”. Isto é, se tivesse tido mau comportamento, vinha para o  
continente; como tinha tido bom comportamento, continuava na «guerra». Que melhor  
incentivo para a “vitória militar”?! (MAIA, 1994, p. 63-66).  
A operação “de seis dias” prolongou a comissão por mais de quatro meses. Depois de  
cumprida a missão em Guidage, a coluna regressou a Bissau a 30 de Junho (CTIG 1973; Estado  
Maior do Exército 2015). A Companhia de Cavalaria 3420 só regressou da Guiné a 3 de Outubro  
de 1973. Não sem antes de, a 28 de Agosto, Salgueiro Maia ter assinado, em Bissau, a carta  
aprovada numa reunião de oficiais do quadro em protesto contra o decreto nº 353/73, sobre as  
carreiras dos oficiais do Exército. Essa carta é considerada o momento fundador do Movimento  
dos Capitães (GOIÁS, 2017, p. 100), futuro Movimento das Forças Armadas, autor colectivo do  
golpe militar que derrubou a ditadura.  
Em conclusão, o estudo da ainda pouco conhecida faceta de Salgueiro Maia “jornalista”  
ajuda a conhecer as referências históricas e culturais – incluindo humorísticas – que permitem  
compreender e explicar a génese e evolução de um pensamento e de uma prática cívica e  
política que culminou naquilo que, com a reflexão proporcionada pelo recuo temporal, Maia  
viria a expor na “Crónica dos Feitos por Abril”, mais concretamente na descrição de “Como  
surgiram os ‘implicados’ no 25 de Abril”, no seu relato autobiográfico Capitão de Abril, publicado  
postumamente.  
Depois de elencar exaustivamente as razões que o levaram a reconhecer que  
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Tendo consciência que a guerra era injusta e sem solução, que o regime era opressivo  
e sem capacidade de reconversão, que as Forças Armadas tinham conseguido o  
impossível para garantir ao Poder a capacidade de diálogo que ele recusava, só restava  
a sublevação (MAIA, 1994, p. 85),  
conclui:  
Farto de quase 50 anos de opressão  
– farto da incompetência,  
– farto de fabricar carne para canhão,  
– farto de ajudar meia dúzia de glutões a comer à conta do orçamento,  
– farto de “lutar” por causas perdidas,  
decidi dizer “Basta!” (MAIA, 1994, p. 86)  
Salgueiro Maia estava, assim, “implicado” – termo que usa com indisfarçável carga irónica  
e humor autodepreciativo para se designar a si próprio e aos seus camaradas de armas3 – na  
conspiração que culminou no golpe que o levou na madrugada daquela quinta-feira, 25 de Abril  
de 1974, ao Terreiro do Paço e, horas depois, ao Largo do Carmo, para impor a rendição do  
chefe do Governo, Marcello Caetano, e a queda do regime.  
Referências  
MAIA, Fernando José Salgueiro (dir.). Os Progressistas: Quinzenário de cultura e recreio da  
Companhia de Cavalaria 3420. Bula, Guiné, 1971-1973. Disponível na Biblioteca do Exército,  
Lisboa. Coleção Periódicos BIBEX, Cota 35.418/BEH.  
Bibliografia  
ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. 25 de Abril. In O Nome das Coisas. Lisboa: Assírio e  
Alvim, 2015.  
CTIG. C CAV 3420 História da Unidade. Bissau: Comando Territorial Independente da Guiné.  
1971-1973.  
DUARTE, António de Sousa. Salgueiro Maia: Um Homem da Liberdade. Lisboa: Âncora, 2022.  
3Eꢀqueꢀviriaꢀaꢀdarꢀoꢀtítuloꢀdoꢀfilmeꢀbiográficoꢀ‘SalgueiroꢀMaiaꢀ–ꢀOꢀImplicado’,ꢀrealizadoꢀporꢀSérgioꢀ  
Graciano em 2022,  
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DOSSIÊ  
Estado Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974).  
Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África 1961-1974. 6º Volume. Aspectos da  
Actividade Operacional. Tomo II Guiné. Livro III, Lisboa: CECA, 2015.  
GOIÁS, Jorge Sales. A Descolonização da Guiné-Bissau e o Movimento dos Capitães. Lisboa:  
Colibri, 2017.  
HUBBARD, Elbert. Uma Carta para Garcia. Famalicão: Editora Centro Atlântico, 2011.  
KIPLING, Rudyard. Rewards and Fairies. New York: Doubleday, Page & Company, 1910.  
MAIA,Salgueiro.CapitãodeAbril.HistóriasdaGuerradoUltramaredo25deAbril.Depoimentos.  
Lisboa: Editorial Notícias, 1994.  
ORTEGA Y GASSET, José. España Invertebrada. Madrid: Alianza Editorial, 2006.  
ROSADO, Moisés Cayetano. Salgueiro Maia. Das Guerras em África à Revolução dos Cravos.  
Lisboa: Colibri, 2022.  
TENGARRINHA, José Manuel. Prefácio. In SOARES, Alberto Ribeiro (dir.). Catálogo da Biblioteca  
do Exército. Lisboa: Biblioteca do Exército, 2003.  
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DOSSIÊ  
O PARADOXO DO HUMORISTA FORA DO LUGAR1  
THE MISPLACED HUMORIST PARADOX  
2
Mario Tommaso  
https://orcid.org/0000-0002-2512-016X  
http://lattes.cnpq.br/0803450399647185  
Recebido em: 26 de maio de 2025.  
Revisão final: 09 de dezembro de 2025.  
Aprovado em: 16 de dezembro de 2025.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23453  
1 Este ensaio é um desenvolvimento de uma seção de minha tese de doutorado intitulada “O nonsense  
na literatura brasileira: três estudos de caso, defendida na área de Literatura Brasileira” do Depar-  
tamentoꢀdeꢀLetrasꢀClássicasꢀeꢀVernáculasꢀdaꢀFaculdadeꢀdeꢀFilosofiꢀa,ꢀLetrasꢀeꢀCiênciasꢀHumanasꢀdaꢀ  
Universidade de São Paulo, em janeiro de 2024, com acréscimos feitos a partir de uma comunicação  
no XXI Congresso da Sociedade Internacional para o Estudo do Humor Luso-Hispânico (Lille, 2024).  
2 Professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP). E-mail: mariotommaso@  
usp.br  
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DOSSIÊ  
RESUMO: Este ensaio pretende discutir o modo como a relação entre humor e o assim  
chamado “caráter nacional brasileiro” é proposta em algumas formulações de humoristas e  
intelectuais, em que categorias artísticas e literárias são empregadas na autorrepresentação  
da sociedade brasileira como “disfuncional”. A partir desses padrões, é possível identificar uma  
mesma predisposição na hierarquização de formas culturais classificadas como “brasileiras”  
ou “estrangeiras” em outras formações discursivas, como a crítica literária.  
PALAVRAS-CHAVE: Humor, nacionalidade, modernismo brasileiro, história das mentalidades.  
ABSTRACT : This essay aims to examine how the relationship between humor and the so-  
called Brazilian national character is articulated in certain formulations by humorists and  
intellectuals, in which artistic and literary categories are employed in the self-representation  
of Brazilian society as dysfunctional. Based on these patterns, it is possible to identify a similar  
tendency in the hierarchical classification of cultural forms labeled as «Brazilian» or «foreign»  
within other discursive formations, such as literary critics.  
KEYWORDS: Humor, nationality, brazilian modernism, history of mentalities.  
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Em 1935, o médico capixaba radicado no Rio de Janeiro Dr. José Madeira de Freitas,  
especialista em diabetes e puericultura, mas também caricaturista e cronista de humor, que  
respondia pelo pseudônimo Mendes Fradique3, autor da História do Brasil pelo método confuso,  
prefacia uma obra de seu conterrâneo e também médico, não humorista, mas político, Dr.  
Graciano Neves, A doutrina do engrossamento4. O livro do amigo versava sobre aspectos do  
“caráter nacional brasileiro” como o favor, o compadrio, o arrivismo (“cavação”), a celebração  
corporativista de personalidades medíocres (“engrossamento”), a promiscuidade entre público  
e privado ou a irrelevância da demanda antecipatória da pós-graduação no Brasil na política  
educacional sob o recente regime republicano. A um ponto, Mendes Fradique observa:  
O humorismo tem objeto no contraste direto entre o que é e o que deverá ser. Ora, no  
Brasil, como em todas as nações de sua idade mental, tudo é precisamente como não  
deverá ser, de modo que se torna impossível esse contraste e, portanto, igualmente  
impossível o humorismo. (FRADIQUE, 2005 [1935], s.p.)  
Excluída a possibilidade do chiste, pois se trata de um prefácio sério e ocupado do elogio  
do amigo e do endosso às reflexões morais de cariz conservador sobre a vida pública nacional,  
o excerto é particularmente espantoso, pois saído das considerações de um humorista – que  
assim realiza, evidenciando aquilo que acusa, o “contraste direto entre o que é e o que deverá  
ser”, ao reduzir toda a sua atividade intelectual e artística, de modo algum diletante e bissexta,  
mas profissional, profusa e de muita notoriedade à época na imprensa carioca, a um paradoxo  
antropológico e à impossibilidade da própria existência.  
A frase-choque é típica do enfrentamento polêmico (talvez o hábito do sátiro conserve  
a tinta moralista enquanto dissimula a tendência hiperbólica e demolidora da caricatura  
sob o prefácio filosofante). De todo modo, o enunciado é lapidar e emblemático de certa  
posição crítica, e ainda bastante vulgarizada, que produz a ideia de uma impossibilidade, no  
caso a do humorismo, no Brasil: separa artefato literário, plástico ou performático (sátira,  
vaudeville, caricatura, grotesco, burlesco, chiste, piada, novela picaresca, sátira menipeia,  
farsa, sketch, opereta, ópera bufa, besteirol, nonsense, fábula, entrada clownesca, commedia  
dell’arte, poema-piada etc.) e representação da experiência concreta do social para, exigindo  
a equivalência, elogiar afinal o peso insubstituível da realidade ou, no caso em que o termo de  
comparação é a comédia, um gênero baixo, celebrar a mesquinhez, a miséria, a deformidade,  
a irracionalidade e o azar que representam o sentimento daquilo que uma sociedade já é, e, o  
que é importante, sua distância com relação a ela.  
3ꢀOꢀpseudônimoꢀéꢀaꢀinversãoꢀdoꢀnomeꢀdaꢀpersonagemꢀFradiqueꢀMendes,ꢀpoetaꢀfictício,ꢀcosmopolitaꢀ  
e excêntrico, altamente irônico e provocador, inventado coletivamente pelo grupo de Eça de Queirós,  
Antero de Quental e Jaime Batalha Reis desde a década de 1870.  
4 O prefácio foi recolhido por Elias Thomé Saliba e recebeu comentários do historiador em estudos  
como Raízes do riso: a representação humorística na história brasileira da Belle Époque aos primei-  
ros tempos do rádio e “Brasil: uma país de humoristas involuntários?” (SALIBA, 2002; 2018). A obra  
de Madeira de Freitas foi largamente estudada por Isabel Lustosa em Brasil pelo método confuso:  
humor e boemia em Mendes Fradique (1993).  
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Para Madeira de Freitas, o humorismo deve funcionar com um corretivo que venha punir  
os casos desviantes (“o que é”) segundo um quadro instituído (“o que deverá ser”). O choque  
entre o desvio e a norma faria estalar o riso. Ocorre que a norma, para sua brevíssima teoria, ou  
talvez simples “intuição”, não é mera formulação de um ideal platônico, um arquétipo bom, uma  
figura mental que os processos cômicos fazem deteriorar em grotesco, mas aquilo que ocorre  
de fato verificável em nações de “idade mental”, como diz ele, em chave positivista, “madura”.  
O Brasil seria uma nação retardatária e retardada e não efetuaria em lugar nenhum de sua  
realidade a desejada norma, portanto não haveria parâmetro para o contraste entre a figura  
que se quereria atacar por sua forma ou ato desviante. Onde “tudo é precisamente como não  
deverá ser”, ou seja, tudo é desviante, não há desvio e, portanto, não haveria humor possível.  
Qual, porém, é o parâmetro oculto de onde se extrai que tudo é desviante, qual a fonte do  
desejo da norma? Trata-se da realidade das nações de mais avançada “idade mental” (posição  
que legitimaria o humor autodepreciativo da cultura brasileira, sendo preciso observar que  
esta não é a única cultura em que se produz esse tipo de humor). A Mendes Fradique não  
interessa, no entanto, a ironia, e sim o aspecto imediatamente corretivo da sátira (ridendo  
mores castigat). O satirista faz que se ria do desviante como modo de castigá-lo pelo desvio e  
manter o risonho alegremente preso à norma. Há, portanto, um sujeito oculto na argumentação  
do médico-humorista: o leitor. Para que o satírico possa castigar o comportamento desviante  
segundo a norma, é preciso que o seu leitor compartilhe, entre outros elementos, da mesma  
ideia de norma, e só assim rirá, castigando também o desviante. Onde não há norma, não há  
sátira. Na queixa de Mendes Fradique, pressupõe-se que seu leitor devesse compartilhar com  
ele de uma suposta norma europeia. É justamente a tipos europeus que sua argumentação  
apela para buscar fundamentos:  
Se nós segredarmos ao ouvido alemão de Von Papen que na América do Sul  
há um país em que se construiu uma grande avenida e que, durante essa  
construção, o único prédio que ruiu por erro de técnica foi o do Clube de  
Engenharia, é claro que o fidalgo do Sarre sorrirá à ficção da anedota; mas aqui  
o caso não é para rir, nem é ficção, mas é verdade, foi o que de fato aconteceu,  
e contra o que a anedota não pode dar contraste e, portanto, não engendra o  
sorriso do sense of humour. (FRADIQUE, 2005 [1935], s.p.)  
Aqui, para além do já mencionado bovarismo do humorista, aparece uma segunda noção:  
descrever ou relatar acontecimentos não ficcionais (históricos, biográficos, documentais, de  
crônica política, social ou cultural), procurando e enfatizando neles o caráter ridículo, constitui  
um trabalho humorístico cujo resultado é melhor ou mais eficaz do que podem alcançar os  
gêneros, estilos e procedimentos ficcionalmente cômicos. Formulada em diversas situações  
e diferentes modos, ela não é estranha a um número disperso de escritores, artistas e críticos  
brasileiros, e não apenas referindo-se aos gêneros cômicos.  
Por outro lado, é possível abordar o paradoxo do “humorista fora do lugar” propondo  
uma ponderação, a partir de reflexões como a de Luigi Pirandello, aliás, contemporâneo de  
Fradique, de que há uma diferença entre o cômico e o humorístico. Para Pirandello, o cômico  
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seria a demonstração do contrário, e o humor, o sentimento do contrário (1992 [1908], passim.),  
sua incorporação subjetiva, algo que também podemos entender como a ironia romântica,  
desde Jean-Paul ou Schlegel. Essa diferença permanece como ambiguidade em vários estudos  
sobre o riso, como por exemplo, o de Bergson, também mais ou menos contemporâneo. Em  
sua obra, o riso é visto como a “irrupção do vivo sobre o mecânico” (2000 [1900], passim.). Mas  
isso apresenta um problema ao crítico, pois a argumentação oscila entre duas possibilidades:  
ou nós rimos do vivo que interrompe, ou do mecânico que é interrompido. Se rimos do  
mecânico, ou seja, consideramos o rígido e o mecânico ridículos e, portanto, inferior, é porque  
as instituições (ou a linguagem, os hábitos) nos reprimem demais com seu automatismo, e a  
visão do vivo que está escondido abaixo dele e se revela nos relaxa. Mas há outra possibilidade,  
que é rirmos do vivo: se consideramos a irrupção de vida algo engraçado e digno de zombaria,  
é porque concordamos que o mecânico é superior, queremos eliminar a distração que nos  
impede de mantê-lo. Essa ambiguidade ocorre em Bergson justamente porque o elemento da  
irrupção não é exclusivo do cômico. Ele está presente, por exemplo, na tragédia ou no terror.  
O que é exclusivo do cômico, possivelmente, é a combinação de dois fatores na irrupção:  
a velocidade e o rebaixamento por consequência – a transformação em nada, como propõe  
Kant em sua teoria do cômico, como “afecção proveniente da transformação súbita de uma  
expectativa tensionada em nada” (2016 [1790], §54). No caso do humor ou da ironia romântica,  
o rebaixamento generalizado é transportado para o próprio sujeito da enunciação e, por  
conseguinte, para o próprio espectador que nele se projeta, e ambos riem compreensivamente  
de tudo, pois riem de si mesmos. De algum modo, fazer humor já pressupõe sentir-se fora de  
lugar, assim como fazer comédia pressupõe acusar o outro de estar deslocado.  
Quando Mendes Fradique diz que o humorismo seria impossível no Brasil, é preciso  
compreendermos que ele talvez estivesse falando da comicidade – ou seja, do uso do riso  
para rebaixar e reprovar um comportamento socialmente indesejado, como por exemplo na  
sátira, que castiga os maus hábitos. Fradique propõe que a comicidade deve funcionar apenas  
em sociedades ideais em que as regras são rigidamente seguidas. Nelas, a obra cômica  
representaria as exceções às normas, que são alvo de ridicularização. Segundo o raciocínio de  
Fradique, como uma das características típicas do Brasil é um afrouxamento ou relativização  
das regras, não pode existir comédia. Como tudo é desviante, não há desvio e, portanto, não há  
comicidade possível. Logicamente, continua não fazendo sentido levar sua proposição a sério.  
Ela se torna um paradoxo antropológico, pois temos aqui vários exemplos de obras cômicas –  
desde poemas herói-cômicos e satíricos do período colonial, até a obra do próprio fundador  
do teatro nacional, Martins Pena, totalmente dedicado à comédia musicada – além da própria  
experiência cotidiana.  
Em um sentido próximo, outros autores disseram coisas parecidas em referência a  
outros gêneros ou estilos artísticos. Por exemplo, o poeta concretista Décio Pignatari dizia  
que era impossível haver surrealismo no Brasil, pois o Brasil já é surrealista em si mesmo: “O  
surrealismo não ‘pegou’ por aqui porque o país é surrealista” (1997, p. 99). Recupera, assim, a  
proposição de Oswald de Andrade no “Manifesto Antropófago”: “Já tínhamos o comunismo.  
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Já tínhamos a língua surrealista. A idade do ouro” (p. 356) – mas em chave menos otimista  
e revolucionária, na qual o surrealismo avant la lettre como linguagem de vanguarda se  
transforma em atributo de uma realidade percebida segundo parâmetros que datam do século  
XVII: o Brasil seria “surrealista” não no sentido de uma sociedade em que o inesperado ocorre  
com frequência, mas no de que a cultura do Barroco, “o sinal nascimental de toda a cultura  
colonial espanhola e portuguesa” (p. 97), assim como o Surrealismo, com o qual guarda “notáveis  
conjunções” (p. 97), é a “supergramática” determinada pela “Igreja, a Contra-Reforma, a Igreja, a  
Inquisição, o Partido Comunista e todos os sistemas iníquos de poder” (p. 99).  
Há uma espécie de lugar-comum em se rebaixar ou elevar a experiência brasileira  
utilizando-se de algum gênero literário ou artístico que, aplicado à realidade concreta,  
explicita seu caráter diferencial, exclusivo, com uma espécie de falso distanciamento, que  
adere ao conceito. A alternância de valor positivo ou negativo não se libera de uma mesma  
dicotomia, instala-se num mesmo dilema, para que o “complexo de vira-latas” se converta  
em “superioridade” ou precedência. Esse hábito intelectual, que por vezes aparece como  
autodepreciativo, também tem um componente por assim dizer presunçoso, pois reivindica,  
pela inferiorização ou deslocamento, um status especial, único, que nenhum outro ponto  
de vista pode compreender, como uma espécie de constituição da identidade nacional pela  
autodepreciação narcísica.  
Outros humoristas, que não Freitas, fizeram a hipótese de que situações incongruentes  
e corriqueiras são justamente a fonte de ricas possibilidades de humor. José Simão, que  
ainda hoje atua como humorista na imprensa, cunhou a expressão “o país da piada pronta” para  
significar que, no Brasil, o noticiário cotidiano já é pródigo em elementos ridículos, do cacófato à ironia.  
Aqui falamos propriamente de humorismo, pois o sujeito inclui a si mesmo no “sentimento do  
contrário” pirandelliano. Por exemplo, um dos slogans do governo Michel Temer (2016-2018):  
“O Brasil voltou: 20 anos em 2”, em que o que se pretendia tacitamente “progresso” acelerado,  
retomando o slogan de Kubitschek, torna-se objeto direto do verbo “voltar”. Ou ainda: “‘Alckmin  
atribui números da violência ao tamanho da população’. Então na China seria um genocídio por  
dia! É isso?” (SIMÃO, 2012, s.p.), em que o humorista flagra o mau uso político da estatística.  
Ou então: “Piada pronta direto de Jequié, Bahia: ‘Cafetina se converte e transforma prostíbulo  
em igreja evangélica’. Dá mais dinheiro! E vão gritar muito mais! Rarará!” (SIMÃO, 2014, s.p.),  
em que a motivação para a saída da prostituição é desmascarada como pecuniária e a religião  
reconfigurada como outra forma de prostituição. Além disso, a ideia e o procedimento da  
“piada pronta” em Zé Simão não pressupõem que seja o território brasileiro a única fonte de  
relatos a prestar serviço à arte da zombaria, como em: “Príncipe Charles pede divórcio por  
traição de Camila Parker Bowles, Duquesa da CORNUALHA!” (SIMÃO, 2015, s.p.), tirando partido,  
evidentemente, de um trocadilho em português para referir a vida íntima desidealizada dos  
monarcas ingleses. Ou: “‘Após milhares de testes, laboratório suíço conclui que bola da Copa é  
redonda’. UFA! A bola da Copa é redonda. Mas a Terra é plana! Rarará!” (SIMÃO, 2018, s.p.), em  
que as minúcias da pesquisa científica são confrontadas ao senso comum; mas a autoridade da  
ciência logo retorna, como comentário adicional, em tempos de negacionismo. Nesses casos,  
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à diferença da reflexão de Mendes Fradique, o trabalho do humorista é positivo, e não interdito:  
ler as notícias para atacar o desvio (formal, situacional, moral) ali já contido, evidenciando um  
humor “espontâneo” das coisas e pessoas públicas por meio do riso direto, mais ou menos  
ingênuo ou ferino, do qual o humorista é “veículo”. Aqui, não importa a autoria da piada, mas  
é essencial a construção da figura do bufão, que seleciona e conduz o olhar do espectador ao  
acontecimento merecedor de zombaria. A carnavalização ocorre no seu pleno sentido, em que  
o cômico se dá de baixo para cima, como desrecalque e não punição.  
Na equação de Fradique, a sociedade é lida como piada e, portanto, objeto estético,  
reificada, e o humorista, como um indivíduo que não se mistura com a cena, não se vê atuante,  
é um espectador que crê não compor uma plateia, para rir em coro, mas que pensa rir isolado,  
por si mesmo, guardando para si o segredo de um humor que ninguém no entorno poderia  
compreender, pois o objeto da mofa coincide com o espírito do leitor empírico, e ambos são  
tidos por ridículos. Sua solidão de sátiro poderia servir de mote a um melodrama intelectual.  
Como, de fato, Madeira de Freitas pode aparecer como uma personagem secundária daquele  
grupo de intelectuais desencantados com as crises da república, como analisado por Nicolau  
Sevcenko em Literatura como missão (1995 [1983]). O narrador-protagonista de tal melodrama  
cômico seria o médico humorista positivista spencerista, que publicava contendas contra os  
modernistas e já estava prestes a aderir ao Integralismo:  
Humorismo é flor delicada da estufa das supercivilizações, flor de penumbra, que não  
pode vicejar no húmus quente e selvagem do trópico, de cuja exuberância se ergue,  
numa erupção ciclópica de instintos vegetais, toda a pré-antrópica e pujante brenha  
da Amazônia.  
O que por aí há com o rótulo de humorismo é o espoucar subalterno de veia  
cômica, escancarando essa coisa ao mesmo tempo hedionda, inefável e trágica  
que é a gargalhada de um burguês em convulsões da mais viçosa e fecunda  
boçalidade. (FRADIQUE, 2005 [1935], s.p.)  
Um panorama assim não prevê algumas outras possíveis e mais ativas operações de um  
textodehumorcomrelaçãoaomundosocial:afunçãomoralistae,emumsentidomaismoderno,  
de crítica social da obra de cunho satírico; o modo atenuador com que o humor permite tratar  
de temas graves e introduzi-los em debates públicos; a produção de um repertório de símbolos  
em torno dos quais se identificam e diferenciam grupos, referindo-se a eles para valorar – em  
geral negativamente, no caso do cômico – certas atitudes políticas; a polêmica, mas possível,  
função sublimatória da agressão ou do ressentimento entre grupos sociais, cordializando sua  
sociabilidade5 etc. Além disso, diga-se que o diagnóstico manifesta ignorar processos sociais  
das culturas de comunidades imaginadas (por si mesmas e por outras) às quais o médico atribui  
o mérito de serem “supercivilizações”.  
Embora colhida no prefácio de um comediante atualmente ignorado pelo cânone, a  
questão remete e pode ser contrastada com outras visões sobre a produção literária e artística  
brasileira, apreendida em conjunto e similarmente concebida como o espelho insuficiente  
5ꢀPosição,ꢀporꢀexemplo,ꢀdeꢀŽižekꢀ(2017).  
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de uma realidade problemática. Prolongar, além disso, a autoironia de fundo romântico à  
identidade de um povo não seria menos problemático, dado o abismo entre intelectual e a  
noção abstrata de povo, não apenas, mas flagrante e indisfarçavelmente no Brasil.  
O problema do “bovarismo” crítico e da procura dos modelos estrangeiros ganhou análise  
nacríticaliteráriabrasileira,porRobertoSchwarz,nojáclássicoensaioNacionalporsubtração”,  
de 1986, fruto de um seminário organizado por Adauto Novais para a Fundação Nacional das  
Artes (Funarte) e em seguida publicado no jornal Folha de S. Paulo, em que busca reinterpretar  
esse mal-estar na cultura da periferia subdesenvolvida do capitalismo: “brasileiros e latino-  
americanos fazemos constantemente a experiência do caráter postiço, inautêntico, imitado  
da vida que levamos” (SCHWARZ, 1987, p. 29, grifo nosso), cujos exemplos podem ser extraídos  
de variados e mesmo incompatíveis setores intelectuais, artísticos, de classe e de espectro  
político – da marcha contra a guitarra elétrica na MPB em 1967 aos protestos de classe média  
contra os direitos humanos nas prisões no governo de Franco Montoro, do projeto nacional  
de Mário de Andrade ao ufanismo do regime militar. Familiarizados à situação descrita,  
podemos nos perguntar: todos os grupos concordariam, apesar das divergências políticas,  
que a experiência de ser brasileiro é a da mimese cultural? Todas as manifestações culturais  
da dependência econômica seriam equivalentes e codependentes? Quando um Drummond  
escreve que “nenhum Brasil existe”, dissolvendo os hábitos culturais na transitoriedade, ou  
Tom Jobim declara que “o Brasil não é para amadores”, em uma inversão da relação de primazia  
intelectual que inclui tanto a desordem política quanto a complexidade cultural como produtos  
da colonização, situam a divergência política no seio de uma reivindicação de um projeto  
de Brasil, em que o plano cultural tem vantagem sobre o político pois pode, com sua ironia,  
declarar estrategicamente o “vazio” do nacional como invenção.  
A inautenticidade local manifesta, para Schwarz, o seguinte sintoma, no qual muitos de  
nós, praticantes da crítica, podemos nos reconhecer:  
Nos vinte anos em que tenho dado aula assisti ao trânsito da crítica por  
impressionismo, historiografia positivista, new criticism americano, estilística,  
marxismo, fenomenologia, estruturalismo, pós-estruturalismo e agora teorias da  
recepção. A lista é impressionante e atesta o esforço de desprovincianização em  
nossa universidade. Mas é fácil observar que só raramente a passagem de uma escola  
a outra corresponde, como seria de se esperar, ao esgotamento de um projeto; no  
geral ela se deve ao prestígio americano ou europeu da doutrina seguinte. Resulta a  
impressão – decepcionante – da mudança sem necessidade interna, e por isso mesmo  
sem proveito. O gosto pela novidade terminológica e doutrinária prevalece sobre o  
trabalho de conhecimento [...] (SCHWARZ, 1987, p. 30)  
Adiante, a dependência da crítica literária brasileira irá se revelar necessária e  
dialeticamente relativa, não porque a “impressão decepcionante” de mudança fortuita seja  
inválida; é esta impressão que motiva a crítica ao texto de Sílvio Romero a seguir, com o qual  
partilha um diagnóstico similar, mas com diferentes consequências:  
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Macaqueamos a carta de 1814, transplantamos para cá as fantasias de Benjamin  
Constant, arremedamos o parlamentarismo e a política constitucional do autor de  
Adolphe, de mistura com a poesia e os sonhos do autor de René e Atala.  
O povo, este continua a ser analfabeto.  
O segundo reinado, com sua política vacilante, incerta, incapaz, durante cinquenta  
anos, escancarou todas as portas, e fê-lo tumultuariamente, sem discrímen, sem  
critério. A imitação, a macaqueação de tudo, modas, costumes, leis, códigos, versos,  
dramas, romances, foi a regra geral. (Apud SCHWARZ, 1987, p. 40)  
Schwarz argumenta que é preciso melhor interpretar a crítica de Romero. Essa profusão  
de imitações resulta, em si mesma em um modo de operação que pede o seu próprio modelo  
analítico:  
A discrepância entre os “dois Brasis” não é produzida pela veia imitativa [...] Ela foi  
o resultado duradouro da criação do Estado nacional sobre base de trabalho escravo  
[...] Assim, a má-formação brasileira, dita atrasada, manifesta a ordem da atualidade a  
mesmo título que o progresso dos países adiantados. [...]  
O sentimento aflitivo da civilização imitada não é produzido pela imitação,  
presente em qualquer caso, mas pela estrutura social do país, que confere à  
cultura uma posição insustentável, contraditória com o seu autoconceito [...]  
A historiografia da cultura ficou devendo o passo globalizante dado pela  
economia e sociologia de esquerda, que estudam o nosso “atraso” como parte  
da história social contemporânea e de seus avanços. Visto do ângulo da cópia,  
o anacronismo formado pela justaposição de formas da civilização moderna e  
realidades originadas na Colônia é um modo de não-ser, ou ainda, a realização  
vexatoriamente imperfeita de um modelo que está alhures. Já o crítico dialético  
busca no mesmo anacronismo uma figura da atualidade e de seu andamento  
promissor, grotesco ou catastrófico. (SCHWARZ, 1987, p. 46-8)  
Assim, é preciso desconsiderar a tese de uma primeira e forte impressão etapista no  
campo da crítica cultural e estabelecer um método como que “em negativo” para a abordagem  
dos problemas críticos, que se delineava desde o título “Nacional por subtração”: a imitação não  
é evitável; o mal-estar de classe dominante não é feição nacional; as elites não se poderiam  
conduzir de outro modo; a solução não é a autorreforma da classe dominante; não faz sentido  
desconhecer o problema da originalidade, que, no entanto, não está para a imitação como  
os países adiantados para o atrasados; a historiografia da cultura não se globalizou como a  
sociologiadeesquerda;aoposiçãoentreoriginaleimitadonãoéreal;oesquemaquepressupõe  
um sujeito brasileiro, a realidade do país e a civilização das nações adiantadas não é real; “sem  
prejuízo de seus aspectos inaceitáveis – para quem? – a vida cultural tem dinamismos próprios,  
de que a eventual originalidade, bem como a falta dela, são elementos entre outros” (SCHWARZ,  
1987, p. 48); novamente a questão da cópia não é falsa, desde que liberta da mitológica exigência  
da criação a partir do nada, argumento com que conclui as teses finais.  
A contradição se estabelece quando notamos que Sílvio Romero, mesmo adepto do  
naturalismo, em seu libelo contra Machado de Assis teve por antítese o curioso mérito de  
acusar toda a elite branca de macaquear os europeus, no auge do spencerismo, e a Primeira  
República de manter a maioria analfabeta. Schwarz, por outro lado, positiva Mario de Andrade  
de Macunaíma e o Candido do “sentimento da dialética” (na expressão de Paulo Arantes),  
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enquanto recusa como politicamente inconvenientes o “grotesco” e o “catastrófico”, ora  
ideados positivamente como sintomas do anacronismo dependente, em Kafka. A mobilização  
dos juízos nos convida a procurar a que se deve conferir relevo na operação dialética de valorizar  
“o que importa, a saber, a dimensão organizada e cumulativa do processo, a força potenciadora  
da tradição, mesmo ruim, as relações de poder em jogo, internacionais inclusive” (SCHWARZ,  
1987, p. 48).  
Em conferência no I Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada  
(Abralic), em 1988, Antonio Candido saúda a organização por ela significar uma “certidão  
de maioridade da disciplina no Brasil” ao atribuir aos seus membros uma “consciência  
profissional específica, que se fortalece pelos intercâmbios, os periódicos especializados e  
a vida associativa”, como conclusão de seu mapeamento de exemplos pelos quais, há mais de  
quarenta anos antes daquela fala, ele mesmo nota já haver dito que “estudar literatura brasileira  
é estudar literatura comparada”:  
O primeiro sinal disso se se encontra na mania de referência por parte dos críticos.  
Eles pareciam sentir melhor a natureza e a qualidade dos textos locais quando podiam  
referi-los a textos estrangeiros, como se a capacidade do brasileiro ficasse justificada  
pela afinidade tranquilizadora com os autores europeus participantes de literaturas  
antigas e ilustres, que, além de influírem na nossa, vinham deste modo dar-lhe um  
sentimento confortante de parentesco. (CANDIDO, 1996, p. 211-5)  
Trata-se de uma sutil e histórico-criticamente fundamentada advertência à recém-  
fundada associação, cujo comparatismo não poderia a partir dali provir de uma “mania de  
referências”, ou pressupor que a afinidade, se houver, é geradora de “tranquilidade”; tampouco  
o sentimento de parentesco deveria ser “confortante”. No esquema desta, por assim dizer,  
psicologia social observada por Candido, o crítico nacionalista, cônscio de sua subalternidade,  
eleva, porém, a dignidade da literatura nacional para defendê-la (justificativa, participação  
no modelo ilustre, sentimento confortante etc.). Entretanto, ao contrário dos esquemas de  
Romero, o conjunto ao qual o indivíduo (crítico proto-comparatista nacionalista, que Candido  
aí descreve negativamente) se referia para absorver como espelho não é problemático, mas  
entra em harmonia interna (o poeta imitador dos bons, o escritor que cita os bons etc.) e externa  
(na acomodação à posição subalterna na hierarquia do mundo literário). Analítica e crítica,  
justificando as asserções de “há quarenta anos”, a compreensão converge com a conhecida  
passagem da do “Prefácio” da 1ª edição da Formação da literatura brasileira:  
Comparada às grandes, a nossa literatura é pobre e fraca. Mas é ela, e não outra, que  
nos exprime. Se não for amada, não revelará a sua mensagem; e se não a amarmos,  
ninguém o fará por nós. Se não lermos as obras que a compõem, ninguém as tomará  
do esquecimento, descaso ou incompreensão. Ninguém além de nós poderá dar vida a  
essas tentativas muitas vezes débeis, outras vezes fortes, sempre tocantes, em que os  
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homens do passado, no fundo de uma terra inculta, em meio a uma aclimação penosa  
da cultura europeia, procuravam estilizar para nós, seus descendentes, os sentimentos  
que experimentavam, as observações que faziam – dos quais se formaram os nossos.  
(CANDIDO, 2000a [1957], p. 10, grifo nosso)  
Seu olhar profundamente dialético encontra-se no impasse de, demonstrando o  
provincianismo fundador do “desejo dos brasileiros de terem uma literatura”, reconhecer os  
seusequívocos” e não incorrer no outro provincianismo, o servile, porassimdizer, deslumbrado  
com as referências estrangeiras, como advertiria, décadas depois, na Abralic.  
É, talvez, a desleitura da literatura, da história e da filosofia das metrópoles em suas  
entrelinhas, ou a não leitura dos autores mestres em ler entrelinhas (os irônicos, os cômicos,  
os absurdos, como nossa própria literatura sedia um Machado ou um Oswald, parentes de  
Sterne ou de Nietzsche) que nos cega para os dualismos do lá e do cá, em visões restritas do  
específico nacional cujos termos de comparação são geralmente os espectros que a posição  
subalterna do texto projeta, deslizando em falso no trilho de dicotomias: alto/ baixo, puro/  
impuro, branco/ nativo/ negro/ mestiço, sério/ jocoso, original/ imitado, autêntico/ impostor,  
natural/ inventado etc. Se lermos o que já escrevera Nietzsche em 1886, podemos refletir a  
respeito da mimese e do humor em um contexto mais abrangente e histórico das relações  
entre etnias e classes, em um processo que a todo momento faz paródia do provincianismo  
que orienta as impossibilidades ditadas pela crítica:  
O mestiço europeu – um plebeu razoavelmente feio, afinal de contas – precisa  
absolutamente de um traje de fantasia: ele tem necessidade da história como um  
depósito de fantasias. Sem dúvida percebe que nenhuma delas lhe cai muito bem –  
está sempre mudando-as. Considere-se, no século XIX, as súbitas predileções e  
mudanças das mascaradas de estilo; e também os momentos de desespero porque  
“nada assenta”. – Inútil apresentar-se como romântico, ou clássico, cristão, florentino,  
barroco ou “nacional”, in moribus et artibus [nos costumes e nas artes]: “não cai!” Mas  
o “espírito”, em especial o “espírito histórico”, divisa também uma vantagem nesse  
desespero: repetidamente, um novo pedaço do passado e do exterior é experimentado,  
vestido, retirado, guardado, sobretudo estudado – somos a primeira época estudiosa in  
puncto [em matéria de] “fantasias”, quero dizer morais, artigos de fé, gostos artísticos  
e religiões, preparada, como nenhuma época anterior, para o Carnaval de grande estilo,  
para a mais espiritual gargalhada e exuberância momesca, para a altura transcendental  
da suprema folia e derrisão aristofânica do mundo. (NIETZSCHE, 1996 [1886], p. 128)  
Com Nietzsche podemos, portanto, desfazer a impressão de que a impostura, o caráter  
postiço, inautêntico, imitado, os efeitos culturais da mestiçagem e do hibridismo, a sucessão  
de máscaras das identidades coletivas e, em última análise, as reapropriações das ruínas  
após a ruptura com a tradição sejam a propriedade e a negatividade exclusiva dos países  
periféricos. Eis uma plataforma dialética compreensiva de uma república mundial do Carnaval  
nas Letras, que recoloca a periferia no atraso do centro, pois em todo o mundo dito ou ideado  
moderno – e que jamais o foi plenamente, na conhecida formulação do antropólogo Bruno  
Latour (2004) –, conflituoso e contraditório, que não é o melhor dos possíveis, muita coisa é  
“precisamente como não deverá ser” e – também por isso – o humor tem seu lugar, ao contrário  
do que predicara Mendes Fradique.  
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A modernidade, aquela a que o Brasil estaria “condenado”, na conhecida expressão de  
Mário Pedrosa, seria um tempo histórico caracterizado, segundo Reinhart Koseleck, como  
aquele em que começa a haver um distanciamento cada vez maior entre a experiência, como  
cabedal de conhecimento sobre o mundo, e a expectativa, que não pode mais ser norteada pelo  
passado e se joga no desconhecido, pois desenraizado e destradicionalizado. A novidade vem  
afetar a ideia que seja válida formular acerca do próprio tempo, com o conceito de progresso,  
derivado da vivência do desenvolvimento das técnicas em ritmos desiguais sobre um globo  
visto em uma totalidade em perspectiva: “um grupo, um país, uma classe social tinham  
consciência de estar à frente dos outros, ou então procuravam alcançar outros ou ultrapassá-  
los” (KOSELECK, 2006, p. 317). O tempo histórico, assim, passa a ser visto como uma sucessão  
de etapas, e cada etapa temporal é o nome recebido por uma forma de domínio da técnica,  
considerada isoladamente, um hábito produtivo acompanhado de um estilo de experienciá-  
lo. A ênfase no progresso, ideia kantiana, faz de cada momento histórico uma experiência  
irrepetível que tende a um futuro obscurecido, mas necessariamente melhor, e a “história” é  
escrita como a narrativa desse progresso a partir de sua vanguarda. A copresença de hábitos  
descontínuos é linearizada retrospectivamente, e o olho que constrói o ponto de fuga é dado  
pelo hábito que reivindica a posição de “último” na categorização temporal dos territórios e  
técnicas. Aqui, porém, seria preciso acrescentar a participação discursiva dos que também  
passam por isso a se autodenominar atrasados, segundo o calendário da técnica, ignorando  
as ambivalências produzidas pela positividade do discurso do progresso no contraste com a  
própria experiência plural, impura de origem que ele interrompe em seus centros e periferias  
(problemas constitutivos de que o humor, a ironia e procedimentos de distanciamento, em  
suas configurações modernas, desde os românticos, foram capazes de fornecer pistas).  
ParavoltaraoparadoxodeMendesFradique, podemosfazerumexperimentoesubstituir  
a ideia de comicidade por outras formas e técnicas da cultura ou das artes, mantendo o  
procedimento de aplicá-las à vivência concreta. Diríamos: “No Brasil não pode haver tragédia,  
pois nossa vida cotidiana já é trágica”, e não soaria falso. “No Brasil não pode haver melodrama,  
pois o povo já é muito melodramático”. “No Brasil não pode haver ópera, pois nossa vida já é  
uma ópera”. “No Brasil não pode haver patafísica, pois essa já é a terra de todas as exceções”  
etc. Todas resultam em frases de efeito interessantes pelo seu humor e bastante “autênticas”.  
Ocorre que, para além da mera autodepreciação, o que produz esse efeito humorístico não é  
apenas a inferiorização do país, mas o uso de gêneros, estilos e escolas literárias e artísticas  
comoframesparadescreveraspectosdavidasocialbrasileira. Nessecaso, taisgênerosnãosão  
impossibilidades, mas códigos plenamente reconhecidos e funcionais, chaves interpretativas  
que ajudam a fazer a leitura mediada da experiência comum cotidiana, em uma teatralização  
permanente da identidade popular.  
É preciso analisar, então, por que a fórmula humorística segundo a qual “no Brasil não  
pode haver humor” pode ser levada a sério. O que está por trás desse paradoxo, que parece um  
raciocínio correto, mas não corresponde à experiência prática?  
Em primeiro lugar, há uma leitura equivocada da própria fórmula da comicidade satírica,  
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o ridendo castigat mores. Ela não significa que a plateia que ri de uma cena cômica pelo seu  
caráter excepcional ou desviante mantenha, em sua vida cotidiana, um comportamento  
maquinal de estrita observância a regras. Não rimos do palhaço porque jamais escorregamos  
em cascas de banana, mas justamente porque essa possibilidade nos acompanha e  
eventualmente ocorre, mesmo que sem a lente de aumento do picadeiro, da indumentária e  
da coreografia clownesca. Em segundo lugar, há uma leitura equivocada da própria chamada  
“experiência de ser brasileiro” e de sua representação na literatura e nas artes. O paradoxo que  
analisamos corresponde certa posição crítica corrente em ambientes mais “sérios”, e bastante  
vulgarizada no senso comum, que busca sempre constituir intelectualmente a ideia de uma  
impossibilidade no Brasil. Separa artefato literário e representação da experiência concreta  
do social para, exigindo a equivalência, elogiar afinal o peso insubstituível da realidade ou, no  
caso em que o termo de comparação é a comédia, um gênero baixo, celebrar a deformidade, a  
irracionalidade e o azar de pertencer a uma sociedade que se detesta e da qual certo indivíduo  
sesenteintelectualmenteapartado. Ocomediógrafoqueacusasuasociedadecomoumtodode  
ser incapaz de compreendê-lo se sente fora do lugar, pertencente a um outro mundo, superior,  
a partir do qual ataca as figuras que põe em cena. A impostura do objeto se transfere a uma  
impostura da vida. Nelson Rodrigues (1993) consagrou a expressão “complexo de vira-latas”  
para descrever o hábito mental brasileiro da autodepreciação constante. Muitos intelectuais  
brasileiros teriam algo do mal que acomete Mme. Bovary: sentem que há um lugar distante, um  
além, melhor do que o lugar onde se sentem deslocados e em permanente mal-estar e desejo  
irrealizável. Não é o caso, porém, de negar os problemas sociais e políticos que acometem o  
país, mas de não transformá-los em pretexto para a defesa elitista de uma indignidade cultural  
que deriva para a existencial.  
Alguns críticos leram as obras de Mendes Fradique também em chave paradoxal:  
ele teria sido revolucionário (até “modernista”) na forma cômica, mas conservador em suas  
ideias pessoais. Como analisou Isabel Lustosa, Fradique seria “algo assim como Dr. Jekyll e  
Mr. Hyde”: “pensava reacionário” e “sentia modernista” (1993, p. 15). Para Tarcísio Gurgel, “o  
humor de Mendes Fradique produz um rompimento muito mais radical que o de Oswald ou o de  
Murilo Mendes” (apud FRADIQUE, 2004 [1922], p. 11). Essa abordagem também pode ser revista:  
não é por fazer comédia que um autor é mais moderno ou progressista, pois há exemplos de  
comicidade em todas as épocas literárias e posições ideológicas. Também é preciso verificar  
a diferença entre o tipo de rebaixamento da ideia de nacionalidade proposto nas piadas de  
Fradique e nas obras de autores modernistas, os que Fradique odiava. No primeiro, há uma  
espécie de rebaixamento total, absoluto, que se volta à própria existência de um país – há uma  
fustigação, pelo cômico, da ideia do país, como se ele fizesse uma simples inversão dos sinais  
positivos do ufanismo. Nos modernistas, há uma espécie de tentativa de compreensão da  
ambivalência da experiência da colonização e seus efeitos, numa relativização dos discursos  
da autoridade, para fazer emergir aquilo que ficou reprimido, que seria espontâneo, popular e  
gracioso. Trata-se de, como diz o ditado, não “jogar fora o bebê junto com a água do banho”.  
Para o humorismo modernista, o bebê deve sair do banho rindo e pronto para brincar, como  
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na lapidar expressão de Antonio Candido, segundo a qual uma das chaves de interpretação do  
modernismo brasileiro é a promoção do “desrecalque localista” (CANDIDO, 2000b [1965], p. 111).  
Para as invectivas de Fradique, o pediatra humorista, o próprio bebê é abominável e não deve  
ter lugar.  
Hayden White (2014 [1978]) analisou a correspondência entre modos literários,  
estilos argumentativos, implicações ideológicas e figuras de linguagem para propor uma  
tipologia textual dos textos historiográficos exemplares do século XIX, pressupondo que os  
historiadores, embora lidando com materiais factuais e documentos, organizam seus relatos  
segundo modelos anteriores inscritos na linguagem: “[e]ste ato prefigurativo é poético, visto  
que é pré-cognitivo e pré-crítico na economia da própria consciência do historiador” (p. 45).  
Fazer o caminho inverso de White nos permite compreender certa visão da história contida em  
certos modos de narrar e suas implicações ideológicas.  
Seria preciso, portanto, investigar melhor o suposto “sentir modernista” de Fradique,  
que apareceria em oposição, por exemplo, a sua posterior adesão ao integralismo, modalidade  
brasileira do fascismo. Em obras suas como a História do Brasil pelo método confuso, publicada  
no centenário da Independência (mesmo ano da Semana de Arte Moderna), ele propõe uma  
espécie de desfile de figuras do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX que  
aparecem, sob uma pena demolidora, em texto e caricaturas, em eventos históricos da  
história desde o chamado “Descobrimento”, e vice-versa, personagens antigos desfilando  
no Rio moderno, em uma espécie de colagem de anacronismos duplamente ridicularizados,  
compondo uma espécie de pesadelo histórico. Como um dos muitos exemplos, temos:  
O desembarque de Pedr’Álvares e sua comitiva foi banal como o de qualquer embaixador  
latino. A galinha-d’angola foi recebida em separado por uma comissão composta dos  
srs. Pinto da Rocha, Pinto Lima, Rocha Pombo, Bulhão Pato e sportman Gallo. (p. 67)  
Ou, quando do pedido de Dom João VI para que Pedro I, ainda príncipe (mas aqui casado  
com Inês de Castro, em uma comutação de Pedros), regressasse a Portugal:  
A contrariedade foi geral.  
Oshumoristasanteviamafalênciadesuaindústriaporfaltadeassunto;asrãschoravam  
de antemão a ausência do rei; Inês de Castro munia-se prudentemente de um vidro de  
Lysol, e o sr. Xico Sales chouriçava a supressão dos almoços governamentais com o  
delfim.  
[...]  
Uma comissão composta de Epitácio Pessoa, Calógeras e Inês de Castro foi ao Catete  
implorar de Sua Alteza o sacrifício de continuar a esbanjar os cobres nacionais. (p. 129)  
O caráter “modernista” poderia ser localizado na caricatura dos heróis da pátria e figuras  
oficiais, algo que teve (e ainda tem) função de crítica do processo colonizador e seus efeitos  
continuados.Entretanto,acomicizaçãodessasfigurasnãocomeçanoséculoXX,jáaparecendo  
em chave de sátira conservadora num Gregório de Matos (em seu mote antifrástico: “milagres  
do Brasil são”, ou seja, absurdos típicos do local, amplificável a todo o conjunto satírico da  
obra) ou, entre os românticos, como Manuel Antonio de Almeida ou Bernardo Guimarães,  
liberal. Entre os modernistas, Mario de Andrade, por exemplo, também utilizará o expediente  
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do anacronismo – por exemplo, em Macunaíma, em que do pleno universo mítico e selvagem  
saltam figuras contemporâneas, integrando-se à festiva, ainda que violenta, liberação de  
elementos da cultura popular. Ou, ainda, no selvagem tecnizado de Keyserling reinterpretado  
em chave assimiladora no “Manifesto Pau-Brasil” de Oswald. A sátira de Fradique, entretanto,  
não faz oposição às teorias etnocêntricas e conservadoras que os principais modernistas,  
aqueles de fundo e forma, atacavam. Quando escreve que a Guerra de Palmares, “sem tréguas,  
entre os pretos e os portugueses, durou longos anos, terminando com o aparecimento da  
mulata” (FRADIQUE, 2004 [1922], p. 116), não está, obviamente, comemorando a miscigenação,  
nem sugerindo violência sexual do colonizador, antes propondo o caráter duvidoso do próprio  
enfrentamento, de onde extrai o efeito cômico, em que a figura da mestiça aparece como  
punch cômico. Se modernista fosse, Fradique o seria apenas na forma, pois há ao menos  
duas diferenças entre o procedimento da “colagem anacrônica” das figuras históricas entre o  
método histórico confuso e a rapsódia modernista.  
Em primeiro lugar, Fradique se distancia afetivamente da matéria e não se inclui como  
objeto da derrisão (mesmo que nos prefácios se represente como autor-personagem, elogiado,  
por exemplo, num texto ficcional atribuído a Rui Barbosa, ele não se inclui como parte do  
problema satirizado). Por outro lado, na obra de Mario de Andrade temos, como bem analisou  
Alfredo Bosi em “Situação de Macunaíma” (1988), certo “otimismo”, ligado ao projeto construtivo  
do autor e expresso no tom afetivo sobre uma matéria problemática, cujos impasses inspiram  
um paralelo “pessimismo”: “nem a cidade representa uma saída para a selva, nem a selva para a  
cidade. O sentido é de impasse; e dor pelo impasse” (p. 139, grifo no original). O afeto, portanto,  
é o que propõe o laço de identidade entre narrador e figuras, e permite a comiseração do autor,  
o que absolutamente não ocorre em Fradique.  
Em segundo lugar, o plano avaliativo da enunciação, que é negativo a priori com relação a  
toda matéria caracterizada como “brasileira”, numa espécie de inversão do nativismo romântico  
e da teoria da “obnubilação dos trópicos”, em chave juvenalesca e demolidora. Em Madeira de  
Freitas, a história é ruína – mas não ruína de um projeto ou experiência de civilização, no modo  
trágico e crítico: sua visão da história é uma alegoria do desprezo pela sociedade brasileira. Já  
em Macunaíma, o tempo mítico transforma o tempo histórico do presente em potência: sexo e  
violência, já inscritos em mitos, lendas, causos, contos, piadas e ditos populares compilados,  
estão na origem de um fundamento do nacional que choca, mas são trazidos à literatura como  
atos de negação da violência do nacional falsificado pela república “embonecada”6, constituem  
o projeto de uma identidade que fosse mais espontânea, genuína e inaugural, inclusive porque  
sua ambivalência, típica do humor, é um antídoto antiufanista.  
Assim, não podemos considerar (como tanto já se fez com relação a obras do século  
XIX na literatura brasileira) o riso como índice de necessária modernização de ideias. Madeira  
de Freitas “pensava” e “sentia” precisamente aquilo que redundaria em seu papel de membro  
do Centro Dom Vital e líder na Ação Integralista Brasileira. Rumar para a direita nada tem a ver  
6 Cito a expressão do conhecido poema “O poeta come amendoim” (1924), de Mario de Andrade em  
Clã do jabuti (in 1987, p. 161-2).  
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com um processo pessoal de insatisfação e frustração pelo pouco reconhecimento no meio  
literário, se a mentalidade básica da opção já se colocava na matéria, na armação e no sentido  
das piadas. Sua sátira tem algo do “drama de disjunção”, que White situa, com o apoio de Frye,  
Mannheim e Pepper, na historiografia ao modo satírico conservador, mas com uma perspectiva  
anterior à própria elaboração intelectual da esfera política. Não porque se tratasse de um  
comediante, mas porque tivesse por base pré-racional e autoritária “a negação de qualquer  
valor ao presente ou ao futuro” (WHITE, 2014 [1978], p. 38).  
Ainda que sua leitura hoje seja obstaculizada por uma enxurrada de personagens e  
instituiçõesqueotempoeamemóriapúblicaapagaram(tornando-ahumorparahistoriadores”,  
como brinca Lustosa), a familiaridade ideológica que Madeira de Freitas ainda desperta faz  
pensar no modo como a imagem de um Brasil satirizado como impossibilidade em si mesmo  
permanece como prefiguração na montagem de textos críticos e de interpretação da cultura  
brasileira e produz, ela mesma, seus próprios impasses. Faz pensar também na febre de  
“histórias politicamente incorretas” – do Brasil, da música, da literatura – que na década de  
2010 vinham assombrando o mercado editorial brasileiro, repletas de informações falsas, em  
que a incapacidade de disputar a interpretação dos documentos históricos leva à denegação  
deles. Ou, ainda, na moda de um tipo de comédia baseada em ódio a minorias, veiculada na  
TV e na internet, que ajudou a pavimentar, no Brasil, o que há pouco tempo seria considerado  
ficcional e ridículo, como figuras negacionistas, anti-intelectualistas, anti-institucionais e  
retrógradas, em sua recente ascensão ao poder.  
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Acesso em: 25 maio 2024.  
