PARA ONDE DEVEM VOAR OS PÁSSAROS depois do último céu?
Abstract
Há anos que este verso sobre o destino dos pássaros me persegue. Tomei conhecimento dele, pela primeira vez, numa disciplina do mestrado em 1995, quando uma colega da turma traduziu, a pedido do professor, o texto que se intitulava “DissemiNação”, de autoria de Homi K. Bhabha, e que mais tarde apareceria como o capítulo VIII de O local da cultura (1998).[1] Tal imagem em movimento, ou paisagem em dissolução, atravessou comigo todo aquele tempo de conhecimento e de solidão da Pós-Graduação realizada longe de minha casa. Intermináveis tardes me peguei olhando em direção ao Centro-Oeste brasileiro, do terceiro andar da FALE\UFMG, onde funcionava o POSLIT, e repetia para mim mesmo que os pássaros do poeta palestino voavam e caiam exaustos do outro lado da fronteira-Sul, de onde um dia eu partira para estudar nos grandes centros do país. Aqui fronteira-Sul compreende o estado de Mato Grosso do Sul (Brasil) e seus países lindeiros Bolívia e Paraguai. Assim se passaram muitos anos, até que, como o bom filho pródigo a casa torna, com um concurso público no meio do caminho, retornei para meu lugar fronteiriço de origem, onde me encontro agora trabalhando, pensando e escrevendo este texto que está vinculado à minha carreira acadêmica como professor de Literatura Comparada e Teoria da Literatura na UFMS\Campo Grande. Como a um estranho-familiar, o verso em movimento do poeta não deixou de povoar a minha mente, declinada para a fronteira-sul, até que em 2010 publiquei um livrinho[2]cujo terceiro capítulo levava por título precisamente o referido verso. Já ali, se, por um lado, a pergunta do poeta me falava de um lugar que ficava fora do resto do mundo, por outro lado, ela também me situava no tempo e sobretudo no espaço:
[1] O título completo do capitulo é “Disseminação: o tempo, a narrativa e as margens da nação moderna”. BHABHA. O local da cultura, p. 198-238.
[2] O livro era BabeLocal: lugares da miúdas culturas. Ali, o parágrafo inicial que abria o capítulo era este: “A pergunta que o poeta palestino Mahmud Darwich se faz, e que intitula este capítulo, é para mim tão estranha quanto familiar. Estranha porque não conheço a terra do poeta, não conheço a língua do poeta, não conheço a poesia do poeta etc. Mas não é só por isso que ela me soa estranha. Porque tudo isso eu poderia aprender com os anos, bastaria esforço, interesse e dedicação. É mais sutil ainda o que eu nunca vou entender. E quanto menos eu entendo, mais sou seduzido pelo estranho que se identifica a mim com meu não-entendimento. Falo de uma diferença biográfica que se inscreve na frase, ou quem sabe na letra. Talvez movido por uma história pessoal cultural, o poeta palestino faça a pergunta como forma de escutar melhor o que já vem inscrito em seu próprio corpo. Compelido pelo voo dos pássaros do poeta, ou talvez só pela letra, quis pensar em o lugar que, metaforicamente, pode significar um espaço, nominado como o regional, o local, o próprio, o particular que, por sua vez, demanda, sempre, seu contrário”. (NOLASCO, BabeLocal, p. 85)
References
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