“Quem mandou matar?”

argumentação, textualidade seriada e dispositivo vitimário no confronto entre hashtags

  • Deborah Pereira Universidade Estadual de Campinas
  • Fernando Ferreira da Silva Ananias Universidade Estadual de Campinas
Palavras-chave: Argumentação; Textualidade Seriada; Dispositivo Vitimário; Hashtag; Marielle Franco.

Resumo

Este trabalho, de base discursivo-materialista, busca refletir a respeito da pergunta “Quem mandou matar Marielle?” a partir da noção de dispositivo vitimário, de Daniele Giglioli (2016). Assim, é importante dizer que, considerando as disputas (sobretudo no digital) em torno da morte da vereadora Marielle Franco, esta pergunta funciona como um gesto de denúncia que é constantemente deslegitimado. Uma das formas de deslegitimação é a circulação de respostas parafrásticas com outras perguntas, tais como “Quem mandou matar Sérgio Moro?” ou “Quem mandou matar Bolsonaro?”, ou seja, perguntas que produzem um deslocamento em relação à figura política vitimada. Há, portanto, uma repetição da estrutura da pergunta (“Quem mandou matar?”) e uma variação do nome da vítima (de Marielle para Sérgio Moro/Bolsonaro), o que nos permite compreender este enunciado como uma textualidade seriada (Dias, 2019), isto é, textualidade formada por um traço comum e estável e, ao mesmo tempo, pela substituição de um ou mais elementos do conjunto de tal modo que um discurso diferente é produzido através da variação (Dias, 2019). Nesta variação, no interior de um processo discursivo de argumentação (Orlandi, 2023), o elemento que se altera já produz este “discurso diferente” pois promove uma disputa em relação a quem seria a (verdadeira) vítima, produzindo um efeito de sentido de invalidação, tanto do crime contra Marielle Franco quanto do próprio gesto de denúncia textualizado pela pergunta/hashtag. Portanto, nossa proposta é entender como funciona, neste caso específico, o deslocamento da posição de vítima, pensando em seus efeitos nos confrontos político-sociais. 

Biografia do Autor

Deborah Pereira, Universidade Estadual de Campinas

Doutoranda em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL/UNICAMP). Mestra em Divulgação Científica e Cultural pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (LABJOR/UNICAMP).

Fernando Ferreira da Silva Ananias, Universidade Estadual de Campinas

Doutorando em Linguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL/UNICAMP). Mestre em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso.

Referências

DIAS, Cristiane. Textualidades seriadas: entre a repetição, a regularização e o deslocamento, o caso dos memes. Revista de la Sociedad Argentina de Estudios Lingüísticos. 2019.

GIGLIOLI, Daniele. Crítica da Vítima. Belo Horizonte, MG: Editora Âyiné, 2020.

PAVEAU, Marie-Anne. L’analyse du Discours Numérique. Dictionnaire des formes e des pratiques. Paris: Hermann Éditeurs, 2017.

PEREIRA, Deborah Danny da Silva. Funcionamento discursivo das hashtags: um olhar para a #somostodos. (82 p.) Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP, 2018.

ORLANDI, Eni. Argumentação e Análise de Discurso: conceito e análises. São Paulo, SP: Editora Pontes, 2023.

Publicado
2025-06-21