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DOSSIÊ  
DO RISO À ARGUMENTAÇÃO: ANÁLISE DISCURSIVA DE  
PSEUDOPREGAÇÃO DA  
“IGREJA EVANGÉLICA PICA DAS GALÁXIAS”  
FROM LAUGHTER TO ARGUMENTATION: DISCURSIVE  
ANALYSIS OF PSEUDO-PREACHING OF THE “IGREJA  
EVANGÉLICA PICA DAS GALÁXIAS”  
1
Said Slaibi  
https://orcid.org/0000-0002-9587-2519  
https://lattes.cnpq.br/0380952729985362  
2
Rony Petterson Gomes do Vale  
https://orcid.org/0000-0002-0123-9828  
https://lattes.cnpq.br/5226735709539513  
Recebido em: 21 de maio de 2025.  
Revisão final: 11 de janeiro de 2026.  
Aprovado em: 16 de janeiro de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23433  
1GraduadonocursodeLetras-Português/FrancêspelaUniversidadeFederaldeViçosa(UFV).ꢀ  
MestrandoꢀemꢀEstudosꢀLinguísticosꢀpelaꢀUFV.ꢀMembroꢀdoꢀNúcleoꢀdeꢀEstudosꢀDiscursivosꢀ(NED)ꢀdoꢀ  
DepartamentoꢀdeꢀLetrasꢀdaꢀUFV.ꢀBolsistaꢀCAPESꢀdeꢀMestrado.ꢀE-mail:ꢀsaidslaibi@gmail.com  
2 Doutor em Linguística pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pós-doutorado pela  
UniversidadeꢀFederalꢀdeꢀMinasꢀGeraisꢀ(UFMG).ꢀProfessorꢀdaꢀUniversidadeꢀFederalꢀdeꢀViçosaꢀ(UFV).ꢀ  
LíderꢀdoꢀNúcleoꢀdeꢀEstudosꢀDiscursivosꢀ(NED)ꢀdoꢀDepartamentoꢀdeꢀLetrasꢀdaꢀUFV.ꢀE-mail:ꢀrony-  
vale@ufv.br  
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DOSSIÊ  
RESUMO:Opresenteartigoéfrutodereflexõesdecorrentesdeumapesquisademestradoainda  
em desenvolvimento sobre os imbricamentos entre a religião e o humor no que diz respeito à  
área da Análise do Discurso. Analisamos uma pseudopregação do Bispo Arnaldo, falso líder  
religioso à frente do quadro humorístico “Igreja Evangélica Pica das Galáxias”. Utilizamos  
majoritariamente a Teoria Semiolinguística como referencial teórico e metodológico. Nossa  
análise apontou para o uso do humor como parte de um projeto argumentativo mais amplo.  
PALAVRAS-CHAVE: religião, humor, semiolinguística, discurso.  
ABSTRACT: This article is the result of reflections arising from a research master’s degree still  
in development on the imbrications between religion and humor in what concerns the area of  
discourse analysis. We analyse a pseudo-preaching of Bishop Arnaldo, false religious leader  
responsible for the humor sketch “Igreja Evangélica Pica das Galáxias”. We mainly use the  
Semiolinguistic Theory as a theoretical and methodological reference. Our analysis pointed to  
the use of humor as part of a wider argumentative project.  
KEYWORDS: religion, humor, semiolinguistic, discourse.  
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Introdução  
A relação entre a religião e a política é frequentemente estudada. No que circunscreve a  
área dos estudos discursivos, que é o que nos interessa, não são poucos os trabalhos dedicados  
a estudar, por exemplo, a produção discursiva de políticos pertencentes à bancada evangélica  
ou de figuras de reconhecimento nacional que transitam entre os domínios da religião e da  
política3. Esses trabalhos demonstram a relevância do papel da religião na sociedade, tendo  
em vista que “a adesão a uma crença religiosa influencia naturalmente o comportamento dos  
indivíduos em sociedade: ela é de natureza a modificar-lhes a atitude, a inflectir-lhes o voto, a  
pesar sobre suas opiniões políticas ou sociais” (Rémond, 1976, p. 164). Logo, pode-se sublinhar  
as relações “entre as religiões organizadas e os poderes públicos” (Rémond, 1976, p. 165).  
Apesar da relevância desses estudos, observa-se, no entanto, em especial nas últimas  
décadas, a interface da religião com outro fenômeno: o humor. Esse estreitamento de laços  
entre duas zonas que, inicialmente, não têm uma clara aproximação pode gerar, a princípio,  
estranhamento. Issoporque:Fazergraçanãocaracterizaoespaçoreligioso. Tradicionalmente  
espera-se rir no circo, na feira livre, nas festas. Ninguém vai à igreja com a expectativa de dar  
risadas” (Souza, 2012, p. 1).  
O espaço religioso, entretanto, passou por modificações, como consequência da  
adesão à virtualidade inerente à modernidade. Com a expansão do digital, as instituições  
religiosas e as figuras a elas ligadas migraram para o ambiente virtual, em uma nova forma de  
interlocução com a sociedade (Melo, 2017). Como consequência, o discurso religioso passou  
por um processo de adaptação, “apropriando-se de características do discurso midiático e  
desenvolvendo uma nova forma de linguagem apropriada a esse campo” (Melo, 2017, p. 140).  
Ainda sobre a relação entre as mídias e o discurso religioso, Melo (2017) diz que:  
A fim de manter seu poder de influência nos vários setores da vida social, as igrejas  
têm investido no uso da mídia, através de programas de rádio, TV e das mídias  
digitais, o que vem permitindo que os indivíduos continuem recorrendo a ela para  
compreender seu lugar no mundo, para compreender a si mesmo e para balizar valores  
e comportamentos. Há, na atualidade, uma conjuntura complexa que favorece o  
uso das novas tecnologias pelas religiões. Trata-se do processo de midiatização do  
discurso religioso. (Melo, 2017, p. 139)  
Não é incomum que essa produção de conteúdo midiático de atores ligados ao religioso  
conte com recursos humorísticos no intuito de fazer com que os fiéis e demais internautas,  
que podem crer naquela vertente religiosa ou não, se engajem nas publicações. Neste sentido  
Algranti (2023), sobre a produção sistemática de conteúdos de humor na cena evangélica-  
pentecostal, comenta que há formatos/suportes diferentes a partir dos quais é possível  
organizar essa produção. Além do uso de uma fala dita humorística em situações religiosas,  
3VerꢀMeloꢀ(2021);ꢀMeloꢀeꢀRivelliꢀ(2022);ꢀMeloꢀeꢀAraujoꢀ(2024).ꢀ  
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comoaspregações, essaproduçãoocorrepormeiodoschamadosmemescristãose, também,  
pelos conteúdos feitos para sites e redes sociais (Algranti, 2023). Para o autor, a produção de  
conteúdos humorísticos associados ao evangelismo pentecostal está igualmente associada  
ao papel de “influenciadores cristãos”. Esse humor usualmente tem um caráter mais reflexivo  
no qual se coloca em questão, por meio de paródias, o posicionamento de líderes religiosos,  
como pastores, sobre a vida cristã.  
Por outro lado, é preciso considerar que do mesmo modo que sujeitos ligados à religião  
se apropriam do ambiente digital para produzir conteúdos religiosos, humoristas, ligados ou  
não a uma determinada religião, utilizam as mídias digitais como plataforma para divulgação de  
seus trabalhos. Esses trabalhos, por sua vez, podem ter como base a subversão de elementos  
do campo religioso para gerar humor. No caso do pentecostalismo, por exemplo, acredita-se  
que uma das explicações para o surgimento de conteúdos humorísticos sobre essa vertente  
religiosa seja, justamente, o crescimento do setor e o aumento da circulação de discursos  
sobre a cena evangélica pentecostal, já que “a humanidade só faz piadas (chistes, anedotas,  
caricaturas, humor em geral) sobre temas controversos, ou seja, temas sobre os quais há uma  
razoável pletora de discursos” (Possenti, 2010, p. 12). Possenti (2010) adiciona:  
não há piadas sobre temas que não interessem a ninguém, ou que só interessem  
a poucos, e sobre temas sobre os quais há um único discurso, um único ponto de  
vista corrente. Sirvam como exemplos óbvios as piadas sobre sexo, poder, raças ou  
etnias, instituições etc,. que sempre põem em circulação e em oposição pelo menos  
dois discursos: um “correto” e um outro que é de alguma forma reprimido ou proibido,  
“incorreto.” (Possenti, 2010, p. 12)  
As ponderações realizadas até aqui nos levaram a eleger, para nortear nossas  
discussões, a pseudopregação “O Plano de Poder da igreja evangélica - Bispo Arnaldo”4, do  
personagem Bispo Arnaldo, associado ao quadro humorístico “Igreja Evangélica Pica das  
Galáxias”, de autoria do humorista Arnaldo Taveira. Neste corpus o humor, como veremos em  
nossa análise, é o fio condutor utilizado para conduzir um projeto argumentativo mais amplo.  
Como o pseudolíder Bispo Arnaldo assume o púlpito de uma igreja (ainda que fictícia) que se  
denomina “evangélica” vemos a necessidade de tecermos comentários sobre os evangélicos  
no Brasil, mais especificamente, sobre os pentecostais, visto que o pseudolíder se considera  
como pentecostal e características desse setor religioso se mostram implicadas em seu  
discurso.  
Desse modo, este trabalho seguirá da seguinte maneira: num primeiro momento,  
apresentamos um panorama breve dos evangélicos e dos pentecostais no Brasil; em seguida,  
levantamos alguns pontos de discussão sobre o humor no que diz respeito aos estudos  
discursivos; após isso, analisamos o quadro humorístico da Igreja Evangélica Pica das  
Galáxias; por fim, tecemos considerações sobre os efeitos de sentido oriundos dessa produção  
discursiva, evidenciando a interdiscursividade nela presente.  
4 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zdwIFLc7DMI. Acesso em: 14 abr. 2025.  
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Os evangélicos no Brasil: breve panorama  
De acordo com Lima (2019, p. 226), “o brasileiro é de fato religioso e isso reflete em sua  
vida cotidiana”. Segundo os dados censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística  
(Censo IBGE) do ano de 20105, os evangélicos6 são o segundo segmento religioso em termos  
numéricos no país, atrás apenas dos católicos. Isso representa uma porcentagem de 22,2% da  
população brasileira ou, em números de indivíduos, cerca de 42,3 milhões. Conforme o Censo  
IBGE de 2000, a porcentagem evangélica era de aproximadamente 15,4% (ou cerca de 26,2  
milhões de cidadãos), o que, comparativamente, representa um aumento significativo neste  
espaço de tempo.  
Há previsões indicando que essa tendência continuará nos anos seguintes, o que  
quer dizer que a parcela dos brasileiros que se entendem como evangélicos deve continuar a  
crescer. Conforme apresentado por Spyer (2020), na década de 2030 o número de evangélicos  
poderá superar o de católicos no Brasil, o que simboliza uma transformação considerável do  
cenário nacional. Para Spyer (2020):  
O cristianismo evangélico está deixando de ser apenas uma categoria religiosa. Ele  
se tornou um meio para constituir uma nova classe média brasileira - no sentido  
sociológico do termo, que resulta de investimentos na educação, e não apenas em  
termos de aumento de renda. Por esses motivos, 2020 será a década dos evangélicos,  
e quem não entender o cristianismo evangélico não terá condições de pensar o Brasil  
atual. (Spyer, 2020, p. 22)  
O crescimento do cristianismo evangélico ocorre conjuntamente à redução do número  
de brasileiros que se filiam ao catolicismo. Conforme o Censo IBGE 2010, a porcentagem  
de adeptos ao catolicismo marcou 64,6%, quando, no Censo IBGE 2000, essa porcentagem  
chegava a 73,6%. Uma das justificativas frequentemente apontadas para essa mudança de  
cenário é o crescimento de um grupo específico pertencente ao movimento evangélico: os  
pentecostais, de modo que “hoje, e em grande medida devido ao pentecostalismo, larga  
parcela da sociedade se diz cristã sem ser católica” (Oro, 2011, p. 386). Essa transição de  
pertença religiosa é, como indica Mafra (2014), uma tendência em curso no país desde o final  
do século XX.  
O Pentecostalismo no Brasil: passado, presente e futuro  
O pentecostalismo é, hoje, uma das vertentes religiosas de maior expressividade  
no cenário nacional, levando em consideração a adesão populacional ao movimento e às  
suas manifestações nos âmbitos midiático, político, cultural, para citar apenas alguns. O  
pentecostalismo “é uma crença na ação da terceira pessoa da Trindade por meio de visões,  
5 Os dados do Censo IBGE 2022 ainda não estão disponíveis.  
6 Neste trabalho, vamos utilizar sem distinção o termo “evangélico” já que, no Brasil, “protestante”  
e “evangélico” se tornaram sinônimos (Pierucci, 2000).  
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revelações, curas e glossolalia (manifestação de línguas estranhas)” (Alencar, 2023, p. 131).  
Seu nome remonta a passagem bíblica de Pentecostes (Freston, 1993) e sua origem histórica  
tem ligação com o “reavivamento dentro das igrejas metodistas e batistas” (Gaarder; Hellern;  
Notaker, 2000, p. 203) nos Estados Unidos do século XIX. O movimento se consolidou nos EUA  
no início do século XX, chegando ao Brasil pouco depois e conquistando rapidamente fiéis.  
Para Oro (2011, p. 385), o pentecostalismo tem a “capacidade de se adaptar às realidades  
religiosas, sociais e culturais brasileiras e latino-americanas”, de modo que “o pentecostalismo  
constitui hoje um ator social que não dá mais para não ser levado em conta no quotidiano  
da sociedade brasileira” (Oro, 2011, p. 385). Além disso, o pentecostalismo é marcado pela  
pluralidade de denominações religiosas conectadas a ele. Segundo Mariano (2008):  
Dada a diversidade institucional e a pluralidade interna desse movimento religioso,  
não é despropositado falar em pentecostalismos, no plural. Pois, além da presença de  
elevado número de igrejas existentes e concorrentes, há grande variação doutrinária,  
ritual, litúrgica, organizacional (governo eclesiástico), comportamental e estética […]  
Variam igualmente suas estratégias proselitistas, seus públicos-alvo, sua relação com  
os poderes públicos, com a política partidária e com os meios de comunicação de  
massa (Mariano, 2008, p. 69-70)  
No Brasil, há tentativas de explicar o pentecostalismo a partir de fases cujas  
características podem ser agrupadas em torno de certos períodos. Uma das divisões é a de  
Freston (1993), que propôs o entendimento do pentecostalismo no Brasil em três ondas. A  
primeira onda, também chamada de pentecostalismo clássico, se inicia na década de 1910, com  
a chegada da Congregação Cristã do Brasil, em 1910, e com a Assembleia de Deus, em 1911. Esse  
primeiro momento se estende até meados de 1950. A segunda onda tem sua duração estimada  
entre meados de 1950 a meados de 1960. Essa fase teve como expoente as igrejas: i) Igreja do  
Evangelho Quadrangular, no ano de 1951, ii) a Brasil para Cristo, em 1955; iii) a igreja Deus é Amor,  
em 1962. A terceira onda, por fim, tem seu início na década de 1970 e se impulsiona no cenário  
nacional durante a década de 1980. Uma das representantes dessa onda é a Igreja Universal do  
Reino de Deus (IURD), fundada em 1977 pelos líderes religiosos Edir Macedo e Romildo Ribeiro  
Soares, este que seria responsável por fundar, mais tarde, a Igreja Internacional da Graça de  
Deus.  
A terceira onda é usualmente nomeada como a fase neopentecostal. Esse momento  
é marcado por um culto com características que o aproxima de um “espetáculo religioso”  
(Campos, 1997, p. 66). As igrejas neopentecostais:  
oferecem uma forma de religiosidade muito eficiente em termos práticos, pouco  
exigente em termos éticos e doutrinariamente descomplicada. Os neopentecostais  
conservam do pentecostalismo clássico o estilo de culto fortemente emocional,  
voltado para o êxtase, com papel de destaque para a glossolalia, o exorcismo e o  
milagre, visados sempre como resultados palpáveis a ser experimentados de imediato  
(Pierucci, 2000, p. 288)  
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Sobre o elo entre a religião e a cultura contemporânea, Cardozo (2010) diz que “a cultura  
contemporânea mundializada impõe sua lógica sobre as religiões ao tornar disponível, no  
mercado simbólico, enorme variedade de ideologias e crenças e, assim, abrir caminho para  
a sua relativização” (Cardozo, 2010, p. 83). Para o autor, essa visão sobre a religiosidade no  
contemporâneo acarreta em “bricolagens, reinvenções” e em uma “neorreligião marcada pelo  
estilo emocional e espetacular” (Cardozo, 2010, p. 83) da qual o neopentecostalismo é um  
exemplo.  
Como visto, os evangélicos representam, hoje, uma grande fração da religiosidade  
em território nacional. Como religião e sociedade estão intimamente conectadas, torna-se  
impossível ignorar o papel dos evangélicos no contemporâneo, sobretudo pela tendência de  
crescimento que se aponta para os próximos anos. Se, antes, “os fiéis do passado queriam  
distância do que viam como vicissitudes de um entorno impuro” e “evitavam interações mais  
diretas com a sociedade secular, para não se deixarem contaminar por ela” (Balloussier, 2024,  
p. 173), hoje os evangélicos estão na política, na mídia, na cultura, na indústria da música e do  
cinema e, também, na produção humorística.  
Considerações sobre o humor  
Devemos considerar que humoristas podem se aproveitar dessa massificação do perfil  
evangélico para produzirem piadas já que “as piadas (mas também outros tipos de textos  
humorísticos) constroem-se sobre lugares comuns e estereótipos. Ou seja, não são piadas  
(ou o discurso humorístico) que os constroem. Elas só os exploram de novo e a seu modo”  
(Possenti, 2010, p. 81).  
O humor é definido e estudado a partir de diferentes olhares. Aqui, vamos nos limitar a  
discutir o humor no âmbito dos estudos discursivos, sobretudo como o humor é entendido pela  
Teoria Semiolinguística do Discurso, vertente ligada à Análise do Discurso. Charaudeau (2006)  
defende que o humor é uma estratégia de discurso que pode aparecer, por isso, em diversas  
situações comunicativas. Ainda assim, sob certas circunstâncias, Charaudeau (2006) diz que  
existe a possibilidade de considerar o humor como um gênero, como no caso das esquetes  
humorísticas.  
Para Charaudeau (2011), o dispositivo comunicacional e enunciativo do ato humorístico  
é entendido da seguinte forma: na instância de produção há um locutor, com atributos  
psicológicos e sociais, responsável pela produção do ato humorístico e o enunciador, que está  
submetido ao mundo de palavra, existindo no discurso. Na instância de recepção, por outro  
lado, temos o receptor, ou seja, o ser também dotado de atributos psicológicos e sociais, que  
receberá o ato humorístico e o interpretará, e o destinatário, imagem de um ser idealizado pelo  
locutor do ato humorístico para ser o receptor (Charaudeau, 2011). Portanto, é possível que o  
receptor e o destinatário não correspondam à mesma imagem, já que um efetivamente existe  
no mundo e o outro é apenas um potencial almejado. Sendo assim, o locutor pode imaginar um  
destinatário ideal para o seu ato humorístico mas, na realidade, o receptor, ser de carne e osso,  
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pode ser diferente dessa previsão inicial (Charaudeau, 2011).  
Além disso, ao destinatário é atribuída a possibilidade de preencher diferentes papéis:  
ele pode ser um cúmplice do ato humorístico proposto pelo locutor, ou pode ser uma vítima  
(Charaudeau, 2011). Caso seja cúmplice, o seu papel previsto é o de compartilhar a visão de  
mundo proposta pelo locutor. Agora, caso seja a vítima, o destinatário cumpre o papel de alvo  
de um julgamento negativo (Charaudeau, 2011).  
Vimos, até agora, dois elementos, dos três, que compõem o dispositivo comunicacional  
e enunciativo do ato humorístico para Charaudeau (2011): o locutor/enunciador e o receptor/  
destinatário. O terceiro elemento é o alvo, ou seja, sobre quem ou o quê recai o ato humorístico.  
Conforme Charaudeau (2011), esse alvo pode ser formado por somente um indivíduo ou por  
um grupo social, bem como pode ser formado por uma abstração, como as ideias, crenças e  
opiniões. De toda forma, há sempre um direcionamento para o ato humorístico: há uma crítica,  
um julgamento, uma piada sobre alguém ou alguma coisa.  
De toda forma, o ato humorístico é uma aposta lançada pelo humorista, o qual faz uma  
certa proposição ao destinatário com relação à visão criada pelo ato humorístico (Charaudeau,  
2006). Isto é, o humorista deseja que o seu destinatário “compre” o seu ato humorístico e tenha  
aderência à proposta, ação responsável por gerar os efeitos possíveis do ato humorístico  
(Charaudeau, 2006).  
Charaudeau (2006) nos aponta quatro possíveis efeitos, sendo eles: i) a conivência  
lúdica, na qual o efeito do ato humorístico é mais livre de espírito crítico e ocorre simplesmente  
pelo prazer de ser; ii) a conivência crítica, na qual acontece a crítica a uma ordem do mundo  
estabelecida, como uma denúncia de falsos valores escondidos sob um manto de falsa  
virtude; iii) a conivência cínica, detentora de um efeito de destruição e desvalorização de  
valores da vida social, como a vida e a morte, por exemplo; iv) a conivência de derrisão, relativa  
a “desqualificação do alvo ao rebaixá-lo, isto é, ao fazer descê-lo do pedestal no qual ele estava”  
(Charaudeau, 2006, p. 37 - tradução nossa).7 Para Charaudeau (2015):  
o humor é transgressivo. É a sua razão de ser. O ato humorístico quebra o espelho das  
convenções sociais, quebra os julgamentos de bom senso, estilhaça os estereótipos  
identitários, derruba visões de mundo, fazendo descobrir o inverso daquilo que se dava  
como evidência incontestável (Charaudeau, 2015, p. 137 - tradução nossa)8  
Segundo Charaudeau (2015), o ato humorístico teria a capacidade de se suplantar a  
uma aparente ordem do mundo, ao colocar em evidência a desordem. Além disso, Charaudeau  
(2015) adiciona outra capacidade para o ato humorístico: a de triunfar sobre as convenções  
estabelecidas e a moral social. Disso decorre que “Toda fala humorística é dotada de um  
7ꢀDoꢀoriginal:ꢀ“Laꢀdérisionꢀviseꢀàꢀdisqualifierꢀlaꢀcibleꢀenꢀlaꢀrabaissant,ꢀc’est-à-direꢀenꢀlaꢀfaisantꢀdes-  
cendre du piédestal sur lequel elle était” (Charaudeau, 2006, p. 37).  
8 Do original: “l’humour est transgressif. C’est sa raison d’être. L’acte humoristique brise le miroir  
des conventions sociales, casse les jugements bien-pensants, fait voler en éclats les stéréotypes identi-  
taires, renverse les visions du monde faisant découvrir l’envers de ce qui se donnait comme évidence  
inattaquable” (Charaudeau, 2015, p. 137).  
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julgamento mais ou menos iconoclasta sobre o mundo, mas de um julgamento que só vale no  
momento de sua enunciação” (Charaudeau, 2015, p. 138 - tradução nossa).9  
Vale (2013) aponta que o discurso humorístico pode suscitar alguns problemas, em  
especial no que diz respeito ao vínculo que o discurso humorístico tem com outros tipos de  
discurso. Para o autor, o discurso humorístico:  
mantém com outros discursos certas relações interdiscursivas que também podem ser  
caracterizadas por metáforas de cunho biológico: a primeira ligada à necessidade do  
DH de “conviver” e de se “alimentar” de outros discursos numa espécie de mutualismo;  
a segunda, consequência da primeira, referente não só a capacidade do DH para imitar  
gêneros e textos, mas, também à sua capacidade em replicar cenas enunciativas dos  
outros tipos de discurso (Vale, 2013, p. 135 - grifos do autor)  
Em outras palavras, o discurso humorístico pode se apoiar no formato de outros  
discursos e colher para si elementos de outros discursos, tornando possível o surgimento de  
estruturas de outros tipos de discurso no discurso humorístico, já que este, supostamente,  
seria ausente de estrutura prototípica (Vale, 2013). Isso, por sua vez, faz com que “o leitor/  
ouvinte acione, para uma maior compreensão dos efeitos de sentido, não somente planos  
isotópicos diferentes, mas também cenas englobantes diferentes” (Vale, 2013, p. 143). No caso  
aqui estudado, isso ocorre entre o discurso humorístico e o discurso religioso, especificamente  
dizendo, da pregação evangélica pentecostal sendo necessário, dessa forma, acionar  
conhecimentos sobre o plano isotópico da religião evangélica, ou melhor dizendo, da pregação  
evangélica, para compreender o jogo contratual humorístico firmado.  
O pseudopúlpito da Igreja Evangélica Pica das Galáxias  
A “Igreja Evangélica Pica das Galáxias” é um quadro humorístico cujo responsável por  
sua produção é o humorista e narrador Arnaldo Taveira. Arnaldo, humorista, criou uma igreja  
evangélicafictícia, bemcomoumlíderfictício, estequedivulgapormeiodasmídiasdigitaisuma  
série de “pregações” para os seus seguidores e demais internautas. Os conteúdos temáticos  
dos vídeos variam e abrangem desde comentários acerca da própria religião evangélica e  
das maneiras de viver essa religiosidade como assuntos cotidianos, políticos, sociais, de  
celebridades etc. Além dos conteúdos voltados para o meio digital, o humorista também se  
apresenta em teatros e casas de show com o seu personagem. Em 2025, o humorista roda o  
Brasil com a turnê intitulada “Na Minha Época”10.  
Embora o humorista utilize sites e outras redes sociais para divulgação de seu  
9 Do original: “Toute parole humoristique est porteuse d’un jugement plus ou moins iconoclaste sur  
le monde, mais d’un jugement qui ne vaut qu’à l’instant de son énonciation” (Charaudeau, 2015, p.  
138).  
10 Disponível em: https://www.apostoloarnaldo.com.br/. Acesso em: 15 abr. 2025.  
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personagem, nosso enfoque, aqui, será o personagem e a constituição do quadro humorístico  
a partir das publicações feitas na plataforma de vídeos Youtube11. Os vídeos são publicados no  
canal que leva o nome do humorista, “Arnaldo Taveira”, em conjunto com vídeos que carregam  
outros conteúdos, como entrevistas, narrações, entre outros.  
A publicação de vídeos da “Igreja Evangélica Pica das Galáxias” se dá no Youtube desde  
meados de 2012 até hoje. O personagem, aliás, não foi sempre conhecido sobre a nomeação  
“Bispo Arnaldo”. Na verdade, o canal se estrutura em três fases distintas e significativas12: i)  
Pastor Arnaldo, primeira fase, com duração até começo de 2015; ii) Bispo Arnaldo, do começo  
de 2015 até meados de 2018; iii) Apóstolo Arnaldo, de meados de 2018 até o período atual.  
O personagem “sobe de nível” nessa hierarquia eclesiástica fictícia com base no número  
de inscritos no seu canal do Youtube. A indicação dessas fases, bem como as transmutações  
entre uma fase para outra, se dão usualmente por meio dos títulos dos vídeos que levam, no  
começo, a temática geral e, ao final, um traço seguido da indicação do personagem como, por  
exemplo, do vídeo que escolhemos para a análise: “O Plano de Poder da igreja evangélica - Bispo  
Arnaldo”.  
Em todo o tempo do canal, no que tange ao quadro humorístico da Igreja Evangélica  
Pica das Galáxias, o humorista produziu sistematicamente vídeos ligados ao seu personagem.  
Até a data de 13 de março de 2025 haviam sido publicados mais de 770 vídeos, e os vídeos  
acumulavam cerca de 128 milhões de visualizações13. Com relação à fase do Bispo Arnaldo, já  
que é deste momento o vídeo por nós selecionado, ela é constituída de quase 200 vídeos que,  
em conjunto, arrematam aproximadamente 40 milhões de visualizações.  
Esse levantamento foi realizado considerando o uso dos sintagmas nominais “Pastor  
Arnaldo”, “Bispo Arnaldo” ou “Apóstolo Arnaldo” ao final dos vídeos, e desconsideramos aqueles  
vídeos que estavam com seu alcance público limitado pela ferramenta “Só para membros” do  
Youtube, uma vez que essa ferramenta limita a visualização dos vídeos aos membros do canal  
do humorista.  
O que nos chama atenção nos discursos do pseudolíder é a linha tênue entre o  
discurso religioso e o humorístico. Isso pode levar, cremos, a dificuldades de compreensão  
do personagem, já que o contrato pressupõe entender que há a sobreposição de dois planos:  
o plano real, em que o humorista é o ser pensante por trás do quadro humorístico, e o plano  
ficcional, em que há o personagem e os seus seguidores, membros da Igreja Evangélica Pica  
das Galáxias.  
11 Disponível em: https://www.youtube.com/user/karnaldo/videos. Acesso em: 15 abr. 2025.  
12ꢀPoderíamosꢀdizerꢀqueꢀoꢀpersonagemꢀseꢀestruturaꢀemꢀquatroꢀfases,ꢀsendoꢀaꢀmaisꢀrecenteꢀaꢀdeꢀ“Vi-  
ce-Deus Arnaldo”. Todavia, apesar de ter obtido o número de inscritos necessários para chegar a esse  
“cargo”ꢀnaꢀ“hierarquiaꢀeclesiástica”,ꢀnoꢀfinalꢀdeꢀ2021,ꢀnãoꢀforamꢀproduzidosꢀvídeosꢀdeꢀformaꢀsiste-  
máticaꢀqueꢀtenhamꢀlevadoꢀessaꢀnomenclatura,ꢀoꢀqueꢀjustificaaꢀnão-inclusãoꢀdessaꢀnomeaçãoꢀnasꢀfasesꢀ  
doꢀpersonagem,ꢀjáꢀqueꢀaꢀproduçãoꢀdeꢀconteúdoꢀnãoꢀfoiꢀsignificativa.  
13 Dados relativos somente aos vídeos da IEPG, pois no canal do Youtube o humorista também pu-  
blica vídeos com outros conteúdos.  
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O próprio humorista chegou a gravar vídeos no intuito de explicar o seu personagem14,  
confessando que há quem não tenha entendido se tratar de ficção e que chegou a sofrer  
ameaças de morte em razão do personagem. Isso também nos coloca uma interrogação:  
afinal, seria o quadro humorístico e seu líder uma transposição dos limites do humor, se é que  
esses limites existem e são bem reconhecidos? Essa é uma questão extensa, que demanda  
fortemente uma reflexão mais ampla, o que não é o objetivo aqui, embora acreditemos que  
essa pergunta forneceria uma força motriz para uma série de pesquisas, sobretudo na área  
dos estudos discursivos.  
De toda forma, essa linha tênue observada é o que nos leva a tratar o discurso analisado  
como pseudopregação: apesar de haver elementos associados ao discurso religioso, do gênero  
pregação, se trata de uma ficção, logo, uma falsa pregação. Isso é possível devido ao caráter  
mimotópico do discurso humorístico (Vale, 2013) que absorve elementos de outros tipos de  
discursos. A consideração de que o discurso humorístico pode trazer para si traços de outros  
discursos é o que nos leva a falar no mecanismo da paródia.  
Conforme Charaudeau (2006), a paródia se baseia na produção de um texto com base  
em um texto já existente. No novo texto mobilizam-se características de um texto mais antigo,  
sem reproduzi-las integralmente: a mobilização existe, mas com um certo deslocamento,  
deixando-se perceber que não se trata de mera repetição e tentativa de se passar pelo original.  
No caso do Bispo Arnaldo, sua pseudopregação revela marcas do campo religioso pentecostal  
passíveis de serem reconhecidas como, por exemplo, uma suposta glossolalia, ou “falar em  
línguas”, quando o Bispo cria palavras como “xerebecanto”; o uso de “irmãos” para se referir aos  
seusfiéis;ousodeamémasumadeclaraçãoforte, alémdoselementosplásticoseestéticos  
do vídeo. Mas não há intenção, por parte do Bispo Arnaldo, de fazer com que sua produção se  
passe verdadeiramente por uma pregação, deixando-se entrever caminhos possíveis para a  
interpretação de que se trata de conteúdo humorístico. Portanto, o mecanismo da paródia é  
um dos pilares responsáveis pela sustentação do projeto argumentativo.  
Análise discursiva da pseudopregação “O Plano de Poder da igreja evangélica - Bispo Arnaldo”  
O vídeo “O Plano de Poder da igreja evangélica - Bispo Arnaldo15 foi publicado em 23  
de agosto de 2016 no canal Arnaldo Taveira, no Youtube. Ele acumula atualmente 114.918  
visualizações e conta com 453 comentários e cerca de 10 mil likes dos internautas. Com  
relação à troca comunicativa, do lado do eu-humorista, produtor do ato humorístico, temos  
o verdadeiro humorista Arnaldo Taveira, que acumula seus traços psicossociais e faz parte  
de uma dada sociedade no mundo real. Na identidade discursiva, como protagonista do ato  
humorístico, encontramos o Bispo Arnaldo, líder da Igreja Evangélica Pica das Galáxias.  
Esse líder inicia o seu ato comunicativo dirigindo a sua fala aos ouvintes, os seus  
14 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=v9W33xB5YFg. Acesso em: 16 abr. 2025.  
15 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zdwIFLc7DMI. Acesso em: 16 de abr. 2025.  
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irmãos”, termo comumente utilizado nos meios evangélicos para se referir a outros fiéis.  
Inicialmente, ao contar para os seus “irmãos” que falará “do plano de poder dos evangélicos”  
poderia se pensar que o Bispo não coaduna com a inserção de si nesse meio religioso, como  
se ele fosse um terceiro que passará para frente uma notícia, um rumor, uma fofoca que ouviu  
sobre esse plano de poder.  
Essa expectativa, todavia, é quebrada no momento em que ele diz “vocês tão achando  
que nós tamo de bobeira, hein?” visto que, assim, ele se insere na coletividade evangélica por  
meio do uso do pronome de primeira pessoa do plural “nós”, deixando claro para quem o ouve  
que ele se compreende enquanto parte integrante deste grupo (ainda que, reforçamos, se  
trate de um plano ficcional):  
i. Bispo Arnaldo: Irmãos, hoje eu vou falar pra vocês do plano de poder dos evangélicos.  
É, irmão, vocês tão achando que nós tamo de bobeira, hein? Xerebecanto!  
Em seguida, o Bispo diz que nenhum evangélico vai preso e questiona aos seus ouvintes,  
ou seja, aos seus “irmãos”, se eles sabem o porquê de isso ocorrer: “Por que que nenhum  
evangélico vai preso, irmãos? Vou falar pra vocês sobre três segredos que explicam isso daí”.  
Se acatamos o plano ficcional e nos incluímos no jogo estabelecido como um dos “irmãos”,  
aceitamos, assim, se tratar de um Bispo, o qual teria, por isso, a credibilidade e a fiabilidade  
necessárias para nos contar “sobre três segredos que explicam” a situação, já que ele seria  
detentor dos conhecimentos primordiais para isso:  
ii. Bispo Arnaldo: O primeiro deles: nos envolvemos com política, amém? Xerebecanto!  
Elegemos um monte de deputados evangélicos, fizemos uma bancada evangélica,  
e vocês não elegeram ninguém que tenha cu pra combater a gente, amém?  
Dacantaralabassúbia! [...] Até na inauguração daquele Templo de Salomão os políticos  
tavam tudo lá, inclusive a presidente Dilma Rousseff [...] é muito poder político que  
nós temos, irmãos. Mas não vamos parar por aí não. Quando cês menos perceberem  
nós teremos tomado conta de 100% da política nacional, e aí vocês vão ter que viver de  
acordo com as nossas regras, seus otários!  
No trecho acima, o Bispo faz menção à existência da bancada evangélica, cujo  
nome oficial é Frente Parlamentar Evangélica. Essa bancada é entendida como “um grupo  
suprapartidário, composto por congressistas ligados a diferentes igrejas evangélicas, tanto do  
ramo histórico ou de missão como do pentecostal e neopentecostal, que atuariam em conjunto  
para aprovar ou rejeitar a legislação de interesse religioso” (Prandi; Santos, 2017, p. 187). Sua  
origem está ligada à eleição de protagonistas políticos para atuar na Assembleia Constituinte,  
de 1986, (Prandi; Santos, 2017) e atualmente essa bancada demonstra uma grande força, com  
217 deputados signatários associados a ela no Congresso Nacional16.  
16 Disponível em: https://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=54477. Aces-  
so em: 16 abr. 2025.  
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O Bispo, então, demonstra ter ciência da expressividade da bancada evangélica na cena  
política atual e se insere nessa coletividade novamente por meio de pronomes e verbos em  
primeira pessoa. Ao dizer “nos envolvemos com política” e “elegemos um monte de deputados  
evangélicos, fizemos uma bancada evangélica” ele demonstra concordar com a articulação  
religião-política em curso no país e demonstra fazer parte desse movimento e apoiá-lo.  
O Bispo Arnaldo não só reconhece o tamanho do poder que o segmento evangélico  
tem ao se enquadrar como uma das figuras que compartilham desse poder (“é muito poder  
político que nós temos, irmãos”), como também menciona um fato histórico ocorrido no Brasil  
dois anos antes da data de publicação do vídeo: a inauguração do Templo de Salomão17, prédio  
ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo. Durante a inauguração, realizada no  
dia 31 de julho de 2014, a presidente Dilma Rousseff esteve presente ao lado de outras figuras  
conhecidas da política nacional.  
Além de aparentemente apoiar esse movimento, o personagem também alfineta os  
que seriam contrários à união entre a política e a religião, reforçando, mais uma vez, o lado  
(hipoteticamente) em que está: “vocês não elegeram ninguém [...] pra combater a gente”. Essa  
fala estabelece uma dicotomia entre o “nós”, a partir da forma linguística “a gente”, e o “eles”, a  
partir da forma linguística “vocês”. Essa dicotomia é vista em trecho posterior, quando o Bispo  
Arnaldo revela aos ouvintes o que o futuro reservaria para os brasileiros: o crescimento dos  
evangélicos na política nacional, dessa vez, chamando o grupo compreendido por “vocês” de  
seus otários” .  
O Bispo Arnaldo declara como será o modo de vida desse grupo, teoricamente composto  
pelos não-evangélicos, sob o poderio evangélico, quando a dominação no âmbito político  
ocorrer: “Mas não vamos parar por aí não. Quando cês menos perceberem nós teremos tomado  
conta de 100% da política nacional, e aí vocês vão ter que viver de acordo com as nossas regras,  
seus otários!”. Essa dicotomia, da qual decorre bons ânimos para os iguais e maus ânimos para  
os diferentes, é um traço característico do discurso intolerante (Bueno, 2020). Por se tratar de  
humor, no entanto, devemos pressupor a não-seriedade (Possenti, 2010).  
Assim, essa passagem, de certa maneira, poderia ser um indício de intolerâncias que se  
passam no plano real e, se tomamos isso como verdade, então observamos aqui o uso da ironia  
como estratégia para gerar o humor. Isso já que o dito é positivo, mas, ao entrarmos no jogo  
humorístico, somos convidados a compreender que há um julgamento negativo por trás do que  
é dito (Charaudeau, 2006). Como resultado, um efeito de sentido passível de depreendemos é  
o de que, apesar de o personagem estar nos apresentando esse “plano de dominação” como  
algo positivo, na verdade, se trata de uma crítica ao crescente entrelaçamento da política com  
a religião que acontece no Brasil nos dias de hoje.  
Depois, o Bispo Arnaldo passa a desenvolver o segundo ponto de sua argumentação.  
Dessa vez, ele tece comentários acerca do vínculo entre os evangélicos e a mídia. Ele fala sobre  
a televisão, mencionando de forma genérica e, depois, citando a TV Record como um exemplo  
17 Disponível em: https://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/07/templo-de-salomao-e-inaugura-  
do-em-sao-paulo.html. Acesso em: 16 abr. 2025.  
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mais específico e fala também sobre o uso da rádio por esse grupo religioso. Novamente, o  
Bispo se insere no grupo religioso dos evangélicos ao dizer “nós estamos dominando a grande  
mídia [...] nós fazemos pressão, nós ditamos as regras”. Em conjunto a isso, o personagem  
acrescenta um comentário aparentemente incoerente, ao dizer que “aqui tem rádio evangélica  
que pega até sem rádio, irmão, é incrível!”. Essas duas passagens podem ser interpretadas a  
partir do conceito de ironia já apresentado acima. Ao fazer um comentário supostamente  
positivo referente à pressão e às regras, ao “rádio que pega até sem rádio”, esconde-se um  
efeito de sentido negativo: uma crítica à expansão deste segmento religioso nos instrumentos  
midiáticos brasileiros:  
iii. Bispo Arnaldo: O segundo ponto é que nós estamos dominando a grande mídia.  
Todas as televisões estão ao nosso dispor, amém? Inclusive, de madrugada, se você  
ligar a sua televisão, só vai ter pregação de evangélico, amém? Não tô falando só da  
TV Record, não, irmãos, nós fazemos pressão, nós ditamos as regras em todas as TV’s  
nacionais, inclusive as rádios [...] aqui tem rádio evangélica que pega até sem rádio,  
irmão, é incrível!  
Por fim, o dito “terceiro segredo” pelo Bispo Arnaldo é relativo ao crescimento das  
igrejas ditas pentecostais. Aqui, o comentário assume um tom consciente sobre o panorama  
religioso do Brasil, que reflete o trânsito religioso entre diferentes denominações e formas de  
viver a religiosidade.  
O Bispo Arnaldo se entende como um líder neopentecostal, ou pentecostal de terceira  
onda: “evangélicos somos nós, os neopentecostais, irmãos”. Poderíamos entender que com essa  
construção ele atribui a si e aos outros indivíduos que se entendem como “neopentecostais”  
as características de genuinidade e legitimidade referente à expressão de fé (“evangélicos  
somos nós, os neopentecostais”), em oposição aos demais evangélicos, não-neopentecostais,  
considerados como intrusos nesse organismo. Contudo, essa lógica não é exatamente  
defendida pelo personagem, já que este raciocínio de oposição é endereçado ao destinatário:  
Passamos a frente das igrejas evangélicas tradicionais a ponto de você achar que evangélicos  
somos nós, os neopentecostais, irmãos”.  
Ao dizer “a ponto de você achar”, direcionando-se ao destinatário, implicando-o  
diretamente na troca comunicativa, no que Charaudeau (2016) chama de modo alocutivo, o  
personagem coloca, nas costas de seu interlocutor, a responsabilidade por esse julgamento.  
Essa interpretação é apoiada pela passagem seguinte, na qual o Bispo Arnaldo questiona o seu  
destinatário se este tem conhecimento das igrejas frutos do protestantismo histórico: “Aonde  
é que tá a Batista? Aonde é que tá a Presbiteriana? Onde é que tá a Luterana? Você não sabe nem  
o que que é isso, irmão”.  
Hoje, as igrejas pentecostais e neopentecostais abocanham a maior parte do público  
consideradoevangélico, despontandocomoimportantescentrosreligiososnocontemporâneo  
no que tange à expressão de adesão de fiéis, e o personagem parece ser detentor dessa  
informação. Ao supor que o seu destinatário possa compartilhar a visão dicotômica sobre as  
igrejas evangélicas tradicionais” e neopentecostais, o próprio personagem percorre o caminho  
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necessário para desconstruir esse raciocínio. Ou seja, o dito do Bispo Arnaldo tem o potencial  
para fazer o seu destinatário colocar em xeque esse modo de observar as teias relacionais do  
meio evangélico, no caso de o seu destinatário ter essa visão dicotômica:  
iv. Bispo Arnaldo: O terceiro segredo é que nós engolimos a concorrência. Passamos  
a frente das igrejas evangélicas tradicionais a ponto de você achar que evangélicos  
somos nós, os neopentecostais, irmãos. Aonde (sic) é que tá a Batista? Aonde (sic) é  
que tá a Presbiteriana? Onde é que tá a Luterana? Você não sabe nem o que que é isso,  
irmão. Aquele evangélico tradicional, aquele evangélico raíz, quase não existe mais,  
irmãos. Só nossas igrejas tomaram conta.  
Na continuidade, o Bispo Arnaldo cita uma série de atributos usualmente associados às  
formas de expressão do viver religioso das igrejas neopentecostais, como, por exemplo, seu  
caráter mais despojado e dinâmico, frente a outros tipos de igrejas, que aproxima o culto de  
um espetáculo, como mencionado anteriormente por Campos (1997) e Cardozo (2010). Ao final,  
a passagem “aonde (sic) puder meter uma igreja nós tamo (sic) metendo, irmão” é relacionada,  
justamente, com o crescimento das igrejas desta terceira onda religiosa:  
v. Bispo Arnaldo: O público quer ver o que? É espetáculo! O público quer som e luz. O  
público quer fumaça. O público quer falar de dinheiro! [...] e nós damo (sic) tudo isso pra  
eles! Tamo (sic) comprando boate, tamo comprando cinema, tamo comprando teatro,  
ginásio, aonde (sic) puder meter uma igreja evangélica nós tamo (sic) metendo, irmão.  
No final do vídeo, há um maior tremor entre os planos ficcional e real. O Bispo Arnaldo,  
ainda no personagem, solicita aos ouvintes, os “irmãos”, que estes engajem não somente o  
vídeo, mas o canal como um todo. O personagem pede para que os ouvintes divulguem o canal,  
se inscrevam, peçam para que outros se inscrevam, e autorizem notificações para receberem  
os vídeos.  
Ainda no personagem, é dada uma justificativa para que o canal receba esse  
engajamento: a suposta relevância da denúncia feita no vídeo acerca do comportamento  
de uma parcela dos evangélicos, grupo sintetizado pela forma linguística “eles”: “Se ninguém  
combater, irmão, daqui a pouco eles tão dominando o mundo [...] não vai ter carnaval, não vai ter  
baile, não vai ter piranhada, não vai ter nada”. Realiza-se uma crítica a um certo modo pudico de  
agir do grupo que, acabasse “dominando o mundo”, supostamente instauraria uma orientação  
de conduta pública mais alinhada aos ideais e às práticas da religiosidade que professam.  
Esse término é, inclusive, um grande indício do tom geral do discurso do Bispo Arnaldo,  
pautado pelo uso das ironias para se sustentar: apesar de constantemente se inserir no seio  
evangélico atribuindo a si mesmo a nomenclatura de líder pentecostal/neopentecostal e de  
acenar positivamente para as relações desenvoltas entre este grupo e a política, a mídia e  
a própria religião, o final do vídeo revela para o ouvinte o sentido verdadeiro por detrás das  
afirmações positivas: o julgamento negativo referente a determinadas tomadas de ação por  
uma fatia do segmento evangélico, sendo essa fatia, portanto, o alvo do ato humorístico.  
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Considerações finais  
A partir da descrição do corpus e dos dados obtidos com a nossa análise, consideramos  
que o Bispo Arnaldo é a identidade discursiva, e o ato humorístico é dirigido para uma  
coletividade denominada “irmãos”, possivelmente compreendida pelos seguidores ou pessoas  
que acompanham o quadro humorístico da Igreja Evangélica Pica das Galáxias. Neste caso,  
no plano ficcional, o Bispo seria o líder e os “irmãos” os fiéis que, ficcionalmente, veem o  
pseudolíder como guia religioso a ser seguido.  
O discurso é marcado pela recorrência, no jogo enunciativo, do procedimento da ironia,  
por meio do qual o enunciador diz algo positivo, ao se inserir ficcionalmente na coletividade  
evangélica neopentecostal, mas esse comportamento enunciativo esconde um julgamento  
negativo (Charaudeau, 2006). São deixadas, entretanto, pistas que indicam este sentido outro  
por trás do dito, sendo papel do receptor conectar os pontos para chegar a essa compreensão.  
O humorista, com seu ato humorístico, busca, no destinatário, uma conivência crítica, já  
que é feita “uma denúncia do falso semblante de virtude que esconde valores negativos. Essa  
conivência é, então, polêmica [...] como se houvesse uma contra-argumentação implícita,  
porque ela busca compartilhar o ataque a uma ordem estabelecida” (Charaudeau, 2006, p. 36  
- tradução nossa)18. Contudo, o verdadeiro receptor, aquele que interpretará o discurso, pode  
coincidir com o destinatário idealizado ou não. Sendo assim, existe a possibilidade de que uma  
parcela dos internautas que verdadeiramente entrarão em contato com o discurso por meio  
do ambiente virtual não compartilhem dessa conivência, sobretudo porque “a crítica tem um  
alcance particularizante, podendo se tornar agressiva para o alvo” (Charaudeau, 2006, p. 36 -  
tradução nossa)19.  
Por fim, o humor aparece como um modo de construir discursivamente a argumentação  
do pseudolíder. A partir dos comportamentos enunciativos por meio dos quais o locutor se  
insere e insere o outro no discurso, observamos que o que está por trás da aparente anuência  
a algumas tomadas de ação por parte de uma parcela religiosa é a crítica a essas mesmas  
tomadas de ação.  
Agradecimentos  
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de  
Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.  
18 Do original: “La connivence critique propose au destinataire une dénonciation du faux-semblant  
de vertu qui cache des valeurs négatives. Elle est donc polémique (ce que n’est pas la connivence  
ludique), comme s’il y avait une contre-argumentation implicite, car elle cherche à faire partager l’at-  
taque d’un ordre établi en dénonçant des fausses valeurs” (Charaudeau, 2006, p. 36).  
19 Do original: “Contrairement à la connivence ludique, la critique a une portée particularisante pou-  
vant devenir agressive à l’endroit de la cible” (Charaudeau, 2006, p. 36).  
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DOSSIÊ  
HUMOR SATÍRICO NO CORDEL “O TESTAMENTO DE  
GETÚLIO”,  
DE CUÍCA DE SANTO AMARO1  
SATIRICAL HUMOR IN THE CHAPBOOK “GETÚLIO’S  
TESTAMENT,”  
BY CUÍCA DE SANTO AMARO  
LEANDRO ANTONIO DE ALMEIDA2  
HTTPS://ORCID.ORG/0000-0001-8354-9514  
HTTPS://LATTES.CNPQ.BR/1558018587145464  
Recebido em: 18 de maio de 2025.  
Revisão final: 23 de dezembro de 2025.  
Aprovado em: 16 de janeiro 2026.  
HTTPS://DOI.ORG/10.46401/AREC.2025.V17.23422  
1 VersõesꢀpreliminaresꢀdesteꢀtrabalhoꢀforamꢀapresentadasꢀnoꢀSeminárioꢀdeꢀHumorꢀeꢀHistóriaꢀdaꢀUSP,ꢀ  
coordenado por Elias Thomé Saliba, e no I Congresso Nacional de História Cultural e Humor: Entre  
o Cultural e o Político: o Humor no Espaço Público, que ocorreu em Cuiabá em novembro de 2025.  
Agradeço aos comentários realizados nesses espaços, e aos pareceristas da Revista Albuquerque, pela  
contribuiçãoꢀàꢀversãoꢀfinalꢀdoꢀtexto.ꢀ  
2Historiador,ꢀmestreꢀeꢀdoutorꢀemꢀHistóriaꢀSocialꢀpelaꢀUniversidadeꢀdeꢀSãoꢀPauloꢀ(USP).ꢀÉꢀdocenteꢀ  
doꢀcursoꢀdeꢀLicenciaturaꢀemꢀHistóriaꢀeꢀdoꢀProgramaꢀdeꢀMestradoꢀProfiꢀssionalꢀemꢀHistóriaꢀdaꢀÁfrica,ꢀ  
da Diáspora e dos Povos Indígenas na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Realiza  
estágio de pós-doutorado no Departamento de História da FFLCH/USP desde agosto de 2025, sob  
supervisão do Prof. Dr. Elias Thomé Saliba. E-mail: leandroaalmeida@hotmail.com  
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RESUMO: O objetivo deste artigo é refletir e compreender as camadas mobilizadas para  
construção de representações políticas através do humor satírico nos cordéis, uma mídia  
impressa com importante referencial na oralidade, voltada aos pobres, parte dos quais se  
comoveucomosuicídiodopresidenteGetúlioVargasem1954. Analisaremosasrepresentações  
satíricas no cordel publicado por Cuíca de Santo Amaro intitulado “O testamento de Getúlio”  
(1954), lançado poucos meses após a morte de Vargas. Com referência à famosa “Carta-  
Testamento”, se vale de um milenar gênero jocoso para alvejar os desafetos, mobilizando  
referências políticas imediatas e outras culturais mais duradouras, ligadas ao catolicismo e ao  
macabro, que circulam no nordeste brasileiro. Para isso, contextualizaremos a situação política  
gerada com o suicídio de Getúlio e a subsequente comoção popular, o papel dos cordelistas  
nesse momento, inclusive de Cuíca de Santo Amaro, bem como traremos referências ao  
gênero que utilizou, os testamentos jocosos, cuja estrutura formata o cordel “O Testamento de  
Getúlio”. Por fim, analisaremos a construção do humor nesse cordel através dos seus legados  
jocosos.  
PALAVRAS-CHAVE: cordel, sátira, Salvador-BA, testamentos jocosos, Getúlio Vargas.  
ABSTRACT: The main goal of this paper is to reflect on and understand the layers mobilized  
to construct political representations through satirical humor in the chapbooks, a printed  
media with an important reference in orality, intended for the poor groups in Brazilian society,  
some of those commoved by the suicide of president Getúlio Vargas in 1954. We analyse  
satirical representations in the cordel (chapbook) published by Cuíca de Santo Amaro entitled  
“O testamento de Getúlio” (Getúlio’s Testament) (1954), released a few months after the death  
of Getúlio Vargas. Referring to the famous “Carta-Testamento” (testament letter), he uses an  
ancient humorous genre to target enemies, mobilizing immediate political and other more  
lasting cultural references, linked to Catholicism and macabre of the Brazilian Northeast. To  
this aim, we will contextualize the political situation generated by Getúlio’s suicide and the  
subsequent popular commotion, the role of the popular poets at that time, including Cuíca  
de Santo Amaro, as well as bring references to the genre he used, the jocular testaments,  
whose structure formats the chapbook “O Testamento de Getúlio”. Finally, we will analyze the  
construction of humor in this chapbook through its jocular legacies.  
KEYWORDS: chapbooks, satire, Salvador-BA, jocular testaments, Getúlio Vargas.  
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Epígrafe  
A nova ordem política teria que ser criada com base em partidos de massa, novos papéis  
do Estado e a articulação de outros arranjos de alianças regionais. Os meios de comunicação  
de massa se tornam decisivos na recomposição do regime. O poeta nordestino recicla o cartaz  
e atualiza o mito populista na literatura de cordel.  
(SEVCENKO, Nicolau. Introdução: O prelúdio republicano. In: História da Vida Privada no  
Brasil, v. 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 40)  
O cartaz a que se refere a citação é a capa do cordel de Cuíca de Santo Amaro, O  
testamento de Getúlio, abaixo reproduzida.  
