A formação do estado brasileiro a partir da leitura de Norbert Elias

Resumo

O objetivo deste texto é apresentar algumas reflexões a partir dos resultados preliminares de uma pesquisa que tem por objetivo compreender a formação do Estado brasileiro a partir do programa teórico-metodológico do sociólogo Norbert Elias. A partir da proposta eliasiana, procuramos compreender de que maneira a violência tornou-se parte fundamental da formação do Estado brasileiro, sobretudo, a partir da constatação do uso racional, ou seja, a violência como estratégia de governo, marcando, assim, uma oposição ao movimento de restrição e concentração da violência que ocorria na Europa desde meados do século 16. Assim, ao contrário do que aponta Norbert Elias ao analisar a corte francesa, os processos de coação e autocoação, de repressão de impulsos, inerentes ao processo de complexificação das sociedades sofre mais restrições nas antigas colônias, na medida em que a violência não consegue ser monopolizada pelo Estado e os processos de distribuição de poder após a Proclamação da República sofrem constantes refluxos. Nossa conclusão apontará para algumas direções. Primeiro, destacamos que o processo de concentração e restrição da violência ocorre parcialmente já que o Estado não conseguirá monopolizar seu uso. Segundo esta formação social, baseada na violência, impede que se desenvolvam outros tipos de interrelações, baseadas na simbologia, por exemplo, que sejam suficientes para imposição de novos comportamentos, pautados em novos protocolos que procurem restringir a violência no cotidiano e/ou no espaço público.

Biografia do Autor

David Antônio de Castro Netto, Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) Campus de Paranavaí.

Doutor em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UNIESPAR). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) Campus de Paranavaí.

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Publicado
2021-06-30