Educação Matemática na formação de professores: a história de uma disciplina de história

  • Elisabete Zardo Búrigo

Resumo

Tendo a mesa-redonda como tema a presença da História da Educação
Matemática nos cursos de Licenciatura, tomo como referência a experiência em curso na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Instituída como componente curricular obrigatório do curso de Licenciatura em Matemática da UFRGS, por reforma curricular aprovada em 2016, a disciplina de História da Educação Matemática foi oferecida pela primeira vez, em caráter experimental, em 2017 (Mendes, Oliveira, Búrigo & Costa, 2018); e a partir do semestre corrente, deverá ser oferecida, regular e alternadamente, para estudantes dos cursos diurno e noturno. Em publicação anterior, analisamos o percurso de reconfigurações curriculares no qual se inscreve a institucionalização da História da Educação Matemática como disciplina (Búrigo, Dalcin & Fischer, 2017). Identificamos a recente reformulação curricular na UFRGS como continuidade de um processo, iniciado nos anos 1990, de construção de um projeto pedagógico de Licenciatura com identidade própria, orientada para a docência na Educação Básica, em um cenário nacional de democratização das universidades públicas e de alargamento
das condições de exercício da autonomia didática a elas atribuída, com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394/96), que extinguiu os currículos mínimos e atribuiu às universidades a fixação dos currículos (Junqueira & Manrique, 2015). No âmbito da UFRGS, as diretrizes nacionais, a regulamentação da universidade e a interveniência dos educadores matemáticos se conjugaram, possibilitando a construção de implementação de um projeto pedagógico que valoriza a Educação Matemática. O período atual é marcado por inflexões no campo das políticas educacionais, dentre as quais destaco a aprovação da Emenda Constitucional nº 95/2016, que congela os gastos públicos com educação, e a homologação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em 2017 e 2018, que pressiona no sentido da padronização da educação escolar. Podemos pensar que, nesse quadro, crescerão as pressões para a redução das disciplinas específicas do curso de Licenciatura e até mesmo para a extinção do curso, de custo elevado se comparado a outros modelos de formação de professores já em voga. De outro lado, temos as ressonâncias da BNCC sobre as licenciaturas, que serão convocadas a preparar os professores para bem cumpri-la, restringindo-se os espaços para as disciplinas que
propõem a interrogação aos currículos escolares. O contexto de institucionalização da História da Educação Matemática é, portanto, marcado pela instabilidade. Contudo, a experiência em curso, desde já,
deixa suas marcas: desenvolvendo entre os licenciandos a sensibilidade para a preservação, constituição e interrogação das fontes, provocando indagações sobre a matemática escolar e o lugar que ocupou e ocupa na escolarização, sobre como o presente foi gestado no passado e sobre como o futuro está sendo construído no presente. Para os formadores de professores, fica o testemunho da contribuição do olhar historiográfico para a formação, e um acervo de referências e experimentações.



Seção
Mesas redondas - convidadas