Figura 1 – capa do cordel “O testamento de Getúlio”  
Fonte: AMARO, Cuíca de. (pseud. de José Gomes). O testamento de Getúlio. s/l:s/d, 8p. [Salvador:  
1954] In: BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da Literatura de Cordel. Natal: Fund. José Augusto,  
1977, p. 226.  
Introdução  
O objetivo deste trabalho é refletir e compreender as camadas mobilizadas para  
construção de representações políticas através do humor satírico nos cordéis, uma mídia  
impressa com importante referencial na oralidade, voltada aos pobres, visando aqueles que se  
comoveram com o suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas em 1954. Trataremos de um singular  
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caso de manifestação de humor político por um cordelista soteropolitano, em um momento  
de fragilidade democrática, marcado pela expectativa de deposição de um presidente e até  
golpe de Estado. O golpe foi adiado pelo suicídio de Getúlio e pela grande, tensa e contundente  
comoção popular que se seguiu ao episódio. Abordaremos especificamente as representações  
satíricas no folheto3 de Cuíca de Santo Amaro intitulado “O testamento de Getúlio” (1954),  
lançado poucos meses após a morte de Vargas. Mesmo fazendo referência, no título, à famosa  
“Carta-Testamento”, se vale de um milenar gênero humorístico – os testamentos jocosos – para  
alvejar os desafetos, seus e do ex-presidente, mobilizando referências políticas imediatas  
e outras, culturais, mais duradouras, ligadas ao catolicismo e ao macabro, que circulam no  
nordeste brasileiro.  
Por ser uma publicação barata, no período anterior à difusão do rádio à pilha e, mais  
tarde, da televisão nos anos 1960, o cordel era uma importante e prestigiada mídia para as  
camadas pobres do Nordeste, do Norte e da Bahia. Constitui sistemas de produção e difusão  
cultural que engloba autores, textos, mecanismos de distribuição, público e intérpretes. Tem  
em comum com o jornalismo e com as literaturas canônicas ou massivas “o fato de agir sobre  
nosso mundo pela palavra, com a qual também criam novos mundos” (MENEZES, 2019, p.  
228). Tinha funções de entretenimento, formação cultural e também noticiosa, notícias essas  
veiculadas de maneira sóbria, com dramaticidade sensacionalista, ou ainda a partir de modos  
humorísticos. Nesse aspecto, os folhetos eram concorrentes do rádio e da imprensa. Eram  
vendidos em locais de grande movimento nas cidades ou por pessoas, os próprios cordelistas  
ou revendedores, que perambulavam pelas cidades menores e fazendas. Era comum inúmeras  
pessoas se deleitarem com suas histórias e se informarem sobre eventos do dia-a-dia local,  
regional, nacional e internacional. Referia-se a esse prestígio o poeta alagoano Rodolfo  
Coelho de Cavalcante, ao comentar que “o sertanejo sabe pelo rádio ou por ouvir dizer os  
acontecimentos importantes. Mas só acredita quando sai no folheto... Se o folheto confirma,  
aconteceu...” (LESSA, 1973, p. 59). Nesse sentido preciso, ao lado da produção cultural através  
da elaboração de histórias, Rodolfo, Cuíca e outros os cordelistas tinham plena consciência  
da sua atuação como intelectuais mediadores (GOMES, 2016) entre códigos culturais distintos  
e concorrentes, mediação marcada não penas pela transposição de informações como pela  
elaboração narrativa e verbal especializada, em versos.  
O humor esteve presente, de variadas formas, na produção de folhetos e romances dos  
inúmeros poetas de cordel brasileiros, especialmente nordestinos, famosos ou não, desde que  
o formato foi consolidado e popularizado no início do século XX em Pernambuco por Leandro  
Gomes de Barros. Aliás, dentre a vasta produção de Leandro Gomes de Barros, há também uma  
3 Neste trabalho usaremos as palavras “folheto” e “cordel” como sinônimos referentes aos impres-  
sos em versos compostos pelos cordelistas, aqui também denominados poetas e poetas de cordel.  
Em Salvador, os impressos também receberam denominações ABC, como o denomina Jorge Amado  
em Jubiabá (1935), em referência a um de seus gêneros, ou arrecifes, pelos quais eram conhecidos  
quando Rodolfo Cavalcante chegou em Salvador em 1945, referindo-se à origem dos folhetos de  
João Martins de Athayde. O depoimento de Rodolfo acerca das denominações “cordel”, “folheto” e  
“arrecifes” consta em WANKE, 1983, p. 114.  
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verve crítica e satírica, já abordada historiograficamente, com notícias de acontecimentos e  
enxovalhando costumes e pessoas (jogo, cachaça, sogra, religião, estrangeiros), bem como a  
República, com a temática do “mundo às avessas” (CURRAN, 1986; MARQUES, 2014). Mais tarde,  
o editor e também cordelista João Martins de Athayde percebeu que, nas feiras, oitenta por  
centodoscordéisvendidosnasfeiraseramdehumoroupelejas. Emboratenhaseespecializado  
neste tipo, publicava folhetos da outra vertente. Mesmo em Salvador, desde os anos 1930,  
cordelistas publicavam folhetos humorísticos, como Permínio Valter Lírio, Heráclito Amorim e  
Aristeu Guerra Moreira (WANKE, 1983, p. 118-121). Mas nenhum deles teve sua atuação pública  
tão identificada ao humor por toda a sociedade, a ponto de ser considerado um humorista,  
como Cuíca de Santo Amaro.  
Talvez por conta dessa identificação e atuação profissionalizada, reconhecida local,  
regional e nacionalmente, ele tenha sido um dos poucos a mobilizar o humor satírico em um  
momento pouco propício, quando uma tragédia política provocou tristeza, desamparo e raiva  
em grande parte da população, sentimentos esses grandemente explorados por ele e pelos  
seus colegas cordelistas. O folheto “O testamento de Getúlio” incorporou sentimentos ligados a  
esse clima, principalmente a raiva, ao fantasiar, pela intenção de produzir riso, um testamento  
que também veiculava vingança e desforra. Essa é uma das razões pela qual escolhemos  
analisá-lo, pois a interface com ambiente político de nervos à flor da pele permitirá abordar a  
mobilização de sentimentos agressivos no humor, especial mas não exclusivamente político,  
sentimentos que, atualmente, marcam grande parte da produção que circula na internet e  
redes sociais. Outra razão é que esse folheto é mencionado por parte da bibliografia sobre  
cordel político do período e sobre Cuíca. Além de citado no livro “Antologia baiana da literatura  
de cordel” como um dos folhetos que se destacam entre suas obras, é considerado a obra  
culminante de Cuíca sobre Getúlio (CURRAN, 1990, p. 170-172), e um folheto diferenciado em  
relação aos que retratam a carta-testamento de Getúlio, por sua criatividade e resolução dos  
fatos (CABRAL, 2008, p. 149-151). Porém, tais trabalhos apenas mencionam sem aprofundar  
sua construção satírica, desconsiderando também a relação com os testamentos jocosos.  
Abordar cordéis satíricos na pesquisa pressupõe considerar o papel do humor que opera  
por meio dessas representações, voltadas à denúncia de poderes estabelecidos ou se voltar  
contra grupos já oprimidos, além de, na modalidade do ridículo, funcionar como um mecanismo  
regulador social. O que distingue a sátira de outras formas cômicas e de outras formas de  
agressão simbólica é a presença de algum grau de fantasia (ou jogo) na representação, através  
de imagens direcionadas contra alvos a partir de um padrão moral, imagem essa que busca  
mobilizar conceitos e os afetos socialmente internalizados pelo destinatário, operando sobre  
elas técnicas que levam à rotação de perspectivas ou mudanças bruscas de planos discursivos,  
características do humor. Logo, é um humor agressivo, concebido como mecanismo de ataque  
simbólico, destinado a construir e desconstruir imagens cristalizadas acerca de pessoas,  
grupos, sociedades, instituições, ideias, filosofias etc. e, por consequência, criar disposições  
em relação a tais elementos da realidade, em geral disposições negativas (BERGER, 1998;  
CONDREN, 2012 e 2016; FRYE, 1973; SALIBA, 2018).  
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É nessa perspectiva sobre a sátira que abordaremos o cordel “O Testamento de Getúlio”  
de Cuíca de Santo Amaro, buscando perceber o jogo entre as fantasias pressupostas no gênero,  
articuladas nas imagens, e os ataques a personalidades de meados dos anos 1950 segundo  
o padrão moral do trabalhismo getulista. A relevância da empreitada está na importância de  
analisar as representações humorísticas, veiculadas em mídias como o cordel, que não seguem  
os padrões narrativos e ficcionais da literatura divulgada em livros, jornais ou fascículos das  
grandes editoras, nem das notícias veiculadas pelo jornalismo empresarial, impresso ou  
audiovisual. Para isso, contextualizaremos a situação política gerada com o suicídio de Getúlio  
e a subsequente comoção popular, o papel dos cordelistas nesse momento, inclusive de Cuíca  
de Santo Amaro, bem como traremos referências ao gênero que utilizou, os testamentos  
jocosos, cuja estrutura formata o cordel “O Testamento de Getúlio”. Por fim, analisaremos a  
construção do humor nesse folheto através dos seus legados jocosos.  
MORTE DE GETÚLIO, COMOÇÃO POPULAR E OS CORDELISTAS  
O suicídio de Getúlio Vargas, na manhã de 24 de agosto de 1954, reverteu o sentido uma  
crise política, aberta com a tentativa de assassinato do seu maior opositor, Carlos Lacerda,  
na noite de 5 de agosto, por pistoleiros contratados por membros da guarda pessoal do  
presidente, incidente que vitimou o major da aeronáutica Rubem Vaz. O atentado reforçou, nas  
semanas seguintes, uma campanha da maior parte da imprensa contra Getúlio, um inquérito  
policial militar com poderes excepcionais que procurou implicar pessoas próximas a ele, e  
ensejou um movimento cada vez mais abertamente golpista por parte das forças armadas e  
civis da oposição udenista. A pressão pela sua renúncia, enquanto se tramava a alternativa de  
um golpe, chegou a um fim inesperado com a divulgação do suicídio de Vargas e de sua carta-  
testamento.  
Ao receber a notícia, pelas rádios, alto-falantes, pela imprensa, pelos cordéis ou no  
boca-a-boca, a população pobre de várias grandes cidades brasileiras, inclusive capitais,  
manifestou tristeza e revolta pela morte do presidente, pela forma como ocorreu e por suas  
causas. Serviços públicos, empresas, escolas suspenderam suas atividades, e nas ruas se  
realizaram comícios e passeatas em prol do presidente falecido. Grandes manifestações do  
pesar ocorreram, por exemplo, na exibição do esquife no Palácio do Catete e no imenso cortejo  
que o conduziu ao aeroporto, locais onde a multidão se aglomerou, empunhou o retrato do  
presidente, chorou, e pessoas até passaram mal. Outro exemplo, evocando elementos da  
cultura católica, ocorreu em Salvador, onde se organizou, em 25 de agosto, uma caminhada  
noturna pelas principais ruas da cidade, com os caminhantes silenciosos empunhavam velas,  
que saiu da praça da Sé até a sede do PTB. Por outro lado, a fúria pelo desenlace político levou  
pessoas a atacarem símbolos nacionais ou estrangeiros das forças políticas opositoras a  
Vargas e, de alguma forma, consideradas responsáveis pelo suicídio. Ainda em 24, em ruas do  
centro do Rio e em Porto Alegre, prédios dos partidos udenistas, jornais de oposição, empresas  
e embaixada norte-americanas foram atacados, além de ocorrerem confrontos com a polícia  
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e forças armadas e de segurança na Capital Federal (FERREIRA, 2005; BAUM, 2004; FAUSTO,  
2006).  
Como bem apontou Jorge Ferreira em sua análise acerca dessas manifestações,  
elas “revelam ao historiador muitas das ideias, crenças, tradições, expectativas e a maneira  
como os homens comuns, em meados da década de 1950, organizavam a realidade social e  
política em suas mentes”, permitindo-lhe resgatar tanto “aspectos da cultura política da  
época, a importância de Getúlio Vargas na constituição de uma identidade coletiva da classe  
trabalhadora fundada no trabalhismo e a recusa ao projeto de modernização conservadora  
liderado pela UDN” como também os imaginários sociais conflituosos gerados pelas imagens  
e representações no contexto da crise de agosto de 1954. Para Ferreira, essas dimensões  
culturais da população comum tiveram uma importância social e política. Refutando as teses  
que colocam o protagonismo político apenas aos grandes atores do período e esvaziam a  
capacidade de intervenção da população, concebendo suas ações apenas como atitudes  
desesperadas e sem objetivos definidos, o autor defende que:  
o elemento que reforçou de maneira determinante o recuo dos golpistas foi a entrada no  
cenário político de uma multidão amargurada, revoltada e enfurecida que questionou, assustou  
e mesmo ameaçou o grupo oposicionista que se preparava para tomar o poder. A atitude  
inesperada de Vargas e as insurreições populares não encontraram respostas imediatas na  
oposição e nos círculos antitrabalhistas (FERREIRA, 2005, p. 167-168)  
Ao atuar através de folhetos noticiosos, os cordelistas se nutriram desse ambiente  
e contribuíram para propagá-lo no tempo e no espaço, realizando uma mediação cultural  
politicamente marcada: não apenas divulgaram informações como alimentaram a grande  
corrente de comoção e raiva contra a oposição, imediatamente após o suicídio. Sendo Getúlio  
o político mais representado pelos cordelistas, no período de apogeu da produção cordeliana  
como crônica dos eventos no século XX, não por acaso “a morte de Getúlio Vargas foi, se não  
o maior, certamente um dos mais grandiosos eventos políticos de toda a literatura de Cordel”  
(CURRAN, 2003, p. 133). Quase todos os principais cordelistas do período, em todo o país,  
escreveram sobre a morte de Getúlio. Entre outros, publicaram folhetos Delarme Monteiro da  
Silva (em Recife), José Estácio Monteiro (em Alagoas), Antonio Eugênio da Silva (Sulânia-PB),  
Manuel D’Almeida Filho, Antonio Fernandes da Nóbrega (em Natal), Joaquim Batista de Sena  
(em Fortaleza), Amador Santelmo e Azulão (no Rio), Antonio Teodoro dos Santos (em São Paulo),  
Minelvino Francisco Silva (em Itabuna-BA), e, em Salvador da Bahia, Rodolfo Coelho Cavalcante  
e Cuíca de Santo Amaro. Por essa atuação intensa, os escritos sobre a morte tiveram destaque  
dentre os “folhetos sobre Getúlio”, gênero de uma classificação popular, feita pelos próprios  
agentes, folheteiros e poetas de cordel, que Liedo Souza encontrou ao andar pelas feiras e  
mercados da Bahia ao Maranhão nos anos 1970:  
Folhetos de Getúlio. Alguns falam dos seus tempos de candidato, e a ele se referem  
como ‘defensor dos marmiteiros. Outros, do dia de sua morte, ‘data triste e pavorosa para todo  
brasileiro bom’. Alguns nos dão em versos a célebre carta-testamento e falam de sua chegada  
ao céu. Só sobre Vargas coletamos vinte e sete folhetos (SOUZA, 1976, p. 81).  
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Vivendo de folhetos destinados aos pobres, vários poetas escreveram mais de um  
cordel noticioso ou fantasioso sobre a morte do presidente, e a comoção gerada elevou  
as tiragens. A tiragem inicial média foi 10.000 exemplares, sendo que Delarme Monteiro da  
Silva vendeu 40.000 ou, segundo outras versões, 70.000 em três dias. As maiores vendagens  
registradas foram de Azulão (200.000 exemplares) e Antonio Teodoro dos Santos (280.000), e  
o total de exemplares vendido no período por todos os cordelistas deve ter sido de um milhão  
de exemplares, segundo estimativas de Raymond Cantel (LESSA, 1973, p. 120-121; CANTEL,  
1972, p. 5; ZUMTHOR, 1980). Mas a questão não foi apenas comercial, pois envolveu também as  
emoções dos cordelistas e do público. Rodolfo Cavalcante, em Salvador, comenta que “A morte  
de Getúlio foi no dia 24 de agosto de 1954, comecei a vender o folheto no dia 27... tinha filas na  
frente de casa, filas de revendedores, vendi 64 milheiros em duas semanas, foi o momento  
em que tive mais emoção como trovador.” (KUNZ, 1980, p. 224). O próprio Antonio Teodoro,  
em outro cordel escrito décadas depois (em 1987), representa o ambiente de divulgação dos  
folhetos e seu efeito sobre o público, nas praças, mobilizando e reforçando a comoção popular  
(Cf. CABRAL, 2008, p. 129-130):  
Mais de trezentos poetas  
Pelo país escreveram  
Folhetos sobre a tragédia  
Que os brasileiros sofreram  
Esses livros aos milhares  
Muitos milhões de exemplares  
Milhões de pessoas leram  
Nas feiras e praças públicas  
Lugares que houvesse gente  
Os livros eram vendidos  
E lidos rapidamente  
Contando num só sentido  
Como havia acontecido  
A morte do presidente  
Após aquela leitura  
Muitas pessoas choravam  
Sofrendo desenganadas  
Enquanto outras desmaiavam  
No meio das emoções  
Num mar de desilusões  
Sem esperança acordavam  
Após o suicídio, três ondas de produção de cordel sobre o presidente se sucederam  
no país. Logo no dia 24 de agosto surgiram aqueles que buscaram sair na frente da notícia  
e comoção e, por isso mesmo, com informações um tanto incompletas, que ouviam pelo  
rádio ou liam nos jornais. Delarme Monteiro da Silva, por exemplo, “ouviu a notícia pelo rádio,  
sentou-se na sua banca, redigiu seu primeiro folheto, que à tardinha estava na rua”, enquanto  
outros como Joaquim Batista de Sena e Antonio Fernandes de Nóbrega se lamentaram por  
não poderem aproveitar a onda de comoção imediata (LESSA, 1973, p. 120). Depois, aqueles  
cordéis que saíram nos dias seguintes, mais ricos em detalhes e fatos novos, que buscavam  
manter a persistência da emoção, voltando à carga após o primeiro folheto que vendeu bem,  
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inclusive com o expediente de colocar a data de publicação anterior à que efetivamente  
ocorreu. Por fim, com a persistência da comoção e da tensão política nos meses seguintes,  
que levou à procura sobre o tema se manter em alta, a produção dos cordelistas se voltou à  
diversificação, escrevendo sobre a vida e os feitos de Getúlio Vargas. Ou seja, “é nesse estágio  
que se desenvolve realmente a exploração consciente de um tema que deve toda sua força de  
sugestão à qualidade excepcional da emoção engendrada pela morte do herói” (CANTEL, 1972,  
p. 13; LESSA, 1973, p. 120-121).  
Até o momento não temos notícia de que algum cordelista se colocou contra ou  
criticou Getúlio Vargas. A esmagadora maioria, se não a totalidade, se posicionou a favor  
do presidente que se suicidou, revelando uma predileção política da categoria em prol do  
trabalhismo varguista, seja por convicção ou conveniência. Qualquer que seja a motivação,  
a atuação dos cordelistas ocorreu no sentido de aguçar tendências de representar Vargas no  
cordel que se avolumaram após o fim do Estado Novo e tiveram o ápice no episódio do suicídio.  
Primeiramente, os cordelistas evocaram o imaginário difundido quando ele estava vivo, “Pai  
dos Pobres”, defensor dos trabalhadores e do povo brasileiro contra os “tubarões” gananciosos,  
frequentemente citando suas realizações e legados positivos. Um exemplo aparece nos  
versos de Antonio Teodoro dos Santos, no folheto “Vida, tragédia e morte do presidente Getúlio  
Vargas”: “Assim lamentavam todos / que se lembravam de Vargas / Com suas leis trabalhistas  
/ Tirando as pesadas cargas / dos ombros dos operários / Adoçando com salários / As suas  
dores amargas.” (Cf. CABRAL, 2008, p. 29)  
Sobrepondo-se a essa representação, a morte levou Vargas a ser comparado com Jesus  
Cristo, quem foi traído, perseguido e humilhado injustamente, e ofereceu a própria vida em  
sacrifício para salvar o país. Tal relação era uma forma de atenuar o pecado do suicídio, dando-  
lhe um sentido sacrificial coletivo. Rodolfo Coelho de Cavalcante, em “A morte do grande  
presidente Getúlio Vargas”, é um dos mais explícitos: “Como o Cristo ofereceu / O seu corpo à  
Nação / Derramou seu próprio sangue / Ferindo seu coração / Todo povo brasileiro / Tem-lhe  
toda gratidão” (CAVALCANTE, 1954, p. 2). Completam essas referências míticas a representação  
que vários cordelistas fizeram da repercussão cósmica da morte de Getúlio, afetando a própria  
natureza ou o sobrenatural. Exemplos do primeiro aparecem no poeta Minelvino, de Itabuna,  
que escreve: “No dia que Getúlio Vargas / no Rio se suicidou / Houve um silêncio na terra / o  
mundo todo mudou / o vento ficou parado / o firmamento nublado / até a chuva estiou” (LESSA,  
1973, p. 116). Os impactos sobrenaturais aparecem nos folhetos sobre a chegada de Getúlio no  
céu, como um prêmio para sua atuação terrena em prol dos trabalhadores e, no seu julgamento,  
o suicídio sendo justificado pelas perseguições que enfrentou4.  
4Peloꢀmenosꢀcincoꢀcordelistasꢀseꢀdedicaramꢀaoꢀtema:ꢀ“PermínioꢀValterꢀLírioꢀ(‘AꢀchegadaꢀFestivaꢀdeꢀ  
GetúlioꢀnoꢀCéu’),ꢀCuícaꢀdeꢀSantoꢀAmaroꢀ(‘AꢀchegadaꢀdeꢀGetúlioꢀnoꢀCéu’),ꢀMinelvinoꢀFranciscoꢀdaꢀ  
Silvaꢀ(‘AꢀchegadaꢀdeꢀGetúlioꢀVargasꢀnoꢀcéu’),ꢀPedroꢀAlvesꢀdaꢀSilvaꢀ(‘AꢀdespedidaꢀdeꢀGetúlioꢀVargasꢀ  
depoisꢀdaꢀcartaꢀcomꢀaꢀchegadaꢀnoꢀcéuꢀeꢀasꢀpassagensꢀdoꢀfimꢀdoꢀmundo’)ꢀeꢀRodolfoꢀCoelhoꢀdeꢀCaval-  
canteꢀ(‘AꢀchegadaꢀdeꢀGetúlioꢀVargasꢀnoꢀcéuꢀeꢀseuꢀjulgamento’).”ꢀVerꢀLESSA,ꢀ1973,ꢀp.ꢀ132.  
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CUÍCA E GETÚLIO  
Fez parte do coro o cordelista de nome José Gomes (1907-1964) que, desde fins da  
década de 1930, utilizava o pseudônimo Cuíca de Santo Amaro. Era conhecido por vender  
cordéis noticiosos marcados, por um lado, pela denúncia aos problemas sociais e ataques ou  
elogios a políticos e, por outro, pela sátira de costumes com forte viés moralista, explorando  
com picardia o ridículo de fatos que lhe chegavam, aos ouvidos pelo rádio ou em conversas com  
informantes, ou aos olhos por jornais ou cartas, independente do estrato social. A depender do  
tema e dos alvos, Cuíca tinha problemas com a polícia, que apreendia os cordéis contrários à  
moral e aos bons costumes, ou apanhava das pessoas cujos feitos ou malfeitos eram divulgados  
pelo cordelista, por vezes após a negativa de chantagens dos alvos. Além do conteúdo dos  
cordéis, sua atuação em espaços públicos era espetacular, vestindo terno, chapéu e óculos  
escuros, portando cartazes com caricaturas das histórias, desenhados por Sinésio Alves.  
Atuava em locais de trânsito bastante movimentados da capital – praças, terminais de bonde,  
ônibus, trem e navio, ruas comerciais, feiras e mercados, elevadores – e do Recôncavo da  
Bahia, onde reunia grande número de espectadores, a maioria pobres e negros, que ouviam  
os anúncios das denúncias e dos recentes casos, escabrosos, extraordinários, picantes ou  
ridículos, que frequentemente os levavam às gargalhadas e a comprar os cordéis do poeta  
(CURRAN, 1990; MATOS, 2004).  
No período entre fins dos anos 1930 e fins dos anos 1970, Salvador se tornou o destino  
importante de um fluxo migratório, constituído por pessoas de baixa renda. No período, a cidade  
teve um crescimento demográfico inédito e vertiginoso, o maior de sua história: cerca de 290  
mil pessoas em 1940 para 417 mil em 1950, 649 mil em 1960, 1 milhão em 1970 e 1,5 milhões em  
1980. Sua população mais que quintuplicou em 40 anos, com taxas de crescimento em torno  
de 50% a cada dez anos (IBGE, s/d). Migrando sobretudo do Recôncavo, devido ao declínio do  
setor canavieiro e fumageiro, além do interior, por conta das secas, o principal afluxo foi de  
pessoas pobres baianas de origem rural, majoritariamente negras, com primário incompleto ou  
completo, e também analfabetos (SANTOS, 2008, p. 51-53; SOUZA, 1980, p. 103-123). Esse fluxo  
precedeu mas foi acirrado por conta da descoberta do Petróleo no Recôncavo e instalação  
de equipamentos da Petrobrás nessa região nos anos 1950, processo de modernização  
aprofundado nos anos 1960 e 1970 com a instalação do Complexo Industrial de Aratu e do Pólo  
Petroquímico de Camaçari. Assim, em um primeiro momento, o aumento populacional ocorreu  
em uma cidade que demorou mais de uma década para criar oportunidades de trabalho direto  
e indireto em diversos setores, inclusive operários e pequenos vendedores. Os efeitos desse  
processo no trabalho e na malha urbana foi comentado por Guaraci Souza:  
Éaltamenteprovável, portanto, quenoperíodode40/60tenha-severificadoumaumento  
do contingente de “excedentes de mão-de-obra” urbana, reproduzindo atividades organizadas  
em moldes não-capitalistas e acentuando o fenômeno alternativamente caracterizado como  
subemprego urbano, marginalidade social ou setor informal urbano. Uma boa indicação disto  
foi o surgimento e rápido crescimento, no período, de bairros de grupos sociais de baixa renda,  
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do tipo “favela” ou “invasão” (SOUZA, 1980, p. 107).  
Essa população pobre com algum grau de alfabetização foi o público visado pelos  
compositores e vendedores de cordel em Salvador, embora várias pessoas das camadas  
médias e altas também os consumissem. Não foi casual, portanto, que Cuíca tenha mobilizado  
a denúncia social em seus cordéis, sobre questões que afligiam essa população pobre, e  
também repercutido os mitos em torno da figura de Getúlio Vargas. Um importante indicativo  
é dado pelo principal editor de cordéis do período, João Martins de Athayde, em uma entrevista  
de 1944. Com base em suas informações, o jornalista comentou que, na Bahia, terceiro maior  
mercadoconsumidor(atrásdePernambucoeRioGrandedoNorte),osfolhetosdeAtaídepodem  
ser encontrados no Mercado Modelo, donde se espalham para todo o Estado, principalmente  
para o recôncavo, que é a zona mais interessada na literatura de cordel” (ATHAYDE, 1944, p. 3).  
Antes de compor seus próprios folhetos, Cuíca trabalhou como revendedor ambulante de  
cordéis editados por Athaíde e distribuídos pela banca “A Pernambucana”, de Nigro do Amaral  
Silva, que funcionou no Mercado Modelo de 1925 até os anos 1970. No início de sua carreira como  
profissional (MATOS, 2004, p. 23 e p. 70-72), Cuíca aproveitava o vapor e os trens para vendê-  
los também nas cidades do Recôncavo, embora os habitantes da região pudessem adquiri-  
los quando estivessem em trânsito por Salvador. Além disso, os cordelistas e vendedores  
ambulantes de cordel também compunham a referida camada trabalhadora atuando no setor  
informal urbano. Foi nessa época (1945) que o cordelista alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante  
se estabeleceu na capital baiana, para onde ocasionalmente também vinham, de Sergipe, os  
cordelistas João Baraúna e Manoel d’Almeida Filho, dividindo os espaços públicos, como a  
Praça Cairu, com cordelistas baianos, sendo Cuíca de Santo Amaro o mais conhecido (WANKE,  
1983, p. 118 e ss.).  
Dentre os cordéis políticos de Cuíca de Santo Amaro, Getúlio Vargas foi uma das  
personalidades mais exaltadas, um verdadeiro ídolo, que escreveu folhetos tematizando  
e normalmente defendendo o político gaúcho (MATOS, 2004, p. 90-92). Vários dos títulos  
publicados sobre ele ou sobre sua atuação, entre a saída da presidência em 1945 e seu suicídio,  
indicam o teor elogioso: “O regresso de Getúlio”, “A chegada de Getúlio à Bahia”, “A volta de  
Getúlio à sua Terra Natal”, “Getúlio volta ao Gramado”, “Deus no céu e Getúlio na Terra”, “O  
que dizem de Getúlio”, “Salve Getúlio Vargas!”, “A volta de Getúlio ou a marcha triunfal”5. Na  
contracapa de alguns folhetos, Cuíca chegou a conferir tintas explicitamente religiosas ao  
tom de louvação, visando a mobilizar as crenças dos leitores, como na “Oração do Getulista”,  
uma paródia do credo católico em que Getúlio figura como Deus e Jesus Cristo, que começava  
assim: “Creio em Getúlio Vargas, todo poderoso, criador das leis trabalhistas, creio no Rio  
Grande do Sul e no seu filho, nosso patrono o qual foi concebido pela Revolução de 30 (...)” (Cf.  
CURRAN, 2003, p. 128).  
Edilene Matos aponta como a relação de Cuíca transcendia a escrita dos cordéis, com  
elementos de admiração, projeção, mobilização da fama do presidente no espaço público,  
5 Destes só temos acesso aos dois primeiros. Os outros constam nas listas elaboradas por MATOS,  
2007; CURRAN, 1990.  
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como propaganda e autopromoção:  
É bom que se esclareça a grande ligação de Cuíca com Getúlio Vargas, com quem se  
identificava na condição de líder do povo que também era. A admiração de Cuíca extrapolou a  
pura louvação do folheto e enraizou-se na sua própria conduta. Quando o presidente Getúlio –  
de quem o poeta afirmava ser compadre e receber correspondência – esteve na Bahia, ganhou  
de Cuíca uma estatueta em gesso moldada com sua figura, cuidadosamente encomendada.  
Para conseguir chegar junto ao presidente e presenteá-lo, o poeta malandro e astucioso  
furou o cerco de segurança e conta que abraçou demoradamente seu ídolo, de quem recebeu  
elogios e agradecimentos pelo apoio constante e fiel, e a quem prometeu plena divulgação da  
proposta de governo (MATOS, 2004, p. 92).  
E comenta a reação de Cuíca após o suicídio do presidente:  
O suicídio de Getúlio abalou muito o poeta que, mal acordava, se punha a ouvir os  
noticiários nas várias emissoras de rádio, antes de sair à rua e difundir seus inflamados  
comentários. No dia 30 de agosto de 1954, foi assistir à missa de sétimo dia pela morte de  
Getúlio, que ele próprio tinha encomendado, na Igreja de Santa Luzia, na parte baixa da cidade,  
tendo então distribuído santinhos com o retrato do presidente e uma pequena oração (MATOS,  
2004, p. 92-93).  
Nos meses após a morte de Getúlio, Cuíca lançou pelo menos três folhetos relacionados  
ao tema: “O testamento de Getúlio”, que analisaremos a seguir, “O Suicídio do Maior Brasileiro”6  
e “A chegada de Getúlio no Céu”. O segundo provavelmente foi um dos primeiros a ser escrito,  
no calor das primeiras ondas e dos acontecimentos após o suicídio do presidente, e o último  
seguiu um velho macete dos trovadores, o de “conduzir seus personagens, as grandes figuras de  
atração popular, aos castigos do inferno ou às delícias do céu”, descritos em termos de sertão e  
Nordeste (LESSA, 1973, p. 131). Cuíca narra a chegada de Getúlio ao céu, onde vê amigos à espera  
como Francisco Alves, Roosenvelt e Noel Rosa, conta a Jesus sua história, suas atribulações,  
explicando as razões de sua extremada atitude e acusa várias pessoas, parentes inclusive,  
recebendo do Cristo uma promessa de vingança. Segue, portanto, as tendências mais amplas  
acerca da representação de políticos estimados que são características dos cordelistas, na  
qual “o céu subjacente das narrativas sobre a morte ou do pós-morte dos homens públicos, de  
maior destaque na cena política nacional, é apresentado como um ambiente tranquilo em que  
as articulações e acordos se mantém” (LIMA, 2020, p. 195).  
Outros cordéis políticos do poeta, lançados nos anos seguintes, continuaram a fazer  
referência a Getúlio e seus feitos, tomando-o como parâmetro máximo de moralidade política  
e dirigente preocupado com o povo. Em “Quem será o presidente?”, escrito no contexto das  
eleições de 1955, contrasta o legado do ex-presidente para o povo aos candidatos do pleito.  
Cuíca voltou a mobilizar o tema da morte em “O Espírito de Getúlio baixou na sessão”, no qual o  
autor recorre aos preceitos religiosos espíritas ao ficcionalizar como teria testemunhado uma  
6 Este título consta na listagem de cordéis de Cuíca elaborada por Edilene Matos, provavelmente  
também sobre a morte de Getúlio. Mas não temos maiores informações sobre esse cordel. MATOS,  
Edilene. Ele, o tal: Cuíca de Santo Amaro. Salvador: Fundação Pedro Calmon, 2007, p. 74.  
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médium receber um texto psicografado vindo de Getúlio, cujo texto contrasta as ações do seu  
governo a fim de criticar os feitos do presidente Juscelino Kubitschek. Em todos esses folhetos  
citados, e nos paratextos como a “Oração do Getulista”, Getúlio é tomado como um duradouro  
mito político, um “modelo exemplar do que deve ser e fazer a autoridade presidencial, isto é, a  
autoridade política máxima do país” (GOMES, 1998, p. 532).  
O que torna marcante o folheto “O testamento de Getúlio” de Cuíca é o fato de expressar  
melhor o “lado vingativo nas respostas dos poetas à morte [de Getúlio]” (CURRAN, 2003, p.  
137), levando adiante certa tendência de desforra já presente em “A Chegada de Getúlio no  
Céu”. Fazendo coro com outros cordelistas que publicaram após o suicídio, Cuíca também  
representa Getúlio como um herói do povo brasileiro que fora traído pelos seus inimigos.  
Porém, diferentemente deles, o tom não foi de lamento ou puro ataque, com associações  
diretas de Getúlio a Jesus Cristo, pois sua raiva foi expressa através da sátira humorística.  
Até onde temos notícia, Cuíca provavelmente foi o único cordelista a mobilizar o humor nesse  
contexto, e o fez de uma maneira bastante peculiar. Embora o título “O testamento de Getúlio”  
faça referência direta à famosa Carta-Testamento de Getúlio Vargas, sua forma e estrutura  
não ecoam ou parafraseiam o conteúdo da carta, como fizeram outros cordelistas do período,  
a exemplo de Francisco Sales, João Ferreira de Lima, Expedito Sebastião da Silva, José de  
Santa Rita Pinheiro Nogueira (LESSA, 1973, p. 122-124; CABRAL, 2008, item 3.4). A matriz do  
folheto de Cuíca são os testamentos jocosos.  
CUÍCA E A HERANÇA DOS TESTAMENTOS JOCOSOS  
Os testamentos jocosos parodiam um traço importante e até solene do direito desde  
os romanos, o triângulo testamento-morte-herança (atribuída a alguma pessoa ou grupo  
por determinado motivo), como ocasião para o riso, frequentemente com funções satíricas.  
Remontam aos testamentos de animais como o porco, cantado aos risos pelos estudantes  
romanos no século IV d.C., mencionados por S. Gerônimo. O do asno, que utiliza o anterior  
como fonte, existe pelo menos desde o século VII ou VIII, se difundiu no século XIII, integrando  
o vasto repertório humorístico dos monges jocosos, que parodiavam risonhamente aspectos  
da religião (BAKHTIN, 1987, p. 74; TEIXEIRA, 2017). Em Portugal e no Brasil, do século XVI ao XX,  
o gênero oral se prestou a sátiras religiosas e de costumes, inicialmente em festejos ligados à  
Quaresma, incluindo os testamentos de Judas, além de testamentos de animais e personagens  
malandras (CASCUDO, 1939, p. 53-58; MARQUES, 2014, p. 95-100; TEIXEIRA, 2017).  
O gênero dos testamentos jocosos passa a integrar a literatura de folhetos brasileira  
na segunda metade do século XIX, inspirada na enxurrada de testamentos portugueses sobre  
animais. LunaeSilvaanalisaumfolheto, queprovavelmenteestáentreasprimeiraspublicações  
no gênero no país, o “Testamento que faz um macaco especificando suas gentilezas, gaiatices,  
sagacidade, etc.” (Recife, 1865), cotejando-o com o “Testamento do gallo augmentado com o  
Testamento da gallinha” (Lisboa, 1861), em que características animais são usadas para abordar  
comportamentos humanos, respectivamente em tom irreverente ou moralista (LUNA E SILVA,  
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2010, p. 74-80). Os testamentos dos bichos estavam entre as maiores predileções populares da  
capital federal no início do século XX, como aponta João do Rio, de maneira nada simpática, ao  
investigar as publicações mais vendidas entre os livreiros das ruas cariocas. Indigna-se contra  
a persistência deste gênero cômico e de outros mais heroicos, de crimes ou sensacionalistas,  
segundo ele importados de Portugal e que circulavam no Rio pelo menos desde 1840 (RIO,  
1995, p. 48-49). Os livreiros informam a João do Rio que os testamentos ainda eram bastante  
procurados, com tiragens muito superiores às obras dos renomados literatos nacionais (RIO,  
1995, p. 50). Foi essa persistência de gosto e predileções dos leitores das camadas populares  
brasileiras pelos testamentos que, na mesma época, levou Leandro Gomes de Barros a atuar  
no gênero, já como autor de folhetos profissional em Pernambuco. Publicou “A Vida de Cancão  
de Fogo e o seu testamento”, contando as peripécias de um finório ladrão que engana um juiz  
e um escrivão no leito de morte; e, na linha dos testamentos dos bichos, lançou “O Dinheiro, ou  
o testamento do Cachorro”, que conta como um cachorro de um inglês foi enterrado na igreja  
após deixar em testamento vultosa soma ao bispo e ao vigário, satirizando a venalidade do  
clero (MARQUES, 2014, p. 95-100).  
Também é possível rastrear testamentos políticos no século XIX. Em Portugal, um dos  
vários exemplos satíricos é o “Testamento que fez o D. Quixote da França”, datado de 1813, com  
referência direta às invasões de Napoleão Bonaparte, ou, após a revolta Liberal do Porto, em  
prosa, o crítico “Testamento que fez à hora da Morte a Ilustríssima e Excelentíssima Senhora  
D. Constituição”, de 1823 (TEIXEIRA, 2017, p. 190-197). No Brasil, Câmara Cascudo menciona  
o testamento de figuras políticas em fins do XIX, como o testamento do político Joaquim  
Apolinário de Medeiros, de 1886, transmitido pela mãe do autor e ainda lembrado por ele em  
1939 (CASCUDO, 1939, p. 53-58). Até sobre a história de Vargas há precedentes nos folhetos do  
Rio, com o “Testamento d’Ele” ou “Testamento de Gegê”, publicado por Camaleão em 1945, e  
composto em quadras, distanciando-se da tradição nordestina (DIEGUES JÚNIOR, 1973, p. 14).  
Cuíca se apropria das antigas formas orais e das transposições escritas desse  
gênero jocoso, especialmente os testamentos de Judas, ainda persistentes em Salvador do  
período. O memorialista soteropolitano Geraldo Leal, referindo-se aos anos 1930, informa  
que os testamentos de judas impressos e vendidos por gráficas eram aguardados pelos  
que festejavam o Sábado de Aleluia. Folhas com o texto eram colocadas no bolso da calça  
do boneco representando Judas, e sua leitura pública era feita à noite, em uma das ruas  
dos bairros, antes da malhação do boneco. Entre as características do testamento, eram  
anônimos, “quase sempre grotesco, sem métrica e, às vezes, terminava em pancadaria”, além  
de “sempre atacavam políticos, negociantes desonestos e outras motivações” (LEAL, 2000,  
p. 163). O mesmo memorialista registra que, nessa década, antes de compor cordéis, José  
Gomes, condutor de bondes e tintureiro no Largo de Santo Antonio, também era conhecido  
nas redondezas por compor testamentos de Judas (LEAL, 2000, p. 70).  
Duas décadas mais tarde, Carlos Ott registrou dois jocosos testamentos de Judas,  
compostos em quadras, que circulavam em Salvador durante a Quaresma, um deles adaptado  
aos bairros da cidade. Comenta Ott que este último “é um desses testamentos de Judas,  
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impressos numa folha verde, com a figura de judas enforcado numa árvore no meio que no  
sábado de aleluia se distribuem nas ruas e nos bondes”. Tinha tanto legados positivos, como  
“Em primeiro lugar / À miss do Ferreira Santos / Deixo um apertado abraço / E o meu livro de  
cantos”, e outros negativos, com tiradas satíricas voltadas a pessoas conhecidas de bairros da  
cidade, como “Às mateiras da Liberdade / Que são muito arruaceiras / Por tanta Barbaridade /  
Deixo minhas velhas esteiras”, ou satirizando profissões: “Motorneiros, condutores / Inspetores  
e fiscais, / Metidos a grans senhores / [deixo] Os meus sujos enxovais”, ou então “Enfim para  
os taverneiros / Que ao povo vive explorar / Deixo um xadrez no inferno / Para os seus crimes  
pagar” (OTT, 1957). Ao relacionar pessoas ou grupos ao legado devido, as alusões a pessoas e  
referências ou estereótipos sobre os bairros e profissões oscilam entre deboches brincalhões  
e irrupções de ressentimentos sociais arraigados, em um tom próximo ao que Cuíca mobilizou  
em seu folheto.  
Cuíca constrói seu texto com essa referência formal, fazendo uma paródia política dos  
testamentos de Judas, pressupondo o contexto festivo satírico que era familiar à população  
soteropolitana. Ao invés de composto em quadras, o “Testamento de Getúlio”, de Cuíca de Santo  
Amaro (em anexo), segue o formato nordestino. É um folheto de 8 páginas, capa ilustrada com  
rosto de Getúlio, e 8 páginas com 32 estrofes de seis versos, sextilhas que rimam o 2º com o  
4º e 6º verso. Ao contrário de grande parte dos folhetos políticos de Cuíca, que geralmente  
trazem uma narrativa, “O testamento de Getúlio” segue a forma dos testamentos jocosos. A  
maior parte das estrofes apresenta a herança ou heranças do morto a uma pessoa, junto com  
os motivos do legado e às vezes características do herdeiro. Embora não haja continuidade de  
uma estrofe a outra, tornando cada estrofe semelhante a uma piada, é possível perceber um  
andamento.  
Se a referência e o chamariz maior do título é a morte de Getúlio Vargas em 24 de agosto  
de 1954, o conteúdo do testamento faz referência direta a outros eventos políticos próximos,  
separados por poucos meses: o atentado da Rua Tonelero (em 5 de agosto), a pressão e  
campanha dos opositores pela renúncia de Vargas (que durou até o suicídio), e as eleições  
de 3 de outubro, as quais, na Bahia, elegeram senadores, deputados federais e estaduais,  
governadores, prefeito e vereadores. A eles mais ou menos correspondem as partes do folheto:  
uma introdução de praxe, com 3 estrofes, que trata como “o grande Getúlio Vargas” deixou um  
testamento; 7 estrofes contra personagens do atentado da rua Toneleiro; 10 estrofes com  
personagens da política nacional (3 familiares, 4 opositores e 3 aliados); 8 estrofes seguintes  
sobre políticos baianos, atuantes no Rio e na Bahia; e, mais ao fim, 4 estrofes com legados para  
sete grupos sociais (aqui, em algumas estrofes, Cuíca se refere a mais de um grupo).  
Este andamento, com partes bem marcadas do folheto orientadas a eventos distintos,  
parece indicar que elas foram escritas em momentos diferentes. Outro detalhe, que pode  
evidenciar uma escrita fragmentada, é a mudança da voz a partir da 12ª estrofe: da 3ª pessoa  
([Getúlio] deixou para...) para a 1ª do singular (deixo para...), quando encerra as estrofes  
referentes às personagens envolvidas no atentado a Lacerda. Outro indício de uma escrita  
rápida para divulgação, com reaproveitamento de versos, é a repetição da expressão “se não  
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estou enganado” em dois versos de estrofes iniciais (5ª e 6ª), referentes a Climério e Alcino,  
executores do atentado da rua Toneleiro, uma hesitação que pode indicar que Cuíca ainda não  
estivesse plenamente informado sobre o caso quando os redigiu. Reforça essa impressão a  
própria capa do folheto, elaborada para pedir votos na campanha do PTB às eleições de 1950,  
aqui foi reaproveitada para noticiar a morte de Getúlio. O reaproveitamento de imagens de  
capas para cordéis de assuntos diferentes era uma prática comum de Cuíca e também de  
Rodolfo Coelho Cavancanti.  
De qualquer forma, esse testamento sintetiza as posturas políticas presentes nos  
folhetos políticos de Cuíca: elogia políticos e personalidades, ataca satiricamente seus  
adversários e adversários de quem ele simpatiza, vocifera contra as agruras causadas pela  
elite política e econômica ao povo e aos trabalhadores, ao lado dos quais o poeta se alinha.  
Podemos perceber essa síntese através da análise da distribuição da herança, em uma escala  
de sete categorias, que vai da extrema punição até os prêmios duradouros, com quatro legados  
negativos e três positivos (ver a esquematização no apêndice).  
Neste cordel, os mais duradouros ganhos vão para o “povo brasileiro”, que recebe as  
Leis Trabalhistas”, e para “todo trabalhador”, que recebe direitos e um Ministério do Trabalho  
para fazer valê-los. Esse legado se nutre e reforça a imagem de Getúlio como comprometido  
com o povo e a classe trabalhadora, afirmada nas primeiras estrofes, e, por extensão, a de  
Cuíca como sua voz. Abaixo dela estão os prêmios decorrentes da eleição de outubro de 1954,  
mais passageiros, para figuras da grande política baiana às quais Cuíca se mostra simpático:  
o governador Antônio Balbino, os senadores Juracy Magalhães e Lima Teixeira, o prefeito de  
Salvador Hélio Machado. Acaba sendo uma forma de Cuíca noticiar pelo cordel o resultado das  
eleições, de maneira comentada e se posicionando. Nessa categoria se enquadram também  
outros prêmios, como o prestígio político do governador que deixa o cargo, pois o legado para  
Régis Pacheco faz referência a uma marcante realização de seu mandato, o início da construção  
da hidrelétrica de Funil, no interior baiano. O prêmio econômico, como o cofre da nação, é dado  
a duas classes conectadas, aos candidatos e marreteiros, para pagar dívidas de campanha. A  
inclusão dos marreteiros, aqui no sentido de trapaceiro, dota esse legado de ironia a respeito  
das práticas eleitorais. As ironias abundam no item a seguir, que contém prêmios irrisórios  
ou jocosos, legados a aliados e opositores: João Goulart recebe uma nota escrita incitando-o  
a deixar a política, Caiado de Castro um alazão “para cair fora”, Benjamin Vargas os selos da  
nação “para as horas amargas”, Simões Filho uma barba postiça e um bode (para aumentar  
a mamata), Juarez Távora a Casa da Moeda para que a defenda, e Góes Monteiro a adega de  
Getúlio.  
Os legados negativos também podem ser dispostos em uma escala. No primeiro grupo  
estão aqueles legados que atingem o psicológico dos herdeiros. À mulher de Vargas, Darcy,  
embora elogiada, Cuíca deixa “as minhas tristezas”, o que leva a construção da imagem neutra  
apesar do prêmio negativo. Já em relação às duas outras personalidades a ambiguidade  
desaparece, pois ambos se ligam indiretamente ao crime da rua Toneleiro: a Lutero Vargas,  
filho do presidente, é legado o fantasma desse evento, pois à época ele chegou a ser apontado  
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como mandante do crime; e Eduardo Gomes, candidato contra Vargas duas vezes derrotado,  
também envolvido nas investigações da Aeronáutica, legou a imagem da sua caveira. Em outro  
grupo de herança, esse aspecto macabro é levado às vias de fato, com legados sugerindo  
uma pena radical, a morte dos herdeiros: a Climério é deixada “a porta do cemitério aberta”,  
a Manhães “aquele velho revolver”, ao Euvaldo Lodi “uma garrafa de veneno”, ao Valente “um  
bom osso / e a minha velha espada / para cortar-lhe o pescoço”, ao Mangabeira “um frasco de  
formicida / para ele se matar / e a minha velha cova, para ele se enterrar”, e ao Joel Presídio  
“um atestado de óbito e uma velha sepultura”. Os três primeiros foram indiciados por no  
Inquérito Militar Policial referente ao atentado da rua Toneleiro, um deles com participação  
direta. Os outros participavam da política baiana: Joel Presídio era deputado estadual pelo  
PTB, enquanto Octávio Mangabeira, ex-governador, era um histórico adversário de Getúlio  
Vargas que também protagonizou a campanha pela sua renúncia ou para sua deposição. Em  
outro grupo, mais diverso, a pena é menos radical, traz algum prejuízo social mais amplo. Aos  
envolvidos no atentado, por causa da traição, ficam a prisão e julgamento, como a Gregório  
(“grades do Galeão”) e Mendes de Morais (“ficará o tribunal”). Ao vice-presidente udenista Café-  
Filho, pela conspiração e sucessão, ficam “as dívidas da Nação”, um grande problema. Os dois  
últimos prejuízos sociais se destinam a classes, os derrotados na eleição, que legam o “exílio  
no estrangeiro”, e os Tubarões, aos quais restam os castigos do Ministério do Trabalho. Por fim,  
o último grupo de heranças é integrado por quem provocou as maiores desgraças a Getúlio  
Vargas, que recebem punições sobrenaturais, em proporções diferentes: ao pistoleiro Alcino,  
quem matou Eduardo Vaz, fica “a maldição”, e ao jornalista Carlos Lacerda, feroz opositor de  
Vargas, “por ordem do Pai Eterno” ficaram “as caldeiras do inferno”.  
O HUMOR NO FOLHETO “O TESTAMENTO DE GETÚLIO”  
A fantasia da distribuição da herança de Getúlio permite a Cuíca fazer algumas coisas.  
Primeiro, reafirmar o mito de Getúlio Vargas como “Pai dos Pobres”, “Amigo do Povo”, expresso  
pelos seus legados e também pela caracterização do ex-presidente como “grande”, “brasileiro  
cem por cento”, “espírito muito forte”. Essa imagem que o próprio Cuíca se arroga ao se tornar,  
pelo texto, a voz das aspirações do presidente suicidado, fazendo com que o movimento de  
legitimação entre o mito e o cordelista seja de mão dupla. Segundo, elogiar os vencedores  
da eleição de outubro de 1954 por quem nutre alguma simpatia ou talvez almeje favores,  
promovendo-os junto ao público local. Terceiro, atacar aqueles que prejudicaram Vargas, seus  
adversários políticos e a quem o próprio Cuíca nutre antipatias, integrando, aproveitando e  
mobilizandoosentimentogeraldeindignaçãopelamortedoex-presidente.Parafuncionarjunto  
ao público, cada aspecto acima elencado necessita de exigência crescente de familiarização  
com o contexto da época: a imagem de Getúlio e sua ligação ao trabalhismo era conhecida  
há duas décadas, fazendo com que a referência seja compreendida quase imediatamente. Os  
resultados das eleições e suas repercussões deveriam estar na ordem do dia e faziam parte do  
noticiário e da vida política soteropolitana de fins de 1954. Já o rol dos nomes envolvidos nos  
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escândalos, das inimizades e antipatias de Vargas e Cuíca exigia familiaridade do ouvinte ou  
leitor com a dinâmica política do noticiário nos meses precedentes para serem compreendidos,  
sendo que, em alguns dos legados relatados no folheto, tal familiaridade devia ser estendida à  
cultura política do período.  
Uma parte do humor no folheto requeria essa familiaridade. Primeiramente, aquele  
marcado pelas ironias, melhor exemplificado no legado a Góes Monteiro: “Ao amigo Góis [sic]  
Monteiro / Eu sei que ele não nega / Como já está usado / Não pode fazer mais piega / Deixo  
pro seu governo / A chave da Minha adega”. Aqui há referências à atuação de Góes junto a  
Getúlio em fins dos anos 1930, a reconciliação nos anos 1950, a idade e problemas de saúde e,  
principalmente, sua relação com a bebida, motivo de zombarias e piadas, que Cuíca mobiliza  
para compor o gancho final do verso. Alguma familiaridade seria também requerida para  
entender os legados negativos, relacionados à oposição de figuras políticas a Getúlio, como  
Eduardo Gomes “Por querer minha cadeira”, referência às suas duas derrotas nas eleições de  
1946 e 1950; a todas aquelas pessoas envolvidas no episódio do atentado, ou Café Filho, que  
herdou “as dívidas da Nação”, em referência aos problemas econômicos do governo Vargas.  
Mesmo as pessoas que não são abertamente alvejadas, ou próximas ao ex-presidente, podem  
ensejar humor pela situação, como é o caso de João Goulart, que recebe uma recomendação  
para sair da vida política, ou Caiado de Castro, que recebe um alazão para fugir. Nesse caso,  
a referência é feita à crise política e institucional, com uma situação futura negativamente  
percebida e projetada por Cuíca, se tornando engraçada por ser o contrário das atitudes  
esperadas de líderes políticos ou militares.  
Porém, mesmo a quem escapasse esses subentendidos poderia desfrutar do humor  
do cordel, que se manifestava nas palavras usadas no texto. É nesse nível que funciona o  
direcionamento de Cuíca contra as pessoas e constrói imagens acerca delas, fossem elas  
conhecidas publicamente ou não. Primeiramente, Cuíca relaciona nomes dos herdeiros a  
atributos, disposições e ações que caracterizam, para o ouvinte, de maneira jocosa, sua  
pessoa, abertamente ofendendo-as. Como exemplo de características, algumas forçadas  
para caber na rima, o deputado Euvaldo Lodi é apresentado como “ganancioso” ao achar que  
“seu lucro era pequeno”, Alcino como “sujeito cretino”, Climério “jamais teve critério” e Góes  
Monteiro “já está usado” (velho). Com disposições emotivas exageradas aparecem Mangabeira  
“só por ele me odiar”, e Joel Presídio “pela sua bravura / e viver ofendendo / toda e qualquer  
criatura”. Dentre as ações mais citadas, que depõem contra o caráter de quem as executa,  
está a traição, referenciada contra Gregório “para o mesmo pagar o preço da sua traição”,  
Mendes de Morais “o qual eu fiz general / e depois me traiu”, e o próprio filho Lutero Vargas.  
