Formação de Professores Bi/Multilíngues: uma análise dos documentos oficiais brasileiros

  • Bianca Sgai Franco Medeiros PUC-SP
  • Sandra Virginia André Borges Saint Mary's University
Palavras-chave: Educação bi/multilíngue; Formação de professores; Legislação na educação.

Resumo

Nosso contexto atual é marcado por uma troca intensa de informações e de acesso aos mais diversos modos de comunicação entre os cidadãos em todo o mundo. Nesse cenário globalizado, a língua inglesa exerce um papel extremamente importante, já que é o idioma utilizado para a maior parte dessas interações internacionais. No Brasil, o ensino da língua inglesa tornou-se obrigatório na Educação Básica a partir da aprovação da Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018), firmando nas famílias brasileiras a percepção de que o inglês é a língua de maior valor no mundo atual (MEGALE; LIBERALI, 2016). Dessa forma, é perceptível o aumento de oferta de escolas bilíngues e internacionais de prestígio (MEGALE, 2017) para atender a atual demanda de mercado em que as famílias com condições financeiras favoráveis buscam instituições para que seus filhos aprendam a língua inglesa como língua adicional ao mesmo tempo em que têm acesso a uma educação de qualidade (MARCELINO, 2009). Com o crescimento do número dessas escolas em todo o país, cresceu também a procura por profissionais que atuem como professores nessas instituições. A partir dessa constatação, a pesquisa a que se refere este artigo foi realizada com o objetivo de verificar os saberes necessários para a atuação de professores no contexto de escolas bi/multilíngues de línguas de prestígio que, no Brasil, também são denominadas escolas bi/multilíngues de prestígio ou elite, por atenderem, em sua grande maioria, a população mais privilegiada de nosso país. Este artigo tem  como base entrevistas realizadas com profissionais da área para compreensão dos discursos e práticas necessários para a atuação de educadores neste contexto e a análise dos documentos legais: Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de  Professores para a Educação Básica e Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica - BNC-Formação (BRASIL, 2019) e Diretrizes  Curriculares Nacionais para a oferta de Educação Plurilíngue (BRASIL, 2020). Os pressupostos teóricos abordados englobam as perspectivas de educação bilíngue (CAVALCANTI, 1999; GARCÍA, 2009; MEGALE, 2017), visões de língua monoglóssica e heteroglóssica (BUSH, 2005; GARCÍA, 2009), formação de professores (LIBERALI, 2008; GATTI, 2010; FARIA e SABOTA, 2019; MEGALE, 2020), multilinguismo e plurilinguismo (GARCÍA, 2017; CEFR, 2020). Os resultados da análise dos documentos oficiais e da interpretação das entrevistas apontam para o fato de que apenas as graduações em Pedagogia ou Letras parecem ser insuficientes para a formação do professor atuante em escolas bi/multilíngues de línguas de prestígio. Essa realidade faz com que esses profissionais busquem constantemente por conhecimentos específicos que poderão lhes ajudar a lecionar nessa modalidade educacional. Destaca-se, assim, a urgência na elaboração de cursos de graduação que possam auxiliar os docentes em sua atuação nas escolas bi/multilíngues de todo o país.

Biografia do Autor

Sandra Virginia André Borges, Saint Mary's University

Sandra Borges possui 19 anos de experiência na área de English Language Teaching, trabalhando como professora de inglês, coordenadora pedagógica e formadora de professores. Além disso, possui pós-graduação em Educação Bilíngue e em Ensino da Língua Inglesa, bacharelado em Letras, Inglês/Português, e certificados internacionais para o ensino de línguas e metodologias. Atualmente, é mestranda em Ensino Internacional da Língua Inglesa pela Saint Mary’s University, Canadá. É também membro dos grupos de estudos e pesquisas em educação bi/multilíngue (GEEB) e do Projeto Brincadas, ambos parceiros do grupo de pesquisa LACE (Linguagem em Atividades no Contexto Escolar) filiado à Universidade PUC-SP.

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Publicado
2022-06-03