O OLHAR DE UM GUARANI PARA O PIBID-MATEMÁTICA E PARA A ESCOLA NÃO INDÍGENA

  • Misael Rodrigues Valiente Universidade Federal da Grande Dourados
  • Renata Viviane Raffa Rodrigues Universidade Federal da Grande Dourados
Palavras-chave: escola não indígena, guarani, pibid, matemática

Resumo

Neste relato pretendemos explicitar o modo do primeiro autor de ver e interpretar a iniciação à docência na faculdade e na escola não indígena. Procuramos, narrativamente, relatar as impressões de quem se depara com contextos sociais dos quais nunca participou, um guarani, cuja referência cultural da educação básica foi constituída em uma aldeia Guapo`y no município de Amambai-MS.

Na educação escolar não indígena há uma valorização da cultura e da língua materna. Assim, ela funciona como uma extensão da educação familiar para o desenvolvimento de capacidades como saber contar, medir, ler e interpretar situações da vida cotidiana com o apoio do mboehara (professor). Nesse contexto, não é comum situações de desrespeito com o temimbo`(aluno) ou contra o professor. Apesar de ser um ambiente onde há muita troca de conhecimentos formais e informais, sempre chegam as histórias de que as escolas não indígenas têm muito mais recursos e podem oferecer melhores condições de se conseguir um trabalho. Como tudo tem a sua hora, chegou a hora de sair a procura de um sonho, de fazer um curso superior, Licenciatura em Matemática, em uma cidade maior, em uma faculdade pública, para se formar professor e poder trabalhar na escola indígena.

As primeiras dificuldades foram ligadas ao medo de não falar corretamente a língua portuguesa e ser discriminado por falar e por ser um guarani. Mas, ao conseguir atuar como bolsista no Subprojeto de Matemática do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), convivendo com um grupo em que se pode ser quem é, em que há respeito e colaboração de uns com os outros, em que os objetivos e dificuldades, muitas vezes são comuns, foi possível se sentir mais forte para enfrentar possíveis preconceitos.

As escolas parceiras do PIBID são urbanas, então, iniciava-se um novo desafio, conhecer a escola da cidade. Conhecer a escola não indígena foi um misto de encanto e de espanto. Encanto com a estrutura, laboratórios e com os professores especializados. Espanto com o modo de agir dos alunos, com o modo de se (des)tratarem, mesmo na presença do professor. Como lidar com esses alunos? Quando estão brincando e quando estão falando sério? As relações sociais entre os alunos e entre os alunos e os professores são completamente diferentes das desenvolvidas na escola indígena. Portanto, discursar publicamente ainda é uma dificuldade a ser enfrentada nesse contexto.

Ainda assim, apesar de tímido, o olhar de um guarani para a escola da cidade, é curioso e atento a um novo caminho em que se espera encontrar oportunidades, conhecimentos e várias experiências. Vendo nesse lugar uma forma de melhorar a leitura, a comunicação e a capacidade de ensinar matemática.

 

Publicado
2019-09-15