Para aqueles familiarizados com a tradição católica e/ou dos testamentos jocosos, poderiam  
associar essas personagens à figura bíblica de Judas Iscariotes, cuja traição levou os inimigos  
fariseus a crucificarem Jesus, aqui associado a Getúlio. Essa era um dos talentos de Cuíca,  
pelo qual ficou notabilizado, o de utilizar as palavras com sentido ofensivo porém engraçado,  
para criar uma disposição social acerca de uma determinada pessoa.  
Outra fonte da sátira do texto está no teor exagerado de algumas heranças. A morte  
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aparece abundantemente, através de metonímias que se referem a objetos usados para matar  
(revolver, espada, veneno, formicida), substantivos que evocam imagens associada à morte  
(caveira, ossos, cemitério, fantasma, cova, sepultura, atestado de óbito) e verbos ligados ao  
morrer (se matar, se enterrar, cortar o pescoço). A Otávio Mangabeira é legado “um frasco de  
formicida / para ele se matar / e a minha velha cova / para ele se enterrar”, a Joel Presídio “um  
atestado de óbito / e uma velha sepultura”, a Euvaldo Lodi “deixou como lembrança / uma garrafa  
de veneno”, a Valente “(...) um bom osso / e a minha velha espada / para cortar-lhe o pescoço”, e  
a Climério “deixou também aberta / a porta do cemitério”. O efeito satírico, humorístico, advém  
do contraste entre os versos nos quais nomeia e caracteriza o herdeiro e esse legado macabro.  
Tais legados negativos funcionam como forma de desforra, compensando simbolicamente  
a injustiça do suicídio de Vargas, direcionando aos alvos a raiva pela perda do líder querido,  
fazendo alguns adversários pagarem na mesma moeda. À semelhança dos outros cordelistas  
nordestinos,Cuícamobilizaparaseurisosímbolosmacabros,expressosemimagensconcretas,  
alguns longamente presentes na cultura das camadas pobres da população. Ria ao pé da cova,  
empurrando os adversários e desafetos para dentro dela, em gesto de vingança.  
Ao maior opositor político de Vargas no período é reservada a punição mais extremada  
possível: “Para o Carlos Lacerda / Incluir no seu caderno / Deixou-lhe Getúlio Vargas / Por ordem  
do Pai Eterno / Para este jornalista / As caldeiras do inferno”. É a única estrofe onde intervém  
poderes sobrenaturais de maneira explícita e concreta, ecoando os dois mais importantes  
espaços e personagens do além-vida na concepção do catolicismo, especialmente o popular,  
à qual a maior parte da população brasileira era devota no período. Aqui a luta entre forças  
políticas ganha revestimento mítico, estendendo-se além da vida terrena, com Getúlio no Céu  
junto com Pai Eterno, (um eco do folheto A Chegada de Getúlio no Céu) e Carlos Lacerda com  
uma punição exemplar que perdura após a morte, uma dor pela eternidade sofrida de modo  
concreto, pelo fogo que queima a pele, no espaço dominado pelo Diabo. Mesmo quem não  
conhece Lacerda, tem a impressão que “esse jornalista” é a pior pessoa possível, execrável,  
impressão que aumenta quando se conhece sua atuação contra Vargas. Cuíca busca colar essa  
imagem nele a partir de significados religiosos cristalizados, conscientes ou inconscientes,  
que contrasta com a esfera política moderna. Tanto essa mudança brusca do plano discursivo  
quanto o flagrante exagero da imagem são fontes de humor.  
Assim, em partes do cordel “O testamento de Getúlio”, o humor é construído pela  
mobilização e cruzamento de três dimensões: (1) a referência às circunstâncias políticas, colada  
aos personagens e eventos do momento, de historicidade rápida; (2) a mobilização de técnicas  
humorísticas mais universais, ambiguidade, gancho verbal, ironias, sobreposição de scripts,  
exageros etc.; (3) elementos culturais de longa duração, como as imagens e significados  
calcados no catolicismo popular brasileiro, suas referências macabras e religiosas. Se as  
circunstâncias e personagens oferecem a matéria-prima da ordem do dia para o cordel, serão  
o gênero do testamento jocoso e as imagens macabras e religiosas importantes recursos que  
transmutam o mero ataque em sátira. O gênero e as imagens introduzem o elemento de fantasia  
e o enquadramento a partir do qual as técnicas humorísticas serão empregadas, para lhes dar  
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o caráter de jogo, e também carregam significados socialmente valorados, que permitem ao  
leitor captar o padrão moral explícito e/ou subjacente (no caso, o trabalhismo) e a distância  
do assunto (legado) em relação a ele, positivo ou negativo. Tais referências culturais também  
permitem inferir o público-alvo de Cuíca, especialmente as camadas pobres de Salvador dos  
anos 1950, familiarizadas com o suporte, formato e gênero – o testamento jocoso publicado em  
um folheto nordestino com versos em sextilhas.  
Se a própria estruturação do folheto como testamento já introduz um elemento de  
jogo e fantasia na relação de Getúlio com seus herdeiros fictícios, é na estrofe contra Carlos  
Lacerda que Cuíca dá um maior acabamento a essa construção. Aqui, o liberalismo de Lacerda  
e o trabalhismo de Vargas são transformados em polos políticos extremados (ignora-se o  
comunismo); em seguida a figura mitificada de Vargas e suas benesses aos trabalhadores  
transformam o trabalhismo na régua moral fonte de todo o bem do país; e, então, esse  
esquematismo político polarizado é traduzido em termos religiosos. O efeito da operação  
é triplo: a polarização política é dotada de um caráter cósmico, é revestida de imagens  
culturalmente arraigadas, e o campo semântico orienta a valoração – Getúlio é associado  
ao Céu e Lacerda ao Inferno. Vale para essa caricatura verbal de Cuíca aquilo que Gombrich  
comentou acerca da sátira pictórica: acredite o público literalmente no inferno ou o tomem  
metaforicamente como significando o mal ou culpa extrema, a imagem mobilizada tem eficácia  
por sua atuação semiconsciente ou inconsciente a partir de sua presença na linguagem e, por  
isso, se tornam manancial de motivos e estereótipos para os artistas, especialmente aqueles  
que desejam atacar a persona social de algum alvo (GOMBRICH, 2003). Desse modo, Cuíca  
associa a pessoas do cenário político local e nacional imagens cristalizadas que orientam e  
formatam conceitos e emoções de seus ouvintes e leitores. O poeta busca criar ou modificar  
as disposições de seu público através da fixação de representações aos nomes que menciona.  
É importante lembrar que o uso do grotesco e do macabro, de referências religiosas e  
sobrenaturais, da ironia e elementos das circunstâncias estão presentes em outros poemas  
satíricos, de outros períodos, no qual Cuíca atacava políticos e outras categorias sociais.  
Porém, este cordel específico, que parece ter sido escrito em momentos diferentes de 1954  
com uma distância de meses, foi publicado quando a produção cordelística nordestina já saíra  
do tom noticioso acerca do suicídio e explorava melhor os feitos e a vida do presidente, mesmo  
fazendo referência à sua morte. Então, com relativo atraso, voluntário ou não, em relação ao  
dinâmico circuito do cordel noticioso nordestino, a primeira e a segunda parte do testamento  
elaborado por Cuíca contribuem para a perpetuação satírica do sentimento de raiva e desforra.  
Um sentimento destilado pela população pobre logo após suicídio de Getúlio, a qual chegou a  
realizar ataques a pessoas e símbolos da oposição e as pessoas que prejudicaram o presidente,  
e alimentada pelos cordelistas profissionais ou amadores. Simbólica e satiricamente, Cuíca  
manteveamesmaposturaemseufolheto, reavivandonopúblicoamemóriadoloridadasinjúrias  
e das traições, com nome e sobrenome, contra um Getúlio já mais mitificado. Lembremos  
também que a referência aos testamentos de Judas evocava a familiaridade do público com um  
tipo de sátira comunitária cujo sentimento de raiva estava presente na malhação do boneco,  
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com sentido de expiação dos males pela morte de Cristo. Ao mesmo tempo, alguns legados  
irônicos parecem expressar a descrença do autor na política nacional, seu potencial como  
instância de mediação para conduzir os assuntos estatais e sociais, especialmente favorecer  
a população mais desamparada.  
Na última parte do folheto as coisas aparecem de maneira diferente: a felicitação aos  
eleitos no pleito baiano e reafirmação da perenidade dos legados ex-presidente para proteger  
e beneficiar o povo e o trabalhador parecem expressar confiança no mito Getúlio Vargas (já  
feita inclusive por outros cordelistas) e na política regional, no testamento simbolicamente  
legitimada pelos elogios do presidente morto aos eleitos. Não por acaso nesta parte o humor  
reflui, sendo a sátira pessoal aplicada pontualmente a um desafeto regional (Joel Presídio) e  
dirigindo-se levemente a dois grupos, aos derrotados na eleição, por sua má fortuna, e aos  
tubarões, alvo da ação de Getúlio, o que reafirma a imagem de Pai dos Pobres. Apenas em  
uma única estrofe dessa parte Cuíca se vale da ironia, quando deixa o cofre da nação aos  
candidatos e aos marreteiros, ironia que parece uma piscadela no meio dos elogios, ao apontar  
e descortinar o funcionamento patrimonialista do sistema político.  
CONCLUSÃO  
Àluzdoqueanalisamosatéaqui,talvezvalhaentãoaconstataçãodeMarkCurran,segundo  
o qual “o testamento tal como descrito por Cuíca é cínico e amargo, e, deixa pouca esperança  
para o futuro” (CURRAN, 1990, p. 172). Ou, precisamente, um momento amargo, colado ao clima  
gerado pelo suicídio de Getúlio e ecoando suas dores e raivas, por meio sátiras pessoais que  
não visam corrigir mas sim destruir aqueles que prejudicaram o presidente, e de ironias que  
expressam descrença no sistema político e econômico. É seguido por um momento cínico, no  
qual se afirmam o mito Getúlio Vargas e as utopias trabalhistas, cujas sombras se projetam em  
um importante instante da democracia brasileira como as eleições, sem deixar de enxergar  
suas brechas nos objetivos subterrâneos daqueles que sempre lucram. De qualquer forma, é  
notável como o folheto “O Testamento de Getúlio” apresenta uma pluralidade de percepções e  
sentimentos, por vezes contraditórios, expressos por meio de recursos humorísticos, e sob  
diversas formas e artefatos culturais familiares a seu público, em diálogo com os processos  
históricos de meados dos anos 1950.  
Acreditamos que analisar e contextualizar o cordel seja uma primeira contribuição  
de nosso texto, já que apresenta uma peculiar intervenção humorística acerca de uma crise  
políticanacional, suarepercussão regionalna Bahia, a partirde suportes e gêneros nordestinos,  
cujo conteúdo mobiliza formas culturais familiares e de grande repercussão entre as camadas  
pobres, ao lado do mito em torno de Getúlio Vargas. Essa análise também nos previne de  
desconsiderar a complexidade que pode estar presente em artefatos considerados “populares”,  
como o cordel, especialmente o cordel humorístico. Ao mesmo tempo, considerando o  
projeto mais amplo de uma história cultural do humor brasileiro e sua relação com o espaço  
público, permite mapear formas e matrizes humorísticas cuja trajetória se distingue embora  
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dialogue com circuitos hegemônicos de produção e circulação cultural, especialmente os  
grandes meios de comunicação de massa como a imprensa, cinema, o rádio e a televisão. E a  
perceber como a sátira áspera, amarga, permeada pelo macabro, grotesco, com referências  
e tendências mítico e religiosas, antecedem as formas que emergiram com a internet. Ajuda  
a entender, portanto, caminhos, processos históricos, das representações, circuitos e usos  
do humor por mediadores culturais, inclusive em momentos de grande crise e comoção, onde  
menos esperamos que elas ocorram.  
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PODER, VIOLENCIA Y HUMOR  
PODER, VIOLÊNCIA E HUMOR  
POWER, VIOLENCE AND HUMOR  
ANA BEATRIZ FLORES1  
https://orcid.org/0000-0002-7881-2856  
Recebido em: 09 de maio de 2025.  
Revisão final: 07 de dezembro de 2025.  
Aprovado em: 16 de janeiro 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23367  
1 Licenciada em Letras, Mestre em Sociosemiótica e Doutora em Letras. Atuou como professora de  
Teoria e Metodologia Literária I e Teoria dos Discursos Sociais I na Faculdade de Letras, Universidad  
Nacional de Córdoba (UNC) até a sua aposentadoria, em 2016. E-mail: anabflꢀor@gmail.com  
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RESUMEN: El objetivo de este artículo es presentar algunas características del humor político  
de extrema derecha actual ejercido por actores sociales desde una posición de poder.  
También se discutirá cómo el humor paródico de un programa de televisión, Peter Capusotto  
y sus videos, expuso esa construcción sociopolítica con el personaje Micky Vanilla muchos  
años antes, como un síntoma inadvertido. Y, de manera resumida, presentaremos un poco de  
la resistencia callejera bien humorada que se está generando contra el fascismo.  
PALABRAS CLAVE: humor político, violencia, parodia, resistencia.  
RESUMO: O objetivo deste artigo é apresentar algumas características do humor político de  
extrema direita atual exercido por atores sociais a partir de uma posição de poder. Também  
será discutido como o humor paródico de um programa de televisão, “Peter Capusotto e seus  
vídeos”, expôs essa construção sociopolítica com o personagem “Micky Vanilla”, muitos anos  
antes, como um sintoma despercebido. E, resumidamente, apresentaremos um pouco da  
resistência de rua bem-humorada que está sendo gerada contra o fascismo.  
PALAVRAS-CHAVE: humor político, violencia, parodia, resistência.  
ABSTRACT: The objective of this article is to present some characteristics of current far-right  
political humor exercised by social actors from a position of power. It will also discuss how the  
parodyhumorofatelevisionprogram,PeterCapusottoysusvideos,exposedthissociopolitical  
construction with the character “Micky Vainilla” many years earlier as an unnoticed symptom.  
And briefly, we will present some of the humorous street resistance generated against fascism.  
KEYWORDS: political humor, violence, parody, resistance.  
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Laexpectativahabitualquesegeneraconeltítulohumorypoderesquesevaadesarrollar  
cómo el humor trata al poder (ridiculizándolo, caricaturizándolo, etc.) pero en esta ocasión, y  
siguiendo una tendencia de época, nos vamos a centrar a la inversa: cuál es la relación de los  
poderosos con el humor, cómo intentan, actores de extrema derecha, construir la complicidad  
de la audiencia. Haremos referencia también a cómo el humor paródico de un programa  
televisivo, “Peter Capusotto y sus videos”, acusó esta construcción socio política de la extrema  
derecha con el personaje “Micky Vainilla”, muchos años antes que se manifestara en las esferas  
dominantes y en buena parte de la sociedad como un síntoma que estaba pasando inadvertido  
para amplios sectores. Y brevemente, trataremos también la resistencia que se genera contra  
el fascismo en diversas manifestaciones humorísticas, fundamentalmente callejeras.  
En este artículo indago entonces sobre las particulares relaciones entre poder, violencia  
y humor en la política argentina de los últimos meses desde inicios del 2024, manifiestas en  
actuaciones públicas y en redes, ejercidas por actores políticos que se pueden ubicar en las  
políticas de derecha y que detentan el poder. En Argentina a fines del 2023 un gobierno con  
un régimen autodenominado “anarco capitalismo” fue elegido en ballotage por el 56% del  
electorado. Lo ubicamos en dicho arco ideológico en tanto se opone a la justicia social, al  
estado de bienestar, a la independencia de poderes, a lo comunitario, a los derechos humanos,  
a las políticas sociales y de género, al cuidado del medio ambiente, entre otros valores de lo  
que la derecha llama cultura “woke”. Se trata de un neoliberalismo, reaccionario, cuyo valor  
supremo es la economía de mercado. Y desde la política partidaria, construye al kirchnerismo  
como enemigo acérrimo a destruir. La derecha en general ejerce sus evaluaciones sin  
matices: lo bueno (lo propio) vs lo malo, que es lo que no es de derecha y lo que hay eliminar.  
Sus performances políticas se caracterizan por acompañar sus discursos y manifestaciones  
de elementos agresivos, como una motosierra, guillotinas, etc. Y por la violencia verbal.  
El interés en estos ejercicios de poder y su relación con el humor surge porque es un  
fenómeno relativamente nuevo, disruptor en la política argentina, en la que en líneas generales,  
en mayor o menor grado, las conquistas de la democracia después de la dictadura militar se  
han considerado valores respetables por lo menos desde lo discursivo por parte de los actores  
políticos en sus diversas performances.  
La inquietud que generó dicho triunfo electoral en sectores que podríamos denominar  
“progresistas” se manifiesta en la pregunta sobre si en el país hay una cultura de derecha ya  
instalada que no se supo ver en su magnitud.  
Algunosdelosideologemasquecimentaríandichaculturapuedenser,enunaenumeración  
harto precaria, los siguientes:  
-
El que es pobre es porque no trabaja, adhesión a la idea de meritocracia, del  
individualismo y del economicismo.  
-
Oposición a los planes sociales, a la ayuda social a los sectores más vulnerables  
-
Los bolivianos, peruanos, paraguayos y demás latinoamericanos (llamados  
“bolitas”, “perucas “y “paraguas”) vienen a aprovecharse de nuestras universidades, escuelas  
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y centros de salud que pagamos entre todos. Esto paradojalmente en un país que está  
compuesto, prioritariamente por descendientes de inmigrantes pobres, europeos, que  
obtuvieron el ascenso social gracias a políticas de promoción.  
-
Los políticos son todos corruptos y vagos (los que serán llamados “la casta” por  
el presidente Milei).  
Desde la perspectiva de los estudios sobre el humor, resulta relevante que en el año  
2008, o sea 15 años antes del ascenso al poder de la extrema derecha en Argentina, un programa  
televisivo humorístico, “Peter Capusotto y sus videos” presentara la caricatura paródica del  
fascista en el personaje llamado “Micky Vainilla”. El programa es producto de la coautoría de  
Diego Capusotto y Pedro Saborido, alterna videos de rock con la representación de personajes  
en escenas a cargo de Capusotto, y la voz en off con la que dialogan, a cargo de Saborido.  
Fue un programa multipremiado, muchos de sus personajes, de sus frases, han quedado  
en el acervo cultural argentino. Se sigue reproduciendo en YouTube y es visitado con mucha  
frecuencia.  
Este programa se reconoce como parte de una saga en comenzó en la década del 90  
en la cual circulan propuestas con mucho en común y con los mismos actores (y a veces los  
mismos guionistas) que van rotando. Diego Capusotto la atraviesa en su totalidad. El primer  
programa de dicha saga fue De la cabeza, en 1992; le sigue Cha cha cha, de 1993 a 1997;  
Delikatessen, en 1998; Magazine For Fai en 1999; Todo por dos pesos, de 1999 a 2002 y por último,  
Peter Capusotto y sus videos, desde el 2006. Se caracterizan porque la falta de terminación y  
la desprolijidad forman parte de su estética, todo parece improvisado y casual. La distancia  
crítica, la disidencia, en este caso con el mismo medio, con la misma televisión, se hace como  
efectuación, desde la realización, es una disidencia performativa. Al poco tiempo de aparecer  
van conformando su público y se convierten en programas de culto. Es decir, un programa  
para un público pequeño y sectorizado que sólo muy gradualmente se va ampliando y dentro de  
ciertos límites, con la competencia necesaria para disfrutar de este humor metadiscursivo, que  
tiene como disparador el procedimiento de la libre asociación, relatos inesperados que narran  
historias incoherentes o narrativas históricas que parodian los estereotipos. Por el exceso, por  
la “huída hacia adelante” se escapa de la banalización, de la insignificancia, se señala, se indica  
(como índice, como secundidad) el núcleo de lo real socio-cultural, en una semiosis en proceso,  
no estabilizada, a menudo compuesta de términos antinómicos. La relación conflictiva con el  
mercado, lleva a sus realizadores a preferir al canal 7 estatal por sobre las ofertas privadas,  
debido a la ausencia de limitaciones que este ofrece.  
El aspecto físico de Micky se caracteriza por una vestimenta propia de clase media alta, polera  
y saco, modales amanerados; se autoproclama cantante pop, con lo que intenta banalizar e  
inocentar las acusaciones de la voz en off bien pensante ( con la que dialoga, que es la actuación  
de Pedro Saborido). El nombre de Micky Vainilla está inspirado en el controvertido dúo alemán  
“Milli Vanilli” (Polimeni: 2020) a quien le retiraron el premio Grammy cuando se descubrió  
que eran un fraude y hacían “play back”. Deniega siempre la acusación de nazi, pero tiene un  
bigotito angosto como el de Hitler y en su gestualidad se le escapa a menudo el saludo nazi,  
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anticipándose a lo que pasó con Elon Musk en la asunción de Trump.  
Frente a la voz en off bien pensante, progresista, que lo interpela, Micky Vainilla se  
defiende y siempre se justifica no ya desde el nazismo sino desde la ideología neoliberal  
reaccionaria,antelocualconsigueunadosisdeaceptacióndesusargumentacionesexpresadas  
en estilo grandilocuente, hiperbólico, con una exasperación in crescendo (rasgo retórico que  
comparte el presidente Milei). Llegado a este clímax, como si fuera que los demás lo hacen  
enojar, una especie de “santa ira”, el interlocutor responde “Ah, no, no sabía”… con lo cual se  
anticipa la pobreza de acción y reacción de la voz progresista, lo que puede ser interpretado  
como rémora de los 90, la década menemista neoliberal.  
Otra anticipación a importantes figuras de la derecha, como si hubiera captado los  
clisés de clase con que se intentan justificar las ausencias de políticas sociales, es cuando  
refiriéndose al problema de la pobreza dice a menudo: “no le des pescado, enseñales a pescar”.  
El presidente Milei en el debate presidencial (19-11-2023) con el otro candidato, Sergio Massa  
dijo: “Se acabó esto de la asistencia esclavizante de darles el pescado, le vamos a enseñar a  
pescar, una caña, y si es posible que aprendan a tener una empresa de pesca”.  
Pero sin duda el aspecto más sutil de este diagnóstico anticipado del estado potencial  
de lo que serían las políticas extremistas lo encuentro en un sketch. Lo reproduce la revista  
digital Sudestada, bajo el subitulado “Repetir para repetir”. En él, el mismo Micky dirigiéndose  
al espectador mirando a cámara, introduce su performance:  
“Para mí, la mejor manera de disimular una ideología es disfrazarla de sentido común y  
esto, claro, se logra repitiendo un concepto. Por ejemplo, acá como técnica uso pegar  
un cartel de un perrito que se me perdió. El perrito se llama “Basta de mantener pobres  
con mis impuestos”. Ahora pido ayuda””. (Reproducción de revista Sudestada, 2023)  
A continuación viene la performance que una voz en off va comentando. Ante el  
espectáculo de Micky consternado por la pérdida del perrito, junto al cartel con su foto y el  
nombre del animal, varios transeúntes bien intencionados preguntan qué le pasa y le ofrecen  
ayuda, por lo que se diseminan por la ciudad llamando al perrito “Basta de mantener pobres con  
mis impuestos” a viva voz. Así se crea sentido común, los agentes van repitiendo la consigna  
involuntariamente y de a poco la esparcen por la ciudad, por la población. La situación absurda  
quegenerarisaimpregnadefaltadesustentoracionalalcliséytransparentalamaniobrapolítica  
que queda así ridiculizada para el espectador extradiegético que es el que ríe, más no para los  
incautos actores de la diégesis usados para la propaganda ideológica. Esta estrategia, como  
veremos más adelante al presentar la performance presidencial, se ejerce más disimulada con  
cierta apariencia de racionalidad en el accionar de dirigentes políticos en “la vida real” en 2024.  
Vemos así que mediante el humor no sólo se caricaturiza un tipo de actor social que se  
venía gestando y se manifiesta en todo su poder en las elecciones del 2023, sino también las  
estrategias de la llamada “batalla cultural”: imponer una consigna simplista sin fundamentos  
en la complejidad de la teoría socio económica con la repetición de un clisé. Así el humor, por la  
operación de deconstrucción de las regularidades como su procedimiento constitutivo, pone  
de manifiesto, al descubierto, las políticas discursivas de una ideología.  
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Una vez más el humor se adelanta con su experimentalismo a su época:  
Por eso nos interesa hablar de innovación y tradición: cómo el humor con su libertad  
para los experimentalismos en muchas ocasiones va señalando lo nuevo, las  
transformaciones, los síntomas de una cultura, y al mismo tiempo, cómo recupera los  
sustratos culturales de una tradición que es lo que permite reconocer un discurso como  
humorístico. Estas operaciones culturales son nuestro objeto: las acciones que en una  
topografía (público/privado) determinan un campo de posibilidades estratégicas y de  
implicaciones políticas. (Flores 2017: 124))  
En otro lugar especificamos esta contribución del humor a la cultura estética y social:  
Si rastreamos en las producciones culturales de diversos momentos de la historia,  
veremos las huellas de la función libertaria de la risa, de su productividad generadora  
de nuevas conciencias, a pesar de su carácter breve, parentético. En el ámbito de  
la estética, el surgimiento de nuevos lenguajes, géneros y especies está ligado a la  
producción de discursividades humorísticas: las primeras producciones del lenguaje  
fílmico son las de “El regador regado”, “El viaje a la luna”, de un humor absurdo y  
desopilante; el origen de la historieta también es cómico -de allí toma el nombre  
de “comics”- en la construcción de mundos oníricos, en el disparate, el misterio, las  
fantasías absurdas, de las que luego se alejó; si nos retrotraemos al origen de la novela,  
bien podemos anclar en Satiricón de Petronio; las huellas en la producción rabelaisiana  
del carnaval que en el medioevo se producía en las fechas que el calendario de la  
cultura oficial y seria permitía, revelan su anticipación para el ingreso de la cultura  
y la subjetividad propias de la modernidad, según los estudios de Bajtín (1987); el  
experimentalismo en las caricaturas, sobre todo las de Töpffer en la mitad del siglo XlX,  
anticipa el de las vanguardias históricas de principios del XX, según Gombrich (1979);  
en la literatura argentina, cierto humor surrealista como el de Arturo Cancela en “Tres  
relatos porteños” (1923) anticipa la narrativa de vanguardia que culmina con los relatos  
de Marechal y Cortázar y que permite situarlo como precursor del humor que produce  
incomodidad, el humor no costumbrista. El humor desopilante, la exploración al  
máximo que tensa y rompe los moldes de los diversos “realismos”, mapea la innovación  
estética. (Flores 2014:100)  
Este humor que caricaturiza al fascista clase media alta, sigue los parámetros  
tradicionales del humor político que está orientado a reírse, burlarse, tomar como objeto de  
degradación al poderoso. Con una característica muy especial de este personaje: él no es un  
político y aunque pertenezca a la clase dominante, no deja de ser un ciudadano el victimario,  
con lo que profundiza y complejiza aún con mayor riqueza el diagnóstico de una sociedad  
que se ha ido derechizando al punto de elegir un presidente de extrema derecha, algo que  
para el progresismo pasó casi inadvertido. Además, como dijimos, mostró ya la debilidad  
argumentativa del progresismo que se contenta con que si alguien hace algo disfrazado de  
caridad, ya es buena persona, se le acepta todo, como hace cuando Micky relata, por ejemplo,  
que va a hacer un muro que contenga las viviendas precarias de los pobres para protegerlos  
cuando en realidad es para segregarlos o que van a clasificar la basura para cuando los pobres  
busquen alimento en los residuos. En cambio, el humor de la derecha extrema, el del auto  
llamado anarco-capitalismo, actúa en sentido contrario y degrada al vulnerable, al que tiene  
menos poder, al débil. Esta es la hipótesis central de este artículo: el humor como el de Micky  
Vainilla señaló el síntoma del desarrollo de la derecha extrema y sus estrategias; en cambio,  
el humor desplegado por la misma derecha anunciada invierte radicalmente esta dirección, y  
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también la dirección que desde hace siglos sostiene el humor político que generalmente apuntó  
al poderoso, a las clases poderosas como un desafío. Esto es lo que pasamos a presentar  
brevemente.  
Para el tipo de humor que vamos a indagar, parece importante acercarse a las  
subjetividades de un estado dado de sociedad, considerando que para que se genere la risa en  
necesaria la complicidad del tercero con quien se ríe. Y este es un humor político, público, de  
amplio espectro comunicacional. Es a partir de este sustrato y diversas circunstancias socio  
políticas, anteriores gobiernos, que la derecha elabora y ejerce una sostenida batalla cultural,  
de la cual forma parte el humor como estrategia.  
Tomaremos dos casos: uno es la práctica del bulling del presidente Milei (muy frecuente  
en sus apariciones públicas) en la visita para inaugurar el ciclo lectivo al que fue su colegio, el  
Cardenal Copello, después de ejercer diversas formas de humor como estrategia de “captatio  
benevolentiae”; el otro es el de la prisión por 53 días que sufrieron dos ciudadano jujeños,  
uno profesor en la universidad, por escribir en X (ex twiter) una broma satírica, recuperando  
la tradición de los libelos decimonónicos, sobre la supuesta infidelidad de la esposa del  
exgobernador Morales, figura de concentración de poder en esa provincia. Le daremos más  
desarrolloalprimeroporquesuponemosqueilustralonuevo, entantotambiénexperimentación  
radical quizás de alcance global. Como vemos, en ambos casos se trata de ejercicios desde el  
poder, relativos al humor: ya sea como estrategia productora de sentidos en la batalla cultural  
o como oposición y la represión que provoca.  
Finalmente haremos un breve paneo por el humor crítico, satírico, caricaturesco y  
paródico, de resistencia, cuantioso, cotidiano y de calidad, fundamentalmente en las redes  
como fenómeno de época, pero también en las manifestaciones masivas callejeras a favor  
de la Universidad frente al desfinanciamiento impuesto desde el gobierno. Se evaluará su  
potencialidad informacional de politización, recordando y activando la máxima foucaultiana:  
donde hay poder, hay resistencia. La perspectiva teórica metodológica de abordaje es la  
sociosemiótica.  
Vamos a los acontecimientos que constituyen el corpus central:  
El primer caso, del bulling presidencial, nos pone en la duda teórica de larga data acerca  
de si el bulling, en tanto genera risa, puede ser considerado humor, ¿puede la risa seguir  
siendo la marca, la señal de que allí donde se produce hay humor? Provisoriamente, y en base  
a que es parte de un proceso donde alterna con otro tipo de manifestaciones humorísticas, lo  
consideramos humor violento. O violencia mediante el humor. Se inscribe en una estrategia  
frecuente en la derecha global, usada con otras manifestaciones bizarras y grotescas como  
a) distracción frente a las medidas que benefician a las corporaciones financieras, según  
Natascha Strobl en La nueva derecha y b) como productora de inestabilidad semiótica por la  
que nos preguntamos si es en serio la brutalidad cruel de sus afirmaciones y comentarios o es  
una broma.  
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Vamos al primer caso: describiremos la visita del presidente Milei al colegio Cardenal  
Copello donde cursó sus estudios. El auditorio está conformado, como en todo acto escolar,  
por los estudiantes y las autoridades. En el escenario, el presidente en primer plano y atrás  
de él su hermana (secretaria general de la presidencia) y la autoridad del colegio, junto a la  
abanderada y sus escoltas. En los primeros minutos de su alocución el presidente hace el  
primero de sus chistes humorísticos, es decir en los que se toma a sí mismo objeto de risa  
y relata que cuando lo visitó al Papa Francisco, argentino, acompañado de un rabino que  
es su consultor de confianza, este le dice al Papa “te lo traje de vuelta” y el Papa responde  
“quédatelo”. El segundo chiste humorístico es cuando, a propósito de su letra, Milei les dice a  
los estudiantes “mi letra tiene función social: hace ver linda la de los médicos”. Estos chistes  
humorísticos generan empatía en el auditorio, risas, instalan una atmósfera de stand up,  
sería una estrategia de “captatio benevolentia”. Entre uno y otro, mientras Milei desarrolla su  
propuesta económica social de anarco capitalismo , en el momento en que rememora a un  
profesor de economía que por hablar de desarrollo y no de crecimiento él considera comunista,  
se desmaya uno de los estudiantes escoltas de la bandera, a su lado. Se detiene un momento  
para que lo atiendan, pero en la pausa apunta que “como ven, mencionar a los comunistas es  
tan peligroso que genera problemas siempre”. Es decir, no hace un bulling personalizado hacia  
el joven desmayado, un “bulling” clásico, sino que aprovecha la situación para adoctrinar con un  
chiste, con lo que de alguna manera su humor reemplaza al gesto humanitario de preocupación  
por el otro, aprovecha la vulnerabilidad de otro para con un chiste remarcar su evaluación  
ideológica. Nos preguntamos si con esta actitud bordea la crueldad (el humor malvado o cínico,  
del que habla Propp en su célebre clasificación) o es un sarcasmo para distender. En ese  
sentido, hacer reir a costa de la vulnerabilidad de otro en presencia, y para afianzar la propia  
posición, reviste los componentes del bulling. Sigue con su alocución, de los contenidos de la  
educación argentina opina que son “recontra rojos”. Hasta el segmento interactivo en que los  
estudiantes le hacen preguntas, expone su éxito electoral con el apoyo de “las fuerzas del cielo”  
y su posición anticorrupción, antifeminista, anti status quo, anti lo políticamente correcto a  
lo que sindica de socialista, para explicar su vertiginoso ascenso. Explica que “en los últimos  
100 años todo lo que es políticamente correcto es socialista…De ahí que me paré en Davos y  
les dije: ustedes son todos unos zurditos”; en ese momento se produce el segundo desmayo  
de otro escolta de la bandera y Milei hace su segundo chiste con bulling: “Uy, ¿otro más? Y  
sí, los nombro y son infalibles. Juro que no los nombro más”. En el auditorio, la reacción es  
mixta, algunos estudiantes sonríen (¿el chiste en boca de la máxima autoridad del país habilitó  
la crueldad? ¿la percepción de la comicidad por el absurdo supera la sensibilidad?) y otros lo  
miran con seriedad. O sea que en algunos funcionó esta interpelación de identificarse en el  
desprecio al sufrimiento del otro, en este caso, del compañero de colegio. En otro momento,  
para ilustrar la acción de los jóvenes sobre los adultos promoviendo su candidatura, recurre a  
un proverbio grosero que generó posteriores repudios: “el burro gana por insistidor, más que  
por lo otro, ¿se entiende?”.  
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El acto completo se puede ver en YouTube-Oficina del presidente-6 de marzo de 2024.  
Las reacciones sobre la actuación presidencial en el colegio generaron valoraciones  
diversas y opuestas tal como lo expone la nota de Página 12: “El Cardenal Copello, un colegio  
dividido por Milei”, del 10 de marzo del 2024.  
El presidente destina mucho tiempo a tuitear o retuitear. Hace pocos días retuiteó  
con “like” una escena de bulling y según el sitio “Haceinstantes.com”, Javier Milei reposteó  
en su cuenta oficial de X un posteo irónico sobre “el bullying en 30 años”. Sin embargo,  
los expertos en la temática no se lo tomaron con humor, y la ONG Alianza Anti Bullying  
Argentina decidió responderle para concientizar.  
“El bullying en 30 años: sus abuelos eran zurdos que tomaban universidades”, decía  
el posteo del usuario Mati Smith. Además, iba acompañado de una imagen en la que se ve a  
un niño llorar ante la burla de quienes parecen ser compañeros de escuela.  
Ante esto, el fundador, Pablo Mainer, se refirió al respecto: “Nos preocupa que el presidente  
banalice el uso de la palabra bullying. Para nosotros, es muy importante el rol de los adultos y el  
ejemplo que dan”, expresó en un video. De esta manera, lanzó: “Es importante que no usemos  
esta palabra para fines políticos” (Meiner, 2024).  
La otredad debe desaparecer, sobre todo si se trata de figuras populares que sean  
críticas y conciten simpatía de multitudes. En entrevistas que circularon por las redes y  
reproducidas en tuiteos y retuiteos, el presidente recurrió como burla a la paronomasia para  
desacreditar a las cantantes populares Lali Espósito a quien llamó “Lali Depósito” y a María  
Becerra , “María BCRA”, por el nombre del banco, porque dice Milei que ambas son pagadas  
para ser opositoras.  
En la misma dirección de denigración del adversario por la burla, durante su viaje a  
Estados Unidos en febrero de 2025, a pocos días del escándalo por la estafa de la cripto moneda  
#Libra que lo salpica a él y a su equipo, mientras habla en el BID recibe una llamada telefónica  
que molesta a su discurso, en relación con la cual comenta que se trata de argentinos “cabeza  
de pulpo”. Inmediatamente aclara que los llama así porque tienen la cabeza donde está el  
aparato digestivo, es decir, llena de excremento; el emisor lo enuncia con sonrisa sarcástica, el  
público ríe y aplaude. (YouTube, Clarín.21 feb 2025). Esta violencia verbal está acompañada por  
elementos que la materializan y simbolizan su línea política, como la motosierra que acompaña  
muchos de sus discursos, sobre todo los de campaña, o la horca esgrimida por sus seguidores  
y orientada a sus adversarios políticos.  
Pasemos brevemente al otro caso que en relación inversa, se trata de un abuso de poder  
no con humor sino como reacción hacia una burla satírica contra el representante del poder  
político en la provincia de Jujuy. El titular de la nota del 27 de enero del 2024 de Irina Hauser en  
Pág.12 dice: “En el reino de Morales la cárcel no se le niega a nadie. Liberaron a los presos por  
tuitear pero ordenan la captura de una mujer por WhatsApp”  
El hecho es el siguiente: En Jujuy dos hombre pasaron 53 días detenidos por tuitear  
una broma sobre una supuesta infidelidad de la esposa del exgobernador. Los excarcelaron  
pero después hubo un pedido de detención para una mujer que esparció el rumor en una  
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conversación privada.  
El tuit decía así: “Hace ya varios años que en Jujuy se hace el carnaval de los Tekis (una  
estafa en la que caen los turistas). Pero este año no se hace. Y todo parece que es porque uno de  
los Tekis le enseña a tocar la quena a la mujer del exgobernador. Imposible aburrirse en kukuy”.  
En la defensa por la libertad de expresión de los acusados señalaron que el tono “satírico  
y jocoso” está protegido de la acusación de “real malicia”. Este juicio remite sin duda a fines  
del siglo XIX y las acusaciones por los libelos o las sátiras caricaturescas del humor político  
en los medios gráficos, escenario de disputas políticas. Es un rasgo de la derecha argentina,  
recuperar los argumentos y discursos de fines del siglo 19, como el de Sarmiento, con los que  
construyen el neoliberalismo más conservador y clasista, por oposición al progresismo.  
Se puede decir que el gobierno anarco capitalista es una experimentación tanto en lo  
económico y social como en lo cultural, explícitamente sus actores hablan de batalla cultural.  
En dicho experimento de radicalización la figura de Ubú rey ya no es un hecho estético  
como en la obra de Jarry, una crítica a ese poder despótico y cruel desde la sátira grotesca  
hiperbólica, en la línea de Satiricón, Gargantúa, algunas novelas de Laiseca, el film el Joker de  
Todd Phillips, el Guasón, sino una realización del poder fáctico, gubernamental, encarnada en  
una especie de rockstar afecto a las humoradas violentas. Una velocísima desregulación no  
sólo estatal sino psíquica y social. Y abarcadora: el stand up presidencial incluye imitaciones  
y burlas sarcásticas a ocasionales adversarios, como hizo en la cena de la Fundación Libertad  
(24 de abril de 2024) con adversarios políticos o económicos. La construcción de esta imagen  
de rocksstar hace que la crueldad juegue en el límite de la broma. Las medidas económicas  
efectivamente crueles marcan el camino a lo siniestro. En lo siniestro, la broma, el humor, es  
una estrategia de distracción, de dilución: es y no es al mismo tiempo. Es un juego, te pone en  
lugar de lo peor pero lo peor no ocurre, hay alivio de la expectativa de que acontezca lo temido,  
pero por suerte era una broma: estrategia de distracción de las defensas, oculta y muestra,  
arma letal para la resistencia.  
Tanto la broma como el bulling tienen como efecto la humillación, en diversos grados. La  
broma intenta ser pasajera y que se restablezca el equilibrio relacional previo a la misma para  
lo que a veces debe recompensar por el mal momento ficticio (como sucedía con las bromas de  
“Video Match”, programa televisivo conducido por Marcelo Tinelli en la década d 1990). El bulling  
persigue la aniquilación de la víctima, no hay resarcimiento de la humillación inferida. En el  
caso particular que describimos más arriba, la aniquilación opera sobre el elemento productor,  
la izquierda, los zurdos, el comunismo. Pero es broma, lo cual no quiere decir que sea pasajera ,  
ya que deja alguna huella en la subjetividad y en la forma de interacción de los actores. “El goce  
de la crueldad se recompone como humorada”, dice Gabriel Giorgi. Con lo que constituye un  
nuevo pliegue en las inflexiones de la violencia.  
Estamos viendo entonces la relevancia epocal de un humor sádico, violento, que  
impregna un liderazgo no sólo en presencia sino fundamentalmente en las redes, lo cual  
amerita otro estudio que no vamos a presentar aquí y que tiene un desarrollo impecable en El  
humor hipermediático. Una nueva era de la mediatización reidera, de Damián Fraticelli (Fraticelli,  
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2023). Hablamos de políticas discursivas que generan resistencia, también en las redes pero  
de una manera muy potente, como humor colectivo, en las manifestaciones callejeras. En  
Argentina hubo dos marchas masivas nacionales (se estima con una participación de cerca de  
dos millones de personas) en abril y en octubre de 2024. Sólo de pasada, leo algunos carteles  
que se portaban en las dos marchas federales en defensa de la financiación de la Universidad  
Pública y gratuita realizadas, anotadas in situ o transmitidas en grupos de whatssapp:  
“Sin ciencia no hay Conan” (el perro clonado de Milei, que le indica cómo gobernar)  
“Conan ha muerto, firmado Nietzche”  
“Hay que proteger las universidades de uno que perdió las facultades.” (“Facultades”  
designan tanto a las divisiones disciplinares de la universidad, como a la competencia propia  
de la salud mental)  
En la luneta de un auto: “No te pueden decir cuantos perros tiene el presidente pero  
quieren auditar la Universidad Pública”.  
“Estudiá, no seas Adorni.” (Adorni es el vocero presidencial)  
Consideraciones finales  
Para finalizar, retomamos entonces las líneas presentadas en este artículo enfocado en  
la relación entre políticas de la llamada “nueva derecha” y el discurso del humor.  
Comenzamos presentando la parodia satírica del argentino prototipo de la derecha  
neoliberal en el programa televisivo de inicios de siglo “Peter Capusotto y sus videos” a través  
de los sketchs del personaje “Micky Vainilla”. Intentamos mostrar los rasgos de este estereotipo  
como un síntoma anticipatorio de una subjetividad que años más tarde se manifestaría con  
el apoyo masivo a un candidato de extrema derecha para la presidencia de la nación y en las  
políticas de la batalla cultural de dicha ideología.  
A continuación, invirtiendo la mirada y enfocando en las políticas de las derechas en  
relación con el humor, presentamos muy brevemente una reacción tradicional propia de la  
derecha conservadora: reprimir la sátira con prisión reconociendo su efecto corrosivo.  
Pero hay otro uso nuevo y probablemente global por el cual se utiliza el humor como  
estrategia para: captar benevolencia, generar adeptos, para luego construir otro objeto de  
odio sobre el cual descargar la crueldad con lo que se logra un doble efecto: con el odio genera  
indignación en la construcción del otro a destruir (fascismo) que es más tradicional como  
parte del discurso político, pero sobre todo ejercer la crueldad en la sintonía de la broma, de la  
ironía, por lo que se desestabiliza el sentido, lo que permite su ejercicio más allá de los límites  
tolerables. Lo mismo que sucede con la sucesión de medidas socioeconómicas devastadoras,  
seguir corriendo los límites del pacto social, de lo tolerable: la línea roja es móvil.  
Siguiendoconlosdiscursosperformáticos,encontrapartidayparafinalizarpresentando  
lo que será nuestra próxima indagación, hicimos un esbozo brevísimo de ejemplos de la  
resistencia desde los discursos que en manifestaciones callejeras deconstruyen y combaten  
las políticas de derecha con ironías y sinécdoques humorísticas. Un final que no pretende  
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concluir sino por el contrario abrir a las infinitas posibilidades de la historia en proceso desde  
la ´prolífica óptica del humor político.  
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COMEDIAS DESASTROSAS: PELÍCULAS DE CULTO  
COMÉDIAS DESASTROSAS: FILMES CULT  
DISASTROUS COMEDIES: CULT FILMS  
1
Ruben Olachea-Perez  
https://orcid.org/0000-0003-3725-2909  
Recebido em: 11 de julho de 2025.  
1ª revisão: 20 de janeiro de 2026.  
Revisão final: 21 de março de 2026.  
Aprovado em: 21 de março de 2026.  
1 Doutorado em Estudos de Cinema e Televisão, Universidade de Warwick, Reino Unido. Professor  
Pesquisador (Ciências Sociais e Humanidades) na Universidad Autonoma de Baja Califor Sur  
(UABCS), México. E-mail: rolachea@uabcs.mx  
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Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
DOSSIÊ  
RESUMEN: A partir de comedias que no tuvieron éxito, se analiza una comedia de culto del  
director alemán Rainer Werner Fassbinder: El asado de Satán (1976), película que no obtuvo  
los resultados deseados pero que hoy se mantiene como un hallazgo dentro de la filmografía  
del director. A Fassbinder se le considera un cineasta de culto más orientado al drama. Esta  
colaboración intenta demostrar cómo el humor está presente en buena parte de la distancia  
entre obra y espectador, que es una marca estilística del director alemán. Sin embargo, al  
analizar la obra, el espectador atento descubrirá detalles que permiten más de una lectura. Se  
verá que permite múltiples interpretaciones.  
PALABRAS CLAVE: comedia, éxito, crítica.  
RESUMO: Baseado em comédias malsucedidas, este artigo analisa uma comédia cult do diretor  
alemão Rainer Werner Fassbinder: Roast Satan (1976). Este filme não alcançou os resultados  
desejados, mas permanece um tesouro na filmografia do diretor até hoje. Fassbinder é  
considerado um cineasta cult com foco mais dramático. Esta colaboração busca demonstrar  
como o humor está presente em grande parte da distância entre a obra e o espectador, uma  
marca estilística do diretor alemão. No entanto, ao analisar a obra, o espectador atento  
descobrirá detalhes que permitem mais de uma leitura. Perceberá que ela permite múltiplas  
interpretações.  
PALAVRAS-CHAVE: comédia, sucesso, crítica.  
ABSTRACT: Based on unsuccessful comedies, this article analyzes a cult comedy by German  
director Rainer Werner Fassbinder: Satan´s Brew (1976). This film failed to achieve the  
desired results but remains a treasure trove in the director’s filmography today. Fassbinder  
is considered a cult filmmaker more oriented toward drama. This collaboration attempts to  
demonstrate how humor is present in much of the distance between the work and the viewer,  
a stylistic hallmark of the German director. However, upon analyzing the work, the attentive  
viewer will discover details that allow for more than one reading. It will be seen that it allows for  
multiple interpretations.  
KEYWORDS: comedy, success, criticism.  
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¿Qué es el éxito?  
Un éxito cinematográfico sería la feliz combinación de un éxito de crítica y de taquilla.  
Esto es, la conjunción de opiniones de expertos que recomiendan una película por sus virtudes  
técnicas y méritos artísticos, por su temática, por sus innovaciones o apego a un texto literario  
y otros aspectos cualitativos. Eso aunado a un éxito de taquilla, cuantitativo. Está también la  
posibilidad del prestigio de uno o varios premios.  
“De culto” se ha vuelto una etiqueta aplicable a cineastas o películas que sorprenden  
por alguna característica y las audiencias responden apoyando y siguiendo con atención la  
filmografía de alguien en especial. Teoría y metodología permiten al espectador especializado  
conceptualizar todas las ideas y acciones en torno al cine como arte, a través de varios  
procedimientos que conllevan una sistematización con fines claros, específicos. Esto es, una  
persona ve cine y lo estudia, analizando sus elementos. Al efectuar ese ejercicio, se aplican  
técnicas que permiten, con flexibilidad, aplicar a su vez a otras películas, observaciones y  
análisis similares. Lo que a menudo inicia como práctica gozosa de placer visual y de contar  
historias que se vuelven a contar y fomentan imaginación, se reproduce en otras imágenes,  
tomas, escenas, secuencias, obras y filmografías.  
En el caso de comedias que no obtuvieron el éxito deseado, mencionaré cinco  
ejemplos: El asado de Satán (Rainer Werner Fassbinder, Alemania, 1976); Rubin and Ed (Trent  
Harris, Estados Unidos, 1991); It´s Pat (Adan Bernstein, Estados Unidos, 1994); Los 120 días de  
Bottrop (Christoph Schlingensief, Alemania, 1997) y Una noche en el Roxbury (John Fortenberry,  
Estados Unidos, 1998). La película que encabeza esta lista es la que nos ocupa principalmente  
y en síntesis, trata sobre el cambio ideológico de un poeta anarquista sadomasoquista (Walter  
Kranz) que migra al fascismo. Sin embargo, llegué a ella luego de conocer muchas otras  
películas que se pudieran considerar fracasos de taquilla y de crítica. De alguna manera, cada  
ejemplo mencionado dejó una marca y a menudo son mencionadas como películas valiosas  
que han soportado el paso del tiempo y aún resisten análisis, generando espectadores que las  
disfrutan y comentan algunas de sus muchas virtudes.  
Rubin and Ed cuenta la insólita amistad entre un joven excéntrico y psicodélico,  
inadaptado socialmente y un hombre mayor que lo ve como cliente potencial para un curso  
motivacional y promocional de bienes raíces. Ello da pie a escenas surrealistas de humor  
absurdo, con diálogos que generan humor en el espectador. Gradualmente, se va gestando  
la sensación de estar frente a una comedia americana inusual y adelantada a su tiempo. Hay  
un subtexto político e ideológico que se evidencia gradualmente al final cuando la amistad  
entre los dos personajes masculinos pasa por una crisis y una serie de múltiples ofensas. El  
final incluye la ratificación de que ambos son dos modelos distintos de fracaso social en la  
implacable cultura neoliberal norteamericana, que guarda asombrosos detalles respecto al  
estado actual que guarda la cultura política en el poderoso país, pese a décadas de distancia  
con el filme.  
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De manera similar, It´s Pat es una comedia norteamericana cuyo tema principal es la  
ambigüedad sexogenérica de la o el joven protagonista. Ello genera múltiples situaciones  
de confusión y humor incómodo de acuerdo a la fecha en que el filme fue realizado, y que  
posteriormente se volvería absolutamente de incorrección política negativa. En vez de verse  
como un ejercicio antropológico necesario sobre cómo se debe o no tratar asuntos como  
la intersexualidad, bisexualidad, homosexualidad o asexualidad, a menudo la visión de It´s  
Pat simplemente genera comentarios de espectadores profundamente escandalizados e  
indignados. Sin embargo, es visible que el humor en It´s Pat celebra la ambigüedad y que ello  
incomoda a muchas personas.  
En cambio, Los 120 días de Bottrop es intencionalmente burla y homenaje a dos cineastas  
europeos de culto: Pier Paolo Pasolini y Rainer Werner Fassbinder, infantes terribles del cine  
italiano y alemán, respectivamente. El título de Schlingensief evoca a Saló o Los 120 días de  
Sodoma (1975), cinta que generó escándalo por sus escenas de sadismo fascista y que coincidió  
además, desafortunadamente, con el homicidio a Pasolini en noviembre de ese mismo año. La  
comedia de Schlingensief se centra más en el nihilismo y concentra en su reparto a buena parte  
del grupo de actores que trabajaron originalmente con Fassbinder. Es parodia y homenaje al  
mismo tiempo, mezclando excentricidades para ilustrar los límites entre el arte y la cultura  
moderna alemana. Sin embargo, las visiones que el cine de Pasolini y Fassbinder reflejan sobre  
arte, cultura, política e ideología difícilmente encuentra parangón. Es comprensible, por tanto,  
que el estilo de Schlingensief se refugie en un humor absurdo y nihilista que es más homenaje  
que provocación. O bien, que es homenaje desde la provocación.  
Finalmente,UnanocheenelRoxburyesunacomediademúsicaelectrónicaycoreografías  
dehumorbobootontoperomuyefectivo, conunfinalfelizcuyotemaenrealidadestabú:lacrisis  
emocional entre dos jóvenes hermanos vírgenes y de clase media en la California finisecular,  
generada por la boda del primogénito arreglada por el padre, un empresario obsesionado con el  
éxito social. Al final ambos jóvenes tienen éxito con su idea original de una club nocturno cuya  
decoración en el área de espera es glamurosa y su pista de baile imita el paisaje urbano como  
contrapuntos estéticos de un mundo al revés, típico de la comedia. Un empresario solidario  
los apoya y es ahí mismo en su negocio que sus relaciones sentimentales se consolidan, sin la  
presión paterna.  
Estas cinco comedias fílmicas están disponibles en más de una plataforma. Distan  
de ser cine inconseguible. Si El asado de Satán versa sobre el cambio de ideología en los  
artistas, Rubin and Ed presagia decadencia ideológica en el país líder del desarrollismo; It´s  
Pat refleja la creciente neurosis colectiva que pueden generar las cuestiones de género; Los  
120 días de Bottrop demostraría, en teoría, el triunfo de políticas fascistas en Alemania, Europa  
y Occidente, por extensión; y Una noche en el Roxbury representa el retorno del formato de  
comedia convencional con final feliz, optimista y hasta un tanto ingenuo, pero con tema de  
avanzada hacia una sociedad menos patriarcal, más inclusiva y tolerante.  
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Una comedia de principio a fin  
ElasadodeSatániniciaconunepígrafedeAntoninArtaud(1896-1948)elartistasurrealista  
cuya obra fue la búsqueda constante del arte absoluto. La cita reza así: “Lo que nos diferencia  
de los paganos es el esfuerzo que ponen ellos, en el origen de todas sus formas de creencia,  
en no pensar a partir de los hombres con el fin de obtener la unión con toda la creación, es  
decir con la divinidad” (Fassbinder 2018, p. 509). Esa cita culta es una de las pocas alusiones,  
más o menos directas, para justificar el título. El asado de Satán es un problema y la comedia,  
la carcajada, un remedio para el pueblo oprimido que enfrenta al poder abusivo y autoritario  
con lo más poderoso culturalmente que tiene: la risotada vulgar colectiva. La cristiandad ríe  
poco, acaso sonríe ocasionalmente. En contraste, Occidente sabe reír a carcajadas. Ya luego,  
un escritor intelectual como Umberto Eco explotará ese asunto en la novela El nombre de la  
rosa. El epígrafe con el que Fassbinder inicia su relato aparece traducido al alemán y cierra el  
filme con la versión original en francés. La misma cita, trazando un círculo de principio a fin e  
iniciando otro. Es la primera vez que veo un filme que arranca con un epígrafe y concluye con  
la misma frase, aunque ya siendo otra porque es una traducción. Una traición a la tradición.  
Una solución elegante al tema de la apropiación cultural por intercambio. Préstamos que son  
deudas y viceversa.  
