Que não é matemática? Para que não deveria servir?

Palavras-chave: ensino de matemática, matemática, formação de professores, currículo

Resumo

Embora frequentemente explicitem concepções à cerca de escola e educação, diversos trabalhos inseridos na literatura de educação matemática aderem a uma percepção estática e dominante da matemática como campo científico. Trata-se de um incômodo não apenas epistemológico, mas político, uma vez que certos discursos e práticas docentes, pouco comprometidas com a construção de escolas socialmente referenciadas, são justificados e mesmo legitimados por tais percepções hegemonizadas. Nessa direção, é útil nos questionarmos sobre o que (não) é matemática e, à vista disso, para que uma matemática (não) deveria servir. Sob tal orientação, identificamos, no presente ensaio teórico, aspectos disseminados na sociedade que elevam a matemática a um saber extremamente valorizado. Compreender como cada uma dessas imagens é formada e as implicações na formação das subjetividades de docentes e discentes, ajudam-nos a desestabilizá-las.

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Publicado
2025-12-23
Como Citar
SIMÕES DE MATTOS PINTO, R.; GIRALDO, V. A.; KNOPP, I. DA S. Que não é matemática? Para que não deveria servir?. Perspectivas da Educação Matemática, v. 18, n. 51, p. 21, 23 dez. 2025.