Chamada aberta para dossiê temático “Literatura, cultura popular e outras artes: diálogos, performances e múltiplas vertentes”

08/04/2026
LITERATURA, CULTURA POPULAR E OUTRAS ARTES:
DIÁLOGOS, PERFORMANCES E MÚLTIPLAS VERTENTES

Ricardo Magalhães Bulhões (UFMS/Três Lagoas)
Francisco Claudio Alves Marques (UNESP/Assis)
Wagner Corsino Enedino (UFMS/Três Lagoas)

O próximo número da Revista Guavira - Revista Eletrônica do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campus de Três Lagoas, tem o propósito de reunir estudos a respeito da Literatura Brasileira em geral e da cultura popular, de maneira mais específica, tendo como ponto de partida a análise da obra de cordelistas, músicos, xilógrafos, dramaturgos, artistas contemporâneos que, de certa maneira, dialogam com um espaço cultural amplo, estético e sociopolítico, ligado a uma tradição agropastoril que se renova tanto nas formas, quanto nos temas e reveste-se de implicações semânticas fundamentais a serem aqui apreciadas; espaço este sedimentado há muito tempo por artistas e intelectuais que atuaram e ainda atuam em diferentes vertentes da cultura popular brasileira, dentre os quais o poeta de cordel Leandro Gomes de Barros (1865-1918); o cantador Patativa do Assaré (1909-2002); o dramaturgo Ariano Suassuna (1927-2014), um dos “criadores”/idealizadores do Movimento Armorial; o músico e ceramista popular Vitalino Pereira dos Santos (1909-1963); o sanfoneiro Luiz Gonzaga (1912-1989), “o rei do baião”, e tantas outras figuras basilares que despertaram no Brasil e no mundo o interesse dos ouvintes, dos leitores, da crítica e do mercado da arte.

Vale destacar que autores diversos do chamado Movimento Modernista, como José Lins do Rego, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto e outros, produziram obras que revelam um grau de “parentesco” com a cultura popular nordestina. Nesse cenário, numa perspectiva epistemológica, a Literatura Comparada surge como espaço reflexivo privilegiado para a tomada de consciência da natureza múltipla (histórica, teórica e cultural) do fenômeno artístico-literário à medida que se posta como multidisciplinar, interdiscursiva e intersemiótica, situando-se na área particularmente sensível da “fronteira” entre nações, línguas, discursos, práticas artísticas, problemas e conformações culturais.

Embora com raízes no entendimento tradicional do comparatismo, as relações entre Literatura e outras Artes têm sido abordadas de modo interdisciplinar ou intersemiótico, buscando menos as diferenças e mais as correspondências que lhes seriam inerentes. Assim, o presente número visa discutir aspectos que circunscrevem as produções contemporâneas de cordéis, xilogravuras, cinema, dramas (teatro), músicas e textos narrativos. A perspectiva adotada mantém, como fio condutor, a abordagem da materialidade textual, procurando compreendê-la a partir de sua configuração interna e dos parâmetros construtivos adotados, sem desprestigiar as condições de produção das obras analisadas.

Vale a pena relembrar algumas reflexões de Paul Zumthor, segundo o qual “[...] nossos textos só nos oferecem uma forma vazia e, sem dúvida, profundamente alterada, do que, em outro contexto sensório-motor, foi a palavra viva” (Zumthor, 1993, p. 221). Cumpre ressaltar, pois, que “[...] esforçamo-nos para sugerir um acontecimento: o acontecimento-texto; representar o texto-em-ato, integrar essa representação no prazer que se sente na leitura” (Zumthor, 2000, p. 221).

A estrutura da literatura de cordel, por exemplo, quase sempre pressupõe o entrelaçamento de diversos códigos, já que visa à interatividade, à relação estreita entre cordelista e interlocutores: aquele performatiza seus textos ao encontro da expectativa deste. Zumthor observa, ainda, como relevante aspecto na elaboração do ato performático o lugar, a “realidade topográfica”, elemento essencial para incrementar essa possível reciprocidade: “O lugar da performance é o espaço aberto ao desenrolar da obra: um espaço, enquanto realidade topográfica, é sempre uma construção sociocultural” (Zumthor, 2000, p. 254).

O ato perfomático incorre também em ações multifacetadas, desvinculadas de regras específicas dos manuais de tradição teatral, todavia, “A performance associa [...] ideias, artes visuais, teatro, dança, música, vídeo, poesia e cinema” (Pavis, 2008, p. 284).

Diante de um propósito que envolve o linguístico e o literário, o histórico-cultural e até mesmo o antropológico e o sociológico, este número inscreve-se no quadro de estudos interdisciplinares que visam uma compreensão mais abrangente sobre questões literárias e culturais. Nesse segmento, leitores/as e espectadores/as acolhem uma obra (seja cordel, xilogravura, filme, drama, música ou narrativa) de acordo com sua subjetividade; é, pois, pela aproximação entre personagem e leitores/as e espectadores/as que se constrói a plurissiginicação, sempre a partir de elaborações artísticas de forte caráter poético que nos revelam uma ecuta mais aguçada da voz.

Destaca-se, aqui, a ideia de que a Literatura Comparada é um processo e não um produto e, por extensão, cabe-nos ter em mente também que trabalhar com adaptações significa, antes de tudo, “[...] pensá-las como obras inerentemente ‘palimpsestuosas’ [...] assombradas a todo instante pelos textos adaptados.” (Hutcheon, 2011, p.27).

Notadamente, compreendemos, na esteira dos estudos comparados, que a comparação não é um fim, mas um meio. Sem desvincular a obra da história social e política sobre a qual se pronuncia, sem esquecer o diálogo que mantém com seu contexto de produção e, pois, com sua autoria, procura-se analisá-la e interpretá-la segundo o projeto estético de cada produtor/a.

À luz dessas considerações, este número da Revista Guavira convida pesquisadoras e pesquisadores a submeterem trabalhos que contribuam para o aprofundamento das discussões em torno das múltiplas interfaces entre literatura, cultura popular e outras linguagens artísticas. Serão bem-vindos estudos que privilegiem abordagens comparatistas, interdisciplinares e intersemióticas, contemplando diferentes objetos, períodos, tradições e perspectivas teórico-metodológicas. Espera-se reunir contribuições capazes de ampliar o debate acerca das relações entre literatura, performance, oralidade, música, teatro, cinema, artes visuais e demais manifestações culturais, reafirmando a vocação da revista como espaço de circulação de pesquisas que promovam o diálogo entre distintas formas de expressão artística, seus contextos de produção e seus modos de recepção.

REFERÊNCIAS

HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Trad. André Cechinel. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2011.

PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. 3. ed. Tradução para a língua portuguesa sob a direção de J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. São Paulo: Perspectiva, 2008.

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a “literatura” medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura. Trad. Gerusa Pires Ferreira e Sueli Fenerich. São Paulo: Educ, 2000.