Pero, siendo Fassbinder un experto en dramas, ¿se trata verdaderamente de una  
comedia? Él mismo lo explica: “Con El asado de Satán, intenté hacer una comedia sobre eso que  
siempre digo con mucha seriedad y también con una cierta tristeza que es una lástima que no  
funcione: me refiero al grupo” (Fassbinder, 2018, p. 430). El grupo de teatro, la compañía cuyo  
líder fue Fassbinder y que estaba naturalmente condenada a fracasar. Si muchos admitirían  
que el proyecto social de la familia es disfuncional, los grupos artísticos con mayor razón. Son  
una utopía. Sin embargo, familias y grupos existen, batallan y bregan en pos de sus ideales.  
De manera inteligente, Fassbinder intelectualiza su desdoblamiento autobiográfico  
en el protagonista Walter Franz quien resuelve su estancamiento creativo con un cambio  
ideológico radical: “Así que lo que intenté fue hacer una comedia sobre mí desde afuera, desde  
la postura negativa, una comedia sobre cómo sería yo si fuera como tal vez soy pero no creo  
ser”. (Fassbinder, 2018, p. 430)  
Fassbinder habló de El asado de Satán cuando aún era un proyecto sujeto a  
modificaciones:  
Es la historia de un poeta de izquierda que no ha escrito nada durante un año porque  
tiene problemas de consciencia. Un día logra escribir de nuevo un poema, se lo lee a  
sus amigos y ellos le dicen que ese es el poema de un poeta alemán que lleva muerto  
cincuenta años. El poeta es Stefan George. Empieza a estudiar la vida de George, y  
cada vez se va identificando más y más con George. Luego atraviesa un periodo en  
el que trata de vivir el fascismo de Stefan George, el fascismo especial de Stefan  
George, hasta el final, cuando su esposa muere y él está tan centrado en sí mismo y tan  
preocupado que durante un tiempo no se enteró de que ella estaba enferma. Pero luego  
encuentra el camino de vuelta hacia su humanismo. Descubre su propio humanismo y  
ya no puede seguir ideas foráneas. Tiene que encontrar las propias. (Fassbinder, 2018,  
p. 280)  
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Posteriormente, Fassbinder modificaría el periodo de crisis de inspiración poética y  
literaria al doble: Walter Kranz lleva dos años sin producir una sola línea que haga resurgir al  
“poeta de la revolución”. Las posteriores escenas de restaurante, banco y hospital, entre otras,  
en las que el poeta ocasionalmente es reconocido por la gente con cierto entusiasmo frente al  
fenómeno de ser popular y socialmente reconocido por el uso que él hace del lenguaje, son un  
acierto técnico ilustrativo. Walter Kranz es consciente de su fama y siente una especie de placer  
y deber, rara mezcla, al emular a Stefan George (1868-1933). Mas Fassbinder sabía algo más, el  
poema del albatros tampoco era original de Stefan George, sino que era una reapropiación  
de un poema en francés: “El poema es en realidad de Baudelaire. George lo que hizo fue una  
versión y creyó que era suyo. Todo artista tiene en algún momento la sensación de que todo lo  
que hace ya ha sido hecho por otro.” (Fassbinder, 2018, p. 429). La figura del director Fassbinder  
aquí crece. No sólo sabe e indaga sobre el pasado literario germano sino que también se entera  
de los préstamos culturales intercambiados entre Alemania y otras naciones.  
Una sinopsis ampliada, con detalles  
Walter Franz recibió 32,500 marcos alemanes como adelanto de la editorial con la que  
ha firmado contrato pero no ha escrito una línea nueva en dos años. Le niegan otro adelanto  
y estalla en ira, insultando a sus editores. Queda implícito que ellos son judíos (o el escritor  
los insulta con semejante acusación) y que él no es judío. Es Múnich en 1976. La masacre del  
grupo terrorista palestino “Septiembre Negro” en los Juegos Olímpicos de 1972 aún flota en  
el ambiente de manera inefable. Toda Alemania es consciente de la situación de posguerra,  
vencida en la Segunda Guerra Mundial. Al respecto, Fassbinder reflexiona sobre las grandes  
aportaciones de judíos como Karl Marx y Sigmund Freud: “Los judíos como pueblo atravesaron  
una situación muy masoquista y [aún] así produjeron una cantidad de gente que empujó hacia  
delante la consciencia del mundo entero. Esto que digo aquí seguro que será interpretado  
como antisemita…” (Fassbinder, 2018, p. 309). Era 1977 y Fassbinder fue miembro del jurado  
internacional de la Berlinale, el festival de cine de Berlín. La comunidad judía protestó contra  
su incorporación como jurado pues consideró que su obra La basura, la ciudad y la muerte  
manejaba contenido antisemita.  
Fassbinder es un excelente comunicador. A sabiendas de que está elogiando  
intelectuales de origen judío, maneja la ironía y asume el riesgo de ser malinterpretado y  
acusado de ser antisemita sin serlo. Sabe que a ese nivel de distorsión de la comunicación  
hemos llegado como sociedad. Por eso muchos perciben en los filmes del autor una aguda  
consciencia política y artística, ética y estética, adelantada, presagiando situaciones que hoy  
persisten o han empeorado. La complejidad del sadomasoquismo la entiende así: “No hay  
masoquismo sin sadismo, y las relaciones que se basan en el sadomasoquismo provienen  
siempre de educaciones muy estropeadas. El individuo no es solo masoquista o sádico, la cosa  
no es tan simple” (Fassbinder, 2018, p. 307).  
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En su camino de vuelta a casa, el escritor Walter Franz visita a una amante, Lily, cuyo  
marido Rolf es buen amigo y no se ofende ante las solicitudes eróticas de Franz. Lo que sí lo  
ofende es que deba dinero tanto a Lily como a él. Lo echan. También visita a Irm, quien es  
masoquista. Walter la insulta, escupe y ella lo disfruta. Él conoce el cajón donde ella guarda  
un revólver, dildos y consoladores. Ella porta botas altas y lencería erótica: de color morado,  
transparente, bragas con apertura posterior e igualmente sostén que deja los pezones al aire  
cuando se desviste de su abrigo de gabardina, única prenda exterior. La película, como se puede  
ver, maneja una supuesta sexualidad abierta en sus personajes, con un amplio despliegue de  
conocimiento sobre fetiches. Él sitúa la pistola en su boca como si practicara sexo oral y ella  
se excita, pidiendo que le dispare cuando está en el suelo firmando un cheque por una alta  
cantidad. Los disparos suenan pero no hay rastro evidente de sangre. Muy pronto Walter recibe  
la visita de Lauf, un detective persiguiendo el caso.  
Estilísticamente, al interior del edificio de El asado de Satán hay muchas puertas  
blancas que se abren y se cierran, como en las comedias de Ernst Lubitsch (1892-1947), exitoso  
y versátil cineasta judío-alemán que fue naturalizado estadounidense en 1933. En el hogar de  
Walter Franz, su esposa Luise grazna y gruñe cómicamente para el espectador, quejándose  
continuamente del poco dinero, que tiene que hacer la compra y que su marido lleva diecisiete  
días sin tocarla, pero con conocimiento de sus infidelidades. Franz tiene la nueva y “genial idea”  
de entrevistar prostitutas como fuente de inspiración. Luise se burla de su “originalidad”. Ello  
de inmediato sienta la bases del tono satírico en la trama.  
Las tomas son ágiles e incluyen un amplio repertorio de efectos cómicos y humor físico:  
caídas, bofetadas, pisotones, canciones en coro. El personaje Ernst es el hermano menor del  
escritor y padece retraso mental, aunque es joven, alto, fuerte, incluso bien parecido y de  
buena figura. Él se la pasa cazando, matando moscas. Las colecciona en una caja especial de  
madera que atesora. Pese a la rudeza del trato en la pareja, la relación con Ernst no es mala, en  
apariencia. Ambos le ponen atención, aunque ella menciona que no se ha lavado las manos en  
dos años y Walter eventualmente descubre que lo imita en sus correrías con la joven prostituta  
Lana von Meyerbeer. Al castigarlo, azota sus nalgas y nota que disfruta el castigo.  
Respecto a las quejas constantes de Luise, también incluye lamentos físicos, de que  
le duelen los intestinos. Por su parte, la prostituta da detalles de que suele tener diez clientes  
al día y que cobra 150 marcos por un no referido pero dado por hecho “servicio completo”.  
Cuando reciben la visita del detective, lo tratan con gran cordialidad. Walter y él comparten el  
masaje matutino de pies en una sola tinita de peltre con agua caliente, con gran camaradería,  
tomándose de las manos y sonriendo como se supone sólo lo harían amigos cercanos. Como  
si de una comedia de los Hermanos Marx se tratara, llegan a embargar muebles del piso. Los  
obreros cargadores se llevan un armario y adentro va escondido Ernst, sorprendido por Luise.  
Ello es improbable en términos reales por su peso pero completamente posible en los códigos  
y convenciones de la comedia cinematográfica.  
En cuanto a la frustración sexual de Luise, los comentarios de Walter son cómicos.  
Cuando ella dice que llevan ya dieciocho días sin relaciones íntimas, él cambia las cifras a  
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dieciocho meses o a catorce años. Mientras tanto, la investigación sobre el pasado sexual de  
la prostituta Lana, refiere haber sido violada por un tío, con fingida inocencia. Pero igualmente  
el espectador puede empezar a imaginar que es una confesión en regresión, como si estuviera  
hipnotizada, y en ese trance de hipnosis hablara con un tono de voz correspondiente a esa  
pequeña niña que fue abusada. Posteriormente, insiste en sus honorarios y un pago extra para  
transporte en taxi. Luise se encarga y corrige: sólo le dará 2.50 marcos más a su pago de 150  
marcos pues se irá en metro con ellos. Esos detalles tan realistas agregan verosimilitud al  
relato.  
En su búsqueda desesperada por alternativas de financiamiento por descabelladas  
que éstas puedan ser, Walter contacta a una seguidora de locura evidente. Alta, desgarbada  
y sumamente delgada, Andrée es interpretada por Margit Carstensen, familiar en el grupo de  
actores de Fassbinder. Para Walter, es obvio que ella es virgen y que está desquiciada, que es  
una lunática. La contacta desde una cabina telefónica y le pide que le conteste vía telegrama.  
Dicho telegrama llega de inmediato, dando a conocer lo dispuesta que está a vivir con él en una  
especie de devoción ciega, como si estuviera ella casada con él desde hace mucho tiempo, en  
una relación de dependencia enfermiza. Por cierto, usa unas gafas demenciales que hacen ver  
sus ojos extraordinariamente grandes. En los breves intercambios de diálogos en exteriores,  
en un parque, Andrée informa a Walter que no tiene fortuna excepto dos mil marcos que le  
cederá con gusto, y que tiene una hermana lisiada.  
Llegada a casa, Andrée es tratada por todos con bastante familiaridad. Ella le informa  
a Luise que es ella (Andrée) la verdadera esposa del gran escritor Walter Franz. Luise lo toma  
con humor, como quien descubre que los locos atraen a otros locos. Walter, en su objetivo de  
parecerse al poeta Stefan George, empieza a maquillarse y Luise se carcajea, burlándose ante  
semejante ocurrencia. Ernst ha recibido, por parte de su hermano mayor, permiso para abusar  
de Andrée, que incluye humillaciones tales como que aquél le escupa huevo del desayuno en  
la cara. Le da tos y cuando Ernst le da un fuerte golpe en la espalda para parar su tos, ella se lo  
agradece conmovida. Posteriormente, Walter instruye a Ernst para que la viole en el sótano.  
Andrée es una víctima dispuesta y se prepara para ello rezando un Padre Nuestro.  
A propósito, Fassbinder fue señalado por cultos interlocutores de que el personaje de  
Andrée estaba inspirado en el personaje homónimo, de apellido Hacquebaut, proveniente del  
escritorfrancésHenrydeMontherlant(1895-1972),cuyolibroPitiépourlesfemmes(Piedadconlas  
mujeres)fuepublicadoen1936. Andréeesunafeúchaprovincianaquepersigueconstantemente  
a Pierre Costals. Fassbinder contestó: “Así es, ella es la pobre persona oprimida. Lindo libro de  
Montherlant, por supuesto muy fascistoide, pero muy bonito” (Fassbinder, 2018, p. 359).  
Llegados a este punto, los dolores de vientre en Luise se vuelven más preocupantes  
y su rostro acusa severo deterioro físico, que Walter no nota por estar concentrado en sus  
andanzas literarias, organizando tertulias con jóvenes contactados por agencia, con apariencia  
de efebos latinos y germanos. Su maquillaje y traje con capa a la “belle époque” hacen lucir  
amanerado a Walter, él que era un mujeriego empedernido. Su esposa le informa que Stefan  
George fue un homosexual. Por lo tanto, en su lógica interna y un tanto absurda, tendrá que  
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experimentar o intentar al menos contacto con homosexuales. En los baños de la estación,  
entabla conversación con un prostituto de look leather: botas de cuero altas por encima de  
los pantalones y erección evidente fuera de la bragueta. Van a un hotel y el intento de sexo oral  
no prospera, pero Walter no se lo toma a mal. En realidad, ve mejor uso del pago al prostituto  
haciéndoloparticiparensustertuliasliterarias.Losefebosreconocenalprostitutodelosbaños.  
Se ríen y burlan ante la falsedad del supuesto sublime estilo poético de George. Finalmente, sólo  
uno de los seguidores es genuinamente leal a Franz. Ese seguidor promete llevar a su hermano  
a las tertulias, seguro de que también se integrará con admiración incondicional. Walter Franz,  
al emular a Stefan George, ha transitado de la anarquía sadomasoquista al sadomasoquismo  
fascista.  
Aunque por un lado se ha confirmado, sin ser visto, que Ernst viola y maltrata a Andrée,  
quien parece resignada a ello, por otro lado muestra su lado más tierno al encariñarse con  
Luise, quien empeora en su estado de salud. Walter acude en visita sorpresa con sus ancianos  
padres, quienes viven en un modesto piso. Asustados por la visita, los padres de Walter le dan  
todos sus ahorros que eran para su propio funeral. Ni siquiera lo agradece ni muestra emoción  
alguna, sólo les informa que su chofer necesita cambio. Sus padres afirman haberlo visto en  
televisión hablando de temas incomprensibles para ellos. Andrée, desde el taxi, reacciona  
violentamente insultado a los padres de Walter, sacando asimismo su lado más fascista: los  
llama ácaros. Andrée descubre entonces que Walter ha mentido siempre respecto a unos  
padres ricos y refinados. Peor aún: descubre que también es capaz de disfrutar humillaciones.  
Ella lo escupe, él sonríe afirmando disfrutar incluso que ella, ser inferior, lo humille. La  
inspiración ha vuelto y escribe con frenesí. El título de su nueva obra es No hay celebración  
para el perro muerto de Führer. Recibe un buen adelanto por parte de la editorial, pero todo se  
va en pagos de alquiler, teléfono, luz, gas, deudas y gastos médicos. Podemos ver que en ese  
título se entrecruzan el humor, la historia reciente de Alemania y del mundo, más un evidente  
síntoma de estilo posmoderno tragicómico y autorreferencial, en el sentido literario.  
En su búsqueda por más dinero, Walter cree estafar a Lana la prostituta, pero ella ordena  
y presencia una golpiza dada por unos matones tanto a Walter como a Andrée, en donde se  
ratifica el típico vínculo entre prostitución y crimen organizado. De vuelta en casa, su hermano  
Ernst le informa que Luise está en el hospital y el doctor le anuncia la muerte de su esposa.  
Walter tiene una crisis entre gritos y llantos desesperados, y dos enfermeros fuertes y morenos  
lo inmovilizan. Sus dos leales fans se avergüenzan de él por esa demostración emocional y le  
escupen. En cambio, el doctor y sus enfermeros lo felicitan por su nueva obra, mientras Walter  
reza brevemente hincado frente a una virgen y un niño Dios algo deforme de tan rollizo. Es un  
pequeño altar dentro del propio hospital.  
En la escena cuando el médico le pregunta por su nueva obra, tiene ocasión un momento  
espectacular de la película: Walter se lleva la mano al rostro y con sus dedos pulgar e índice  
abiertos sobre la frente recorre su propio rostro de arriba a abajo: como un actor impostando  
su personaje. Simulando asimismo, una transformación física y anímica hasta cierto grado  
“satánica”, aludiendo sin duda al título original, cuya “S” inicial es una letra en estilo nazi (no  
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suástica, sino como un rayo). Llegado a casa, también se unen Irm y el detective. Hallan a Walter  
herido de balas de salva por su hermano Ernst. Irm le echa agua y él reacciona preguntando:  
“¿Es esto el paraíso?”. Explotan en carcajadas, bailan y juegan rudo con el pobre Ernst, quien  
por su discapacidad no alcanza a entender lo que pasa.  
Todo ha sido un montaje, una especie de obra teatral. Ni Irm había muerto por las balas  
de salva y la pistola la guardaban en la caja donde Ernst coleccionaba moscas muertas, ya  
no en el cajón de dildos de Irm. Por lo tanto, también el detective era un falso policía, todos,  
aparentemente, lo sabían. Sin embargo, en esta ocasión, las balas de salva sí habían dejado  
huella en la espalda: en la camisa de manga larga de Walter hay pequeñas marcas de sangre,  
mínima, nada grave. Irm baila alegremente con Walter música tradicional y no trae ropa interior  
pero sí botas a la rodilla. Lauf, el detective, intercambia a manera de broma un movimiento  
obsceno con Walter, como tocando sus genitales el uno contra el otro, como cuando a veces  
los futbolistas celebran un gol. Y ya, no pasa a mayores, todo es broma. Carcajadas. Reaparece  
el epígrafe de Artaud.  
Interpretaciones  
Cuestionado, Fassbinder abunda un poco sobre la situación del personaje Walter  
Kranz, alter ego del director, al migrar de una ideología anarquista sadomasoquista a un  
sadomasoquismo fascista: “Él es genial para sí mismo, sin importar una mierda lo que haga.  
Estiliza lo que hace como una poesía de la ruina. Es algo que los artistas siempre saben hacer:  
emplear de manera positiva todos los errores y defectos que tienen”. (Fassbinder, 2018, p. 431).  
También, al cuestionarle su comprensión del porqué del no éxito de esta producción y su posible  
arrepentimiento por quizá atreverse demasiado en sus búsquedas estilísticas, al grado de  
vincular los desastres de su vida personal (el supuesto suicidio de su pareja) con los aconteceres  
de su desempeño profesional, Fassbinder permaneció imperturbable, coherente: “Me divertí  
muchísimo haciendo esas películas” (Fassbinder, 2018, p. 343), al referirse específicamente al  
año 1975 y 1976 en los que se realizó El asado de Satán.  
Fassbinder agregó: “El asado de Satán fue un punto en el que volví a decirme: ahora  
tienes que formularte determinadas cosas a ti mismo. No puedes seguir viviendo así, sin  
haberlas formulado, para decirlo de manera bien simple”. (Fassbinder, 2018, p. 344). Sin  
embargo, también se le cuestionaba por la dificultad de comprender las complejas tramas  
de sus historias: “Sabía que no eran películas narrativas sino películas donde muchas cosas  
pasan por asociaciones, para las cuales hace falta un público más cultivado” (Fassbinder, 2018,  
p. 453). ¿Era un provocador intelectual y elitista sólo para iniciados y espíritus elevados? “En  
El asado de Satán quería claramente que a través de la agresión contra el producto la gente  
reflexionara sobre los artistas en la sociedad” (Fassbinder, 2018, p. 401). Porque, a pesar el  
formato comedia, el argumento poético de Fassbinder fue demoledor en una entrevista. Sobre  
El asado de Satán, le preguntaron qué tipo de película sería. Contestó: “Un viaje hacia el interior  
del dolor” (Fassbinder, 2018, p. 280). ¿Qué comediógrafo daría esa respuesta? Realmente,  
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Fassbinder era un comunicador completo. Escribir una comedia desde el dolor puede sonar  
a cliché melodramático. Pero ya con el mero atrevimiento de decirlo, por lo menos a mi, me  
inmoviliza con mi intento de análisis y con mi intento de descriptor al aspirar, con declarada  
ingenuidad, captar lo que en pantalla quedó registrado para la posterioridad.  
¿Renovó el género cinematográfico de la comedia? Totalmente. ¿Se vuelve un autor  
inclasificable? En lo absoluto, todo lo contrario. Simplemente, se vuelve más versátil aún.  
Por eso su admiración incondicional a Douglas Sirk. Por eso la admiración incondicional de  
directorescomoPedroAlmodóvarhaciaRainerWernerFassbinder. Alelevarlaambicióncultural  
del formato comedia, Fassbinder innovó en el arte cinematográfico, pues hallar una comedia  
que comente así el estado actual que guarda la industria editorial, el periodismo cultural, la  
política internacional, la salud mental de artistas y seguidores, el mundo intelectual y sus  
consecuencias históricas, cuestiones como la judía y el antisemitismo, más las evidentemente  
falsas acusaciones de ser antisemita, además de ser honestamente creativo y provocador con  
temas de educación familiar y erotismo, espiritualidad y arte, no son tan frecuentes ni tan  
fáciles de hallar como desearíamos.  
Consideraciones finales  
Si ves El asado de Satán, vela con atención pero déjate llevar por la intención de reír. Es  
un entramado que insiste en mostrarnos lo ridículo que podemos llegar a ser los seres humanos  
con nuestras tribulaciones y egoísmos. Aún en su mal humor, el personaje de Luise no dejó de  
mostrar su lado emotivo y emocional, su dolor físico, su dolor ante la carencia de afecto, su  
consciencia de que el fin físico, la muerte, se aproxima y nos acecha.  
Plena de emociones, la reseña del Frankfurter Rundschau fue contundente: “El asado  
de Satán de Fassbinder tiene poder y una locura cautivadora”. Esta frase no tiene fecha pero  
aparece al final del trailer o avance de su más reciente versión restaurada, para disfrute de las  
nuevas generaciones de leales seguidores. Y una placa en su memoria reza su dicho: “Hacer  
muchas películas para que mi vida se convierta en una película”. Eso es amor al cine.  
Respecto a nuestro temor de que el humor llegue a su fin y se pierda esa poderosa arma  
política cotidiana para defensa de la libertad, del pensamiento, de la vida, películas como El  
asadodeSatányfilmografíascomoladeFassbinderesnecesariorescatarlasdeeseestereotipo  
de que pertenecen a otra época. Los grandes cineastas no hacen concesiones estrechas. Sus  
obras son generosas, espléndidas, abiertas al debate. Comunican apasionadamente amor por  
la humanidad y por la inteligencia.  
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Referencias  
Filmográficas  
El asado de Satán (Satansbraten, Rainer Werner Fassbinder, Alemania, 1976).  
Rubin and Ed (Trent Harris, Estados Unidos, 1991).  
It´s Pat (Adan Bernstein, Estados Unidos, 1994).  
Los 120 días de Bottrop (Christoph Schlingensief, Alemania, 1997).  
Una noche en el Roxbury (John Fortenberry, Estados Unidos, 1998).  
Literarias  
ECO, Umberto. El nombre de la rosa. Barcelona: Lumen, 1980.  
Bibliográficas  
FASSBINDER, Rainer Werner. Fassbinder por Fassbinder. Las entrevistas completas. Buenos  
Aires: El cuenco de plata, 2018.  
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IMAGEN, HUMOR Y PODER RACIAL EN AMÉRICA LATINA  
IMAGEM, HUMOR E PODER RACIAL NA AMÉRICA LATINA  
IMAGE, HUMOR, AND RACIAL POWER IN LATIN AMERICA  
1
Alexander Ortega Marín  
https://orcid.org/0009-0000-7626-1387  
http://lattes.cnpq.br/9087032502468981  
Recebido em: 3 de julho de 2025.  
Revisão final: 18 de janeiro de 2026.  
Aprovado em: 19 de janeiro de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23652  
1 Professor visitante do Departamento de Letras e do Programa de Pós-graduação em Letras de Ba-  
cabal (PPGLB/UFMA). E-mail: alexander.ortega.marin@gmail.com  
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RESUMEN: Este artículo estudia cómo el humor gráfico, desde la caricatura decimonónica  
hasta los memes digitales, construye y reproduce estereotipos raciales en América Latina.  
Analiza la representación del sujeto negro y mestizo como objeto de burla. Examina casos en  
Brasil, Cuba y México, mostrando la continuidad histórica de la racialización visual. Se articulan  
teorías sobre estereotipo y archivo colonial. Se argumenta que los memes actualizan gestos  
gráficos coloniales. El humor funciona como mecanismo de banalización del racismo.  
PALABRAS CLAVE: memes, humor gráfico, archivo colonial, América Latina.  
RESUMO: Este artigo estuda como o humor gráfico, da caricatura do século XIX aos memes  
digitais, constrói e reproduz estereótipos raciais na América Latina. Analisa a representação  
do sujeito negro e mestiço como objeto de zombaria. Examina casos no Brasil, em Cuba e  
no México, mostrando a continuidade histórica da racialização visual. Articulam-se teorias  
sobre estereótipo e arquivo colonial. Argumenta-se que os memes atualizam gestos gráficos  
coloniais. O humor funciona como mecanismo de banalização do racismo.  
PALAVRAS-CHAVE: memes, humor gráfico, arquivo colonial, América Latina.  
ABSTRACT: This article examines how graphic humor, from nineteenth-century caricature to  
digital memes, constructs and reproduces racial stereotypes in Latin America. It analyzes the  
representation of Black and mestizo subjects as objects of mockery, exploring cases in Brazil,  
Cuba, and Mexico to demonstrate the historical continuity of visual racialization. The study  
brings together theories of stereotype and the colonial archive, arguing that memes update  
colonial graphic gestures. Humor operates as a mechanism for trivializing racism.  
KEYWORDS: memes, graphic humor, colonial archive, Latin America.  
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INTRODUCCION  
En América Latina, algunas veces, la frontera entre el humor y la discriminación suele  
diluirse en el lenguaje cotidiano. Esta ambigüedad se refuerza en los intercambios rápidos de  
las aplicaciones digitales, en donde el meme ha ocupado un espacio importante. Siguiendo  
Araújo, quien parte del concepto original de meme propuesto por Richard Dawkins en O gene  
egoísta (ARAÚJO, 2019), podemos entenderlos como unidades culturales que se replican por  
imitación. En el entorno digital, los memes adquieren una dinámica propia: estética trash,  
velocidad de circulación, carga paródica y potencial viral.  
Entre 2010 y 2013, Facebook vivió una ola de memes provenientes de páginas de “humor  
negro” o grupos cerrados, con escaso control o sin regulación. Instagram y Twitter apenas  
comenzaban a posicionarse. Casos emblemáticos como la comparación entre Christiane  
Taubira y un simio en Francia2, o los comentarios de la cantante Marbelle en Colombia sobre  
la vicepresidenta Francia Márquez también comparándola con un simio, demostraron que  
la intencionalidad del meme racial, al banalizar estereotipos, se camuflaba en formas de  
comunicación instantánea.  
Sin embargo, tras el auge de movimientos como Black Lives Matter3 y las discusiones  
posteriores sobre racismo digital, el humor racializado en memes perdió algo de presencia  
pública, pero no desapareció. Sigue circulando en WhatsApp o transformándose en stickers  
o emoticones: pequeños recortes fotográficos con movimientos, en los que el fenotipo  
de personas con fenotipo de algunas regiones de África aparece como objeto de burla. Así,  
el humor producido por los memes consiste precisamente en la activación de estereotipos  
cuyo valor simbólico está encriptado en viejas herencias coloniales sobre la representación  
de sujetos históricamente marginalizados como personas de origen africano, indígenas o  
mestizas, cargadas de sentidos estereotipados.  
Los estereotipos para provocar risa, tales como la creencia en habilidades sexuales, su  
2 En octubre de 2013, Anne-Sophie Leclère, candidata del partido francés de extrema derecha Front  
National,ꢀpublicóꢀenꢀsuꢀperfilꢀdeꢀFacebookꢀunꢀfotomontajeꢀenꢀelꢀqueꢀcomparabaꢀaꢀlaꢀministraꢀdeꢀJus-  
ticia Christiane Taubira, de origen guayanés, con un mono. La imagen presentaba dos fotografías:  
a la izquierda, un simio; a la derecha, el rostro de Taubira, con el texto: “Antes era un mono, ahora  
es ministra”. Aunque no se trataba de un meme en sentido estricto, pues no circuló como plantilla  
replicable ni con estética participativa típica del humor digital, la composición visual + texto, su  
tono de burla y su rápida difusión mediática lo vinculan a los mecanismos simbólicos de los memes  
racializados. La imagen fue ampliamente difundida, condenada y utilizada como ejemplo de racismo  
institucional en Francia. (EL PAÍS, 2014).  
3 El movimiento Black Lives Matter, surgido en 2013 en Estados Unidos tras el asesinato de Tray-  
von Martin, marcó un giro global en la forma de denunciar el racismo. Su impacto en el ámbito digital  
visibilizó prácticas discriminatorias naturalizadas, como los memes racializados, y forzó una revisión  
crítica de los discursos humorísticos que perpetúan estereotipos. Desde entonces, muchas expresiones  
antes toleradas han sido confrontadas públicamente, generando nuevos marcos de sensibilidad racial  
en redes sociales y medios.  
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asociación con la fealdad, la suciedad o la predisposición al crimen, juegan un papel importante  
dentro del sentido de los memes. Según el psicólogo Allport (1958), son “una creencia exagerada  
asociadaconunacategoríaquesirveparajustificar(racionalizar)nuestraconductaenrelación  
a esa categoría” (ALLPORT, 1958, p.187). En esta línea, Allport sostiene que los estereotipos  
operan como estructuras mentales cuya función es regular nuestro comportamiento hacia  
otros grupos sociales, actuando como mecanismos de exclusión, simplificación perceptiva y  
justificación del rechazo (ALLPORT, 1958, p. 188).  
Dicho de otro modo, cada estereotipo arrastra tras de sí una historia, mecanismos de  
poder y configuraciones simbólicas que direccionan el imaginario colectivo. Así, los memes  
racializados no solo hacen reír: también activan comparaciones que naturalizan jerarquías  
sociales heredadas desde la colonia a través de canales de representación como la pintura, la  
prensa, el cine y la televisión.  
De esta noción de “simplicidad de percepción” del concepto de estereotipo proviene  
uno de los mecanismos que sostienen la configuración humorística del meme racial: reír de lo  
comúnmente aceptado sobre el fenotipo africano e indígenas, precisamente porque aparecen  
como formulaciones simples y reducidas de la realidad. Para el sociólogo portugués Jerónimo  
(2015), el humor puede definirse como “cualquier evento o formulación discursiva, intencionada  
o no, que provoque experiencias cognitivas culturalmente compartidas capaces de suscitar  
la risa y proporcionar entretenimiento” (JERÓNIMO, 2015, p. 67). Continúa el autor: los grupos  
con mayor poder tienden a convertir en anécdota, es decir, en chiste, tanto las características  
físicas como psicológicas de grupos marginados o percibidos como inferiores. En este marco,  
la risa no es neutral: reafirma la posición dominante de quien ríe y refuerza la desventaja de  
quien es objeto de burla (JERÓNIMO, 2015, p. 55).  
En este sentido, es clave comprender que el acto de reír por las exageraciones que  
suscita el físico o la personalidad del otro, como sujeto de la diferencia, se ha entendido desde  
la antigüedad como un gesto con profundas implicaciones sociales. Si miramos las teorías  
clásicas sobre el humor, como las propuestas por Aristóteles, Platón y Thomas Hobbes, la risa  
dirigida al otro podía también entenderse como una manifestación de superioridad de un grupo  
frente a otro. Desde esta perspectiva, una de las formas de hacer humor se activa a través de la  
comparación para la ridiculización de las diferencias y las inadaptaciones, reforzando así una  
lógica jerárquica.  
Platón, citado por Jerónimo (2015, p. 56), ya advertía que la risa puede ser maliciosa,  
dirigida hacia aquellos que ocupan posiciones subalternas. Hobbes, por su parte, sostenía que  
las personas ríen desde la conciencia de haber superado aquello que en el otro aparece como  
desventaja (JERÓNIMO, 2015, p. 56). Así, el humor frente al “otro” puede entenderse como la  
puesta en escena de representaciones simbólicas donde quien ríe se considera, tácitamente,  
superior o exento de aquello sobre lo que se ríe. Como apunta Jerónimo (2015, p.54), muchas  
bromas funcionan dentro de un código compartido por quienes pertenecen al mismo grupo  
social, y su efecto humorístico depende precisamente de esa complicidad y clandestinidad  
que se ha reforzado en la era digital.  
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En este tipo de producciones visuales, la eficacia del humor no reside en la acción  
ni en la situación representada, sino en la comparación implícita entre cuerpos, activada  
por un conjunto de estereotipos racialmente codificados. El contraste fenotípico funciona  
como eje del chiste y se apoya en una jerarquía visual ampliamente compartida, en la que la  
blancura se asocia a la norma, la belleza y la deseabilidad, mientras que los rasgos indígenas o  
afrodescendientes se convierten en marca de desviación o fealdad. El meme, al reducir esta  
operación a una imagen mínima acompañada de un texto irónico, naturaliza la burla racial bajo  
la apariencia de espontaneidad, reforzando una pedagogía visual que legitima la risa como  
forma de clasificación social. Como advierte Billig (2001, p.275), la apelación al humor como  
“solo una broma” cumple precisamente la función de negar la responsabilidad del prejuicio  
que el chiste expresa, al tiempo que transforma la risa en una práctica social compartida que  
refuerza la cohesión del grupo que la reproduce.  
En este contexto, la caricatura o la representación visual del meme se convierte en una  
herramienta eficaz de ridiculización ya que exagera diferencias y señala inadaptaciones. La  
eficacia se sostiene en subrayar la diferencia racial o étnica como anomalía o exceso. En los  
memes racializados, esta anomalía casi siempre se construye a través de contrastes en torno a  
jerarquías fenotípicas, piel blanca versus piel negra, europeo versus indígena, y frecuentemente  
asigna al sujeto negro o de rasgos indígenas atributos degradantes, entre ellos, el arquetipo  
de la fealdad o la animalidad. El carácter paródico del meme rompe momentáneamente la  
“realidad seria” y legitima, a través del humor, la burla mediante comparaciones implícitas que  
en otros contextos resultarían inaceptables.  
El análisis del meme permite, así, identificar unas referencias visuales que remiten  
a formas históricas de clasificación racial. Desde esta perspectiva, el meme opera como un  
punto de partida analítico que habilita una pregunta más amplia sobre la persistencia de estas  
lógicas en el tiempo. ¿En qué medida los contenidos que hoy circulan en los memes racializados  
remiten a herencias coloniales y a procesos de clasificación social consolidados durante la  
formación de los Estados nación? Esta pregunta desplaza el análisis del formato digital hacia  
la persistencia histórica de estructuras de representación jerárquica.  
Según Walter Mignolo (2007), uno de los legados más persistentes de la colonia es la  
lógica de la diferencia, basada en el racismo y el patriarcado, principios que fueron utilizados  
para organizar jerárquicamente la población a partir de un único modelo dominante: “el hombre  
blanco y heterosexual” (MIGNOLO, 2007, p.205). Esta estructura, afirma el autor, produce una  
percepción de inferioridad en relación con ese patrón hegemónico: “Estas personas devaluadas  
son heridas en su dignidad, y la herida colonial es difícil de curar” (MIGNOLO, 2007, p. 205).  
Nuestra hipótesis, creemos, corresponde a una herencia cultural de siglos en la que  
los grupos marginalizados se ubican en narrativas de comparación que destacan atributos de  
desventaja. Metodológicamente, se realizó una lectura crítica de fuentes visuales, pinturas  
de castas y caricaturas a partir de teorías provenientes de la historia del arte. A partir de la  
comparación entre archivos visuales de distintas épocas y contextos (siglo XVIII, XIX y XXI),  
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se realizaron análisis intertextuales para intentar rastrear estereotipos raciales y la posible  
relación con el humor gráfico latinoamericano.  
Este artículo no propone un análisis exhaustivo ni representativo de la totalidad del  
humor visual latinoamericano, sino una lectura comparativa y genealógica de un conjunto  
deliberadamente acotado de imágenes producidas en distintos momentos históricos. El  
objetivo no es establecer una tipología cerrada del humor gráfico, sino identificar recurrencias  
gráficas, retóricas y simbólicas que atraviesan distintos soportes y períodos históricos en  
América Latina. Cada corpus visual fue seleccionado según su relevancia en la configuración  
del imaginario racial  
Para profundizar esta hipótesis, este artículo se organiza en cinco secciones que  
articulan la continuidad histórica del humor racializado. En primer lugar, se examina un  
meme ampliamente difundido en redes, cuya apariencia humorística revela la valoración del  
fenotipo blanco en Europa; en este mismo apartado, se propone un desplazamiento hacia el  
humor teatral colonial, donde el indígena y el negro eran construidos como sujetos cómicos  
y subordinados. En segundo lugar, se aborda la pintura de castas como archivo visual clave  
en la consolidación de estereotipos fenotípicos en el siglo XVIII. En tercer lugar, se analiza  
la prensa ilustrada y la caricatura política en Brasil del siglo XIX, mostrando cómo el humor  
gráfico racializó el cuerpo de las personas de origen africano como grotesco o desviado del  
ideal nacional. En cuarto lugar, se dedica una sección al archivo visual cubano del siglo XIX,  
centrado en la representación hipersexualizada de la mujer negra y mulata y su reactivación  
en memes actuales. Por último, en quinto lugar, se estudia el caso de México a inicios del siglo  
XX, donde la caricatura étnica reforzó imaginarios raciales heredados del colonialismo bajo un  
nuevo nacionalismo posrevolucionario.  
Metodológicamente, el análisis articula tres niveles complementarios. En primer lugar,  
se realiza una lectura iconográfica, atenta a la composición visual, la exageración fisonómica  
y la relación entre imagen y texto. En segundo lugar, se desarrolla una interpretación  
sociohistórica, que sitúa las imágenes en sus contextos de producción, circulación y  
recepción. Finalmente, se adopta una perspectiva crítica desde los estudios poscoloniales, que  
permite rastrear la persistencia de matrices coloniales de representación racial en el archivo  
visual latinoamericano. Esta articulación metodológica no busca homogeneizar materiales  
heterogéneos, sino ponerlos en diálogo para evidenciar continuidades simbólicas.  
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CUANDO ME TOMO UNA FOTO CON MI HERMANA”  
Figura 1 – Yalitza Aparicio y Manu Ríos en alfombra roja (2024).  
FUENTE: Captura de pantalla de la publicación de Payino Quintero, Facebook, 27 sep. 2024.  
El meme digital analizado a continuación no se presenta como un caso aislado ni como  
una muestra representativa del conjunto del humor racializado contemporáneo, sino como  
un dispositivo de condensación. Su relevancia analítica radica en que activa, en un formato  
mínimo y de alta circulación, gestos gráficos y jerarquías visuales heredadas de tradiciones  
más largas del humor racial. En este sentido, el meme funciona como un punto de entrada que  
permite interrogar la persistencia histórica de determinados estereotipos, más que como un  
objeto autónomo desligado de un archivo visual previo.  
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La imagen compartida muestra a la actriz mexicana Yalitza Aparicio, reconocida  
internacionalmente por su papel protagónico en la película Roma (2018) 4y convertida en  
símbolo de la representación indígena en el cine. A su lado aparece Manu Ríos, actor, cantante  
e influencer español nacido en 1998. Alcanzó fama internacional por su papel como Patrick  
Blanco en la serie Élite, donde interpretó a un personaje abiertamente gay. Conocido también  
por su presencia en redes sociales y eventos de moda, Ríos representa una figura joven del  
espectáculo europeo contemporáneo.  
En la publicación, el contraste físico y fenotípico entre ambos cuerpos, uno blanco, alto,  
asociado a la moda europea; otro moreno, de rasgos indígenas, se convierte en el eje del  
chiste. La comicidad del mensaje no se basa en una acción absurda, sino en la comparación  
visual, sustentada en estereotipos raciales y de clase compartidos tanto por quien construyó  
el meme como por quienes lo replican. Este tipo de humor se apoya en una expectativa no  
verbalizada del arte visual, una serie de implícitos culturales que solo son entendidos desde  
el contexto de su publicación: que dos personas con características físicas tan distintas no  
podrían ser hermanos y que, si lo son, esas diferencias reproducen una jerarquía implícita: el  
personaje racializado es el feo. Lo que subyace, entonces, es la idea de que la presencia de una  
persona de rasgos indígenas puede ser utilizada como símbolo de fealdad.  
Desde el punto de vista de la representación, la figura de Yalitza Aparicio ha sido  
significativaporsuirrupciónenunaindustriacinematográficahistóricamenteracistayclasista.  
Su sola presencia en espacios como galas internacionales o premiaciones cinematográficas ha  
generado incomodidad y, al mismo tiempo, ha sido objeto de exotización. El post, al colocarla en  
contraste con un actor blanco y popular, reactiva ese mecanismo de visibilización atravesado  
por la diferencia racial como espectáculo.  
Desde esta perspectiva, el meme5, como pretendemos demostrarlo, reactualiza un  
archivo visual anterior, en el que la diferencia racial ha sido históricamente utilizada como  
recurso de comparación, burla y jerarquización. Estas cargas simbólicas, activadas a través  
de la imagen y su composición comparativa, encuentran antecedentes históricos en el uso  
del humor como forma de jerarquización. Una de las expresiones más representativas del  
humor en la época colonial fue el teatro, particularmente en sus formas populares como los  
entremeses, coloquios, comedias festivas y, sobre todo, las loas. Estas representaciones no  
4Romaꢀ(AlfonsoꢀCuarón,ꢀ2018)ꢀesꢀunꢀdramaꢀsemiautobiográficoꢀambientadoꢀenꢀelꢀMéxicoꢀdeꢀlosꢀ  
años 70, centrado en la vida de Cleo, una trabajadora doméstica indígena interpretada por Yalitza  
Aparicio. Su personaje encarna la invisibilización y la resistencia silenciosa de las mujeres raciali-  
zadas en contextos urbanos de clase media. La trama sigue su cotidianidad, marcada por tensiones  
familiares, desigualdad social y maternidades rotas. La actuación de Aparicio fue aclamada interna-  
cionalmente, convirtiéndola en un ícono de representación indígena en el cine contemporáneo. La  
película obtuvo tres premios Óscar, incluyendo Mejor Dirección y Fotografía.  
5 Queda fuera del alcance de este artículo un estudio cuantitativo sobre la circulación, mutación o  
recepción de memes digitales, lo cual requeriría herramientas propias de la etnografía digital y del  
análisis de plataformas. El presente trabajo se limita, de manera consciente, a una lectura cualitativa  
y comparativa, centrada en la persistencia de estereotipos raciales y jerarquías visuales a lo largo del  
tiempo.  
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solo tenían una función lúdica, sino que también operaban como instrumentos de instrucción  
religiosa y social. En el contexto americano, géneros como los autos sacramentales y las loas  
fueron adaptados estratégicamente para la evangelización y la organización simbólica del  
poder, reforzando el orden colonial mediante una risa permitida, siempre subordinada a una  
finalidad pedagógica (PEÑA, 2006, p. 5)  
Una de las formas teatrales donde con mayor claridad se evidencia el uso cómico y  
jerárquico de personajes racializados fue la loa, género breve que precedía a la obra principal  
y servía como introducción doctrinal o alegórica. En el contexto novohispano, las loas  
frecuentemente incluían personajes indígenas o afrodescendientes que hablaban en castellano  
deformado, con construcciones gramaticales incorrectas o fonéticas exageradas. Esta  
deformación no era inocente: tenía una función pedagógica y jerárquica, pues el humor surgía  
de la torpeza lingüística y simbólica de los personajes subalternos. Como lo analiza Fernández  
(1999, p. 45) en su estudio sobre Fernán González de Eslava, dramaturgo del siglo XVI y una  
de las figuras más representativas del teatro novohispano, muchas de las representaciones  
teatrales del siglo XVI en la Nueva España incluían figuras caricaturizadas de indígenas en  
papeles menores o como parte de escenas cómicas.  
En los Coloquios espirituales y sacramentales era común encontrar personajes que  
hablaban con deformaciones lingüísticas, usaban refranes torpes o actuaban con ingenuidad  
exagerada. Estas características se utilizaban para ridiculizar su supuesta inferioridad cultural,  
al tiempo que divertían al público criollo y mestizo urbano. Según Fernández, esta “comicidad  
local” cumplía una doble función: “aligerar la carga doctrinal y reforzar jerarquías simbólicas”  
(FERNÁNDEZ, 1999, p. 45).  
Como señalan Carlos Jáuregui y Edward H. Friedman (2006) , los personajes indígenas  
en el teatro colonial “no representaban una voz étnica subversiva”, sino una “gesticulación  
cómica dentro del orden” (JÁUREGUI; FRIEDMAN, 2006, p. 21). Es decir, eran permitidos en  
escena en tanto reprodujeran el estereotipo del “indio torpe” o “mestizo pícaro”, pero no como  
sujetos críticos o complejos. El teatro, lejos de abrir un espacio a la pluralidad, reforzaba  
los límites raciales y culturales del poder colonial mediante el uso de la risa como forma de  
domesticación.  
Como muestra Margarita Peña, en comedias como Apostolado en las Indias y martirio  
de un cacique, escrita por Eusebio Vela en el siglo XVIII, aparecen figuras como Axolote y  
Mendrugo, graciosos de corte indígena que “mantienen tipos de la comedia áurea [...] y el  
esquema maniqueo tradicional de lucha entre el bien, representado por los españoles y la  
religión cristiana, y el mal, simbolizado por Izcóhuatl y la idolatría” (PEÑA, 2006, p. 12). A través de  
estos personajes, el teatro convertía la risa en una herramienta de evangelización, reforzando  
la visión imperial del mundo al ridiculizar lo indígena desde el escenario.  
Como también señalan Jáuregui y Friedman (2006), el teatro era un mecanismo de  
sincronización cultural y política entre la metrópoli y las colonias, una forma de “incorporar a los  
aborígenes a la fe católica y al imperio” (JÁUREGUI; FRIEDMAN, 2006, p. 11). El humor, por tanto,  
funcionaba dentro de un marco de control y domesticación simbólica. A pesar de que existían  
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personajes cómicos, como el gracioso, el indio torpe o el negro bufonesco, el teatro colonial  
evitaba tratar abiertamente los conflictos raciales o las contradicciones del poder imperial.  
Lo que se puede resumir de esta  
parte es, entonces, que la figura del indígena era  
empleada como figura cómica para reafirmar la necesidad ideal de fe. Es decir, solo la  
redención cristiana podía corregir el “defecto” asociado a su condición indígena. Esta figura,  
asociada a la torpeza y a la falta de fe, no era utilizada con el fin explícito de provocar risa, pero  
su representación como personaje subalterno implicaba mostrarlo como una deformación  
de la norma: como salvaje y bárbaro. Lo anterior nos lleva, entonces, a preguntarnos cómo,  
además del teatro, se podían plasmar visualmente estas diferencias entre los grupos sociales  
de la época. En este sentido, la pintura de castas aparece como una de las primeras formas de  
configuración visual del estereotipo racial.  
LA PINTURA DE CASTAS: INDIAS COMERCIANTES, NEGRAS AGRESIVAS  
En lo que concierne a la representación visual de los indígenas y esclavos en las colonias  
españolas en América durante el siglo XVIII, el humor no operaba mediante el formato moderno  
de las caricaturas racializadas, es decir, frente a la exposición exagerada e hiperbólica de  
rasgos físicos. El contexto de las reformas borbónicas6 y la ansiedad de las élites por preservar  
la jerarquía de las castas permitió una exhaustiva representación gráfica de los fenotipos  
raciales. La autora Ana Julia Arroyo Urióstegui explica que las pinturas de castas eran series,  
comúnmente realizadas en grupos de 12 o 16 cuadros, siguiendo un patrón en el que se  
representaban un padre, una madre y uno o dos hijos (ARROYO URIÓSTEGUI, 2017, p. 17).  
En ellas se incorporaban elementos adicionales como paisajes, iconografía cristiana,  
animales, frutas, verduras y productos del trabajo artesanal, como zapatos o cigarros, con  
el fin de evidenciar los oficios u ocupaciones de los personajes. Aunque estas imágenes no  
reflejaban fielmente la realidad social, Arroyo Urióstegui sostiene que sí contribuyeron a crear  
una imagen de estratificación, basada en paradigmas culturales e ideológicos impuestos por  
los grupos dominantes (ARROYO URIÓSTEGUI, 2017, p. 12).  
Si hacemos dialogar las pinturas, con los imaginarios que se ponían a jugar en el teatro  
de la época explicado más arriba, podríamos inferir que estas pinturas solo confirmaban  
estereotipos de los grupos racializados. Si bien, la representación visual del fenotipo indígena  
6 Las Reformas Borbónicas no solo reorganizaron la administración y la economía del imperio es-  
pañolꢀenꢀelꢀsigloꢀXVIII,ꢀsinoꢀqueꢀtambiénꢀreforzaronꢀjerarquíasꢀsocialesꢀbasadasꢀenꢀcriteriosꢀraciales,ꢀ  
consolidando el poder de las élites blancas en América. Al centralizar la autoridad y profesionalizar  
la burocracia, se promovió una política de exclusión que marginaba a castas consideradas inferiores,  
impidiendo su ascenso dentro del aparato colonial. La limpieza de sangre, ya presente desde la época  
colonial temprana, fue reinterpretada por los funcionarios borbónicos como un criterio de mérito para  
accederꢀaꢀcargos,ꢀhonoresꢀyꢀesferasꢀdeꢀinfluencia.ꢀSegúnꢀSilvioꢀZavala,ꢀlasꢀreformasꢀnoꢀsoloꢀbusca-  
ronꢀeficaciaꢀpolítica,ꢀsinoꢀqueꢀ“reforzaronꢀunꢀordenꢀjerárquicoꢀenꢀelꢀqueꢀlaꢀascendenciaꢀespañolaꢀseꢀ  
convirtió en requisito implícito de legitimidad social y política”. Así, las reformas administrativas  
también fueron reformas raciales.  
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y afro no tenía como objetivo provocar risa, según el historiador Taylor (2009), sí producía lo  
siguiente: “lejos de representar una celebración de la multiculturalidad... las pinturas de castas  
‘colocaban a la gente en su espacio racial imponiendo un orden en una mezcla no sancionada’”  
(TAYLOR, 2009, p. 38). En otras palabras, la imagen colonial del indio o del negro servía para  
señalar su lugar subordinado en el orden social, no para la burla lúdica.  
En cambio, para los negros, mulatos y afromestizos, el sistema visual dejaba claro que  
no había redención simbólica: aun cuando su fenotipo se acercara al blanco, como en el  
caso del “albino”, la marca de lo negro reaparecía, encarnada en la figura del “tornatrás”, que  
señalaba el fracaso de cualquier intento de borrar la mezcla (CELLI, 2012, p. 119). En la figura 2,  
el español aparece vestido con atuendo europeo y gesticulando con autoridad, mientras que la  
mujer indígena es retratada como vendedora de textiles, en postura que sugiere dignidad pero  
también subordinación dentro del orden colonial.  
Figura 2- De español y de india, mestiza (Miguel Cabrera, 1763).  
FUENTE: Colección Museo Nacional del Virreinato. (Consultada a través de CATELLI, 2012).  
En este contexto, el humor gráfico, entendido como una comparación paródica, era  
considerado una forma vulgar y subversiva, incompatible con la racionalidad católica y el  
discurso del orden imperial. La Iglesia, en particular, ejercía un control minucioso sobre la  
producción visual, extendiendo su censura incluso al terreno estético. Enrique Gacto (2000)  
en su estudio sobre la censura estética inquisitorial, afrima que incluso las representaciones  
destinadas a provocar risa o entretenimiento estaban sujetas a un férreo control moral. La  
Inquisición no solo censuraba libros, sino también imágenes que pudieran subvertir el orden  
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simbólico mediante el humor o el deseo, (GACTO, 2000, p. 8)  
En los decretos inquisitoriales del siglo XVII, por ejemplo, se prohibía expresamente  
“meter en estos Reynos imágenes de pintura, láminas, estatuas o esculturas lascivas… y  
asimismo se prohíbe a los pintores que no las pinten”. (GACTO, 2000, p. 8) Esta advertencia  
revela hasta qué punto el poder eclesiástico temía que ciertas formas de comicidad visual,  
especialmente aquellas que erotizaban cuerpos o ridiculizaban figuras de autoridad, pudieran  
desafiar la jerarquía colonial. Así, incluso la risa era regulada: permitida solo cuando reforzaba  
el orden, y sancionada cuando lo cuestionaba.  
Por su parte, Laura Catelli (2012) interpreta la pintura de castas también como archivos  
simbólicos de los imaginarios de estratificación cultural de la época. En ellos, la autora  
encuentra la preocupación de las élites criollas por dejar un referente visual sobre un tema  
crucial: la limpieza de sangre, situando en el centro del relato visual la construcción de una  
identidad criolla. Estas pinturas, encargadas por virreyes y autoridades españolas, se inscriben  
dentro de un marco de tensiones entre los criollos, hijos de españoles nacidos en el Nuevo  
Reino, y las autoridades peninsulares, en donde las castas adquirían un fuerte poder simbólico  
de jerarquización (CELLI, 2012, p. 144).  
Como bien explica Celli (2012), la pintura de castas funcionaba como un soporte  
visual en el que se cristalizaba el discurso jerárquico reproducido por las élites criollas. En la  
cúspide del orden figuraban los españoles y sus descendientes directos; en un segundo nivel,  
los mestizos, resultado de la unión entre españoles e indígenas, cuya “mejoría” era concebida  
como posible mediante el blanqueamiento progresivo. En cambio, para los negros, mulatos y  
afromestizos, el sistema visual dejaba claro que no había redención simbólica: aun cuando su  
fenotipo se acercara al blanco, como en el caso del “albino”, la marca de lo negro reaparecía,  
encarnada en la figura del “tornatrás”, que señalaba el fracaso de cualquier intento de borrar la  
mezcla (CELLI, 2012, p. 149).  
En relación con estos estereotipos, Catelli (2012) indica que estos cuadros reflejaban  
tanto los imaginarios de los ibéricos como los de las élites criollas, y que muchas veces los  
mensajes no eran explícitos, sino que se codificaban visualmente a través de composiciones  
internas. El lenguaje pictórico, la disposición de los elementos y los objetos acompañantes,  
como herramientas, frutas, mobiliario, sugerían valores morales, capacidades intelectuales e  
incluso intenciones. Algunas escenas muestran disputas domésticas o niños llorando, con un  
propósito claramente moralizante, pero no humorístico (CELLI, 2012, p. 152).  
Como lo señala Arroyo Urióstegui (2017), la pintura de castas impone un discurso visual  
que enseña a mirar al otro desde una representación idealizada del español: con autoridad  
moral, buena presencia, limpieza, afecto y linaje (ARROYO URIÓSTEGUI, 2017, p. 15). Esta figura  
se contrapone, como apunta la autora, a la imagen asignada a personajes de origen negro,  
a quienes se atribuían valores negativos como la suciedad, el alcoholismo o la violencia.  
