AMIZADE: o vale quanto pesa da literatura

Myriam Correa de Araujo Avila

Resumo


Em “Ora (direis) puxar conversa!”[1], Silviano Santiago faz uma poderosa exposição do tema do diálogo e da amizade em Mário de Andrade, recortando-o contra o contexto da vida literária do poeta, marcada pelo investimento na correspondência. Ainda nesse contexto, lembra o papel do salão na composição do momento modernista no Brasil. O próprio Silviano, entretanto, forma-se como escritor em outros tempos, nos quais já não vigora o salão e a correspondência tem um caráter diferente, emprestado pelo uso quase universal da datilografia, menos ao pé do ouvido e, talvez, menos conversador. Na antologia de cartas de escritores brasileiros A república das letras. De Gonçalves Dias a Ana Cristina César, Santiago nos dá um panorama de dois séculos em que a conversa parece se encadear de uma geração à outra, passando de ocasiões de maior formalidade para um tom cada vez mais familiar nas primeiras décadas do século XX, chegando à falta de cerimônia do alto modernismo, voltando a certa sobriedade e economia e por fim, desembocando, no fim do século, em um registro intimista em que não se pretende mais distinguir vida de literatura. A conclusão que nos ocorre é que a correspondência sustentou, durante os dois séculos representados na antologia, uma conversa essencial para o desenrolar da literatura brasileira, com variações devidas aos contextos específicos desse e daquele período.


[1] Refiro-me ao capítulo que faz parte da coletânea de mesmo título.


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Referências


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BAKHTIN, Mikhail. Epos e romance (Sobre a metodologia do estudo do romance). In: Questões de literatura e de estética. A teoria do romance. Trad. Aurora F. Bernardini et al. São Paulo: HUCITEC, 2010a, p. 397- 428.

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HOISEL, Evelina. O entre-lugar da afetividade e do saber. In Signótica, v. 17, n. 1, p. 45-56, jan./jun. 2005

SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

_____. (org.) A república das letras. De Gonçalves Dias a Ana Cristina César. Cartas de escritores brasileiros 1865 - 1995. Rio de Janeiro: XI Bienal Internacional do Livro, 2003.

_____. Ora (direis) puxar conversa!. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

_____. A vida como literatura. O amanuense Belmiro. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006.

SUSSEKIND, Flora. Literatura e vida literária. Polêmicas, diários e retratos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.


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