Amazônia em discurso
apagamentos, exclusões, pertencimentos e resistências
Resumo
Neste artigo apresenta-se uma compilação das formações discursivas que produzem sentidos sobre ser amazônida, ser amazonense e morar na Amazônia, e, metonimicamente, ser indígena, embasada em dois trabalhos acadêmicos: “O Norte Apagado: algumas formas de materialização discursiva do silenciamento do indígena e do caboclo da Amazônia Brasileira” (MARTINS DE SOUZA, 2008), e “Memes e identidades amazônicas: Narciso acha feio o que é espelho” (MARTINS DE SOUZA, 2019a). Coteja-se as formações discursivas que se explicitam nesses trabalhos, com inversões e deslocamentos que aparecem no texto “A Amazônia é o Centro do mundo”, de Eliane Brum (2019a), pela perspectiva da Análise de Discurso materialista (PÊCHEUX, 2009) em diálogo com a Psicanálise lacaniana (LACAN, 1998, 1999). Ao se observar a Amazônia representada e tensionada nesses materiais, identifica-se como o sujeito amazônida é interpelado por discursos de exclusão, resistência, subordinação, silenciamento e (re)significação identitária, a partir de duas formações discursivas: uma preservacionista e outra predatória. Elas colocam, num campo de alteridade colonialista, em lados opostos, posições de sujeito que se relacionam com os povos que milenarmente habitam e protegem a Amazônia e com os colonizadores e exploradores, que a veem como uma jazida de recursos minerais e naturais. Ao descrever a posição de sujeito amazônida e as mudanças de sentido propostas no texto de Brum, identifica-se nesse discurso os traços de resistência simbólica, a partir da constituição e restituição de uma alteridade dos povos da floresta para os outros habitantes do planeta.
Referências
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