Particularmente, las mujeres negras eran retratadas como temperamentales o descontroladas.  
En la figura 3, se muestra la violencia simbólica y física en la representación colonial, donde el  
español aparece siendo agredido por la mujer negra mientras un niño observa la escena.  
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Aunque estas imágenes carecían de rigor científico y no pueden ser tomadas como  
registros fieles del siglo XVIII, sí jugaron un papel decisivo en la diseminación de una ideología  
discriminatoria contra ciertos sectores de la población (ARROYO URIÓSTEGUI, 2017, p. 15).  
Figura 3- De español y negra, nace mulata (Andrés de Islas, 1774).  
FUENTE: Colección Museo Nacional del Virreinato. (Consultada a través de CATELLI, 2012).  
Lo que se puede resaltar, entonces, es que las imágenes representadas en las pinturas  
funcionaban como un discurso tanto visual como verbal, en el que se plasmaban los fenotipos  
asociados a distintos grupos dentro del entramado social. De este modo, la representación  
visual del imaginario colectivo operaba también como un mecanismo de reproducción de  
estereotipos negativos. La risa, en este contexto, no tenía lugar: lo que predominaba era  
cierta solemnidad, lo ritual, una representación jerárquica puesta al servicio del poder. Surge  
entonces la pregunta: ¿en qué momento aparece la risa explícita o la hiperbolizarían de los  
rasgos físicos o psicológicos de las minorías en la representación gráfica?  
LA INDEPENDENCIA: EL SALTO AL HUMOR SATIRICO  
Con el siglo XIX y la aparición de la prensa ilustrada, la risa se vuelve más visual, satírica  
y política, y, sobre todo, más accesible. Se caricaturiza a grupos populares, afrodescendientes  
o indígenas, ya no solo para clasificarlos, sino para proponer nuevas narrativas de acuerdo a  
los ambientes políticos nacionalistas del momento. A pesar de que el ambiente político era  
distinto, sobre todo en relación sobre supuestos principios de igual y libertad, el siglo XIX  
coincide con las épocas pasadas, en continuar ubicando a los sujetos negros como el “error”, la  
amenaza o la desviación dentro del proyecto de nación.  
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Como quisimos subrayarlo más arriba, en el teatro colonial, el humor tenía una estrategia  
moralizante y una búsqueda de homogeneización ética. Tras la abolición de la esclavitud y en el  
marco de la consolidación de los Estados nación, el humor gráfico, particularmente el humor  
satírico, adquirió un nuevo papel en la esfera pública. Como señala Ayala Blanco (2010), en  
aquel contexto, “los diarios de mayor circulación y los semanarios sicalípticos y humorísticos  
abandonan su frivolidad y se politizan”, y “la gráfica periodística, que se había orientado al  
humorismo intrascendente, recupera rápidamente su tradición satírico-política” (AYALA  
BLANCO, 2010, p. 80). Así, el humor se convirtió en una fórmula eficaz para mediar debates  
políticos y sociales emergentes.  
La aparición de la caricatura política durante los periodos independentistas y  
abolicionistas en América Latina comienza a ubicar a los sujetos racializados en arquetipos no  
solo referenciales, como en las pinturas de castas, para ilustrar y tener marcos de segregación  
sobre la diversidad poblacional, sino que se les ubica como supuestos sujetos en acción por  
sus derechos o cuerpos de denuncia por las elites abolicionistas.  
Si analizamos el caso de Brasil durante el periodo abolicionista, aparece el uso de la  
caricatura sensacionalista y naturalista, que representa a los esclavos y a los sujetos negros ya  
sea como víctimas de un sistema esclavista exhausto o como militantes de los nuevos ideales  
nacionales. La disputa entre élites a favor y en contra de la esclavitud, tanto en las grandes  
ciudades de Brasil como en las provincias, se traducía en la prensa escrita mediante una  
propaganda política variada, acompañada de caricaturas que buscaban construir una narrativa  
trágico-política sobre lo que estaba sucediendo en relación con los esclavos.  
En este contexto destaca la obra del artista Angelo Agostini (1843–1910), quien obtuvo  
reconocimiento escribiendo en A Vida Fluminense. Su estilo, estudiado por Gilberto Maringoni  
(2024), se enfoca en el trasfondo del diseño de sus caricaturas y en los curiosos giros que fue  
tomando su arte. Al mismo tiempo, su obra ha servido para que los historiadores gráficos  
subrayen contradicciones sociales y, en nuestro caso, ofrezcan una pista más para comprender  
los circuitos internos de la representación del fenotipo negro dentro del meme contemporáneo.  
Como explica Maringoni (2024), Agostini pasó de elaborar caricaturas profundamente  
realistas, una narrativa visual que colocaba a los sujetos negros en el centro de escenas  
de violencia y escarnio, a representarlos de forma grotesca y burlesca. El autor evoca, por  
ejemplo, la edición número 11 de junio de 1870 de A Vida Fluminense, en la que Angelo Agostini  
representa a un soldado afrodescendiente llegando a una hacienda, y descubriendo que, a  
pesar de participar en la milicia abolicionista, su madre aún está siendo azotada. En la leyenda,  
el caricaturista explica lo que ve y lo califica como una “horrible realidad” (MARINGONI, 2024,  
p. 11).  
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Figura 4 - De volta do Paraguai – Cheio de glória... (Angelo Agostini, 1870).  
FUENTE: VIDA FLUMINENSE., 1870, p.1 (Consultada a través de MARINGONI, G. 2024).  
Como podemos ver en la figura 4, el autor se detiene a explicar detalles que pueden  
pasar desapercibidos para el espectador actual. En primer lugar, señala la falacia detrás del  
sustantivo “voluntario” utilizado en la leyenda, recordando que la mayoría de los esclavizados  
que participaron en los sucesivos enfrentamientos fueron llevados a la fuerza o seducidos  
por la promesa de libertad. En segundo lugar, destaca que, para la época y para la pequeña  
élite intelectual urbana, ver a un hombre negro con zapatos y uniformado como es el caso del  
soldado, representaba un ascenso social inesperado, aunque mínimo, pero profundamente  
desestabilizador. Esto resultaba especialmente perturbador en una sociedad que había  
animalizado a las personas de piel oscura durante casi tres siglos (MARINGONI, 2024, p. 12).  
Agostini, nos explica Maringoni (2024), intenta en esa caricatura hacer propaganda del  
sentimiento de una deseada unidad nacional, donde el sujeto negro, en lugar de manifestar  
resentimiento u odio, como cabría esperar desde una lógica de revancha, se somete a los  
ideales de la construcción de la nación. El estilo del caricaturista adquiere, continúa la autora,  
un sentido técnico y dramático, con el fin de incomodar al lector. La caricatura, aunque  
cuestiona las contradicciones de una sociedad en transición del régimen esclavista hacia una  
república, visibiliza al negro como agente pasivo de la revolución: como víctima, como objeto  
de compasión o escarnio, y como portador de estereotipos (MARINGONI, 2024, p. 11).  
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Además de dejar los trazos ideológicos y políticos libertarios del reportero, también  
dejaron plasmados los representaciones estereotipadas y prejuiciosas de las elites sobre  
sobre el fenotipo. Aunque menos evidente en este primer ejemplo traída por la autora, si se  
vuelve mucho más explícito en la figura 5. Una de las ilustraciones que mejor ejemplifica el  
imaginario del artista, aparece en el año de 1884, en las páginas centrales de la Revista Ilustrada  
durante plena campaña contra el cautiverio. Como se puede ver en la figura, se observa a la  
mascota, espantada con la expresión de los 13 personas africanas detrás de sí.  
Figura 5 - Vê-se cada venta! (Revista Illustrada, 1884).  
}
FUENTE: VIDA FLUMINENSE., 1870, p.1 (Consultada a través de MARINGONI, G. 2024).  
La leyenda muestra explícitamente la relación entre dos ideas: por un lado, la defensa  
del abolicionismo; pero, al mismo tiempo, revela el asombro y la extraña admiración hacia lo que  
se consideraba la “belleza africana”: seres de cabezas y facciones exageradas. El caricaturista  
señala en la leyenda que se ven unas narices tremendas. El uso del verbo extasiar se refiere  
a una sorpresa ambigua, a la contradicción de observar un físico grotesco bajo la etiqueta de  
“belleza africana”.  
Los trece personajes, hombres, mujeres y niños, son dibujados de manera casi  
desindividualizada, con facciones exageradas. La mascota del periódico, de piel blanca,  
que remite a la figura de un niño, se muestra asustada y sorprendida. Lo que el autor del  
texto señala, a partir del análisis de la época, es que el sujeto negro, a pesar del ambiente  
abolicionista, seguía encasillado en los mismos estándares rígidos: como alguien feo y de  
presencia intimidante (MARINGONI, 2024, p. 17).  
Lo que queremos subrayar con este ejemplo es como la representación de las personas  
de ascendencia africana, siguen siendo una construcción subordinada a las elites, y que, a  
diferencia de la función de la pintura de casta como paradigmas de lo puro y no puro, en la  
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caricatura de las épocas abolicionistas se nota el énfasis de la exageración de rasgos físicos.  
Una lectura mucha más profunda, podría incluso a llevarnos a estudiar, que mecanismos  
ideológicos, como los brotes de la libertad de prensa, abrieron la puerta de nuevos canales  
para el transito d los mismos estigmas peyorativos frente a los cuerpos racializados.  
Este ejemplo en Brasil, nos lleva a preguntarnos entonces en que momento, reír o la  
intención de reír por el rasgo físico se vuelve una dinámica popular y aparentemente desligada  
de rasgos políticos ligados a los ideales del Estado Nación. Si aún nos toca esperar algunos  
años con la masificación de la información con la llegada de las tecnologías, otro ejemplo  
puede seguir ilustrándonos la influencia de la propaganda americana racista, sobre todo en lo  
que refiere a los imaginarios de la mujer mulata.  
Antes de adentrarnos en el contexto cubano, es importante subrayar que el ejemplo  
brasileño nos permite observar cómo, incluso en un ambiente marcado por ideales  
abolicionistas, la representación gráfica de los sujetos negros continuaba aferrada a  
estereotipos que los colocaban como víctimas pasivas o figuras caricaturescas. Este patrón  
de ambivalencia, donde el cuerpo racializado se convierte en objeto de compasión y burla al  
mismo tiempo, no es exclusivo de Brasil.  
Al contrario, se expande por otras geografías latinoamericanas, adoptando matices  
propios según las tensiones locales. En Cuba, por ejemplo, la caricatura satírica no solo  
reforzó jerarquías raciales, sino que introdujo un componente de hipersexualización femenina,  
evidenciando cómo la alteridad fenotípica y la estructura de género se entrelazaron para  
producir nuevos dispositivos de control y escarnio.  
LA HIPERSEXUALIZACION COMO RECURSO HUMORISTICO: EL CASO CUBANO  
En este sentido, resulta especialmente útil el análisis realizado por Salvador Méndez  
Gómez sobre el humor gráfico en Cuba durante el siglo XIX. En su artículo Feminidades  
racializadas e imaginarios coloniales, el autor indaga cómo el humor visual en la prensa cubana  
de la época inscribió a las mujeres negras y mulatas en una doble condición: como cuerpos  
degradados y, al mismo tiempo, como cuerpos deseables. Una mezcla que no es contradictoria,  
sino constitutiva de la mirada colonial (MÉNDEZ GÓMEZ, 2015, p. 79–80).  
El trabajo de Méndez Gómez muestra que las caricaturas de mujeres negras en la  
prensa satírica del siglo XIX no estaban destinadas a provocar ternura o empatía. Por el  
contrario, eran representadas como figuras grotescas, vinculadas al deseo sexual desmedido,  
la ignorancia o la picardía. La mulata, en especial, aparece como objeto de deseo y burla a la  
vez. Su cuerpo es el cuerpo mestizo que se aleja de lo blanco, pero no completamente, lo que la  
vuelve “peligrosamente atractiva” (MÉNDEZ GÓMEZ, 2015, p. 80). Este tipo de representación,  
como advierte el autor, construye un régimen de visualidad en el que la mujer negra es  
permanentemente sexualizada, y su valor humorístico reside en el cruce entre erotismo y  
marginalidad (MÉNDEZ GÓMEZ, 2015, p. 80–81).  
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El humor gráfico cubano decimonónico, como señala Méndez Gómez, no actuaba desde  
el desprecio directo, sino desde la trivialización: la mujer negra o mulata era retratada como  
“pícara”, “sabrosa”, “atrevida”, casi siempre en situación de ambigüedad moral. Estos personajes  
no eran solo figuras decorativas; cumplían la función de reafirmar, con risa, la jerarquía sexual y  
racial del orden colonial (MÉNDEZ GÓMEZ, 2015, p. 82–83). Como en otras partes del continente,  
lo risible no era tanto la fealdad física, sino la desviación del ideal de feminidad blanca: las  
mujeres racializadas eran “demasiado” algo, demasiado exuberantes, demasiado atrevidas,  
demasiado ruidosas. El exceso se convertía en motivo de risa.  
Figura 6- Ábrete, gato prieto... (Moré García y Cía San Nicolás, segunda mitad del siglo XIX)  
FUENTE: Moré garcía y cª San nicolás (2ª mitad del s. XiX). Escena con la leyenda: “ábrete gato prieto,  
que toitica la calle es tuya”, de la serie Tipos y costumbres de la isla de Cuba, impresa por la real  
fábrica La Legitimidad de Luis Susini e hijo, cromolitografía, Biblioteca nacional de cuba. (Consultada  
a través de MÉNDEZ GÓMEZ, S. 2015).  
La caricatura de la figura 6, resume cómo el humor gráfico cubano proyectaba sobre las mujeres  
racializadas un imaginario de excesos. En la imagen, la mujer mulata aparece con los labios y la nariz  
desproporcionadamente exagerados, caminando con una actitud desafiante que se transforma en  
objeto de risa y deseo para el espectador. La leyenda, escrita en lenguaje popular, refuerza la idea de  
la mulata como figura hipersexualizada, atrevida y fuera de control, situándola como un cuerpo que  
desborda los márgenes de la feminidad blanca y respetable. Con su tono burlesco y la hipérbole de los  
rasgos, la caricatura construye un relato en el que la mujer negra se convierte en amenaza erótica y  
motivo de escarnio.  
Lo que podemos observar, entonces, es que la propuesta de Méndez Gómez permite  
entender que el humor visual no es un recurso neutro ni espontáneo, sino una forma de reproducción  
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profundamente anclada en matrices coloniales de género y raza. Sus hallazgos invitan a reflexionar  
sobre cómo los memes sexualizados actuales forman parte de un archivo mayor, donde el humor no  
suaviza la violencia, sino que la legitima. Así, la “mulata sabrosa” del siglo XIX y el sticker de la “negra  
gritona” de hoy comparten una misma raíz: ser útiles para provocar risa desde el exceso, el desborde y  
la desautorización del otro (MÉNDEZ GÓMEZ, 2015, p. 84–85).  
Este archivo visual no quedó circunscrito al Caribe: la lógica de la risa como mecanismo  
de control social migró y se reinventó en otros contextos latinoamericanos. Así, al cruzar hacia  
México en las primeras décadas del siglo XX, vemos cómo la caricatura étnica retoma y adapta  
estos imaginarios coloniales para apuntalar un nuevo nacionalismo. En este tránsito, la risa  
deja de ser solo un gesto individual para convertirse en una pedagogía colectiva que define  
quién pertenece a la nación y quién queda al margen.  
¿QUIEN ES MEXICANO Y QUIEN NO ES?  
Si estudiamos el caso de México, a comienzos del siglo XX, encontramos primero un  
contexto influenciado por las ideas de Gobineau7 sobre la supremacía supuestamente biológica  
de los grupos blancos. En el artículo, se nos señala a través de su análisis, no un contexto de  
transformación económico y social, sino ya un ambiente de reafirmación nacionalista.  
El humor étnico, según Navarro Granados, aparece en la interacción entre dos o más  
grupossocialesy,paraelcasodeMéxico,promuevelabanalizacióndelracismo.Lainvestigación  
de Navarro se centra en el período de 1924 a 1932, coincidente con el auge del nacionalismo  
mexicano, durante el cual se incrementó la producción de caricaturas e historietas en la  
prensa (NAVARRO GRANADOS, 2015, p. 25). Los blancos favoritos de estas representaciones  
eran los extranjeros: españoles, chinos, estadounidenses, inmigrantes del Medio Oriente y,  
especialmente, los negros.  
El autor señala que las bromas en este tipo de caricaturas se estructuraban en torno a  
7SegúnꢀlaꢀautoraꢀPerlaꢀPatriciaꢀValeroꢀPacheco,ꢀelꢀpensamientoꢀdeꢀJosephꢀArthurꢀdeꢀGobineauꢀcon-  
solidóꢀenꢀelꢀsigloꢀXIXꢀunꢀmodeloꢀdeꢀracismoꢀcientíficoꢀqueꢀtransformóꢀprejuiciosꢀcolonialesꢀenꢀ“cer-  
tezascientíficas”ꢀaparentementeincuestionables.EnsuEnsayosobreladesigualdaddelasrazasꢀ  
humanasꢀ(1853),ꢀGobineauꢀnoꢀsoloꢀclasificóꢀjerárquicamenteꢀaꢀlasꢀrazasꢀ–ubicandoꢀaꢀlaꢀnegraꢀcomoꢀlaꢀ  
más inferior en términos intelectuales y morales–, sino que fundió esta jerarquía con el discurso de la  
civilizaciónꢀyꢀdelꢀprogreso.ꢀComoꢀobservaꢀValero,ꢀloꢀmásꢀpeligrosoꢀdeꢀsuꢀteoríaꢀnoꢀfueꢀsuꢀbrutalidadꢀ  
discursiva,ꢀsinoꢀsuꢀcapacidadꢀdeꢀinfiltrarseꢀenꢀelꢀaparatoꢀideológicoꢀmodernoꢀgraciasꢀalꢀprestigioꢀqueꢀ  
comenzaban a adquirir las ciencias biológicas y antropológicas. Así, la pretendida inferioridad de las  
razas no blancas quedó naturalizada como un hecho objetivo, y la raza blanca se convirtió en medida  
deꢀloꢀhumano,ꢀloꢀcivilizadoꢀyꢀloꢀlegítimo.ꢀEstaꢀ“ficciónꢀcientífica”,ꢀcomoꢀlaꢀllamaꢀlaꢀautora,ꢀlegitimóꢀ  
por décadas la exclusión, la esclavitud, el colonialismo y más tarde incluso la eugenesia, mostrando  
cómoꢀlosꢀdiscursosꢀdeꢀautoridadꢀ–enꢀesteꢀcaso,ꢀelꢀcientífico–ꢀpuedenꢀfuncionarꢀcomoꢀherramientasꢀ  
deꢀdominaciónꢀsimbólicaꢀdeꢀlargoꢀalcance.ꢀGobineauꢀnoꢀfueꢀunꢀcientíficoꢀdeꢀformación,ꢀperoꢀusóꢀelꢀ  
lenguaje de la ciencia para dotar de coherencia a un pensamiento esencialista que marcaría el rumbo  
deꢀlasꢀideologíasꢀracistasꢀenꢀEuropa,ꢀAméricaꢀyꢀelꢀCaribeꢀhastaꢀbienꢀentradoꢀelꢀsigloꢀXXꢀ(VALEROꢀ  
PACHECO, 2015, p. 37–41).  
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cuatro coordenadas: la indumentaria y rasgos físicos característicos, las formas particulares  
de hablar el español, su identificación con ciertos oficios y la encarnación de valores o actitudes  
morales (NAVARRO GRANADOS, 2015, p. 26). Si analizamos estas coordenadas, notamos que  
son las mismas que articulaban la pintura de castas durante el periodo colonial, en especial lo  
relacionado con los oficios, los gestos y las disposiciones “naturales” de carácter psicológico.  
La estética caricaturesca, en este sentido, funciona como un archivo visual que actualiza  
viejas representaciones coloniales bajo un formato de entretenimiento gráfico.  
En el caso de las personas de piel oscura, sin embargo, Navarro identifica una excepción  
notable. Aunque a veces se las nombraba como cubanas o estadounidenses, lo racial se  
superponía a la nacionalidad, y la negritud funcionaba como una categoría por sí sola, suficiente  
para activar el mecanismo de la risa (NAVARRO GRANADOS, 2015, p. 27–28). El negro en la  
caricatura era el arquetipo que podía insertarse en cualquier situación cómica sin necesidad  
de contexto. El color de piel bastaba. Como explica el autor, “en ellos puede verse con claridad  
el mecanismo más básico de burla del otro” (NAVARRO GRANADOS, 2015, p. 31). Las bromas se  
apoyaban sobre todo en el cuerpo: labios prominentes, gestos simples, una fisicidad mostrada  
como monstruosa, con trazos exagerados que evocaban lo tribal o lo primitivo.  
Figura 7- Temerosos (Cayetano Caloca Valle, 1928).  
FUENTE: Caricatura sobre fealdad de los negros. Cayetano Caloca Valle, “Temerosos”, El Universal, 6  
de mayo 1928, 4ª sección, p. 3 (Consultada a través de NAVARRO GRANADOS, 2015).  
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Si se les representaba en oficios, a los personajes negros se les mostraba como  
sirvientes, dependientes de tienda o boxeadores, debido a la fama que estos adquirieron en  
Estados Unidos durante la época. Sin embargo, el autor subraya que uno de los rasgos más  
insistentes en las caricaturas era el énfasis en la fealdad física como recurso de burla. En un  
ejemplo de 1928, como se observa en la figura 7, se representan dos personajes con rasgos  
monstruosos mirándose frente a frente. Uno de ellos sugiere que el otro debería incursionar  
en el boxeo, a lo que este responde que nunca lo haría porque podrían desfigurarle el rostro. La  
ironía que plantea el caricaturista es evidente: el rostro del personaje ya está “desfigurado” por  
el solo hecho de ser negro. Esta escena no se limita a lo visual: instala un código racial claro,  
en el que la negritud se asocia con lo grotesco, lo deforme y lo anómalo.  
Estosnuevosformatosnosonmásqueunreciclajedelasviejasimágenes. Loqueen1928  
se representaba mediante caricaturas impresas hoy se reproduce en formato viral. La gráfica  
humorística del nacionalismo mexicano, influida por el modelo estadounidense y cargada de  
representaciones visuales coloniales, no ha desaparecido, sino que se ha adaptado. El meme  
actual, en este sentido, no rompe con esa tradición, sino que la actualiza, convirtiéndose en un  
vector contemporáneo de ese mismo estigma racial.  
CONSIDERACIONES FINALES: RISA Y REPETICION COLONIAL  
Durante la Colonia española en América, la burla gráfica del negro o del indígena  
prácticamente no existió como género autónomo. Aunque las artes visuales coloniales, como  
la pintura de castas, fijaron estereotipos raciales, su objetivo era reforzar el orden jerárquico  
más que provocar risa. Fue en el tránsito hacia la independencia, especialmente entre 1820  
y 1826, con la libertad de imprenta, cuando nace la caricatura política latinoamericana, y con  
ella, el uso de la exageración fisonómica como herramienta crítica o burlesca. En ese periodo  
inicial, las imágenes ridiculizaban sobre todo a los actores del conflicto político, pero pronto  
comenzaron a circular representaciones étnicas deformadas, que naturalizaban diferencias  
fenotípicas como objeto de burla.  
En la segunda mitad del siglo XIX, la sátira gráfica se consolidó en periódicos y revistas,  
particularmente en países como México, Cuba o Brasil. La representación humorística del  
indígena, del negro o del inmigrante se transformó en herencia de prejuicios del imagiario visual  
moderno. Rasgos como labios prominentes, narices anchas o peinados “exóticos” se volvieron  
códigos de identificación burlesca. En México, por ejemplo, entre 1924 y 1932, en plena etapa  
de nacionalismo posrevolucionario, el humor gráfico no solo se usó para definir al extranjero  
o al mestizo, sino también para reforzar imaginarios racistas heredados del colonialismo.  
En Cuba, las caricaturas decimonónicas atribuían a las mujeres negras o mulatas una carga  
hipersexualizada y grotesca, que mezclaba erotismo, marginalidad y risa. En Brasil, figuras  
como Ángelo Agostini pasaron de apoyar el abolicionismo a reproducir en sus caricaturas  
representaciones despectivas de los cuerpos negros en el periodo pos esclavista.  
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Estos recursos no desaparecieron: mutaron. El meme digital actual, con sus formatos  
virales y estructuras paródicas, hereda esos estereotipos y lo reactualiza. Cambia el soporte,  
de la litografía al sticker, del grabado a la story de Instagram, pero no el gesto. Lo que ayer se  
imprimía para ridiculizar, hoy circula como entretenimiento instantáneo. En ambos casos, se  
trata de hacer del cuerpo racializado un objeto de risa.  
Lo que hemos documentado a lo largo de este artículo es una genealogía del racismo  
visual humorístico en América Latina, desde sus primeras expresiones gráficas coloniales  
hasta los lenguajes contemporáneos de los memes. La continuidad histórica es clara: desde  
el siglo XIX, retratar al otro racializado de forma grotesca ha sido una técnica persistente para  
producir risas y reafirmar identidades dominantes. Frente a ello, urge una lectura crítica que  
desnaturalice esa risa. Porque en América Latina, el humor nunca ha sido solo humor: ha sido  
también pedagogía, archivo y repetición de la violencia.  
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ARTIGOS  
ROJO AMANECER: LINGUAGENS, MEMÓRIAS E  
RESISTÊNCIAS  
DO 2 DE OUTUBRO DE 1968 NO MÉXICO1  
ROJO AMANECER: LANGUAGES, MEMORIES AND  
RESISTANCE  
OF OCTOBER 2, 1968 IN MEXICO  
Priscila Roberta Alves Lemos2  
https://orcid.org/0000-0002-8983-5244  
https://lattes.cnpq.br/5444012363747466  
Fábio da Silva Sousa3  
https://orcid.org/0000-0001-9767-9248  
https://lattes.cnpq.br/3680412551508798  
Recebido em: 27 de maio de 2025.  
Revisão final: 02 de dezembro de 2025.  
Aprovado em: 21 de março 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23459  
1 O presente artigo é uma parte da dissertação “O Eterno Amanhecer: interdisciplinaridade e Estudos  
Culturaisꢀnasꢀdisputasꢀpelasꢀlinguagens,ꢀmemóriaꢀeꢀresistênciaꢀdoꢀfiꢀlmeꢀRojo Amanecer (México)”,  
defendida em setembro de 2025 no Programa de Estudos Culturais da Universidade Federal de Mato  
Grosso do Sul, Campus de Aquidauana, PPGCult. Agradecemos aos encontros e debates da/e/os in-  
tegrantes do grupo de pesquisa do CNPQ “Laboratório Interdisciplinar de Estudos Culturais (Linde-  
Cult)” e dos projeto de pesquisas “Mídias, linguagens e interdisciplinaridade: mediações e Estudos  
Culturais” e “Estudos Culturais, linguagens plurais e relações de poder: investigações interdiscipli-  
nares sobre saberes descoloniais, interculturalidade e marcadores sociais das diferenças” que foram  
essenciais para o desenvolvimento da pesquisa e do presente artigo. O presente trabalho foi realizado  
com apoio da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS/MEC – Brasil.  
2 Mestra em Estudos Culturais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. PPGCult (2025). Graduada em Histo-  
ria Licenciatura pela UFMS (2023). Especialista em Dança e Expressão Corporal pelas Faculdades Integradas de Cassi-  
lândia (2016). Graduada em Licenciatura Plena em Educação Física pela UFMS (2009). Participa dos grupos de pesquisa  
“Núcleo de Estudos em História da América Latina”, da Faculdade de Ciências e Letras, UNESP - Universidade Estadual  
Paulista, “Laboratório Interdisciplinar de Estudos Culturais (LindeCult)” UFMS e “Laboratório de Estudos e Pesquisa em  
História das Américas (LEPHA)” UFMS/FACH, dos projetos de extensão “Núcleo de Estudos em Dança e Movimento  
(NEDeM)” UFMS/PROECE e “Sinapse Companhia de Dança Contemporânea da UFMS” PROECE. E-mail: priroberta-  
lemos@hotmail.com  
3ÉdocentedocursodeHistóriadaUniversidadeFederaldeMatoGrossodoSul(UFMS)edo-  
cente permanente do Programa Interdisciplinar em Estudos Culturais da Universidade Federal de  
Mato Grosso do Sul, Câmpus de Aquidauana (UFMS/PPGCult/CPAq). Coordenador do do grupo de  
pesquisa do CNPQ “Laboratório Interdisciplinar de Estudos Culturais (LindeCult)”. E-mail: fabio.  
sousa@ufms.br  
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ARTIGOS  
RESUMO:Em02deoutubrode1968asociedademexicanafoiimpactadapeloMassacredaPraça  
das Três Culturas de Tlatelolco. Esse evento traumático reverbera até os dias atuais no México  
e este artigo, tem como objetivo apresentar um ensaio sobre o filme Rojo Amanecer (1990),  
com destaque as relações de memória, trauma e resistência. Debateremos as proximidades  
entre Estudos Culturais e cinema, o contexto mexicano de 1968, a produção e impacto de Rojo  
Amanecer nas políticas de memória e resistência cultural que esse acontecimento, o 02 de  
outubro de 1968, mantém até os dias atuais na sociedade mexicana.  
PALAVRAS-CHAVES: América Latina; cinema; memória; Movimento Estudantil.  
ABSTRACT: On October 2, 1968, Mexican society was impacted by the Tlatelolco Massacre at  
the Plaza of the Three Cultures. This traumatic event continues to reverberate in Mexico to this  
day, and this article aims to present an essay on the film Rojo Amanecer (1990), highlighting  
themes of memory, trauma, and resistance. We will discuss the connections between Cultural  
Studies and cinema, the Mexican context of 1968, the production and impact of Rojo Amanecer  
on policies of memory and cultural resistance, and how this event, October 2, 1968, remains  
present in Mexican society today.  
KEYWORDS: Latin America; cinema; memory; Student Movement.  
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ARTIGOS  
Introdução: cinema e Estudos Culturais  
A imagem não é mais uma mera ilustração ou obra de arte, é um artefato cultural, com  
significações além das cinematográficas e a comunicação não é necessariamente direta. No  
caso das produções cinematográficas, mesmo na ficção, a imagem cria uma “realidade” de si,  
no qual a fidelidade das falas e caracterizações são menos importantes. Entender o porquê das  
adaptações, omissões e tudo que representa são mais importantes, como já apontou Marcos  
Napolitano ( 2011).  
Por esse pressuposto, o presente artigo pretende abrir uma investigação da obra  
cinematográfica mexicana Rojo Amanecer (1990), com foco na análise de sua linguagem  
material e as relações com a memória e resistência. Rojo Amanecer se passa durante o evento  
do massacre da Plaza de las Tres Culturas de Tlatelolco, na Cidade do México, no dia 02 de  
outubro de 1968, cuja narrativa é centrada na rotina de uma família dentro do seu apartamento,  
localizado na frente da praça, e que presenciam esse acontecimento traumático. O filme tem  
duração de 99 minutos, direção de Jorge Fons, roteiro de Xavier Robles e Guadalupe Ortega e  
produção de Héctor Bonilla e Valentin Trujillo.  
Com um olhar voltado para América Latina, Aguinaldo Rodrigues Gomes e Miguel  
Rodrigues de Sousa Neto (2022) debateram as problemáticas do continente nos processos da  
globalização, ao mesmo tempo em que surge questionamentos ao pensamento eurocêntrico.  
A opressão imperialista e das ditaduras militares se chocam com processos de resistência e  
transformações sociais, no qual o continente latino-americano desenvolve uma crítica política  
e cultural voltada à sua identidade e aos seus contextos históricos. Dessa forma, Sulivan Charles  
Barros (2017) discorreu que as manifestações artísticas e culturais da América Latina estão  
relacionadas as suas identidades (como já apresentado) e a seus problemas em comum como  
as desigualdades sociais, dominação estrangeira, subdesenvolvimento e as Colonialidades, o  
que torna o cinema latino-americano uma expressão de compreensão da fabricação, reforços,  
rupturas, criação e recriação dessas realidades.  
A América Latina vai além do discurso dicotômico de colonizador versus subalterno  
e de suas culturas analisadas separadamente. Homi K. Bhabha (1998) defendeu necessidade  
de compreender profundamente como as identidades culturais são constituídas e como elas  
produzem significações fora de um conceito de cultura fixa, no qual a cultura tem de ser  
conceitualizadaàpartirdosprocessosnasfronteirasdasdiferençasculturais, dosentrelugares  
e de suas dinâmicas. Néstor García Canclini (1998) debateu a ideia de cultura híbrida, no qual  
é possível analisar miscigenações de culturas diferentes, que apresentam novas estruturas  
que refletem no desenvolvimento de uma nova sociedade que estão inseridas. Essa quebra de  
barreiras culturais não ocorreu uma única vez, está em constante mudança, principalmente  
no mundo globalizado e tecnológico contemporâneo. A interdisciplinaridade, que dialoga com  
várias áreas do conhecimento, somada à diversidade de olhares, possibilita a investigação de  
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ARTIGOS  
diversas linguagens, como as audiovisuais, músicas, jornais, revistas e as novas tecnologias  
em geral, como os games, por exemplo, para refletir e debater sobre nossas estruturas sociais.  
Já Douglas Kellner (2001) analisou a cultura da mídia, organizada com base no modelo  
de produção de massa, que se estrutura nas representações de identidade, dominação e  
resistência, e enfatizou que é uma manifestação política e ideológica que devemos aprender a  
ler. Desse modo, os produtos culturais não são “inocentes” pois estão em um campo de batalha  
de discursos, mesmo colocados como lazer e diversão devem ser analisados com criticidade  
para não perpetuar linguagens de opressões, derivados de um processo de industrialização,  
pois são transformados em mercadorias produzidas pelo sistema voltado para as massas  
(indústria cultural). Kellner defendeu uma pedagogia cultural para ensinar como se comportar  
diante dessas produções de entretenimento, colocando em debate o que devemos pensar  
e sentir, acreditar e temer, o que desejar e o que não desejar. Afinal, a cultura de mídia e a  
cultura de consumo andam de mãos dadas: “O entretenimento oferecido é agradável com  
instrumentos visuais e auditivos, que seduzem o público e o leva a identificar com opiniões,  
atitudes, sentimentos e disposições” (Kellner, 2001, p.11).  
Kellner defendeu que a chave dos Estudos Culturais é a crítica contra a dominação e  
a subordinação, contra as estruturas de desigualdade e opressão, partindo de um contexto  
sócio-histórico. No que pese a complexidade e a variedade das mídias, para Kellner é possível  
criar resistências diante das linguagens de dominação ideológica desses artefatos culturais:  
Portanto, ler politicamente a cultura da mídia significa situá-la em sua conjuntura  
histórica e analisar o modo como seus códigos genéricos, a posição dos observadores,  
suas imagens dominantes, seus discursos e seus elementos estéticos-formais  
incorporam certas posições políticas e ideológicas e produzem efeitos políticos  
(Kellner, 2001, p.76).  
Jesús Martín-Barbero (1997) elencou a mediação como um processo que permeia as  
relações sociais ligadas à comunicação e à cultura, também com um olhar latino-americano  
no qual a Cultura, com “c” maiuscula, é densa, plural e dinâmica. O cinema aqui não é apenas  
um produto artístico industrial, ele se torna uma expressão cultural de reconhecimento, de  
representação de seus costumes e cotidiano, sem deixar de lado as suas identidades de  
resistências.  
Observando esses autores, podemos relacionar essa “ponte” entre mídia e receptor/  
consumidor, que não possui um olhar único, e sim, muitas interpretações, significações e  
ressignificações. Essa “ponte” é de mão dupla, pois esse receptor/consumidor não é passivo e  
sim participante, são sujeitos que expressam a ação impacatada pela mídia. Em diálogo com  
a discussão apresentada linhas acima, entre estruturas e relações, arte e resistências são  
linguagens predominantes em obras latino-americanas.  
Outrossim, será analisada a linguagem e as relações de memória, trauma e resistência  
do massacre de Tlatelolco, em 02 de outubro de 1968, na Cidade do México. Iremos dialogar com  
a cultura de mídia, de Douglas Kellner (2001), mediações culturais, de Jesús Martín-Barbero  
(1997), e linguagens, em sua pluralidade audiovisual, de Marcos Napolitano (2011). O artigo  
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ARTIGOS  
está dividido em três partes: no primeiro, será apresentado o contexto do México de 1968; no  
segundo, apresentaremos e debateremos o filme Rojo Amanecer, com fatos dos bastidores e  
o contexto do México no final da década de 1980; no terceiro, discorreremos sobre as políticas  
de memória de Tlatelolco e a repercussão de Rojo Amanecer.  
O pesadelo mexicano de 1968  
A década de 1960 no México foi iniciada com o fim do período conhecido como “milagre  
mexicano”, que teve o seu boom à partir de 1940, impulsionado pelos ideais da Revolução  
Mexicana de 1910. De acordo com Hector Aguilar Camím e Lorenzo Meyer (2000), o decênio de  
1940 representou o fim de uma força “real” da Revolução, que manteve um prestígio histórico e  
tornou-se um legado ideológico, à partir do momento em que o estado mexicano assumiu uma  
posição de herdeiro e guardião da memória revolucionária de 1910.  
Outro acontecimento relevante para este cenário foi a criação do “partido do governo”, o  
Partido Nacional Revolucionário (PNR) em 1929. Após a Revolução, uma pluralidade de partidos  
foram criados, o que representou uma articulação para que as demandas sociais girassem  
em torno de suas personalidades revolucionárias e dos seus interesses privados. O PNR, que  
em 1938 mudou de nome para Partido da Revolução Mexicana (PRM) e, depois, em 1946 para  
Partido Revolucionário Institucional (PRI), iniciou com um discurso de encerrar com esse  
poder personalista e iniciou uma era das instituições. O PRI tornou-se o grande partido oficial  
e uniu todos os grupos numa espécie de “família revolucionária” (Camím e Meyer, 2000). Apesar  
desse discurso de criação, o PRI manteve o poder centralizado em poucos e monopolizou-se  
no poder desde 1930 por 71 anos consecutivos.  
O México do final da década de 1960 foi marcado por um governo autoritário, que  
impulsionou uma política de opressão a seus opositores, totalmente afastada dos princípios  
da Revolução Mexicana de 1910. Dependente de capital externo, o país mexicano estava voltado  
para a construção de uma imagem internacional, de uma nação em desenvolvimento, e utilizou  
como uma das estratégias midiaticas, os grandes eventos esportivos, como a primeira edição  
dos Jogos Olímpicos na América Latina (1968) e a Copa do Mundo (1970).  
O crescimento econômico, somado com uma precária distribuição de renda, ocasionou  
uma grande desigualdade social e aumentou dívida externa, o que fez com que diversos  
setores protestassem por melhores condições de trabalho e salários desde a década de  
1950. A mobilização mais emblemática desse período foi protagonizada pelos trabalhadores  
ferroviários em 1958 e terminou com uma violenta repressão do governo. Os estudantes, a  
partir deste período, apoiaram algumas manifestações de diversos setores, como dos médicos  
em 1965, e suas próprias demandas, como a greve nacional em apoio aos discentes da Escola  
Superior de Agricultura, localizada em cidade de Juarez. Essa manifestação foi impulsionada  
contra os abusos nas cobranças e, os mesmos, solicitaram a federalização da instituição. A  
voz de setenta mil estudantes conseguiu uma nova escola de agricultura, o que incentivou o  
movimento estudantil (Miskulin, 2008).  
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ARTIGOS  
Assim sendo, a organização estudantil de 1968 surgiu para expor e colocar em xeque a  
política autoritária do governo mexicano. O primeiro conflito ocorreu devido a um incidente  
de rua com estudantes secundaristas em julho, no qual foi fortemente reprimido pelos  
granadeiros (grupo da polícia da capital reconhecida por ações de repressão). De acordo com  
Larissa Jacheta Riberti (2013), o movimento estudantil tornou-se uma ameaça ao status quo do  
governo mexicano e intensificous-se as manifestações de protesto contra a violência policial  
e as intervenções nas instituições de ensino. De acordo com Héctor Aguilar Camín e Lorenzo  
Meyer:  
Os contestadores não provinham desta vez dos alicerces do sistema, os setores  
operário e camponês, e sim das camadas médias urbanas e seus estratos mais ilustres  
e menos controláveis, os estudantes e os professores universitários. O cenário não foi  
um Estado, como no caso de San Luis Potosí, nem as malhas de um sindicato, como  
no caso ferroviário, e sim as ruas e praças do centro nevrálgico do poder: a Cidade do  
México (Camín e Meyer, 2000, p. 249).  
O reitor da Universidad Autonoma de Mexico (UNAM), Javier Barros Sierra, convocou uma  
grande manifestação para 1º de agosto e ganhou apoio popular. Vários institutos, universidades  
e escolas, não só da capital, aderiam de acordo com o aumento e a visibilidade do movimento  
estudantil. As principais instituições desse movimento foram a UNAM e o Instituto Politécnico  
Nacional (IPN). As discussões das demandas do movimento foram apresentadas em um  
denominado pliego petitório com reivindicações ao Governo, contendo seis pontos: liberdade  
aos presos políticos; extinção do corpo de granaderos e da polícia metropolitana; destituição  
dos chefes de polícia e militares responsáveis pelas repressões às manifestações; indenização  
às vítimas das repressões (mortos ou feridos); investigação e responsabilização por prisões e  
mortes; revogação de dois artigos do Código Penal (145 e 145 bis) que se referia ao delito de  
“dissolução social” (Riberti, 2013). O Consejo Nacional de Huelga (CNH) surgiu nesse contexto  
legitimando o movimento realizando assembleias para debater suas demandas.  
É válido ressaltar que o Código Penal mexicano foi publicado em 1931, no qual o artigo  
145 cobre os delitos e suas respectivas punições realizados por servidores públicos, entre eles,  
é citado o terrorismo. Em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, houve uma incorporação  
neste artigo sobre “dissolução social”. Inicialmente, com a intenção de evitar espionagem e  
a circulação de ideologias totalitárias que pudessem desestabilizar a ordem social e uma  
possível invasão no território nacional mexicano. Esse artigo possibilitou um aval jurídico para  
as ações de violência por parte do Estado diante dessas manifestações (Riberti, 2013).  
Com todas essas tensões, o então presidente Gustavo Díaz Ordaz Bolaños (1964-1970),  
fechouasportasparaodiálogo.Aodiscursarem1ºdesetembrode1968,OrdazBolañosdefendeu  
a necessidade de ordem nas ruas a qualquer custo, chamou de ilegítima as ações do movimento  
estudantil, relacionou a interesses externos, citou como fator o perigo do Comunismo, e que  
o objetivo do México era a realização dos Jogos Olímpicos. Essas olimpiadas foram a primeira  
da América Latina, e o México se apresentava como um país em desenvolvimento, defendeu  
que esses festividades esportivas eram organizadas pelo povo, saindo do eixo Europa-Estados  
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Unidos e dos contextos geopolíticos do período (Magalhães, 2018). Vale ressaltar que o discurso  
defendido pelo Estado sob a “ameaça comunista” estava de acordo com o contexto da Guerra  
Fria, no qual aparatos repressivos foram utilizados contra movimentos sociais, legitimando a  
violência e a perseguição aos “inimigos internos” (Riberti, 2017).  
As manifestações foram realizadas de forma pacífica pelos estudantes. Nas  
Manifestação Silenciosa, de 13 de setembro de 1968, compareceram às ruas uma média 300  
a 400 mil pessoas. A manifestação foi performatizada com a população marchando, de bocas  
fechadas com fitas e cartazes. No dia 18 de setembro, a UNAM foi invadida por 10 mil soldados  
do exército, o que violou a autonomia universitária. Foram presos estudantes, seus pais,  
professores e funcionários. Cerca de 700 pessoas foram presas e a UNAM ficou fechada até 30  
de setembro. No dia 1º de outubro, os protestos continuaram, com o apoio da Unión Nacional de  
Mujeres além de outras organizações feministas na frente da Câmara dos Deputados (Troncoso,  
2012).  
Em 02 de outubro de 1968, ocorreu uma grande reunião de pessoas em Tlatelolco, na  
Plaza de las Tres Culturas. De acordo com Elena Poniatowska (1971), uma média de 10 mil pessoas  
compareceram nessa reunião. Conforme Riberti (2013) a manifestação seguiria rumo a região  
de Casco de Santo Tomás, porém foi cancelada devido a presença do exército. Na praça, além  
dos manifestantes, havia pessoas curiosas, trabalhadores que simplesmente atravessavam a  
praça, moradores da região e a imprensa internacional que iria cobrir as Olimpíadas.  
Quando as pessoas começariam a se dispersar, helicópteros lançaram sinalizadores  
e indicaram ao exército, junto ao Batalhão Olímpia, grupo paramilitar que atuava sob ordem  
presidencial, para fechar a praça. Os militares e snipers atiraram em direção aos manifestantes.  
Esse evento ficou conhecido como o Massacre da Praça de Três Culturas de Tlatelolco:  
Varios cadáveres en la Plaza de las Tres Culturas. Decenas de heridos. Mujeres  
histéricas con sus niños en los brazos. Vidrio roto. Departamentos quemados. Las  
puertas de los edificios destruidas. Las cañerías de algunos, rotas. De varios edificios  
salía agua. Y las ráfagas aún continuaban (Poniatowska, 1971, p. 186).  
Apesar das tensões que se seguiram até então, a violência da repressão de 02 de outubro  
foi imprevista. Na manhã deste fatídico dia, ocorreu uma reunião da CNH com representantes  
do governo na casa do reitor Sierra, o que foi interpretado como uma pausa, com a aproximação  
dos Jogos Olímpicos e a abertura de uma negociação com o governo mexicano (Troncoso,  
2012).  
Os testemunhos analisados por Elena Poniatowska (1971) coincidem sobre o momento  
do início dos disparos, de terem sido logo em seguida ao lançamento dos sinalizadores. Os  
sobreviventes relataram que não tinha como saber de onde vinham, pois eram de todos os  
lugares e direções. Alguns relataram que presenciaram disparos de metralhadoras dos  
helicópteros que se aproximavam do solo, outros de soldados atiravam em círculos. Algumas  
narrativas também afirmaram terem visto pessoas de luvas brancas em uma das mãos,  
somente depois reconheceriam que eram integrantes do Batalhão Olímpia, que já estavam  
dispersos pela praça e pelos edifícios. A luva era um sinal para se identificarem entre si.  
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Todos representantes do movimento, que discursaram no terceiro andar do Edifício  
Chihuahua, foram presos. Isso possibilitou posteriormente os relatos e a denúncia dos  
mesmos sobre o ocorrido em 02 de Outubro. Também houve relatos de que a praça ficou  
tomada de sapatos e bolsas espalhados, de corpos que foram recolhidos e empilhados em  
caminhões. Todavia, até hoje muitos continuam desaparecidos. Os agentes de repressão  
passaram a madrugada vasculhando os apartamentos do Edifício Chihuahua, um residencial  
com aproximadamente 80 mil pessoas, atrás dos estudantes, que bateram em muitas portas  
pedindo ajuda e que muitos não abriram por medo.  
Aos que sempre se manifestaram pacificamente, diante do terror, tentaram de  
qualquer forma parar o massacre, pois o tiroteio inicial durou 40 minutos seguidos e volta e  
meia retornava. Gás lacrimogêneo foi lançado em esquinas próximas à praça, balas atingiram  
os apartamentos e ocorreu incêndio na parte superior de um dos edifícios. O cenário foi  
devastador (Miskulin, 2008).  
Atualmente, por meio de pesquisas de documentos oficiais e, principalmente, pela  
criação da Fiscalía Especial para Movimientos Sociales y Políticos del Pasado (Femospp) em  
2001, com objetivo de investigar violações de direitos humanos por agentes do Estados entre  
as décadas de 1960 e 1980, sabe-se que foi formada uma operação nomeada Galeana no qual  
foram posicionados franco atiradores do Estado Mayor Presidencial no topo dos edifícios, o  
Batalhão Olímpia ficou nos andares dos edifícios para prender os líderes do movimento e o  
exército cercou a praça: “Dessa forma, presidência, secretaria de governo, grupos especiais e  
o exército fizeram o cerco que resultou em dezenas de mortos e feridos” (Riberti, 2017, p. 65). O  
quantitativo de mortos, entre homens, mulheres e crianças, ainda segue sem esclarecimentos.  
Os diversos relatos e a historiografia varia de 250 a 350 mortos. O governo da época, de Gustavo  
Díaz Ordaz Bolaños, declarou que o número de mortos não passou de 40, o que demonstra à  
indiferença para vidas perdidas (Riberti, 2013).  
Nos dias posteriores, o Estado e a imprensa, controlada pelo governo, minimizaram o  
massacre e se referiram aos estudantes como terroristas, os culpou pela eclosão do conflito  
e todos os presos daquela noite foram acusados de homicídio (Miskulin, 2008). Alberto del  
Castillo Troncoso (2012) estudou um breve perfil de alguns periódicos mexicanos e de como  
foi a cobertuda do movimento estudantil de 1968. Alguns periódicos estavam alinhados com  
o discurso do governo, seja por estarem diretamente ligado ao partido priista ou por estarem  
submetidos ao controle governamental. Outros, mesmo com uma linha editorial divergente e  
de oposição ao governo, simpáticos ao movimento estudantil, minimizaram os discursos de  
oposição.  
As imagens publicadas nesses periódicos, destacaram os feridos e presos, mas não  
destacaram a intencionalidade governamental no Massacre. Entretanto, as imagens captadas  
publicadas e, principalmente as que ficaram de fora dos periódicos, nos permitem analisar e  
discutir esses materiais. Muitas imagens se perderam ou foram confiscadas, porém, ao longo  
dos anos, foi possível recuperar parte desses arquivos, como acervos pessoais de fotógrafos,  
documentos dos jornais e até mesmo registros da inteligência do goveno mexicano. Troncoso  
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relatou que somente 40 anos depois do massacre, conseguiu registrar entrevistas com alguns  
destes fotógrafos que indicaram que muitas imagens não foram usadas por determinação da  
edição do jornal. Muitos foram agredidos e tiveram seus equipamentos danificados durante o  
02 de outubro.  
Apesar do controle do governo mexicano sobre a imprensa local, a mídia internacional  
teve um papel independente e relataram a violência de 02 de outubro. Todavia, diversos  
jornalistas relataram que ficaram temporariamente encarcerados e que seus equipamentos  
de trabalho foram destruídos. Como exemplo, a jornalista italiana Oriana Fallaci relatou  
que ficou ferida por um disparo das forças repressoras, ao cobrir a reunião dos estudantes  
nestas data triste (Musotti e Rodriguez, 2019). O parlamento italiano solicitou explicações ao  
governo mexicano que, apesar do discurso protocolar em defesa da liberdade da imprensa,  
enfatizaram a responsabilidade da própria jornalista, Fallaci, de estar presente em Tlatelolco.  
Neste argumento, a jornalista foi irresponsável ao se colocar em perigo, visto que havia sido  
convidada para cobrir apenas os Jogos Olímpicos. Mesmo com a instabilidade social e um  
certo receio quanto a segurança, os Jogos Olímpicos do México manteve a sua programação, o  
que foi beneficiado pelo silêncio dos comitês olímpicos mexicano e internacionais (Magalhães,  
2018).  
Rojo Amanecer: arte, memória e resistências  
Vinte anos depois, no final da década de 1980, o México enfrentou uma crise econômica,  
impulsionadapeloaltopreçodopetróleo,umagrandedívidaexterna,a desvalorizaçãodamoeda  
nacional, diminuição da renda, aumento do desemprego e inflação, o que se convencionou a  
chamar esse período de a “década perdida” (Teixeira, 2014). Em 1988, Carlos Salinas de Gortari  
foi anunciado como vitorioso pelo PRI, que manteve sua hegemonia no poder, que já durava  
quase 60 anos. A eleição foi conturbada, no qual o sistema de contagem de votos caiu e,  
depois voltou com a vitória de Salinas de Gortari. O primeiro desafio do então presidente era  
reorganizar a economia do país, mas, o governo mexicano intensificou sua política neoliberal,  
reduziu o papel do Estado e o país colapsou.  
Sobre a produção cultural mexicana, todos os governos pós-revolucionários  
desenvolveram ações artísticas, porém, de acordo as necessidades dos grupos que estavam  
no poder e do momento político e social que o país mexicano enfrentou (Mendoza, 2007). Um  
momento importante para essas ações foram as criações do Consejo Nacional para la Cultura y  
las Artes (CONACULTA) e do Fondo Nacional para las Culturas y las Artes (FONCA).  
Foi nesse cenário do final da década de 1980 que surgiu Rojo Amanecer, com duração de  
99 minutos, roteiro de Xavier Robles e Guadalupe Ortega, direção de Jorge Fons, produção de  
Hector Bonilha e Valentin Trujillo. O enredo se inicia na manhã de 02 de outubro de 1968, com  
a rotina de uma família ao acordar em seu apartamento no edifício Chihuahua, que se localiza  
em frente a Plaza de las Tres Culturas. Cada rotina das personagens seguem normalmente e,  
quem fica no apartamento é a mãe (Alicia) e o filho menor (Carlitos). O ambiente é restrito e  
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o que ocorre do lado de fora do apartamento é percebido pelos sons externos, pelos relatos  
das personagens que saíram às ruas e retornaram e pelas expressões dos mesmos que  
acompanhavam os acontecimentos pela janela do local.  
A ambientação restrita de Rojo Amanecer foi proposital, pois o tema Tlatelolco, mesmo  
após 20 anos, ainda era proibido, como relatou Xavier Robles (Tv Azteca, 6 min. e 42 seg.). O  
roteiro foi premiado no festival de roteiristas mas, os responsáveis do filme foram orientados  
a boicotarem cerimônias organizadas pelos órgãos representantes cinematográficos  
regulamentados pelo governo, como era praxe. O receio era que o roteiro fosse confiscado  
pelo governo mexicano.  
As filmagens foram iniciadas em maio de 1989 e duraram 3 semanas, com início às 7h  
da manhã e término por volta da meia-noite. Tudo foi filmado às pressas, devido ao medo de  
serem descobertos, presos e que todo o material fosse destruído. Mesmo com a obra pronta, o  
filme teve que ser submetido à aprovação do governo.  
Além de “correr” contra o tempo, a falta de recursos sempre esteve presente nas fases  
de pré-produção, gravação e pós-produção. Foi realizada uma espécie de “vaquinha” com  
recursos próprios ou de amigos próximos. Assim, os integrantes do filme eram pessoas muito  
próximas, que se conheciam de trabalhos anteriores, familiares ou pessoas que trabalhavam  
por trás das câmeras, como os irmãos Bichir (Demian e Bruno) em que os pais também eram  
atores. Além de Paloma Robles filha dos roteiristas e Leonor Bonilla, filha do ator Hector Bonilla  
(Canal 22, 2015).  
O roteiro se baseou nos relatos dos sobreviventes e na literatura da época, como a obra  
clássica de Elena Poniatowska (1971). É fundamental relatar que integrantes dessa produção  
(roteiristas, atores e equipe técnica) estavam envolvidos e participaram do movimento de 1968.  
