POVO IMPOPULAR

Palavras-chave: Povo. Popular. Apartheid social. Opinião publicada. Apoio popular.

Resumo

Se excluir a maioria das pessoas dos frutos sociais do trabalho tem apoio popular, como asseguram as mídias do capital, lutar pela inclusão é ser povo contra o povo, povo impopular: povo que não se quer, ideia ambígua. O povo não se gosta, ou há grupos que desprezam tal povo? Que povo? Quem não quer? A segregação multissecular de milhões de mulheres e homens – o apartheid social brasileiro – forja desculpas para a ordem social injusta, com o apoio popular que a opinião publicada falsifica. Esse o meu tema: como moldar a opinião para a maioria concordar em ser excluída? O argumento tem três partes. Primeiro, aponto o uso dúbio de povo e popular, ao chamar de popular o antipopular. Há confusão quanto ao referente de povo. Depois, foco na materialidade do conceito: a elite econômica ignora necessidades populares, mas com a opinião publicada controla as eleições, fazendo da democracia uma oligarquia disfarçada. Por último, proponho critérios ligando povo e popular ao social. Permanece a subjetividade, mas se escapa à dubiedade mal-intencionada. Povo e popular devem incluir a gente excluída, não quem a rejeita. Concluo notando contradições aparentes do texto: o povo não é grupo fixo ou a totalidade, mas ninguém deve ser marginalizado.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Jordan Michel-Muniz, Universidade Federal de Santa Catarina

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2007), defendendo Trabalho de Conclusão de Curso intitulado As Minorias na Representação Parlamentar. Também na UFSC concluiu seu mestrado, com a dissertação Representação Política em Althusius e Hobbes. Doutorou-se (2018) com a tese Democracia apresentativa e o apartheid social brasileiro: crítica da igualdade política, onde aponta a extrema desigualdade sociopolítica do Brasil, que resulta na segregação social das pessoas pobres. Daí o neologismo Democracia Apresentativa, um modelo de alternativas políticas para que o povo possa exigir os direitos constitucionais que lhe são formalmente atribuídos, sem a devida efetivação.

Referências

BACHA, Edmar L. O rei da Belíndia: uma fábula para tecnocratas. Disponível em <https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/3368144/mod_folder/content/0/O%20Rei%20da%20Bel%C3%ADndia.pdf?forcedownload=1>. (Originalmente publicado no jornal Opinião). Acesso em 06/11/18, p. 57-61. [1974]

BOBBIO, Norberto et alii. Dicionário de política. Tradução de Carmen C. Varriale et alii. Brasília: Editora UNB, 1998 [1983].

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Tradução de Daniela Kern e Guilherme J. F. Teixeira. 2ª ed. rev. Porto Alegre: Zouk, 2015 [1979].

CARTER, Miguel. Desigualdade social, democracia e reforma agrária no Brasil. In: CARTER, M. (org.) Combatendo a desigualdade social: o MST e a reforma agrária no Brasil. Tradução de Cristina Yamagami. São Paulo: Ed. UNESP, 2010.

CHOMSKY, Noam. Mídia: propaganda política e manipulação. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013 [2002].

COSTA, Marta Nunes da. Criando o povo como ‘um’?: sobre a democracia e o seu outro. In: COSTA, Marta Nunes da (Org.). Razões, paixões, utopias: democracia em questão. São Paulo: LiberArs, 2018. (13-40)

CROUCH, Colin. Post-democracy. Cambridge; Malden [MA]: Polity Press, 2017 [2004].

DUVERGER, Maurice. Los partidos políticos. Traducción de Julieta Campos y Enrique González Pedrero. 22ª. reimp. México [D.F.]: Fondo de Cultura Econômica, 2012 [1951]. (Política y Derecho)

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 46ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007.

GALEANO, Eduardo. De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso. Tradução de Sergio Faraco. 6ª ed. Porto Alegre: L&PM, 2002 [1998].

HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles; FRANCO, Francisco M. de Mello. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. 1ª reimpressão com alterações. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

LACLAU, Ernesto; MOUFFE, Chantal. Hegemony and socialist strategy: towards a radical democratic politics. 2nd ed. London, New York: Verso, 2001 [1985].

LEFORT, Claude. Le travail de l’oeuvre Machiavel. Paris: Gallimard, 1986 [1972].

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifeste du parti communiste. Paris: Le Libre de Poche, 1973 [1848].

MICHEL-MUNIZ, Jordan. Ética da cidade: junho de 2013 em perspective global. In: RODRÍGUEZ, F. (Org.) O junho brasileiro e seus desdobramentos. Florianópolis: Insular, 2016.

MICHEL-MUNIZ, Jordan. Democracia apresentativa e o apartheid social brasileiro: crítica da igualdade política. Florianópolis: Tese de doutorado, UFSC, 2018.

MILLS, Charles Wright. A elite do poder. Tradução de Waltensir Dutra. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981 [1956].

MISES, Ludwig von. A mentalidade anticapitalista. Tradução de Adelice Godoy. 2ª ed. Campinas: Vide Editorial, 2015 [1956].

MOUFFE, Chantal. The return of the political. London, New York: Verso, 2005a [1993]. (Radical Thinkers)

MOUFFE, Chantal. On the political. London, New York: Routledge, 2005b. (Thinking in Action)

MOUFFE, Chantal. The democratic paradox. London, New York: Verso, 2009 [2000]. (Radical Thinkers)

OLIVEIRA, Daniel. Que a morte de Marielle vos atormente tanto como a sua vida. Expresso Diário, 19/março/2018. Acesso em 15/11/18. Disponível em: <https://estatuadesal.com/2018/03/19/que-a-morte-de-marielle-vos-atormente-tanto-como-a-sua-vida/>.

PINZANI, Alessandro. ‘Vai trabalhar, vagabundo’: retórica antipobre e aspectos normativos de uma teoria da pobreza. In: SILVA, Hélio Alexandre da (Org.). Sob os olhos da crítica: reflexões sobre democracia, capitalismo e movimentos sociais. Macapá: UNIFAP, 2017, p. 348-388.

RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. Tradução de Ângela Leite Lopes. São Paulo: Editora 34, 1996 [1995]. (Coleção TRANS)

RANCIÈRE, Jacques. Nas margens do político. Tradução de Vanessa Brito e João Pedro Cachopo. Lisboa: KKYM, 2014 [1998].

REGO, Walquiria L.; PINZANI, Alessandro. Vozes do Bolsa Família: autonomia, direito e cidadania. São Paulo: Editora UNESP, 2013.

SCHMITT, Carl. O conceito do político. Tradução de Alvaro Valls. Petrópolis: Vozes, 1992 [1932].

SCHMITT, Carl. A crise da democracia parlamentar. Tradução de Inês Lobbauer. São Paulo: Scritta, 1996 [1923]. (Coleção Clássica)

SOUZA, Jessé et alii. A ralé brasileira: quem é e como vive. 2ª. ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2016 [2009].

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

VILLAÇA, Flávio. O território e a dominação social. Margem esquerda: ensaios marxistas, n. 24, jun/2015. São Paulo: Boitempo, 2015, p. 31-36.

WOOD, Ellen Meiksins. Democracy against capitalism: renewing historical materialism. London, New York: Verso, 2016 [1995].

Publicado
2019-01-30
Como Citar
Michel-Muniz, J. (2019). POVO IMPOPULAR. Eleuthería - Revista Do Curso De Filosofia Da UFMS, 3(5), 21 - 46. Recuperado de https://periodicos.ufms.br/index.php/reveleu/article/view/7600
Seção
Artigos