Saberes e Formação Docente em Mato Grosso no Século XIX
Resumo
Este artigo analisa a organização da instrução pública primária e os processos de formação docente na província de Mato Grosso ao longo do século XIX, no contexto do projeto imperial de construção do Estado-nação. O objetivo é compreender como os saberes escolares e os critérios de seleção dos professores foram definidos e regulados, com ênfase na valorização da moralidade, da religiosidade e da disciplina em detrimento de uma formação pedagógica sistematizada. Trata-se de uma pesquisa de natureza histórica e documental, fundamentada nos aportes da história cultural. O corpus documental é constituído por legislações imperiais e provinciais — como a Constituição de 1824, a Lei de 15 de outubro de 1827, a Lei Provincial nº 8 de 1837 e o Regulamento Orgânico da Instrução Pública de 1873 —, além de relatórios administrativos e documentos normativos relativos à instrução pública. A análise foi conduzida a partir dos conceitos de cultura escolar e de saberes a ensinar e saberes para ensinar, buscando identificar as relações entre prescrições legais e práticas educativas. Os resultados indicam que a profissionalização docente ocorreu de forma lenta e desigual, marcada pela predominância de professores leigos e pela centralidade da idoneidade moral como requisito para o exercício do magistério. Evidencia-se, ainda, que o ensino da matemática, especialmente da aritmética, desempenhou papel relevante na disciplinarização escolar e na formação de hábitos considerados adequados à ordem social imperial. Conclui-se que a constituição dos saberes docentes e da cultura escolar em Mato Grosso esteve fortemente condicionada por interesses políticos e religiosos, revelando tensões entre projetos normativos e práticas efetivas de ensino.
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