Alguns, por acaso não estavam presentes em Tlatelolco no dia 02 de outubro, como relatado  
por Bruno Bichir (La Hora Elástica, 28 min. e 9 seg.). De acordo com Bichir, a família morava  
em Tlatelolco, os pais os levavam às manifestações mas, neste dia de 02 de outubro, a família  
estava no ensaio geral de uma peça ou com o diretor de fotografia José Alonso, que também  
estava na preparação da parte cultural dos Jogos Olímpicos. Alguns sobreviventes foram María  
Rojo e Roberto Sosa (Tv Azteca, 18 min. e 22 seg.) e, o roteirista Xavier Robles, participante de  
diversas manifestações sociais no país, ficou preso por cinco dias em Puebla (El Universal, 1  
min. e 5 seg.). Dessa forma, podemos compreender o envolvimento da maior parte do elenco,  
visto que, como citado anteriormente, muitos eram integrantes do movimento estudantil de  
1968.  
Após um ano do fim das filmagens e da pós-produção, diante da pressão de intelectuais  
e da imprensa, o presidente Carlos Salinas de Gortari autorizou a exibição do filme, porém com  
a exclusão de algumas cenas, como da neta falando da senhora de 60 anos atingida pelas costas  
e outra, entre o neto e seu avô, no qual a criança pergunta por que os soldados mataram pessoas  
indefesas. Como resposta, o avô disse que eles apenas cumpriram ordens (Rojo Amanecer, 1h.  
06min. e 56 seg.). Ao total foram 6 cenas cortadas que faziam alguma referência ao exército  
mexicano ou a brutalidade dos assassinatos. Ao realizar os cortes solicitados, o filme deveria  
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ser entregue ao governo com os cortes junto com o negativo original. Mas com receio de uma  
nova proibição e possível destruição da obra, a produção mandou duas cópias para o exterior,  
em Havana, Cuba e Los Angeles, Estados Unidos, como garantia. Adicionadas a esse cenário,  
ocorreram constantes ameaças de morte durante todo o processo de desenvolvimento da obra,  
muitas delas direcionadas em especial a Héctor Bonilla (Tv Azteca, 31 min. e 30 seg.) Em 18 de  
outubro de 1990, Rojo Amanecer estreiou em quatro salas da Cineteca na Cidade do México que  
exibiu a versão censurada, mas na semana seguinte já havia cópias piratas da versão original  
por toda a capital (Tv Azteca, 31 min. e 10 seg.).  
Podemos observar a necessidade de contar sobre algo que marcou uma geração e  
que naquele tempo pouco tinha sido exposto no audiovisual. Também podemos perceber a  
preocupação e o medo com a repressão, ao não apresentar o roteiro aos devidos órgãos como  
de costume, ao sigilo e rapidez nas gravações, que acabaram se comprovando pertinentes  
diante das ameaças e, posteriormente, à censura de determinadas cenas.  
Além de expor o cenário político nacional e internacional do México no período de  
realização da obra, das reportagens e artigos sobre o México de 1968 e especialmente do dia  
02 de outubro, uma contribuição muito relevante foram os vídeos observados de entrevistas,  
tanto do elenco quanto da produção, com relatos deste período. Tais vídeos são de entrevistas  
diversas nos quais os próprios envolvidos relatam detalhes de suas experiências.  
Sobre uma análise fílmica propriamente dita, Marcos Napolitano (2011) acrescentou as  
especificidades de técnica de linguagem, os suportes tecnológicos e os gêneros narrativos.  
Assim,deve-sequestionarearticularosmecanismosutilizadospelalinguagemcinematográfica,  
as personagens e os processos históricos representados. Além da identificação dos elementos  
narrativos ou alegóricos como ângulo da câmera, trilha sonora, efeitos de montagem, figurinos  
e outros apresentados nos planos e sequências: “Assim, as fontes audiovisuais e musicais são,  
como qualquer outro tipo de documento histórico, portadores de uma tensão entre evidência e  
representação” (Napolitano, 2011, p.239). Diante do exposto, podemos analisar algumas cenas  
de Rojo Amanecer.  
A primeira cena conta com toda a família reunida no café da manhã já mostra que os dois  
filhos mais velhos (Jorge e Sergio) estão participando das manifestações na “lutar por nossas  
demandas”4 (Rojo Amanecer, 10 min. e 15 eg.). Há uma desaprovação tanto do avô (Don Roque)  
quanto do pai (Humberto). O avô, que lutou na Revolução Mexicana, fala em vários momentos  
no início do filme que “antes a juventude era diferente” (Rojo Amanecer, 3 min. e 19 seg.), vê  
seus netos como jovens inúteis que são mal-agradecidos pela comida e pelos estudos que o  
pai proporciona, trabalhando em um órgão do governo. O patriarca, também contrariado com  
a ação dos filhos diz que eles não entendem nada de política, que tudo faz parte do movimento  
comunista internacional contra a realização dos Jogos Olímpicos e que há certos murmúrios  
no escritório completando, “com o Governo não se brinca” (Rojo Amanecer, 8 min. e 54 seg).  
Nessa cena também podemos observar questões de gênero. Primeiro relacionado ao  
4 Para uma facilitar a recepção do artigo, decidimos traduzir para o português, os trechos de fala das  
personagensꢀdoꢀfilme.ꢀ  
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que deveria ser o comportamento masculino, iniciado quando a filha (Graciela) liga o rádio e  
está tocando uma música dos Beatles (Rojo Amanecer, 7 min. e 37 seg.).  
Nas cenas finais (Rojo Amanecer, 98 min.), jovens entram no apartamento e são  
perseguidospelasforçasrepressorasdogovernomexicanoqueexecutamtodasaspersonagens  
do apartamento. A imagem mostra uma cama coberta de um ângulo baixo e se escuta o som  
de um tiro longe. Em seguida, saindo de debaixo da cama, aparece a cabeça de Carlitos que  
observa em silêncio. Enquanto está saindo por completo debaixo da cama se escuta mais um  
tiro longe e outra vez silêncio. Ao fundo, somente se escuta o tic tac do relógio e se vê um  
brinquedo no chão. Ele sai do quarto para o corredor e se depara com a cena dos corpos pelo  
corredor. Desvia do primeiro jovem para sair do quarto e já percebe o sangue. Se desvia de  
mais dois e olha para um canto da parede reconhecendo a mãe, morta. Antes, sua fisionomia  
estava neutra, talvez por não compreender ou ainda estar assimilando o ocorrido. Mas ao ver a  
mãe, ele se apoia na parede do lado oposto e desaba, fechando os olhos pronúncia “mamita!”.  
Olhando para o corpo da mãe, ele vai ao chão e toca seu pé.  
Sai engatinhando e logo depois vê o pai e toca seu queixo. Desde a saída do quarto até  
este momento, quebrando o silêncio, somente as expressões e choro de Carlitos. Em seguida,  
reconhece o avô. Ao fundo, começa uma música, baixinha que vai aumentando o som. O  
menino pega na mão do avô, deita em suas pernas e chora. Depois, se levanta e passa pelos  
corpos de mais dois jovens para sair do apartamento. Nesse momento, a música se intensifica  
e toma conta da cena. Carlitos está atônito, vestindo uma blusa de manga comprida azul, short  
branco, descalço e inicia a descida pelas escadas. Encosta na parede e dá uma última olhada  
para a porta do apartamento e continua a descer. No segundo lance de escadas encontra sua  
irmã Graciela morta no chão cheio de sangue, passa por ela, se vira para olhá-la e toca sua mão.  
O sangue continua pelas escadas por mais andares até encontrar morto seu irmão Sergio. Ele  
passa bem pelo canto da parede para não pisar no irmão. A cena do corpo de Sergio na escada  
corta para a visão do lado de fora do edifício, em que aparece um homem varrendo o térreo do  
prédio, o chão molhado, cheio de papéis e sapatos. Ao fundo aparece Carlitos e em primeiro  
plano um soldado armado passa pela calçada. O menino chega à calçada e atrás dele passa  
outro soldado armado, enquanto Carlitos segue andando sem rumo. Assim, termina a cena.  
Toda essa cena de 4 minutos é tomada mais pela percepção visual dos elementos  
apresentados, quando mostra detalhes do sangue, identifica as pessoas e a expressão do  
menino.Apercepçãoauditivasobreapartededentrodoapartamentoésuperficialousilenciosa,  
somente tem presença forte e marcante na parte externa durante a saída do personagem  
sobrevivente. A parte interna do apartamento é o momento do impacto da cena dos corpos no  
chão. O massacre da família é a representação em pequena escala do massacre de Tlatelolco.  
Dessa forma, na parte interna o massacre mostra as diferentes pessoas vitimadas (idosos,  
jovens, homens, mulheres). A cena do térreo, apresenta, discretamente essa representação  
com os sapatos, como relatado que a praça havia ficado tomada de bolsas e calçados. Da  
mesma forma que a cena anterior descrita, essa nos apresenta as emoções de perplexidade,  
medo, dúvida, tristeza, terror. Uma mescla de sensações assim como a trilha que apresenta  
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uma mistura de marcha fúnebre com marcha de protesto, contendo elementos de uma batida  
como se fosse sino de igreja, e tambores comandados por uma guitarra elétrica.  
Vale ressaltar que a cena final de Carlitos saindo do edifício e chegando na calçada foi  
umadascensuradas,pormostrarsoldadosarmadosnapraçadeTlatelolco.Lembrandotambém  
que o exército e seus tanques permaneceram vários dias neste local depois do massacre  
de 02 de outubro de 1968. Dessa forma, a obra mostrou em raros momentos, a presença e a  
permanência do exército. Apesar de crianças estarem entre as vítimas de Tlatelolco, na película  
os autores quiseram transmitir, na personificação da criança sobrevivente, a inocência perdida  
e a esperança de seguir em frente.  
Podemos ver a riqueza de detalhes que uma cena apresenta para que o espectador  
possa, além de compreender a narrativa da história que se conta, ter a experiência sensorial  
da cena (do que ela pretende) com diversos estímulos de percepção. Esses também foram  
construídos progressivamente pelo diretor do filme ao optar na realização da gravação das  
cenas de forma cronológica, que além de ajudar na continuidade e acelerar o processo que tinha  
urgência de ser rápido, auxiliou o elenco na construção de suas expressões para a narrativa.  
A sensibilização da obra carrega um significado, tanto dos discursos das testemunhas e da  
historiografia em geral quanto dos processos experienciados por todos os envolvidos nessa  
obra. É a experiência dos processos da produção em si e o testemunho de quem viveu o ano  
de 1968, que compartilha com os jovens atores para a compreensão da importância desse  
passado para a construção de seus personagens e como cidadãos.  
Obras literárias, jornalísticas e documentários sobre o massacre já eram produzidos e  
publicados desde 1970, mas Rojo Amanecer é o primeiro filme de ficção sobre o tema e sua  
repercussão o torna ainda hoje, depois de mais de 20 anos de sua criação e de 50 anos do  
massacre, um marco e referência anualmente exposta e comentada no México como um  
elemento permanente na memória de Tlatelolco.  
Tlatelolco ontem e hoje: a luta pela memória  
Para Eugenia Allier Montaño (2009), as políticas de memória sobre Tlatelolco são  
identificadas por cinco momentos: primeiro, de tímida denúncia com publicações de obras e  
conteúdo dos periódicos (1968-1977), segundo, de motores da memória (1978-1985) que seriam  
o momento em que atores diretamente ligados aos eventos de 1968 mudaram a perspectiva  
de denúncia do evento como um crime; terceiro, como luta pela democracia (1986-1992) uma  
construção da memória de elogio à luta de 1968; quarto, de justiça e castigo (1993-1999) no  
qual todos devem saber a verdade do passado e a busca pela responsabilização dos culpados  
do massacre e, por fim, o quinto com a oficialização das memórias públicas sobre 1968  
(2000-2006), com a criação da FEMOSPP como mecanismo investigativo e jurídico sobre as  
repressões nas décadas anteriores pelo governo e reparação às vítimas.  
Sobre as investigações de Tlatelolco, o único acusado foi, em 2006, o ex - presidente  
Luis Echeverría Álvarez, que na época do massacre era ministro do interior e esteve envolvido  
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diretamente nas decisões. Porém, foi absolvido no mesmo ano sob a alegação que seu crime já  
havia prescrito (Miskulin, 2008).  
Dentre tais políticas de memória é relevante citar a criação do Comité 68 Pro Libertades  
Democráticas, dez anos após o massacre por ex -membros da CNH, na busca de responsabilizar  
os agentes do Estado por violação dos direitos humanos e ativo em várias atividades ao longo  
das décadas (Riberti, 2013). Entre elas, a Estela de Tlatelolco, um dos diversos monumentos e  
exposições ao longo dos anos, inaugurada em 1993, um monolito em frente à igreja de Santiago  
de Tlatelolco na Plaza de las Tres Culturas, que inicia com as palavras: 1968-1993… Adelante!! A  
los compañeros caídos el 2 de octubre de 1968 en esta plaza.  
Em 2007 foi inaugurado no Centro Cultural Universitário de Tlatelolco (CCUT) na UNAM,  
o Memorial de 68, uma instalação que dispõe de materiais de cinema, áudio, fotografias,  
objetos expostos e acervo disponível para o acesso de documentos. Monumento a la ausencia,  
foi inaugurada em 2018 no CCUT, obra da exposição permanente composta de uma placa de  
cimento ao solo com a impressão de 400 pegadas de sobreviventes. No mesmo evento foi  
lançada a plataforma M68 Ciudadanías en Movimiento,5 onde estão disponíveis documentos  
digitais sobre os movimentos sociais mexicanos, além do movimento estudantil de 1968, como  
feministas, trabalhadores, indígenas, entre outros.  
Em 2018, durante os eventos de memória dos 50 anos do 02 de outubro de 1968, uma  
das ações do governo foi a retirada das placas comemorativas da inauguração do sistema de  
metrô da Cidade do México que tinham o nome de Gustavo Díaz Ordaz Bolaños. No lugar, a  
proposta era colocar somente informações relacionadas ao sistema de transporte. Diversas  
intervenções culturais e artísticas acontecem na Plaza durante os eventos de recordação,  
além de palestras e debates por toda a cidade.  
Os presos de Tlatelolco ganharam anistia em 1971, mesmo ano da publicação da obra  
de Elena Poniatowska, La noche de Tlatelolco: testimonios de história oral, considerada a  
primeira grande obra sobre o massacre que juntou ao longo de três anos, além de poemas e  
notas dos periódicos, entrevistas de familiares (sobreviventes, mortos e desaparecidos) e de  
sobreviventes tanto encarcerados quanto os livres, inclusive que solicitaram a ocultação dos  
verdadeiros nomes para evitar a repressão do governo (Riberti, 2013).  
Outras produções seguiram em diversas linguagens, iniciando assim a construção de  
um movimento de memória mexicano sobre o 02 de outubro, em busca de esclarecimentos  
e justiça. Na literatura podemos citar o diplomata e poeta mexicano Octavio Paz publicou  
diversos livros, poemas e ensaios, como Posdata (1969) no qual se refere aos eventos de  
1968 na capital de seu país com críticas ao governo. Inclusive Octavio Paz era embaixador do  
México na Índia naquele período e assim que soube sobre Tlatelolco entregou o cargo, por  
não compactuar com as ações do governo, e recebeu apoio de diversos outros intelectuais  
mexicanos. Entretanto, o governo publicou um comunicado desmentindo Paz, ao afirmar  
que ele havia sido demitido. Diversas pesquisas se desenvolvem a partir das obras de Paz.  
Ival de Assis Crippa (2011) por exemplo, refletiu sobre temas como violência e autoritarismo  
5 Disponível em: https://tainacan.org/casos-de-uso/m68-ciudadanias-en-movimiento/  
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em Posdata. Também temos obra do escritor chileno Roberto Bolaños, Amuleto (1999) no qual  
sua personagem expõe suas memórias (passadas e futuras) enquanto se esconde no banheiro  
durante a invasão do exército na UNAM, dialogando também ao momento da ditadura chilena  
que iniciou na década de 1970. Assim, como as obras de Octavio Paz, Amuleto é um exemplo  
da literatura no qual surgem diversas pesquisas como as memórias da violência (Menezes e  
Costa, 2020) e violência e colonialidade na América Latina (Sousa, 2020).  
Arespeitodoaudiovisual, RojoAmanecer(1990)foiummarcosobreotema, maspodemos  
citar outras obras relevantes e também obras mais recentes. Começamos com o documentário  
El Grito (1968) é um filme documentário mexicano de 1969, de 111 minutos, uma obra coletiva  
produzida pelos alunos do Centro Universitário de Estudos Cinematográficos (CUEC) da UNAM,  
com direção de Leobardo López Arretche, textos de depoimento da jornalista italiana Oriana  
Fallaci e das exigências do CNH, nas vozes de Magda Vizcaíno e Rolando de Castro, no qual  
relata o movimento estudantil mexicano de 1968. Está dividido em quatro partes, referentes  
aos meses do movimento, apresentado de forma cronológica iniciando o relato em julho e  
terminando em outubro. É possível visualizar imagens reais dos locais e pessoas, inclusive o  
discursodeDíazOrdazrealizadoem01desetembro. Depoisdequatroanosdetrabalho, em2018,  
durante os eventos dos 50 anos do movimento estudantil de 68 e do massacre de Tlatelolco,  
é apresentada a obra restaurada (imagem e som) e disponibilizada na página do Youtube da  
Filmoteca da UNAM a partir de março de 2020, mantendo viva para as novas gerações o relato  
da experiência dos jovens de 1968. María del Carmen de Lara Rangel, diretora do CUEC em 2018,  
relatou que quando a universidade foi invadida pelo exército, vários professores guardaram  
os negativos do material até então produzido em suas casas. Os alunos também tiveram que  
esconder dentro de automóveis seus equipamentos quando ocorreu a invasão na universidade  
(TV UNAM, 2017), assim como realizaram filmagens em algumas situações em que aparecem  
dezenas de militares e tanques com os equipamentos também ocultados nos automóveis e de  
outras formas , além da retirada do que podiam dos materiais em carros para fora de Tlatelolco  
no dia do massacre.  
Tlatelolco, verano de 68 (2013) de Carlos Bolado, obra mexicana/argentina apresenta  
o romance de dois jovens de classes sociais diferentes durante os protestos estudantis e a  
repressão do governo, culminando a história com o dia 02 de outubro. Los Parecidos (2015),  
filme ficção científica/suspense, escrita e dirigida por Issac Ezban, conta a história de um  
grupo de pessoas presas em uma central de ônibus , que por diversos motivos estão a caminho  
da Cidade do México na madrugada de 02 de outubro de 1968, onde situações estranhas  
acontecem.  
Un extraño enemigo (2018), uma das intensas produções para a memória dos 50 anos  
do massacre, série mexicana com 8 episódios em sua primeira temporada, com direção de  
Gabriel Ripstein, produção de Televisa e distribuição da Amazon Video Prime, acompanha o  
personagem Fernando Barrientos, da Diretoria da Segurança Nacional, em suas estratégias  
para alcançar o posto mais alto em seu país, durante as manifestações do movimento estudantil  
culminado com o 02 de outubro. A história mostra os bastidores políticos para a sucessão  
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presidencial em meio aos conflitos do governo com o movimento estudantil e equilibrando  
com a imagem vendida ao extrangeiro como sede das primeiras Olimpíadas da América Latina.  
É nesse cenário que o personagem principal aparece com as articulações tanto para alcançar  
um nível mais alto de poder quanto as repressões, torturas e assassinatos de opositores do  
governo. Apesar de a temática sobre o massacre de Tlatelolco hoje já ser mais mostrada e  
discutida, a perspectiva do opressor em primeiro plano é o diferencial dessa obra.  
Estes são alguns exemplos, mas observamos que a produção audiovisual tem  
aumentado, apresentando a mesma história em diversas perspectivas e formatos.  
A própria obra de Rojo Amanecer foi inspiração para outras linguagens. Grupos de  
teatro como o Umbrales do Centro Cultural José R. Mijares (Editorial Milenio, 2017) e o grupo  
estudantil Teatro Escena XXI (Teatro Escena XXI, 2020), ambas na cidade do México, recriaram  
respectivamente em 2017 e 2018, o ambiente do apartamento de Rojo e de seus personagens.  
Na dança, a companhia de dança contemporânea Lagú Danza, da coreógrafa Érika Méndez,  
criou e apresentou uma obra para os eventos dos 50 anos de Tlatelolco chamada de Bengalas  
en el cielo, retomando o nome original do roteiro de Xavier Robles e Guadelupe Ortega, que  
autorizaram a coreógrafa, em homenagem aos roteiristas, a todos os envolvidos na obra  
cinematográfica e ao movimento estudantil de 68. No palco, além dos bailarinos da companhia,  
estão presentes os atores da obra original Paloma Robles (Graciela), Ademar Arau (Carlitos) e  
Símon Guevara (Jaime).  
ArepercussãodeRojo(1990)nosdiasatuaispodeserpercebidapormeiodoscomentários  
publicados em uma das páginas do site Youtube (@porsinolosabias) no qual é possível assistir  
ao filme.  
La estoy viendo en. Compañía de mis hijos y les platico de la primera vez que la vi y el  
impacto que me causo, era una niña (noviembre/2023)  
Soy profesor de secundaria y como trabajo final dejo ver esta película a los adolescentes  
para que conozcan un poco de la cruda historia de México y que hagan un análisis  
personal del filme (noviembre/2023)  
Tengo la desafortunada de decir que mis padres vivían en el edificio frente a la plaza de  
las 3 culturas…yo aún no nacía, pero me contaron historias de terror ese día. Mi padre  
vio como a sangre fría les disparaban por la espalda. Se metían a los departamentos  
como animales agresivos. Al día siguiente era un río de sangre en todos lados. El 2 de  
octubre no se olvida (julio/2023)  
De acordo com Martín-Barbero (1997) e sua teoria das mediações culturais, essa  
ligação entre emissor e receptor não é dicotômica, ou seja, em que o primeiro transmite uma  
mensagem e o segundo somente recebe, pois ela envolve muitos processos complexos. Dessa  
forma, o processo de dominante e dominado não é fixo, ela muda constantemente, e o receptor  
se torna produtor de novos significados. A mensagem é vista como representativa e assim é  
necessário analisar o contexto social para ser possível interpretá-la.  
No primeiro comentário temos uma mãe que vê o filme com seus filhos e diz que lembra  
quando viu o mesmo filme quando criança e o quanto ficou impactada. Não é revelado a idade  
dos filhos e não há mais informações, porém é interessante verificar que mesmo impactada  
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quando criança, a mãe assiste junto deles. O segundo comentário é de um professor que diz  
passar o filme como trabalho para seus alunos conhecerem a dura história do México e depois  
realizarem uma análise pessoal. O filme é usado para relatar uma parte da história local para  
esses jovens conhecerem e poderem expressar suas impressões. O terceiro relato é de um  
filho que conheceu a história do massacre por meio dos pais que viviam na época em frente à  
praça e presenciaram o terror daquela noite.  
Essa é uma pequena amostra dos comentários que demonstram alguns elementos em  
comum. Muitos relatam que conhecem a história do massacre por meio de pais ou tios que  
viveram o 02 de outubro de 1968, que moram no local ou perto, ou ainda que são sobreviventes.  
Há relatos tanto de professores do fundamental ou universitário que apresenta o filme como  
de alunos que falam que o primeiro contato com o filme foi na escola, até mesmo do relato de  
professores que são sobreviventes. A idade é variada, porém mostra muitos jovens comentando  
sobre suas impressões por ver o filme pela primeira vez ou ao rever o filme relembra a primeira  
vez. Esses comentários relatam perplexidade, horror, pesar, alguns com revolta. Comum a  
todos os comentários é o impacto do filme nos espectadores, independente da idade ou das  
vezes que assistiu à obra. Isso é uma pequena amostra da força do filme até os dias de hoje.  
Podemos verificar que por meio das diversas manifestações de memória ao longo  
dos anos, o evento em 02 de outubro de 1968 se mantém vivo e que a obra cinematográfica  
Rojo Amanecer tem um grande significado dentro dessas manifestações. Durante ou não das  
manifestações anuais de memória do massacre, a obra é citada, mostrada, comentada, além  
de entrevistas com produção e elenco, incentivando novas produções, debates e resistência  
às ações atuais de repressão e cerceamento de direitos.  
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BIODIVERSIDADE E PERCEPÇÕES DOS MORADORES  
UNCONVENTIONAL FOOD PLANTS IN THE RECÔNCAVO OF BAHIA:  
BIODIVERSITY AND RESIDENTS PERCEPTIONS  
Lígia Santiago da Paz da Silva1  
https://orcid.org/0009-0001-8416-6053  
http://lattes.cnpq.br/5134464138959394  
Renan Luiz Albuquerque Vieira2  
https://orcid.org/0000-0001-8472-0432  
http://lattes.cnpq.br/7704213119415988  
Adriele Nonato Oliveira3  
https://orcid.org/0000-0003-4164-9431  
http://lattes.cnpq.br/4422324968016771  
Rodrigo José Araújo de Jesus4  
https://orcid.org/0000-0001-9526-4989  
http://lattes.cnpq.br/8820123454244799  
Weliton Antônio Bastos de Almeida5  
https://orcid.org/0000-0002-8941-5936  
http://lattes.cnpq.br/5997348120646367  
Ana Karina da Silva Cavalcante6  
https://orcid.org/0000-0002-7166-6673  
http://lattes.cnpq.br/7760291869946880  
1 Nutricionista pelo Centro Universitário Maria Milza (UNIMAM), pós-graduada em Nutrição Clínica e Esportiva pela  
FaculdadeꢀVendaꢀNovaꢀdoꢀImigranteꢀ(FAVENI),ꢀmestrandaꢀemꢀRecursosꢀGenéticosꢀVegetaisꢀpelaꢀUniversidadeꢀFederalꢀ  
do Recôncavo Baiano (UFRB). E-mail: ligia-2106@hotmail.com  
2 Possui graduação em Bacharelado em Biologia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB - 2015), gra-  
duação em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pelo Instituto Superior de Educação Elvira Dayrell (ISEED - 2019),  
especialização em Docência do Ensino Superior pela Faculdade Martins (FAMART - 2019), especialização em Análises  
ClínicasꢀpeloꢀCentroꢀUniversitárioꢀFAVENIꢀ(FAVENIꢀ-ꢀ2021),ꢀespecializaçãoꢀemꢀSaúdeꢀPúblicaꢀeꢀMeioꢀAmbienteꢀpeloꢀ  
Centro Universitário Maria Milza (UNIMAM - 2022), mestrado em Ciência Animal pela Universidade Estadual de Santa  
Cruz (UESC - 2018), doutorado em Ciência Animal nos Trópicos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA - 2021).  
Coordenador do Grupo de Estudos em Reprodução Assistida (GERA) na UFRB e UNIMAM. Atua como Coordenador  
doꢀProgramaꢀdeꢀIniciaçãoꢀCientíficaꢀ(PROINC/FAPESB)ꢀdoꢀUNIMAM.ꢀE-mail:ꢀrenan.albuquerque@hotmail.com  
3 Graduada em Biologia (Bacharelado) pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Possui Mestrado em Recur-  
sosꢀGenéticosꢀVegetaisꢀpelaꢀUniversidadeꢀFederalꢀdoꢀRecôncavoꢀdaꢀBahiaꢀ(UFRB).ꢀProfessoraꢀdaꢀredeꢀprivadaꢀdeꢀensi-  
no. E-mail: adrielenonato13@gmail.com  
4BiólogoꢀpelaꢀUniversidadeꢀFederalꢀdoꢀRecôncavoꢀdaꢀBahiaꢀ(UFRB).ꢀMestreꢀemꢀRecursosꢀGenéticosꢀVegetaisꢀ-ꢀUFRB/EMBRAPA.ꢀ  
Doutorando no Programa de Pós-graduação em Botânica da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). E-mail: rodrigo.  
araujjo55@gmail.com  
5 Possui graduação em Agronomia e mestrado em Ciências Agrárias pela Universidade Federal da Bahia, Doutor em Fi-  
totecnia pela Universidade de São Paulo. Atualmente é Reitor de Honra do Centro Universitário Maria Milza (UNIMAM)  
e Professor Adjunto Aposentado da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. E-mail: weliton@unimam.com.br  
6PossuiꢀgraduaçãoꢀemꢀMedicinaꢀVeterináriaꢀpelaꢀUniversidadeꢀFederalꢀdaꢀBahiaꢀ(UFBA),ꢀespecializaçãoꢀemꢀMarketingꢀ  
e Agronegócio, mestrado e doutorado em Reprodução Animal pela Universidade de São Paulo (USP). Atua na Faculdade  
deꢀCiênciasꢀAgráriasꢀeꢀdaꢀSaúdeꢀdaꢀUNIME,ꢀcomoꢀprofessoraꢀeꢀveterináriaꢀsêniorꢀdoꢀHospitalꢀVeterinário.ꢀE-mail:ꢀkari-  
na@ufrb.edu.br  
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ARTIGOS  
Recebido em: 23 de março de 2025.  
Revisão final: 16 de janeiro de 2026.  
Aprovado em: 16 de janeiro de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23042  
RESUMO: Apesar da megadiversidade, a maioria das espécies nativas brasileiras é pouco  
consumida, em detrimento da considerável homogeneização da alimentação. Neste estudo,  
buscou-se realizar o levantamento de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) em  
uma comunidade do Recôncavo da Bahia e averiguar as percepções dos sobre as PANCs,  
observando fatores como formas de utilização, uso culinário, formas de obtenção e partes  
consumidas. Os dados foram coletados por meio de expedições de campo para levantar a  
biodiversidade das plantas e entrevistar os moradores da Comunidade de Gravatá, por meio  
de um formulário semiestruturado com questões objetivas e discursivas. Foram encontradas  
por 34 espécies, distribuídas em 27 gêneros e 19 famílias, sendo as famílias Lamiaceae (4  
spp.), Anacardiaceae (4 spp.) e Cucurbitaceae (4 spp.) as mais representativas. Notou-se que,  
apenas 15% das pessoas entrevistadas conhecem do termo PANCs e as utilizam na culinária  
cotidiana. O que demonstra que ações de divulgação científica e Educação Ambiental são  
essenciais para expandir a compreensão sobre as PANCs e seus benefícios, bem como a  
necessidade do conhecimento da flora local, e assim, facilitar o acesso dessas informações  
para toda sociedade, sobretudo favorecendo a Agricultura Familiar na comunidade estudada.  
PALAVRAS-CHAVE: agricultura familiar, biodiversidade, PANCs, segurança alimentar.  
ABSTRACT: Despite Brazil’s megadiversity, most native species are rarely consumed,  
reflecting a considerable homogenization of diets. This study aims to conduct a survey of  
Unconventional Food Plants (PANCs) in a community of the Recôncavo of Bahia and to  
investigate local perceptions regarding these plants, focusing on aspects such as modes of  
use, culinary applications, means of acquisition, and parts consumed. Data were collected  
throughfieldexpeditionstodocumentplantbiodiversityandthroughinterviewswithresidents  
of the Gravatá Community, using a semi-structured questionnaire composed of both objective  
and open-ended questions. A total of 34 species were recorded, distributed across 27 genera  
and 19 families, with Lamiaceae (4 spp.), Anacardiaceae (4 spp.), and Cucurbitaceae (4 spp.)  
being the most representative families. It was noted that only 15% of the people interviewed  
are familiar with the term PANCs (Unconventional Food Plants) and use them in their daily  
cooking. This demonstrates that scientific dissemination and environmental education  
initiatives are essential to expand understanding of PANCs and their benefits, as well as the  
need for knowledge of the local flora, thus facilitating access to this information for the entire  
society, especially those involved in family farming within the community studied.  
KEYWORDS: biodiversity, family farming, food security, PANCs.  
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ARTIGOS  
INTRODUÇÃO  
Asplantasfazempartedahistóriadahumanidade,sobretudonaalimentação.Aspráticas  
e predileções culturais possibilitaram o conhecimento sobre as plantas O conhecimento  
(LEAL; ALVES; HANAZAKI, 2018). Algumas espécies vegetais são mais comumente utilizadas  
e em uma escala regional mais abrangente, especialmente aquelas utilizadas na alimentação  
com variadas formas de aplicação (LEAL; ALVES; HANAZAKI, 2018).  
A biodiversidade brasileira apresenta aproximadamente 50 mil espécies vegetais, sendo  
considerada uma das maiores do mundo (GIULIETTI, 2005; IBGE, 2021). Desse maciço vegetal,  
aproximadamente 10 mil espécies são consideradas Plantas Alimentícias não Convencionais  
(PANCs) (FILHO, 2016; REFLORA, 2020). A pouca valoração dessas espécies é percebida pelo  
seu consumo ocasional e em escala regional, influenciada pela cultura local (TULER et al.,  
2019).  
Apesar da alta diversidade, a maioria das espécies nativas do Brasil é pouco consumida,  
em detrimento do alto consumo de outras culturas como café, arroz, feijão e outros poucos  
itens, o que demonstra a considerável homogeneização da alimentação, assunto que tem  
levantado recorrentes discussões em decorrência de processos que visam ao lucro como  
foco principal (SOUZA et al., 2013; RODRIGUES et al., 2021). É notável que existe urgência em  
relacionar o conhecimento científico e popular, em busca de maior assimilação entre economia  
e biodiversidade, considerando a conservação dos biomas brasileiros de forma sustentável,  
sobretudo na alimentação (BRACK, 2011).  
Uma alimentação diversificada promove benéficos à saúde, sobretudo com alimentos  
nos quais se estuda a sua caracterização e forma de consumo mais adequadas (KINUPP &  
LORENZI, 2014; SOUZA et al., 2019). A valorização de fontes alimentares com variedade de  
vegetais contribui para a diversidade alimentar e nutricional (POLESI et al., 2017). Entretanto,  
observa-se que a alimentação humana tem seguido cada vez mais um padrão homogeneizado,  
baseado em poucos alimentos, em detrimento do processo de globalização, que visa o lucro  
como foco principal, resultando no desuso, bem como na falta de produção e de comércio das  
mesmas (ALMEIDA et al., 2012; SOUZA et al., 2013; KINUPP; LORENZI, 2014; POLESI et al., 2017).  
No Nordeste do Brasil observa-se uma considerável biodiversidade de PANCs, que pode  
ser influenciada pela diversidade climática e pelos diferentes biomas (LINO et al. 2022; Aurino,  
2023). No entanto, muitas espécies nativas, ainda que apresentem considerável potencial de  
aproveitamento, são subutilizadas e deixam de contribuir significativamente para a segurança  
alimentar, a saúde, geração de renda e os serviços ambientais (PASCHOAL et al, 2016; PADILHA  
et al., 2017).  
Nos últimos anos tem aumentado o número de estudos sobre PANCs, devido ao seu  
potencial nutritivo, que pode diversificar a alimentação humana e, consequentemente,  
abranger o conhecimento a outras áreas como, a medicina, a economia, a sustentabilidade  
e o uso consciente dos recursos genéticos vegetais na biodiversidade (LIBERALESSO, 2019).  
As Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) podem ser consideradas como  
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ARTIGOS  
plantas utilizadas com baixa frequência na alimentação humana (KINUPP & LORENZI, 2014),  
algumas podem ser inteiramente consumidas, em outras são consumidas as partes como  
ramos, tubérculos, caules, folhas, frutos, botões florais, flores, sementes e pólen (FLECK  
et al., 2015). Apresentam rápido crescimento e não carecem de cuidados especiais, sendo  
considerada por muitos invasora, o que promove desvalorização cultural (KINUPP, et al., 2007).  
Entretanto, as PANCs são consideradas fontes alternativas de nutrientes, principalmente  
vitaminas e sais minerais (SILVA; ANDRADE, 2022).  
O cultivo das PANCs no Brasil é realizado, predominantemente, por populações rurais,  
ligadas à agricultura familiar, contudo, a escassez de estudos mais detalhados sobre PANCS e  
a pouca disseminação de conhecimento científico sobre seu uso e manejo limita a exploração  
de seus benefícios e seu aproveitamento como boas fontes alimentares, além de ser uma alter-  
nativa para reduzir a insegurança alimentar e nutricional (BRASIL, 2010). Dessa forma, mesmo  
havendo disponibilidade dos alimentos, torna-se necessária a disseminação de informações  
importantes sobre seu consumo, propagação e manejo (ALIAGA et al., 2020).  
O reconhecimento das PANCs na alimentação pode apresentar grande relevância eco-  
nômica, pois estimula a economia local, com produção e o consumo, e valoriza os aspectos  
regionais, tanto em cultura, quanto em riqueza destes recursos genéticos vegetais (FILHO,  
2015).  
Souza et al. (2019) destacaram em seu estudo potencialidades para a agrobiodiversidade  
ao notar algumas OANCs utilizadas pelos moradores, taiscomo a hortelã-grossa (Plectranthus  
amboinicus (Lour.) Spreng.), a hortelã-miúda (Mentha piperita L.), o coentro-da-índia (Eryngium  
foetidum L.), a língua-de-vaca (Talinum paniculatum (Jacq.) Gaertn.), a alfavaca-fina (Ocimum  
basilicum L), e outros vegetais na fabricação de temperos e molhos da culinária local.  
Surge, então, a necessidade de catalogar as Plantas Alimentícias Não Convencionais  
ocorrentes em um povoado do Recôncavo da Bahia, no intuito de responder às seguintes per-  
guntas: Quais PANCs podem ser encontradas e utilizadas no Recôncavo da Bahia? As PANCS  
podem contribuir para a Segurança a Alimentar e Nutricional? De quais formas as PANCs são  
consumidas?  
METODOLOGIA  
ÁREA DE ESTUDO  
O estudo foi realizado no povoado Gravatá de Cima (com latitude 12º 37’49.30”S e longi-  
tude 39º01’39.75”W), uma comunidade rural localizada na divisa entre os municípios de Muritiba  
e Governador Mangabeira, no Recôncavo da Bahia (Figura 1). A maioria dos moradores da co-  
munidade vivem das atividades agrícolas, é possível observar com frequência a predominân-  
cia de culturas como os citros, feijão, inhame, mandioca e aipim. Entre os meses de março a  
junho, período de ocorrência das festas juninas, uma forte tradição no Recôncavo da Bahia, é  
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ARTIGOS  
possível observar a safra de culturas como o milho e o amendoim.  
Figura 1: Mapa de localização do povoado Gravatá de Cima, no Recôncavo da Bahia. O destaque  
em amarelo no mapa indica o centro da Comunidade.  
COLETA DE DADOS  
Após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE: 55522522.5.0000.5025), foi  
realizado levantamento das PANCs na área de estudo por meio de 3 expedições de campo, nos  
meses de fevereiro a maio de 2022. A coleta do material botânico ocorreu mediante autorização  
dos proprietários das áreas rurais, que contribuíram levando os pesquisadores até os locais  
com cultivo de PANCs. Todo o material coletado foi fotografado.  
As espécies coletadas foram identificadas por meio de consultas à literatura  
especializada, a saber: Maldaner et al. (2021), Sartori et al. (2020), Ranieri et al. (2017) e Kinupp  
e Lorenzi (2014), além de consultas às plataformas virtuais Flora do Brasil (2020) (https://  
floradobrasil.jbrj.gov.br) e SpeciesLink (https://specieslink.net/search/).  
Foram realizadas entrevistas aos moradores da Comunidade de Gravatá, por meio  
de um formulário semiestruturado composto por 10 questões objetivas e discursivas, um  
roteiro pré-estabelecido, comabordagem quali-quantitativa, para coletar as informações dos  
entrevistados de maneira dialógica, respeitosa e valorizando o seu modo de pensar e de agir  
(ALVES; SILVA, 1992).  
Foram incluídas pessoas com faixa etária entre 18 e 80 anos, habitantes do povoado e  
que concordaram em assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de acordo com a  
Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2011).  
Foi utilizado o software Microsoft Excel 2016, para digitalização dos dados, tabulação  
dos dados quantitativos e elaboração dos gráficos. A análise se deu por procedimentos de  
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ARTIGOS  
estatística descritiva. Para inferência dos dados qualitativos foi realizada a análise de Discurso  
do Sujeito Coletivo – DSC, conforme descrito por Lefèvre e Lefèvre (2000).  
RESULTADOS E DISCUSSÃO  
As PANCs no povoado de Gravatá de Cima estão representadas por 34 espécies,  
distribuídas em 27 gêneros e 19 famílias (Tabela 1). Das espécies encontradas, algumas já eram  
consumidas pelos moradores, enquanto outras foram reconhecidas pelos pesquisadores,  
durante o levantamento, com potencial de consumo, podendo ser introduzida na alimentação.  
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Tabela 1 – Distribuição das espécies  
Família  
Gênero  
Celosia  
Espécie  
Nome popular  
Amaranthaceae  
argentea L.  
Celósia, espinafre-africa-  
no, amaranto  
Dysphania  
Schinus  
ambrosioides (L.) Mosyakin & Clemants  
terebinthifolia Raddi  
dulcis Parkinson  
Mastruz  
Aroeira-vermelha  
Cajarana, cajá-manga  
Seriguela  
Anacardiaceae  
Spondias  
purpurea L  
tuberosa Arruda  
Umbu  
Apiaceae  
Eryngium  
foetdum L  
Coentro do Mato, coentro  
da Índia, coentro do reino  
Araceae  
Asteraceae  
Cactaceae  
Colocasia  
Cosmos  
esculenta (L.) Schott  
sulphureus Cav.  
Inhame  
Cosmos amarelo  
Palma  
Nopalea  
Pereskia  
Ipomoea  
cochenillifera (L.) Salm-Dyck  
aculeata Mill.  
Ora-pró-nóbis  
Batata doce  
.
Convolvulaceae  
batatas (L ) Lam.  
quamoclit L  
Esqueletinho de Jardim,  
Espinha de peixe  
Costaceae  
Costus  
spicatus (Jacq.) Sw.  
Cana-de-macaco ou cana  
do brejo  
Cucurbitaceae  
Cucurbita  
Melothria  
pepo L.  
Flor da abóbora  
pendula L.  
Pepino do mato, pepino  
silvestre  
Momordica  
charanta L.  
Melão-de-são-caetano,  
Goya  
Fabaceae  
Cajanus  
cajan (L.) Huth  
Feijão Guandu  
Manjericão  
Quioiô  
Lamiaceae  
Ocimum  
Ocimum  
Plectranthus  
Rosmarinus  
Persea  
basilicum L.  
.
gratssimum L  
amboinicus (Lour.) Spreng.  
Hortelã grosso  
Alecrim  
.
officinalis L  
.
Lauraceae  
Malvaceae  
americana Mill  
rosa-sinensis L  
syriacus L  
Abacate  
Hibiscus  
Hibisco  
Hibiscus  
Hibisco  
.
Myrtaceae  
Moraceae  
Eugenia  
uniflora L  
Pitanga  
Psidium  
caꢀleyanum Sabine  
altlis  
Araçá-amarelo, goiaba boi  
Fruta-pão, jaca de pobre  
Jaca  
Artocarpus  
heterophyllus Lam  
.
Musaceae  
Musa  
paradisiaca L  
Coração da Bananeira,  
moringa  
Portulacaceae  
Solanaceae  
Portulaca  
Capsicum  
oleracea L.  
Beldroega  
baccatum L.  
Pimenta dedo de moça  
Pimenta Saco de velho  
chinense Jacq.  
Turneraceae  
Turnera  
subulata Sm.  
Chanana  
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A maior parte das espécies levantadas neste estudo também foram citadas em outros  
trabalhos de caráter semelhante, a saber: Péla (2014), Brasil (2015), Kelen et al. (2015), Népa  
(2015), Castro et al. (2016), Maragon et al. (2016), Nepomoceno et al. (2018), entre outros autores.  
Vale ressaltar que muitas das espécies ainda não possuem estudos mais aprofundados  
sobre suas propriedades, dificultando o conhecimento de seus nutrientes, suas propriedades  
antinutricionais, a forma de utilização, a identidade cultural do local, dos moradores e até  
mesmo de civilizações passadas, pois as PANCs contribuíram para a sobrevivência dos mesmos  
(ARENAS; SCARPA, 2007; GOTOR et al., 2013; RANFA et al., 2014).  
Conhecer as plantas do bioma é fundamental para o uso consciente e a valorização  
dessa diversidade, uma vez que, sem o devido conhecimento, é impossível valorizar. Além disso,  
incentivar o cultivo de plantas já adaptadas ao bioma pode facilitar o manejo, aumentando  
a viabilidade das espécies sem a necessidade de compostos químicos, como pesticidas, e  
reduzindo o consumo de água, o que também beneficia a economia local.  
É importante ressaltar que informações como períodos de safra, formas de cultivo,  
valor nutricional, quantidade recomendada para uso e outras informações inerentes ao cultivo  
e benefícios das PANCs são fundamentais para promover sua valoração. Ademais, o baixo  
impacto ambiental de seu cultivo, aliado ao alto valor no enriquecimento de uma dieta com  
esses produtos, podem promover simultaneamente à saúde humana e ambiental.  
É possível observar que a considerável maioria das espécies de PANCS listadas são  
perenes e carecem de poucos cuidados para seu cultivo e manutenção. Todavia, a floração  
e frutificação de boa parte destas espécies ocorrem, o que configura o momento de safra  
destes vegetais, levando em consideração a parte da planta a ser (KINUPP et al., 2007; KELEN,  
2015; VIEIRA et al., 2016).  
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Figura 3: Plantas Alimentícias Não Convencionais ocorrentes na Comunidade de Gravatá, no Recôncavo da  
Bahia.  
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Figura 4: Plantas Alimentícias Não Convencionais ocorrentes na Comunidade de Gravatá, no Recôncavo da  
Bahia.  
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Figura 5: Plantas Alimentícias Não Convencionais ocorrentes na Comunidade de Gravatá, no Recôncavo da  
Bahia.  
Foram entrevistados 60 moradores da comunidade em questão. 56% dos entrevistados  
encontram-se acima dos 51 anos. Já os 31,6% possuem idades entre 31 a 50 anos e os demais  
11,6%, possuem idade entre 18 e 30 anos (Figura 2). Foi possível observar que entrevistados  
idades mais avançadas, em sua maioria, apresentaram maior conhecimento sobre as PANCs,  
quando comparados com os demais. Esse conhecimento é transmitido ao longo das gerações  
por meio da oralidade e do saber popular, bem como observaram Borges & Peixoto (2009) em  
seu trabalho com plantas em uma comunidade do Rio de Janeiro.  
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Figura 2: Distribuição de frequência por faixa etária dos participantes da pesquisa em comunidade do Re-  
côncavo da Bahia  
Dos 60 entrevistados, 43 (67%) foram do sexo feminino e 17 (33%) do sexo masculino.  
Proporções semelhantes são encontradas no trabalho de Majolo, Lima e Santos (2021). Tal  
fator pode estar relacionado ao protagonismo feminino no contexto familiar, uma vez que é  
recorrente observar mulheres chefiando as famílias nas comunidades. Estas mulheres não  
somente detém o saber passado por gerações, mas são protagonistas na manutenção das  
tradições familiares ligadas à culinária e agricultura. Ademais, na sociedade, na sociedade  
atual, as mulheres ainda são as maiores responsáveis pelo preparo dos alimentos (SANTOS;  
ZANINI, 2008).  
Sobre o conhecimento dos moradores sobre o termo PANCs observou-se que,  
aproximadamente, 15% dos entrevistados afirmaram conhecer as o termo. Outros 85%  
afirmaram não conhecer. É comum observar em estudos que o termo PANCs ainda não é  
amplamente difundido, e por vezes é desconhecido pela maioria das pessoas (NUNES et  
al. 2021). É necessário ponderar que, mesmo não conhecendo as PANCs por este termo, as  
pessoas podem, ainda assim, consumir vegetais que se enquadram nestes parâmetros de  
classificação.  
É muito comum que algumas PANCs sejam consideradas ervas daninhas, outras, ainda,  
utilizadasparafinsmedicinaisouornamentais(LIBERATO2019).Acarênciadeumaclassificação  
robusta e disseminação do termo reforça a urgência de maiores ações de divulgação sobre o  
termo PANCs, bem como seu potencial uso, importância e propagação.  
Os entrevistados foram questionados quanto à comercialização das PANCs, afirmando  
que não comercializam as PANCs. Segundo Casemiro et al. (2021), isso pode ser justificado  
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ARTIGOS  
pelo fato das PANCs não fazerem parte da cadeia produtiva da região. Dessa forma, por não  
estarem entre os produtos mais procurados e consumidos, não despertam o interesse dos  
consumidores em larga escala. Ações de valorização das PANCs e sua inserção na economia  
local, além de contribuir no âmbito monetário, atuam para a garantia da segurança alimentar  
e para a manutenção da saúde, proporcionando mais opções e nutrientes (SUN et al., 2013;  
RUDEBJER et al., 2014; PASCHOAL et al., 2016; BENÍTEZ et al., 2017).  
OsentrevistadosforamconvidadosadizerquaispartesdasPANCssãomaisconsumidas.  
Dentre as opções citadas, as partes mais consumidas foram folhas (28%), caule e flores (21%),  
seguido de frutos (21%) e sementes, (15%). Raízes não foram citadas.  
Quanto à forma de consumo das PANCs, os entrevistados preferem consumi-las nas  
formas crua e cozida (25% cada); refogada (20%); seca (15%), e desidratada, frita e raramente  
em conserva (5% cada). Dados observados no estudo de Tuler et al. (2019) evidenciam as formas  
de consumo de refogadas e in natura (26,1% cada); saladas (23,3%); temperos (8,7%); sucos e  
torrada e moída (5,8% cada); empanadas (2,9%); e molhos, doces e conservas (1,4%). Nota-se  
similaridade nas respostas obtidas nos diferentes trabalhos.  
Os entrevistados citaram algumas PANCs utilizadas enquanto medicinais também,  
o que é comum em alguns estudos (PEIXOTO et al., 2019). Algumas destas espécies quando  
consumida possuem ação fitoterápica, os entrevistados citaram PANCs como o capim santo  
(Cymbopogoncitratus(DC.)Stapf),comprincípiosativoscomoflavonoides,alcaloides,clorofila,  
terpenoides, carotenoides, taninos, pigmentos, óleos, esteróis e glicosinolatos, agindo como  
antioxidante, calmante e diurético (BRASIL, 2011; RAMOS et al., 2017; CAVALCANTI et al., 2020).  
Outras PANCs com potencial medicinal citadas pelos entrevistados foram a carqueja  
(Baccharis trimera (Less.) DC), com presença de óleos essenciais, ação anti-inflamatória,  
antianêmica, vermífuga e diurética, e a hortelã-grossa (Plectranthus amboinicus (Lour.)  
Spreng.), que possui ação analgésica, anti-inflamatória, antisséptica, expectorante e  
anestésica, além de ser utilizada na culinária (CAVALCANTI et al., 2020).  
Quando questionados quanto à forma de acesso às PANCS os moradores responderam  
que o cultivo (50%) principal forma, seguido de coleta (25%), ganho (17%) e compra (8%).  
Por serem vizinhos, é comum dividir as plantações cultivadas em sua propriedade. Em seu  
estudo, Tuler et al. (2019), observaram um percentual similar, no qual 50,8% acessadas por  
cultivo, enquanto 41,5% são espécies que ocorrem de forma espontânea. Outros 7,7% foram  
coletadas. Atividades como hortas comunitárias, quintais produtivos e cambio de plantações  
são potenciais ações que podem ser desenvolvidas de forma colaborativa entre a sociedade e  
o poder público, para promover a partilha de conhecimentos e técnicas e garantir alimentação  
segura para as gerações.  
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ARTIGOS  
CONCLUSÃO  
As PANCs oferecem uma oportunidade valiosa para enfrentar diversos desafios dos  
sistemas alimentares sustentáveis. Contudo, é necessário que tal abordagem seja feita  
pautada nos parâmetros da nutrição, sobretudo, pois requer estudos da composição alimentar  
das plantas locais e a reorientação da formação profissional, visando integrar o conhecimento  
local e ambiental à formação da força de trabalho em nutrição.  
Dentre as 19 famílias encontradas, Anacardiaceae, Lamiaceae e Curcubitaceae foram  
as mais representativas, com 11 espécies cada (31,35% das espécies em estudo). A maioria  
das espécies ocorrentes nascem de forma espontânea, sem muitos requisitos para o manejo  
e consumo, o que pode contribuir para a Segurança Alimentar e Nutricional dos moradores. As  
partes mais consumidas das PANCS pelos entrevistados são folhas, caule, flores e frutos. E a  
forma de consumo mais comum é crua, cozida, refogada e seca.  
A interpretação errônea dos moradores, que gera desvalorização das PANCs por serem  
consideradas como ervas daninhas, pautadas pelo imperialismo ecológico, chama atenção  
para a necessidade de ações de divulgação científica das PANCs e seus benefícios. Oferecer  
essas informações de forma segura e correta pode contribuir significativamente para a  
alimentação e a agrobiodiversidade nesta localidade.  
Notou-se que, apenas 15% das pessoas entrevistadas conhecem do termo PANCs e  
as utilizam na culinária cotidiana, em formas que podem variar desde in natura, cozida, frita,  
refogada ou desidratada. A maior parte dos entrevistados desconhece o termo PANCs, o que  
demonstra que ações de divulgação científica e Educação Ambiental são essenciais para  
facilitar o acesso dessas informações para toda a sociedade, sobretudo aos da Agricultura  
Familiar, junto à comunidade estudada. Outros estudos sobre as PANCs podem contribuir  
em variados aspectos, tanto estudos taxonômicos, que possibilitem conhecer a flora local,  
quanto estudos de cunho bromatológico, agronômico, de compostos bioativos, para gerar  
informações mais contundentes para preencher lacunas ainda existentes quanto ao seu  
benefício, propagação, melhoramento e potenciais usos.  
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RESENHAS  
A DÍVIDA IMPAGÁVEL: UMA CRÍTICA FEMINISTA, RACIAL  
E ANTICOLONIAL DO CAPITALISMO  
UNPAYABLE DEBT  
1
Allicka Cardoso Sabino Belisario  
https://orcid.org/0009-0003-4624-6372  
http://lattes.cnpq.br/0232905120030791  
Luís Fernando Brinatti2  
https://orcid.org/0009-0009-9226-1374  
http://lattes.cnpq.br/7324723477324849  
Recebido em: 29 de setembro de 2025.  
Revisão final: 25 de fevereiro de 2026.  
Aprovado em: 25 de fevereiro de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.24266  
1 Graduada em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia e Ciência Política, pela Universidade Federal de São Car-  
los (UFSCar), onde atualmente é discente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Membro do Laborató-  
rio de Estudos Culturais Interseccionais Históricos – Leci Brandão (LECIH). E-mail: allickasabino@estudante.ufscar.br  
2 Graduado em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia e Sociologia, pela Universidade Federal de São Carlos  
(UFSCar), onde atualmente é discente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Membro do Laboratório  
deꢀExperimentaçõesꢀEtnográfiꢀcasꢀ(LE-E)ꢀeꢀdoꢀLaboratórioꢀdeꢀEstudosꢀCulturais,ꢀInterseccionaisꢀHistóricosꢀ–ꢀLeciꢀBran-  
dão (LECIH). E-mail: lfbrinatti@estudante.ufscar.br  
271  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
RESENHAS  
SILVA, Denise Ferreira da. A dívida impagável: uma crítica feminista, racial e anticolonial do  
capitalismo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.  
