ANONIMATO DA ESCRITA: sobrevivência de fórmulas multitemporais

  • Marília Rothier Cardoso PUC-RJ

Resumo

As datas e assinaturas, que identificam quadros e sonetos, teoremas e coreografias, conceitos e sonatas, não passam de etiquetas necessárias à economia e à legitimação das ciências, das artes e da filosofia, que circulam nos respectivos veículos. A rigor, os saberes, a utilidade e a beleza são invenções coletivas e, como tal, acumulam e transformam a contribuição de tempos e geografias diversos. A tarefa filosófica não prescinde de intercessores; a ciência resulta de trabalho em equipe e a arte é tanto mais viva quanto melhor rearticula forças do passado conservadas em soluções estéticas felizes. O estatuto impessoal e necessariamente intempestivo das escritas – sejam elas teóricas, informativas ou estéticas, empreguem linguagem plástica, sonora, verbal ou performática – tem atiçado a curiosidade de pensadores e artistas. Os primeiros avaliam a trama heterogênea dos itens fundamentais do legado recebido, enquanto experimentam por em destaque a própria rede das noções que importam e transformam; os últimos exploram os jogos interdiscursivos de sua enunciação, querem-se ficções teóricas tematizando a cópia inovadora. Veja-se o valor emblemático do borgiano “Pierre Menard, autor do Quixote. Assim, a proliferação desses exercícios metacríticos intercambia expedientes da arte e do pensamento. Reconhece a presença inescapável dos corpos na aventura intelectual e capta a intervenção de fantasmas na atividade de pesquisa.

Biografia do Autor

Marília Rothier Cardoso, PUC-RJ
Possui graduação em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (1967), mestrado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1976) e doutorado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1990). Atualmente é professor associado da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor assistente aposentado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira, atuando principalmente nos seguintes temas: critica literaria, composicao textual, arquivo, crítica biográfica e escritor e intelectual. É pesquisador 1 D do CNPq.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. Ninfas. Trad. Renato Ambrósio. São Paulo: Hedra, 2012.

CAMPOS, Haroldo de. Galáxias. São Paulo: ex Libris, 1984.

MICHAUD, Philippe-Allain. Aby Warburg e a imagem em movimento. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.

PAULINO, Ana Maria (org.). O poeta insólito: fotomontagens de Jorge de Lima. São Paulo: IEB-USP, 1987.

ROSA, João Guimarães. A boiada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011.

SANTIAGO, Silviano. Anônimos. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

Publicado
2017-05-05