A RAZÃO PÓS-SUBALTERNA da crítica latina

Edgar Cézar Nolasco

Resumo


A razão política de uma crítica subalterna como a da América Latina resume-se, grosso modo, na descolonização intelectual, na descolonização dos saberes, da pesquisa, das teorias, das produções culturais e da própria crítica. Agora, pensando em termos de Brasil, já passou da hora de a crítica subalterna brasileira entender que as teorias críticas vindas de fora, como as dos Estados Unidos e as da Europa, se, por um lado, ajudam-nos a compreender nossos problemas internos, por outro, elas não são uma “revelação” nem muito menos uma tábua de salvação (de apoio incondicional) para o crítico periférico brasileiro. Aqui, considerando a vasta extensão territorial de meu país, com todas as suas diferenças e diversalidades, e sem desconsiderar as injustiças sociais e descasos por parte do estado-nação, mais a condição exigida pela própria perspectiva subalterna na qual ancoro minha discussão, volto-me para o lócus geoistórico no qual me encontro como pesquisador: a fronteira-Sul do estado de Mato Grosso do Sul, com os países lindeiros Bolívia e Paraguai. Pontuado o lugar de onde erijo minha reflexão, destaco os conceitos que considero basilares para uma discussão acerca do que se entende por crítica de fronteira, periférica, subalterna ou latina. Trata-se dos conceitos de “razão subalterna” e de “opção descolonial”, ambos de Walter Mignolo. O primeiro nos permite articular uma prática crítica que desbarate a razão imperial moderna e, por conseguinte, ateste a importância de a crítica latina estar assentada na “razão pós-colonial” (MIGNOLO) como forma de compreender melhor o lócus geoistórico América Latina de-dentro dele mesmo. Não por acaso, em sua vasta e acurada discussão, Mignolo afirma que “o pós-ocidentalismo dá uma melhor ideia do discurso crítico da América Latina sobre o colonialismo”[1]. Essa prática crítica subalterna nos permite propor formas subalternas de pensar o lócus imbricado na discussão e, por conseguinte, ir desfazendo e ultrapassando a subalternidade interna inerente. Daí, em parte, a explicação para a rubrica “razão pós-subalterna” que se encontra no título deste ensaio.


[1] MIGNOLO. Histórias locais\ Projetos globais, p. 138.


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Referências


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