Publicado em português no ano de 2019  
pela Editora Cobogó, A dívida impagável (2024  
[2019]) reúne uma série de ensaios da filósofa e in-  
telectual brasileira Denise Ferreira da Silva, escri-  
tos ao longo da primeira e da segunda década dos  
anos 2000. Esses textos refletem um momento de  
inflexão na teoria crítica contemporânea global,  
caracterizado pelo deslocamento do debate sobre  
raça e colonialismo das esferas sociais imediatas  
para um plano mais profundo, que envolve a crítica  
à própria estrutura epistêmica e ontológica da mo-  
dernidade ocidental.  
A argumentação da autora se estrutura em  
quatro ensaios que se encadeiam como movimen-  
tos de desmontagem da racionalidade moderna.  
Do diagnóstico epistemológico em “Nem mesmo  
pela lei daqui” à exploração do valor racializado em  
“A mais perfeita alucinação”, passando pela proposição de uma outra linguagem conceitual e  
culminando na meditação narrativa sobre a impossibilidade de reparação em “Onde a carne se  
uniu ao gesso”, a autora mostra como a modernidade se ergue sobre três operações funda-  
mentais (separabilidade, determinabilidade e sequencialidade) que servem de dispositivos de  
violência e expropriação. A estrutura da obra, portanto, não é meramente formal; ela integra  
a própria estratégia crítica de expor os limites da filosofia, da economia e do direito quando  
confrontados com a experiência negra.  
Esse movimento, por sua vez, não se deu por acaso. No plano político, assistia-se à  
intensificação de debates em torno das reparações coloniais, às mobilizações negras trans-  
nacionais contra a violência policial e o encarceramento em massa, além das primeiras mani-  
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RESENHAS  
festações que dariam origem ao movimento Black Lives Matter3. Simultaneamente, no plano  
acadêmico, a pensadora jamaicana Sylvia Wynter (2003; 2015) e os (as) pensadores (as) esta-  
dunidenses como Hortense J. Spillers (2021 [1987]), Saidiya Hartman (1997) e Fred Moten (2003;  
2013) já vinham elaborando críticas radicais ao humanismo ocidental e suas instituições.  
É nesse contexto que a filósofa insere sua obra, articulando-a a uma crítica da  
arquitetura da política neoliberal moderna e do capital global, ao argumentar que a subjugação  
racial não constitui uma anomalia, mas, ao contrário, um componente essencial sustentado  
pelos princípios fundamentais do pensamento pós-iluminista. Assim, não se trata apenas de  
mais uma contribuição ao debate, antes, propõe-se uma verdadeira ruptura com as categorias  
fundamentais que sustentam a razão moderna, da economia capitalista e o direito liberal.  
A autora brasileira, nascida no Rio de Janeiro, consolidou sua trajetória no cenário aca-  
dêmico internacional, destacando-se como uma figura singular no pensamento crítico con-  
temporâneo. Formada em Ciências Sociais no Brasil, Denise Ferreira da Silva ampliou seus  
horizontes ao se deslocar para os Estados Unidos, onde teve contato com diversas tradições  
intelectuais, incluindo as teorias críticas da raça, os estudos culturais, a filosofia política e a  
estética experimental.  
Sua obra Toward a Global Idea of Race (2007) já indicava o projeto de pensar a racia-  
lidade não como dado sociológico, mas como condição de possibilidade do mundo moderno.  
Em A dívida impagável (2024), essa intuição é levada às últimas consequências: a racialidade  
deixa de ser apenas um efeito histórico para se constituir como uma gramática epistêmica,  
inscrita nas categorias de sujeito, tempo, valor e propriedade. A filósofa tem como ferramenta  
analítica central o corpo cativo ferido na cena da subjugação, para desmantelar o que chama  
de dialética racial. Essa dialética opera como uma lógica reversa que torna a negritude tanto  
causa quanto consequência de sua própria subjugação, obscurecendo assim os mecanismos  
jurídicos e econômicos do estado liberal e do capital que produzem e lucram com ela. Nesse  
sentido, a análise desconstrói os pilares fundamentais do pensamento moderno argumentan-  
do que esses são sustentados por uma força de necessidade que opera sob um verniz de liber-  
dade.  
A ferramenta mencionada trata-se de um instrumento “re/de/compositivo” criado para  
expor e analisar o funcionamento da categoria sócio-científica da negritude, sendo inspira-  
da profundamente na obra de Hortense J. Spillers (2021 [1987]). A origem de seu pensamento  
baseia-se nas distinções feitas por Spillers entre “corpo cativo” (jurídico e econômico), “carne”  
(ético) e “cor de pele” (simbólico). Explicando de forma detalhada essas três distinções, o pri-  
3 Black Lives Matter é um movimento social criado em 2013, nos Estados Unidos, a partir da hashtag #BlackLivesMa-  
tter.ꢀSurgiuꢀapósꢀaꢀabsolviçãoꢀdeꢀGeorgeꢀZimmermanꢀpelaꢀmorteꢀdeꢀTrayvonꢀMartin,ꢀcasoꢀqueꢀgerouꢀgrandeꢀindignaçãoꢀ  
pública. O movimento foi fundado por Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, articulando a mobilização digital e  
protestos de rua. Seu objetivo central é denunciar a violência policial e o racismo estrutural que afetam a população negra.  
Ao longo dos anos, organizou manifestações contra casos recorrentes de mortes de pessoas negras por agentes do Esta-  
do.Em 2020, ganhou dimensão global após o assassinato de George Floyd por um policial em Minneapolis. Milhões de  
pessoas protestaram nos EUA e em diversos países, ampliando o debate sobre desigualdade racial. O BLM também ques-  
tiona o encarceramento em massa e as disparidades no sistema de justiça criminal. Além das ruas, o movimento impactou  
debates acadêmicos, culturais e políticos sobre racismo e direitos civis. Hoje, tornou-se uma referência internacional na  
luta por justiça racial e transformação social.  
273  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais, vol. 17, n. 34, jul. - dez. de 2025 I e-issn: 2526-7280  
RESENHAS  
meiro representa um status jurídico-econômico do escravizado, um ser definido como pro-  
priedade. Tal concepção interrompe explicações baseadas em diferença cultural ao destacar  
a história material de expropriação e violência total. A segunda dimensão, é a carne imaginada  
por meio da ferida (carne ferida), que expõe a realidade da violência total autorizada e a condi-  
ção de desproteção jurídica. É o local primário da consideração ética – aquilo que pode ser vio-  
lado versus o que deve ser protegido. Logo, a cor da pele, atua no nível simbólico, tornando-se  
índice de atributos morais, culturais e intelectuais; o exemplo do relatório Moynihan4 mostra  
como a “etnicidade” utiliza a pele negra para significar uma estrutura familiar patológica.  
Além da produção acadêmica, a autora atua intensamente no campo artístico, dirigin-  
do filmes, produzindo instalações e colaborando com artistas contemporâneos. Essa interlo-  
cução interdisciplinar não é secundária: na poética negra feminista que ela propõe no livro,  
estética e epistemologia se confundem como formas de conhecer e de intervir no mundo. A  
exemplo disso, é quando a tese central da filósofa é articulada por meio da metáfora da dívida  
impagável (2024), inspirada no romance Kindred (1979), da estadunidense Octavia Butler, que  
descreve uma obrigação herdada que recai sobre aqueles que não a criaram e que não podem  
ser diretamente, responsabilizados por pagá-la.  
Dana, uma mulher negra dos anos de 1970 em Los Angeles, é repetidamente transpor-  
tada para o passado, à Maryland escravista, para salvar a vida de Rufus, seu ancestral branco  
e proprietário de escravizados. Essa obrigação forçada serve como ilustração da dívida impa-  
gável. Nesse sentido, a natureza da dívida, trata-se de uma obrigação imposta a alguém que  
não é responsável por sua criação. Sendo assim, o dever de Dana de salvar Rufus não resulta  
de suas próprias decisões, mas de uma imposição histórica que viola o tempo linear e a causa-  
lidade; seu retorno ao presente, onde seu braço é decepado e permanece embutido na parede  
de sua casa, serve como a “evidência incompreensível” desse emaranhamento trans-temporal  
e violento (SILVA, 2024).  
Diante disso, o nexo ético-econômico diz que a dívida impagável é utilizada para ana-  
lisar lógica que rege crises modernas. Nesse sentido, nos deparamos com acontecimentos  
específicos, tais como a crise financeira de 20085, em que pessoas negras e latinas com em-  
préstimos subprime eram inicialmente vistas como economicamente valiosas, justamente por  
4 O relatório de Moynihan de 1965 é uma articulação típica da dialética racial. Após recordar séculos de escravidão  
e décadas de segregação, e de registrar como a expropriação (renda, padrões de vida) caracteriza a situação econômica  
dos estadunidenses negros nos Estados Unidos,12 ele conclui que o “problema fundamental” é a “estrutura familiar”, o  
fato de ela estar “desmoronando”, e argumenta que, “enquanto essa situação persistir, o ciclo de pobreza e desvantagem  
continuaráꢀaꢀseꢀrepetir”ꢀ(SILVA,ꢀ2024,ꢀp.ꢀ24).  
5 Aꢀcriseꢀfinanceiraꢀdeꢀ2008ꢀfoiꢀumaꢀdasꢀmaioresꢀcrisesꢀeconômicasꢀglobaisꢀdesdeꢀaꢀGrandeꢀDepressãoꢀdeꢀ1929.  
Teve origem nos Estados Unidos, a partir do colapso do mercado imobiliário e da concessão de empréstimos de alto  
risco,ꢀconhecidosꢀcomoꢀ“subprime”.ꢀBancosꢀeꢀinstituiçõesꢀfinanceirasꢀconcederamꢀcréditoꢀaꢀpessoasꢀsemꢀcondiçõesꢀdeꢀ  
pagamento,ꢀestimuladosꢀporꢀespeculaçãoꢀeꢀdesregulamentação.ꢀEssasꢀdívidasꢀforamꢀtransformadasꢀemꢀprodutosꢀfinan-  
ceiros complexos e vendidos no mercado internacional. Quando muitos mutuários deixaram de pagar suas hipotecas, o  
sistema começou a entrar em colapso. Em setembro de 2008, o banco Lehman Brothers declarou falência, agravando o  
pânicoꢀglobal.ꢀDiversasꢀinstituiçõesꢀfinanceirasꢀenfrentaramꢀquebrasꢀouꢀprecisaramꢀdeꢀresgatesꢀbilionáriosꢀdoꢀgoverno.ꢀAꢀ  
crise se espalhou para a Europa e outras regiões, provocando recessão mundial. Milhões de pessoas perderam empregos,  
casasꢀeꢀpoupanças.ꢀOꢀepisódioꢀrevelouꢀfragilidadesꢀdoꢀsistemaꢀfinanceiroꢀinternacionalꢀeꢀgerouꢀdebatesꢀsobreꢀregulaçãoꢀeꢀ  
responsabilidade econômica.  
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RESENHAS  
sua provável inadimplência e quando essa inadimplência se concretizou, foram responsabili-  
zadas eticamente pelo colapso iminente da economia global e também a violência policial, em  
que a mesma lógica aparece nos assassinatos de pessoas negras desarmadas pela polícia e a  
morte é atribuída a uma suposta falha moral ou uma ameaça inerente da vítima, justificando  
a violência. Sendo assim, em ambos os casos, está em operação uma dialética racial, ou seja,  
um mecanismo que faz a subjugação racial parecer alheia às estruturas centrais do liberalismo  
político ao transformar crises econômicas e jurídicas em falhas éticas atribuídas à diferença  
racial.  
No capítulo “Futuro Anterior”, nos deparamos logo de início com a seguinte advertên-  
cia: “qualquer tentativa de resumir um capítulo – e, nesse sentido, todo o livro – será insatisfa-  
tória e muito provavelmente distorcerá, já que uma descrição do que é feito não pode repetir  
como é feito” (SILVA, 2024, p. 18). Cientes dessa limitação, mas também movidos pelo desejo  
de compartilhar a densidade das reflexões apresentadas, nos propomos aqui a caminhar com  
atenção e respeito pelos principais pontos desenvolvidos, buscando preservar, tanto quanto  
possível, a complexidade do texto original. Nesse sentido, como citado anteriormente, a obra  
está organizada em quatro ensaios, cada um dedicado a uma dimensão específica da crítica  
proposta pela filósofa.  
No primeiro, intitulado “Nem mesmo pela lei daqui”, a autora expõe seu projeto metodo-  
lógico, que consiste em desmontar as chamadas “leis do entendimento moderno”, sintetizadas  
em três princípios fundamentais antes mencionados. O que a filósofa analisa é que o corpo ca-  
tiva ferida aqui desestabiliza a separação entre humano versus coisa, mostrando que a escrava  
é ao mesmo tempo mercadoria e algo que excede qualquer categorização natural ou artificial.  
Esses dispositivos, herdados da filosofia moderna, especialmente de pensadores europeus  
como René Descartes (1641), Immanuel Kant (1791), Georg F. Hegel (1807), fundamentam tanto a  
organização do conhecimento quanto às práticas jurídicas e econômicas.  
A análise que a autora propõe fazer mostra os pilares centrais do pensamento pós-ilu-  
minista, afirmando que seus conceitos fundamentais não são neutros, mas sim construídos  
como forma a necessitar e perpetuar a violência. Diante disso, os princípios se encarregam  
de mostrar a ideia de que entidades são distintas e não podem ser conhecidas isoladamen-  
te; a análise propõe uma realidade de implicação profunda (separabilidade). Por outro lado, o  
determinismo se dá como princípio de que o conhecimento consiste em identificar causas e  
efeitos. A autora propõe a indeterminabilidade, reconhecendo a complexidade infinita de tudo  
que existe. Já a sequencialidade, por sua vez, expressa a fé em um tempo linear, progressivo,  
que estrutura tanto a narrativa histórica quanto a economia capitalista. Dessa forma, a autora  
demonstra como esses princípios não apenas organizaram o pensamento, mas possibilitaram  
práticas de dominação racial: a escravização e a colonização só puderam ser concebidas por-  
que a racionalidade moderna produziu sujeitos universais e, ao mesmo tempo, relegou corpos  
racializados à condição de “coisas”, incapazes de agência ou de titularidade.  
Em sequência, o segundo ensaio, intitulado “a mais perfeita alucinação” aprofunda esse  
diagnóstico, examinando a articulação entre racialidade e valor. Aqui a interlocução com Karl  
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Marx (1894) é explícita. Se para Marx a acumulação primitiva foi um momento inicial do capita-  
lismo, marcado pela violência da expropriação, para Denise Ferreira a escravidão e a coloniza-  
ção não são episódios transitórios, mas constitutivos e permanentes da lógica do valor. Nesse  
sentido, vemos como a demonstração do valor criado pelo “trabalho escravizado” é sistema-  
ticamente apagado da equação de valor de Marx, sendo relegado a um estágio pré-capitalista  
de acumulação primitiva.  
Esse apagamento, facilita um processo de acumulação negativa para os descenden-  
tes dos escravizados; um déficit econômico que a dialética racial transborda em uma falha  
moral ou biológica inerente. Diante disso, se propõe uma reimaginação radical da existência  
para além dos limites da epistemologia moderna, advogando por uma ontologia baseada na  
implicação profunda, na infinitude e na complexidade fractal; um arcabouço desenhado para  
dissolver o próprio conceito de valor e pôr fim ao mundo sustentado pela violência.  
Portanto, o capital não existe sem racialidade. Mais do que isso: o próprio trabalho es-  
cravizado, em sua capacidade criativa, foi apropriado como capital, de tal modo que a “carne”  
negra não apenas produziu mercadorias, mas converteu-se, ela própria, em mercadoria. Esse  
processo de mercantilização da vida negra não se encerra no século XIX. Ao contrário, ressur-  
ge nas formas contemporâneas de financeirização, como o crédito hipotecário e a securitiza-  
ção de dívidas. Tais dispositivos revelam a persistência de mecanismos de captura da vida,  
que reafirmam a lógica de exploração e objetificação racial (SILVA, 2024).  
Ao enfatizar essa continuidade, Silva (2024) distancia-se de interpretações que tratam  
a escravidão como uma anomalia ou acidente histórico. Para a autora, o capitalismo é estru-  
turalmente racializado, e toda crítica que não reconheça esse traço permanece incompleta e,  
portanto, insuficiente. A autora, nesse sentido, denuncia como o pensamento moderno subs-  
tituiu o determinismo científico do século XIX por um regime interpretativo que, no entanto,  
não rompeu com as estruturas raciais anteriores. A corpo cativa, reintroduz o problema jurídi-  
co-econômico rompendo com a lógica hegeliana do reconhecimento e expondo a dominação  
como baseada na propriedade.  
O terceiro ensaio da obra, intitulado “uma outra língua”, apresenta possivelmente o ges-  
to teórico mais ousado da autora: uma formulação matemática que enuncia a impossibilida-  
de de calcular a vida negra segundo os parâmetros do valor moderno. Nesse ponto, a fórmula  
apresentada pela autora: “1 (Vida) ÷ 0 (Negridade) = ∞” aparece como gesto conceitual e poéti-  
co de grande força. Do ponto de vista matemático, dividir por zero é uma operação impossível,  
pois não há número real que satisfaça a equação. Entretanto, se observada como limite, a ra-  
zão tende ao infinito.  
Nesse sentido, a autora mobiliza essa ambivalência para expressar que, se a vida é co-  
locada em relação com uma negridade reduzida à nulidade pelo regime moderno, o resultado  
é um excesso incalculável. Assim, a fórmula condensa de modo performativo a falência do cál-  
culo capitalista diante da experiência negra: aquilo que é tomado como zero explode a lógica  
do valor, revelando um infinito que não pode ser reparado nem mensurado.  
Essa formalização matemática, inserida no corpo do texto, cumpre papel duplo. De um  
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lado, é um recurso conceitual que radicaliza a crítica, ao traduzir em notação a impossibilidade  
de subsumir a vida negra às categorias modernas. De outro, é estratégia poética que se alinha  
à “poética negra feminista” que a autora reivindica como método, deslocando a expectativa  
do leitor entre filosofia e literatura, entre cálculo e ética. Lida nesse registro, a fórmula não é  
apenas metáfora, mas parte do próprio método: instaurar uma ética de leitura que reconheça  
o caráter impagável da dívida e a irredutibilidade da vida negra.  
Diante disso, nota-se a forma que a autora confronta a teoria de Marx (1859) ao mostrar  
como o Capital é construído mediante a exclusão do trabalho escravizado e das colônias. A  
abstração do trabalho como medida de valor depende de um princípio ético – a liberdade do  
trabalhador. Ao inserir a corpo cativa ferida (que aparece no algodão, matéria-prima marcada  
por trabalho escravo), a autora rompe com essa abstração; Mostra-se, então, que o valor total  
do Capital contém o excedente extraído do corpo escravizado, dissolvendo a fronteira entre  
trabalho livre e escravo.  
Essa estratégia aproxima-se de autoras como Hortense Spillers (1987) e Saidiya Hartman  
(1997), que também ressaltam o caráter inassimilável da experiência negra. Contudo, a autora  
brasileira opera uma inflexão própria ao traduzir tal excesso em termos conceituais e formais,  
abrindo uma brecha na racionalidade matemática e econômica. O resultado é a constatação  
de que toda tentativa de reparar a escravidão e o colonialismo através de indenizações mone-  
tárias ou políticas de reconhecimento está fadada a fracassar, pois permanece prisioneira à  
lógica que produziu a própria expropriação.  
Por fim, o último ensaio, “onde a carne se uniu ao gesso”, que dá título ao livro, condensa  
de forma precisa a tese central de Silva (2024): a dívida é impagável. Ao mobilizar a narrativa de  
Kindred, de Octavia Butler (1979), a autora demonstra como a temporalidade linear da moderni-  
dade, frequentemente representada como uma flecha do tempo, inviabiliza qualquer possibili-  
dade de realização da justiça histórica. O passado não pode ser saldado por compensações no  
presente, porque o débito não é quantificável nem recuperável (SILVA, 2024).  
A conclusão é uma especulação filosófica sobre o fim do mundo moderno tal como o  
conhecemos. A corpo cativa ferida se mostra irredutível tanto ao sujeito moderno quanto ao  
conceito de trabalho. Em seu lugar, a autora propõe uma nova imagem da existência, baseada  
na implicação profunda (um emaranhamento de tudo com tudo) e no corpus infinitum (a re-  
composição perpétua de tudo que existe). Nesse horizonte, o fardo de Dana torna-se a dívida  
colonial de todos, que só pode ser paga com o fim das categorias que sustentam a opressão  
racial, jurídica e econômica.  
A noção de dívida impagável, portanto, extrapola o diagnóstico crítico do presente; ela  
se constitui como um convite à formulação de outras possibilidades de justiça – uma justiça  
que não se fundamenta na propriedade nem no contrato, mas na criação de mundos impli-  
cados, plenos, nos quais as relações não sejam organizadas pela lógica da apropriação e do  
valor. É nesse contexto que a autora propõe a poética crítica negra feminista como método  
e como horizonte; tal poética, inspirada em pensadoras como Wynter (2003), Spillers (1987),  
Hartman (1997) e em artistas visuais como Kara Walker, configura-se como uma prática de lei-  
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tura e criação que busca imaginar outros regimes de sensibilidade. Regimes capazes de aco-  
lher o excesso da vida, sua irredutibilidade, sua singularidade, sem subsumi-las às estruturas  
de dominação do capital, do Estado ou da razão moderna.  
Isto posto, um dos maiores méritos da obra A Dívida Impagável (2024), de Denise Fer-  
reira, reside na sua capacidade de articular, de forma coerente, diversas tradições críticas.  
Ainda que compartilhe com Marx (1859) a crítica ao capital, a autora insiste na centralidade da  
racialidade como elemento estruturante do capitalismo. Acompanhando Sylvia Wynter (2003),  
adere à crítica ao universalismo do homem, mas enfatiza as determinações econômicas da ex-  
clusão. Dialogando com o filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe (2003), apro-  
xima-se da noção de necropolítica, sem deixar de destacar que a administração da morte se  
ancora em categorias epistêmicas racializadas (SILVA, 2024).  
Avançando um pouco mais, a interlocução teórica amplia-se com autoras como a ame-  
ricana Judith Butler (2004), cuja noção de despossessão é radicalizada por Silva (2024) na di-  
reção da negridade. Além disso, com Donna Haraway (1991;2016), partilha-se a recusa do hu-  
manismo tradicional, contudo, tal recusa é reconfigurada a partir da experiência negra. Assim,  
esses diálogos trata-se de uma apropriação que resulta em uma teoria com gramática própria,  
ainda que alimentada por múltiplas fontes.  
Do ponto de vista metodológico, a obra propõe uma contribuição do pensamento filo-  
sófico e contemporâneo político: a poética negra feminista como método. Ao recusar a dico-  
tomia entre razão e estética, a autora afirma que a arte não apenas ilustra, mas produz a teoria.  
Interpretar cenas de valor, analisar imagens e narrativas especulativas não é um desvio teóri-  
co, mas uma via legítima para acessar aquilo que a racionalidade moderna recusa como objeto  
de conhecimento. Essa perspectiva aproxima-se do que Hartman (2008) denominou critical  
fabulation, bem como de tradições afro-diaspóricas que reconhecem, há muito, a oralidade,  
o mito e a performance como formas legítimas de conhecimento. A diferença fundamental  
é que, ao formalizar tais práticas como método filosófico, Silva (2024) contribui para sua le-  
gitimação como epistemologia rigorosa, capaz de disputar, em seu próprio terreno, com os  
paradigmas da razão ocidental.  
Contudo, a densidade do texto não pode ser ignorada. A linguagem experimental, a  
erudição filosófica e as formulações conceituais exigem do leitor uma disposição prolongada  
para o trabalho interpretativo. Essa exigência, no entanto, não deve ser vista como obstáculo,  
mas com parte da proposta teórica da autora. A complexidade do texto reflete a complexidade  
do lugar que a autora busca descrever. Nesse sentido, o livro ultrapassa o campo estrito da  
teoria acadêmica e se apresenta como instrumento político. A filósofa não está em busca de  
oferecer soluções imediatas, mas sim de propor, antes, um deslocamento radical do terreno  
do debate. Enquanto boa parte dos discursos sobre reparação se limitam à lógica do reconhe-  
cimento, a autora propõe uma restituição ontológica, que exige a desestabilização das cate-  
gorias de valor, propriedade e tempo.  
A crítica positiva que se impõe é a rara capacidade da autora de transitar entre campos  
diversos como a filosofia, economia, direito, literatura e arte sem sacrificar a consistência  
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RESENHAS  
teórica. A interdisciplinaridade aqui não é um gesto superficial, mas um projeto que possui ta-  
manha rigorosidade diante das diferentes referências mobilizadas e integradas a um horizonte  
mais amplo, cuja ambição é nada menos que a reinvenção do mundo.  
Se há limites, eles residem justamente na radicalidade. Ao declarar a dívida impagável, a au-  
tora abre um horizonte ético-político, mas não oferece soluções operacionais. Esse aspecto,  
antes de ser uma falha, pode ser compreendido como um convite, em que cabe às coletivida-  
des, aos movimentos, às práticas artísticas e jurídicas traduzir essa crítica em intervenções  
concretas. O livro não fecha um projeto; inaugura um campo.  
Em conclusão, A dívida impagável (2024) é uma obra incontornável para qualquer reflexão  
séria sobre capitalismo, racismo e colonialidade. Sua relevância está não apenas na crítica  
profunda às categorias fundacionais da modernidade, mas na coragem de propor caminhos  
alternativos de pensamento e de ação. Ao insistir que a dívida é impagável, Denise Ferreira da  
Silva não convida ao desespero, mas à invenção. De outras formas de justiça, de outras formas  
de vida, de outros mundos. A dívida é impagável, mas o pensamento que ela mobiliza é incal-  
culavelmente fecundo.  
Referências  
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ção Brasileira, 2004.  
BUTLER, Octavia. Kindred. Boston: Beacon Press, 1979.  
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HARAWAY, Donna. Simians, cyborgs, and women: the reinvention of nature. New York: Rout-  
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RESENHAS  
HARAWAY, Donna. Staying with the trouble: making kin in the Chthulucene. Durham: Duke  
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MARX, Karl. Para a crítica da economia política. Tradução de Edgard Malagodi. São Paulo:  
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MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. Tradução de Rubens Enderle. São  
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WYNTER, Sylvia. Unsettling the coloniality of being/power/truth/freedom: towards the hu-  
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3, p. 257-337, 2003.  
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RESENHAS  
FASCISMO E IMAGINÁRIO LITERÁRIO: RESENHA DE “O  
FASCISMO INFINITO, NO REAL E NA FICÇÃO”, DE SERGIO  
SCHARGEL  
FASCISM AND LITERARY IMAGINATION: REVIEW OF “O  
FASCISMO INFINITO, NO REAL E NA FICÇÃO” BY SERGIO  
SCHARGEL  
Melanie Steigleder1  
https://orcid.org/0009-0008-4413-6950  
http://lattes.cnpq.br/2782064114203383  
Recebido em: 08 de abril de 2025.  
Aprovado em: 16 de dezembro de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.23121  
1 Mestranda em Comunicação pela UFF. Bolsista CAPES. Bacharel em Administração pela UFSJ,  
com experiência em gestão, marketing e comunicação. E-mail: melaniecontato14@gmail.com  
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RESENHAS  
O
fascismo  
é
um  
tema  
amplamente coberto em diversas áreas  
das Humanidades, como a História e  
as Ciências Sociais. Faltava, contudo,  
uma obra reflexiva sobre a relação entre  
fascismo e Literatura. Não falta mais.  
Em 2023, a Editora Bestiário lançou O  
fascismo infinito, no real e na ficção:  
como a Literatura apresentou o fascismo  
nos últimos cem anos, de Sergio Schargel.  
Derivado de uma dissertação de  
mestrado  
premiada  
pela  
Associação  
Brasileira  
de  
Literatura  
Comparada  
(ABRALIC), o livro se destaca por articular  
uma  
abordagem  
comparativa  
entre  
diferentes autores, períodos e contextos  
históricos, demonstrando como a ficção  
tem sido um espaço privilegiado para  
refletir sobre os mecanismos do fascismo.  
A pesquisa de Schargel perpassa desde  
as primeiras representações literárias  
do fenômeno na década de 1920 até  
suas  
manifestações  
contemporâneas,  
examinando como a ficção literária capta e reelabora os discursos e práticas fascistas.  
Seu estudo destaca que, mais do que apenas registrar a ascensão e o declínio de regimes  
autoritários, aliteraturafrequentementeantecipaereinterpretaessesprocessos, funcionando  
como um campo de experimentação estética e ideológica. A obra está estruturada em quatro  
capítulos, que abordam diferentes facetas do fascismo e sua relação com a literatura, desde  
sua definição conceitual até sua representação ficcional e metalinguística. Para isso, Schargel  
utiliza o conceito de Ur-Fascismo, cunhado por Umberto Eco.  
Um dos principais méritos da obra de Schargel é a sua abordagem interdisciplinar,  
que combina teoria política, análise literária e história. O autor não se limita a uma análise  
superficial do fascismo como fenômeno histórico, mas explora suas nuances e ressonâncias  
na literatura, destacando como a ficção pode antecipar, refletir e até mesmo influenciar a  
realidade política. A escolha das obras de Lewis e Vermes é particularmente feliz, pois ambas  
oferecem visões distintas e complementares sobre o fascismo: enquanto Não vai acontecer  
aqui retrata a ascensão de um regime fascista nos Estados Unidos durante a década de 1930,  
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RESENHAS  
Ele está de volta imagina o retorno de Hitler na Alemanha contemporânea.  
Um dos pontos mais fortes do livro reside na sua análise aprofundada do conceito de Ur-  
Fascismo, tal como desenvolvido por Umberto Eco, e sua relação com as estruturas políticas  
contemporâneas. Schargel argumenta que o fascismo não desapareceu em 1945, mas apenas  
se reconfigurou sob novas roupagens. Eco, em O fascismo eterno, identifica características  
atemporais do fascismo que transcendem contextos históricos específicos, como o culto à  
tradição, a rejeição ao pensamento crítico, o medo da diferença e a exaltação da violência.  
Schargel aplica esse conceito para explorar como essas características se manifestam não  
apenas na política e na cultura, mas também na Literatura, permitindo uma compreensão  
mais ampla e interdisciplinar do fenômeno fascista. Ao analisar obras literárias de diferentes  
períodos e contextos, o autor demonstra como o fascismo, mesmo após o fim dos regimes do  
século XX, continua a ser uma presença viva e perturbadora no imaginário literário e cultural.  
Para sustentar essa tese, o autor dialoga com teóricos como Robert Paxton (2007) e Jason  
Stanley (2018), demonstrando como movimentos autoritários da atualidade apresentam  
características que ecoam o fascismo histórico, ainda que sob disfarces democráticos.  
Além de seu rigor teórico e analítico, O fascismo infinito contribui para o campo dos  
estudos literários ao evidenciar como a literatura opera como um dispositivo de memória  
cultural e resistência política. O livro demonstra que, ao recriar ficcionalmente episódios  
históricos ou projetar cenários distópicos baseados em padrões fascistas, a literatura cumpre  
um papel duplo: por um lado, permite uma compreensão mais aprofundada dos processos  
históricos e, por outro, ajuda a alertar para os perigos sempre presentes do autoritarismo.  
Schargel enfatiza que a permanência de elementos fascistas na literatura não significa apenas  
um interesse estético pelo tema, mas revela uma preocupação contínua dos escritores em  
compreender as engrenagens ideológicas e emocionais que sustentam regimes e movimentos  
autoritários.  
Outro ponto forte do livro é a sua relevância contemporânea. O autor não se limita a uma  
análise histórica do fascismo, mas conecta suas reflexões ao contexto político atual, marcado  
pela ascensão de movimentos autoritários e populistas em diversas partes do mundo. A  
discussão sobre a “recessão democrática global” e o ressurgimento de discursos fascistas em  
governos como os de Donald Trump e Jair Bolsonaro é particularmente pertinente, destacando  
a importância de se compreender o fascismo como uma ameaça sempre presente. Para isso,  
Schargel emprega a literatura para ilustrar e reforçar suas argumentações e demonstrar como  
a ficção especulativa pode servir tanto como ferramenta de alerta quanto como manual de  
compreensão da ascensão fascista.  
Apesar dos méritos, a obra não está isenta de críticas. Um dos pontos fracos é a sua  
dependência excessiva do conceito de Ur-Fascismo de Eco. Embora o conceito seja útil  
para discutir as características atemporais do fascismo, ele corre o risco de se tornar uma  
categoria excessivamente ampla, aplicável a qualquer movimento autoritário ou populista. É  
compreensível que um livro tenha espaço limitado para incluir todas as análises necessárias,  
mas o autor poderia ter explorado outras teorias sobre o fascismo, como as de Robert Paxton  
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(2007) ou Renzo de Felice (1976), para enriquecer sua análise e evitar uma visão excessivamente  
homogênea do fenômeno.  
Outra crítica possível é a falta de uma discussão mais aprofundada sobre as diferenças  
entreo fascismo histórico e suas manifestações contemporâneas. Embora Schargelafirme que  
o fascismo se reinventa continuamente, ele não explora suficientemente como as condições  
sociais, econômicas e tecnológicas do século XXI influenciam a forma como o fascismo se  
manifesta hoje. Por exemplo, o papel das redes sociais e da desinformação na disseminação de  
discursos fascistas mereceria uma análise mais detalhada. Segundo o autor, o fascismo não é  
um fenômeno histórico limitado à Itália dos anos 1920 e 1930, mas uma metodologia de poder  
que se adapta a diferentes contextos e épocas. Essa abordagem permite a Schargel discutir  
o fascismo como uma ameaça sempre presente, que pode ressurgir em qualquer sociedade,  
especialmente em momentos de crise.  
A conclusão do livro é especialmente instigante, pois sugere que a resistência ao  
fascismo é um processo interminável, assim como o próprio fenômeno fascista. O autor recorre  
à metáfora dos vaga-lumes de Pasolini e Didi-Huberman para enfatizar a importância da arte  
e da literatura na manutenção da consciência crítica e na resistência ao autoritarismo. Essa  
abordagem confere à obra uma dimensão quase militante, ressaltando o papel do intelectual na  
luta contra regimes opressores. Por outro lado, esse pode ser também tomado como o principal  
defeito da obra. Por mais que seja inevitável alguma paixão quando se fala de fascismo, há,  
principalmente neste capítulo, certo caráter idílico que fragiliza um pouco a análise.  
Em síntese, O fascismo infinito, no real e na ficção é uma contribuição essencial  
para os estudos literários e para a compreensão do fascismo como fenômeno histórico e  
cultural, bem como sobre a sua permanência na contemporaneidade. Com uma abordagem  
interdisciplinar, Schargel consegue articular conceitos políticos e literários de maneira fluida e  
acessível, tornando sua obra relevante tanto para pesquisadores da área quanto para o público  
interessado na interseção entre política e cultura. Ao utilizar o conceito de Ur-Fascismo  
de Umberto Eco como eixo central de sua análise, o autor oferece uma reflexão profunda e  
atualizada sobre as representações literárias do fascismo, destacando sua presença contínua  
e suas transformações ao longo do último século. A obra não apenas preenche uma lacuna  
importante na produção acadêmica, mas também demonstra como a literatura pode servir  
como um espaço privilegiado para a crítica e a resistência, desvelando as complexidades e os  
perigos do fascismo de maneira única e poderosa. Em um momento em que o mundo enfrenta  
o ressurgimento de movimentos autoritários e nacionalistas, O fascismo infinito se torna uma  
leitura indispensável para todos aqueles que buscam compreender e combater as ameaças à  
democracia e à liberdade.  
Dessa forma, a obra não apenas preenche uma lacuna nos estudos sobre fascismo e  
literatura, mas também propõe um novo olhar sobre a relação entre a ficção e os processos  
políticos. Ao articular teoria literária, história e política, O fascismo infinito se estabelece  
como uma leitura essencial para estudiosos da literatura comparada, das ciências humanas  
e para qualquer leitor interessado em entender como o fascismo se manifesta e se perpetua,  
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RESENHAS  
tanto na realidade quanto na ficção. Com isso, Sergio Schargel não somente resgata e analisa  
as narrativas do passado, mas também nos convida a refletir sobre o presente e o futuro,  
demonstrando que o fascismo, longe de ser um fenômeno encerrado na história, continua a se  
reinventar sob novas formas e discursos.  
Referências  
ECO, U. O fascismo eterno. Rio de Janeiro: Record, 2018.  
FELICE, R. de. Explicar o fascismo. Edições 70: Lisboa, 1976.  
LEWIS, S. Não vai acontecer aqui. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2017.  
PAXTON, R. A anatomia do fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.  
SCHARGEL, Sergio. O fascismo infinito, no real e na ficção: como a ficção apresentou o  
fascismo nos últimos cem anos. Porto Alegre: Bestiário, 2023.  
STANLEY, J. Como funciona o fascismo: a política do “nós” e “eles”. Porto Alegre: L&PM, 2018.  
VERMES, T. Ele está de volta. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014.  
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RESENHAS  
Jornal Sem Terra: um militante na redemocratização do  
Brasil  
Jornal Sem Terra: a militant in the redemocratization of  
Brazil  
Jefferson Ribeiro da Silva1  
https://orcid.org/0009-0006-8480-4162  
https://lattes.cnpq.br/8441869788904752  
Recebido em: 22 de outubro de 2025.  
Revisão final: 12 de fevereiro de 2026.  
Aprovado em: 22 de março de 2026.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.24341  
1 Mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de  
Mato Grosso (PPGHIS/UFMT), graduou-se em História pela mesma instituição. Atualmente inte-  
grante do Grupo de Pesquisa “História, Política e Contemporaneidade”, vinculado à UFMT. E-mail:  
jeersonrs2706@gmail.com  
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RESENHAS  
PERLI, Fernando. Jornal Sem Terra:  
um projeto de comunicação popular na  
redemocratização do Brasil. São Paulo:  
Intermeios, 2023.  
De modo geral, os historiadores que  
se debruçam sobre a imprensa escrita e sua  
história tendem a selecionar impressos de  
grande tiragem, longevidade e identificados  
no espectro da chamada grande imprensa2.  
Entretanto, impressos de menor tiragem  
e
circulação, por vezes efêmeros ou  
oriundos da imprensa alternativa3, também  
têm se consolidado como objeto e fonte  
de significativas pesquisas no campo da  
História.  
Lançada em 2023 pela editora  
Intermeios, a obra Jornal Sem Terra: um  
projetodecomunicaçãopopularnaredemocratizaçãodoBrasil, integraoconjuntodeestudos  
que investigam a imprensa que se desenvolve em contraposição social, política e financeira à  
grande imprensa. O autor, Fernando Perli, analisa o jornal como uma ferramenta de resistência  
ao autoritarismo na década de 1980, fruto da parceria entre movimentos sociais e entidades  
civis e religiosas. Nesse sentido, ao conectar o periódico à luta histórica pela reforma agrária,  
o livro reconstrói o percurso que consolidou a publicação como a principal voz impressa do  
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).  
Esta obra é fruto de uma pesquisa que amplia as reflexões da dissertação de mestrado  
de Perli, buscando considerar o que o autor define como as “contingências do tempo presente”  
(p. 16). Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP/  
Assis) e pós-doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o pesquisador atua  
desde 2012 na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Na instituição, consolidou  
2 São exemplos de pesquisas voltadas para a análise da grande imprensa a obra clássica de Capelato e  
Prado (1980), a dissertação de Aquino (1990), os estudos de Barbosa (2007), a tese de Sotana (2010),  
entre outros trabalhos.  
3 Para um panorama sobre a chamada imprensa alternativa, consultar: KUCINSKI, Bernardo. Jor-  
nalistas e Revolucionários: nos tempos da Imprensa alternativa. 3. ed. São Paulo: EDUSP, 2018.  
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RESENHAS  
sua experiência ao coordenar projetos como o Laboratório de Ensino de História (LABhis), o  
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) do Departamento de História  
e o Programa de Pós-Graduação em História (PPGH), além de ter editado a Fronteiras: Revista  
de História entre 2021 e 2023. Suas pesquisas articulam ensino de história, representações  
sociais e políticas, meios de comunicação, movimentos sociais, usos do passado e cultura  
histórica.  
Quanto à estrutura do volume, organizado em três capítulos, a obra percorre o caminho  
de organização e consolidação do Jornal Sem Terra. O livro conta com prefácio assinado  
por José Luis Beired, além de orelha e texto de contracapa assinados por Tania Regina de  
Luca, compondo uma abertura que reforça a relevância do estudo e prepara o terreno para o  
desenvolvimento analítico apresentado ao longo dos capítulos e nas considerações finais.  
Naintrodução, PerlinosapresentasuaaproximaçãoaoJornalSemTerraeàsdiscussões  
envolvendo a formação comunicacional do MST, a partir do impresso embrionário intitulado  
Boletim Sem Terra. O autor também utiliza esse espaço para explicitar as principais influências  
teóricas e metodológicas mobilizadas na obra, mencionando contribuições de autores como  
Pierre Nora, Jean Lacouture, Robert Darnton, Daniel Roche, Nelson Werneck Sodré, Maria  
Helena Capelato, Maria Lígia Prado, Isabel Lustosa, Maria Aparecida de Aquino, Bernardo  
Kucinski, Maria Nazareth Ferreira, Leonilde Servolo de Medeiros, Regina Festa, Carlos Eduardo  
Lins da Silva, José de Souza Martins, Zilda Márcia Gricoli Iokoi, Bernardo Mançano Fernandes,  
Roger Chartier, Pierre Bourdieu e Michel de Certeau.  
Esses referenciais sustentam debates que orientam a análise proposta, como a relação  
entre história e comunicação, a imprensa enquanto objeto e fonte histórica, as conceituações  
sobre imprensa alternativa e as investigações acerca de experiências impressas produzidas  
por e para trabalhadores rurais no Brasil.  
Às reflexões sobre os movimentos sociais rurais e sobre a organização do MST somam-  
se estudos sobre práticas de leitura e acerca do conceito de representações, que fornecem  
instrumentos conceituais para compreender como sentidos e identidades se formam em  
torno do Jornal Sem Terra. A partir desse leque teórico-metodológico, o autor propõe articular  
a gênese do periódico, sua estratégia comunicacional e seu lugar nas disputas políticas e  
simbólicas na redemocratização do Brasil. Perli delineia, portanto, um quadro inicial em que  
a história do Jornal Sem Terra se entrelaça a debates acadêmicos que oferecem suporte  
conceitual para a análise de sua trajetória e de seu papel na comunicação popular.  
É a partir desse enquadramento que se desenvolve o capítulo 1, no qual o autor explora  
a relação entre trabalhadores rurais e o jornalismo de engajamento político. Fernando Perli  
analisa como os trabalhadores rurais, tradicionalmente marginalizados pelas grandes mídias,  
encontraram em um projeto de comunicação popular uma forma de organizar sua luta,  
comunicar suas demandas e ampliar a visibilidade de suas reinvindicações. O capítulo mostra  
que, ao contrário dos meios de comunicação tradicionais, que frequentemente silenciavam  
as vozes populares, os jornais de engajamento político serviam como plataformas para a  
construção de uma consciência política entre as camadas mais oprimidas da sociedade.  
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RESENHAS  
PerlirecuperaexperienciasimpressasqueantecederamasorigensdoJornalSemTerra,  
e tiveram como característica o engajamento e a inserção no debate político de trabalhadores  
rurais no Brasil desde os anos 1940, como os jornais O Guatambú (1946), Nossa Terra (1949),  
Terra Livre (1954) e Liga (1962), até impressos surgidos no período da ditadura militar, como  
Lamparina (1979), Terragente (1979), A Foice (1980), A Enxada (1981), o Enxadão (1982), A  
Enchente do Uruguai (1981) e o Boletim Sem Terra (1981), demonstrando que os movimentos  
sociais dos trabalhadores rurais teve constante preocupação em desenvolver canais próprios  
de comunicação diante da exclusão da grande imprensa.  
Ao seguir da leitura, percebe-se que a comunicação passou a ser vista como uma forma  
de mobilização coletiva, de conscientização política e de fortalecimento da luta pela reforma  
agrária. O autor ainda explora o papel essencial desses projetos de comunicação popular  
para dar visibilidade a causas como a luta contra a grilagem de terras, o trabalho escravo e  
a violência no campo, temas frequentemente ignorados pela mídia tradicional. O esforço de  
Perli evidencia que esses periódicos, ainda que majoritariamente efêmeros, criaram espaços  
de denúncia e articulação, tornando visível a identidade comum das mobilizações rurais em  
diferentes regiões do país. Assim, o capítulo evidencia que a trajetória do Jornal Sem Terra  
se insere em uma tradição mais longa de comunicação popular voltada à organização dos  
trabalhadores rurais e ao fortalecimento das lutas pela reforma agrária.  
Em seu segundo capítulo, a obra destaca a atuação, a conjuntura, a organização e o  
contexto que deram origem, no Acampamento Encruzilhada Natalino, na cidade de Ronda Alta,  
no Rio Grande do Sul, em 1981 ao Boletim Sem Terra. Perli traça um panorama da organização  
em torno do Acampamento Encruzilhada Natalino e da formação e necessidade do grupo  
em estabelecer um meio de socialização e divulgação da luta dos acampados que resultou  
na elaboração e distribuição do referido boletim. Em um contexto marcado pela repressão  
ditatorial que, inclusive, promoveu intervenção física e direta no acampamento, o boletim se  
tornou ainda meio de denúncia e defesa dos acampados, formando em torno de si uma rede  
de solidariedade de entidades civis, religiosas e políticas, como as dioceses e os sindicatos.  
Essa rede se tornou um ponto de resistência à repressão do regime militar e ao sistema  
de poder que excluía as demandas dos trabalhadores rurais. Perli destaca, ainda, a rede  
comunicacional formada por outros impressos na região centro-sul do país que engendraram  
as discussões em torno da reforma agrária a partir dos trabalhadores rurais sem-terra e  
contribuíram na formação de um movimento nacional.  
No capítulo seguinte, o autor debruça-se sobre o processo de mudanças que resultaram  
na transformação do Boletim Sem Terra em Jornal Sem Terra, detalhando como o movimento,  
ao ganhar força e visibilidade, passou a profissionalizar sua comunicação. A mudança,  
entretanto, não se limitou ao formato e à designação do impresso. A partir das reformulações  
implementadas em 1984, o novo projeto editorial buscou alçar o boletim a um contexto nacional  
e inseri-lo como correspondente comunicacional do MST, capaz de alcançar mais leitores  
e consolidar o movimento como uma força de transformação social. As mudanças editorias  
foram acompanhadas, além de tudo, por mudanças concretas na redação que transferiu-se  
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do Rio Grande do Sul para São Paulo; e também na ampliação da equipe de colaboradores do  
jornal.  
Perli mostra que as modificações no projeto editorial abriram tanto possibilidades  
quanto tensões no cotidiano da redação com preocupações que já tangiam o boletim e foram  
aprofundadas conforme o movimento sem-terra ganhava novas dimensões. Entre os desafios  
destacados estão a adaptação do jornal ao papel de correspondente do movimento, a logística  
de distribuição e usufruto pelos trabalhadores sem-terra, a definição de uma pauta capaz de  
articular demandas locais e um horizonte nacional, a necessidade de produzir conteúdos que  
dialogassem efetivamente com a militância e com as comunidades agrárias, e a preocupação  
em atender de forma efetiva aos trabalhadores rurais sem-terra transformando o jornal em um  
militante ativo na causa da reforma agrária.  
Ainda no terceiro capitulo, o autor reserva espaço para discutir o momento de tensão  
no cenário da redemocratização no Brasil e o papel do Jornal Sem Terra na consolidação do  
sujeito político sem-terra e suas causas em um porvir em que democracia se mesclava à luta  
pela reforma agrária, demarcando a atuação e defesa do MST no período pós-ditadura.  
Emsuasconsideraçõesfinais,Perliponderaquefoinocontextodaredemocratizaçãoque  
movimentos sociais rurais e urbanos intensificaram a necessidade de meios comunicacionais  
capazes de superar a grande imprensa, tradicionalmente vinculada aos interesses das elites e,  
notadamente durante o regime militar (1964-1985), aos interesses governistas. O autor destaca,  
ainda, a presença constante de um discurso em defesa dos direitos humanos nas publicações  
do boletim e, posteriormente, do jornal, evidenciando denúncias de violências sofridas por  
trabalhadores rurais sem-terra e por outros sujeitos e populações perseguidos, torturados e  
mortos durante a ditadura.  
Perli demonstra como a experiência iniciada com o Boletim Sem Terra serviu de apoio  
e divulgação a uma rede de jornalistas, instituições civis, religiosas, políticas, intelectuais,  
militantes e aos próprios trabalhadores rurais sem-terra, contribuindo para a constituição de  
um espaço democrático em torno da reforma agrária, mas não somente, mesmo sob o ambiente  
repressivo imposto pelo regime. O autor também discute o legado do jornal, indicando como  
ele contribuiu para a construção de uma identidade política dos trabalhadores rurais e como,  
por meio da comunicação, o MST conseguiu levar suas demandas à esfera pública. Ao final,  
Perli observa que o Jornal Sem Terra permanece como exemplo de como a comunicação  
popular pode operar como ferramenta decisiva na luta por justiça social.  
Encerrado o percurso analítico, a obra permite considerações amplas sobre seu  
alcance e sua contribuição historiográfica. Em sua totalidade, o livro demonstra como a  
comunicação popular, no interior dos movimentos sociais, é capaz de contestar narrativas  
dominantes e dar visibilidade a questões que, de outra forma, seriam ignoradas ou distorcidas  
pela mídia hegemônica. Mais do que analisar um impresso, Perli apresenta ao leitor um projeto  
comunicacional que carrega, em seu cerne, um projeto político.  
Como destaca o autor, o jornal assume um papel de “militante”: um projeto que  
supera o ato de informar e se fortalece a partir de um acampamento no Rio Grande do Sul  
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até representar um movimento de escala nacional como o MST. A obra detalha como essa  
trajetória se consolidou mesmo sob as adversidades impostas à sua produção e distribuição,  
sobrevivendo inclusive à ilegalidade por representar uma dissonância ao discurso ditatorial.  
Ao narrar essa trajetória, o livro revela como a comunicação popular é capaz de transformar  
a luta de um movimento em uma causa organizada e visível, sensibilizando a sociedade para  
suas demandas. Ao estudar o Jornal Sem Terra, Perli amplia o debate sobre o papel da mídia  
contra-hegemônica, apontando a urgência de alternativas comunicacionais que combatam a  
marginalização das vozes populares. A obra ressalta, assim, a existência de uma mídia que,  
além de informar, educa, mobiliza e engaja o público na conquista de direitos.  
Considerando o aporte teórico, o percurso metodológico, a pesquisa documental  
realizada e a mobilização de ampla bibliografia, Perli investiga não só a história do e pelo  
Jornal Sem Terra, pois também dedica-se aos seus colaboradores, as redes que desenvolveu,  
a conjuntura de suas representações e sua atuação política. Desse modo, a obra representa  
uma contribuição incontornável para aqueles que se debruçam sobre a história da imprensa  
escrita, sobretudo sobre acerca da importância de impressos, por vezes, marginalizados  
pela historiografia. Além de sua relevante contribuição para estudiosos interessados na  
história de movimentos sociais rurais. Trata-se, em última análise, de leitura imprescindível  
para compreendermos o processo de redemocratização do Brasil. Portanto, constitui leitura  
fundamental na conjuntura em que parecemos esquecer da necessidade de defesa da nossa  
frágil democracia.  
Referências  
AQUINO, Maria Aparecida. Censura, imprensa, Estado autoritário (1968-78): o exercício  
cotidiano da dominação e da resistência: O Estado de S. Paulo e Movimento. (Mestrado em  
História) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 1990.  
BARBOSA, Marialva Carlos. História Cultural da Imprensa: Brasil, 1900-2000. Rio de Janeiro:  
Mauad X, 2007.  
CAPELATO, Maria Helena Rolim; PRADO, Maria Lígia. O Bravo matutino: imprensa e ideologia:  
o jornal O Estado de São Paulo. São Paulo: Alfa-Ômega, 1980.  
KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários: nos tempos da Imprensa alternativa. 3.  
ed. São Paulo: EDUSP, 2018.  
SOTANA,EdvaldoCorrea.Apazsobsuspeita:representaçõesjornalísticassobreamanutenção  
da paz mundial, 1945-1953. (Doutorado em História) - Universidade Estadual Paulista, Assis,  
2010.  
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PARECERISTAS  
PARECERISTAS DESTA EDIÇÃO  
REVIEWERS OF THIS ISSUE  
Albuquerque: revista de Estudos Culturais. Aquidauana, v. 17, n. 34, jul.- dez. 2025.  
https://doi.org/10.46401/arec.2025.v17.25494  
Colaboraram com este periódico nos pareceres dos manuscritos submetidos pelo sistema de  
avaliação dupla às cegas por pares (Double-Blind Peer Review):  
List of reviewers for this issue who provided evaluations for manuscripts submitted through  
the Double-Blind Peer Review system:  
Antonio Ricardo Calori de Lion - Universidade Estadual de Goiás (UEG), Brasil  
Daniel Precioso (ad hoc) - Universidade Estadual de Goiás (UEG), Brasil  
Danilo Wenseslau Ferrari Wenseslau Ferrari (ad hoc) - Secretaria Municipal de Educação de São  
José do Rio Preto (SME), Brasil  
Dorothee Chouitem (ad hoc) - Universidade Sorbonne, França  
Isa Lucia de Morais (ad hoc) - Universidade Estadual de Goiás (UEG), Brasil  
Joanna Wilk (ad hoc) - Universidade de Silesia, Polônia  
João Paulo Rodrigues (ad hoc) - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
João Pedro Rosa Ferreira (ad hoc) - Universidade Nova de Lisboa (NOVA), Portugal  
Lucas Matheus Araujo Bicalho (ad hoc) - Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMON-  
TES), Brasil  
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PARECERISTAS  
Marcos Vinicius Ribeiro (ad hoc) - Universidade Estadual de Goiás (UEG), Brasil  
Miguel Rodrigues de Sousa Neto (ad hoc) - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS),  
Brasil  
Miriam Silvestre Silvestre (ad hoc) - Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), Brasil  
Nuno Rodrigo Madeira (ad hoc) - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Centro Nacio-  
nal de Pesquisa de Hortaliças (Embrapa), Brasil  
Rafael Zanatto (ad hoc) - Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Brasil  
Raimundo Cézar Vaz Neto (ad hoc) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP),  
Brasil  
Robson Pereira da Silva - Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Brasil  
Roger Luiz Pereira da Silva - Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Brasil  
Thaís Leão Vieira - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Brasil  
Thomas Faye (ad hoc) - Universidade Sorbonne, França  
Walter Lippold (ad hoc) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil  
Zélia Lopes da Silva - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Brasil  
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