AMIZADE: o vale quanto pesa da literatura
Resumo
Em “Ora (direis) puxar conversa!”[1], Silviano Santiago faz uma poderosa exposição do tema do diálogo e da amizade em Mário de Andrade, recortando-o contra o contexto da vida literária do poeta, marcada pelo investimento na correspondência. Ainda nesse contexto, lembra o papel do salão na composição do momento modernista no Brasil. O próprio Silviano, entretanto, forma-se como escritor em outros tempos, nos quais já não vigora o salão e a correspondência tem um caráter diferente, emprestado pelo uso quase universal da datilografia, menos ao pé do ouvido e, talvez, menos conversador. Na antologia de cartas de escritores brasileiros A república das letras. De Gonçalves Dias a Ana Cristina César, Santiago nos dá um panorama de dois séculos em que a conversa parece se encadear de uma geração à outra, passando de ocasiões de maior formalidade para um tom cada vez mais familiar nas primeiras décadas do século XX, chegando à falta de cerimônia do alto modernismo, voltando a certa sobriedade e economia e por fim, desembocando, no fim do século, em um registro intimista em que não se pretende mais distinguir vida de literatura. A conclusão que nos ocorre é que a correspondência sustentou, durante os dois séculos representados na antologia, uma conversa essencial para o desenrolar da literatura brasileira, com variações devidas aos contextos específicos desse e daquele período.
[1] Refiro-me ao capítulo que faz parte da coletânea de mesmo título.
Referências
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