Proposta de dossiê Paisagens em disputa: Estudos Culturais em Educação e modos de pesquisar
As paisagens nunca se entregam de uma só vez. São feitas de relevos, cortes, sombras, passagens, marcas, restos, enquadramentos e modos de atenção. Há nelas algo que se mostra, algo que escapa, algo que insiste. Tomar a paisagem como figura de pensamento permite situar os Estudos Culturais em Educação como um campo atravessado por conceitos, arquivos, objetos, práticas e escritas que vêm produzindo formas singulares de interrogar a educação nas tramas da cultura.
Em O belo perigo, Foucault (2016) sugere que a língua tem espessura, consistência, corredores, atalhos, linhas, escarpas e asperezas. Essa formulação ajuda a pensar a pesquisa como a travessia de uma matéria verbal, contextual e conceitual que possui relevo próprio. Nessa direção, as palavras com as quais pesquisamos participam da composição dos problemas, distribuem visibilidades, instauram posições de sujeito, autorizam modos de dizer, assim como fazem com que certas perguntas ganhem corpo.
Cultura, representação, discurso, identidade, diferença, currículo, pedagogias culturais, artefato cultural, corpo, mídia, consumo, visualidade, gênero, raça, infância, juventude, docência e subjetivação, dentre tantos outros termos e conceitos que poderíamos elencar, compõem uma paisagem conceitual marcada por historicidade, apropriações e disputas.
A formulação de Hall (1997) sobre a centralidade da cultura adensa essa perspectiva. Ao compreender a cultura como dimensão constitutiva da vida social, campo de significação e terreno de lutas simbólicas, Hall abriu caminhos decisivos para analisar os modos pelos quais sujeitos, práticas, instituições, imagens, textos, discursos, currículos, políticas e artefatos participam da produção de sentidos.
Nos Estudos Culturais em Educação, esse deslocamento ampliou os objetos da investigação educacional, contribuiu para o alargamento do repertório teórico e metodológico das pesquisas e fortaleceu análises voltadas às pedagogias que atuam em diferentes espacialidades sociais, às políticas de representação, às mídias, às tecnologias, às materialidades, às visualidades, aos corpos e às formas cotidianas de subjetivação.
A noção de paisagem também aproxima a pesquisa de uma atenção sensível aos percursos, aos desvios e às zonas menos evidentes dos processos educativos. Em diálogo com Giuliano (2025), interessa pensar as paisagens educativas como tramas nas quais pedagogias, poéticas e políticas se encontram, se deslocam e se reconfiguram.
Pesquisar, neste registro, envolve aproximações, escutas, fragmentos, interstícios, ritmos e demoras. Há algo de paisagem em todo campo investigativo: aquilo que ganha forma quando conceitos, materiais, perguntas e modos de olhar entram em relação.
No Brasil, os Estudos Culturais em Educação ganharam densidade ao abrir a pesquisa educacional para materiais, cenas e problemas antes pouco reconhecidos como pedagogicamente relevantes. A educação passa a ser pensada nas práticas culturais que nos formam, nos artefatos que nos interpelam, nas imagens que educam o olhar, nos discursos que organizam condutas e nas pedagogias dispersas pela vida cotidiana (Costa; Silveira; Sommer, 2003).
Essa abertura também ressoa na pergunta retomada por Santos, Karnopp e Wortmann (2022), em O que são estudos culturais hoje?, quando assinalam que os Estudos Culturais seguem convocados a lidar, de modo recorrente, com a permeabilidade de suas fronteiras e com formas de perguntar, pesquisar e olhar para o mundo atravessadas pela bricolagem, pela articulação e pela interseccionalidade.
Tal formulação interessa a este dossiê por manter viva a inquietação em torno do que fazemos quando pesquisamos com os Estudos Culturais em Educação: que palavras mobilizamos, que arquivos acionamos, que objetos fazemos aparecer e que modos de olhar aprendemos a compor.
O dossiê acolhe trabalhos que percorram conceitos em uso, arquivos em composição, objetos culturais, experiências docentes, procedimentos metodológicos e modos de escrita implicados nas reviravoltas contemporâneas da pesquisa em educação.
A ideia de arquivo atravessa esta proposta como campo de forças. Arquivos guardam, selecionam, distribuem visibilidades, produzem lacunas e participam da organização do dizível. Acionar essa noção implica problematizar os vocabulários que usamos para nomear a educação e, portanto, as formas contemporâneas de ensino, aprendizagem, práticas pedagógicas e formação.
Importa acompanhar como certas palavras ganham centralidade, como determinados significados são produzidos, como determinados objetos passam a importar, como algumas perguntas se tornam possíveis e como outras seguem pedindo escuta, atenção e elaboração.
O dossiê acolhe artigos de pesquisa, ensaios, resenhas e traduções que contribuam para pensar os Estudos Culturais em Educação em suas múltiplas entradas, seus deslocamentos históricos, suas disputas conceituais e suas possibilidades analíticas.
Eixos sugeridos- História, circulação e deslocamentos dos Estudos Culturais em Educação;
- Cultura, linguagem, significação e políticas de representação;
- Conceitos em uso: representação, discurso, identidade, diferença, subjetivação, currículo, pedagogias culturais, artefato cultural, entre outros;
- Arquivo, memória, lacuna e disputas de linguagem no campo educacional;
- Metodologias pós-críticas e modos de pesquisar o presente;
- Mídias, imagens, plataformas digitais, tecnologias, redes sociotécnicas e visualidades;
- Corpos, gêneros, sexualidades, raças, infâncias, juventudes e produção de subjetividades;
- Docência, formação docente, repertórios, experiência e criação pedagógica;
- Pedagogias culturais em espaços escolares, não escolares e nas práticas cotidianas.
Viviane Castro Camozzato
Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Uergs
Patrícia Ignácio
Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRN
Ana Luísa Paz
Universidade de Lisboa, UL
Início das submissões: 1º de agosto de 2026
Término das submissões: 30 de setembro de 2026
Previsão de publicação: fluxo contínuo, em 2026
PeriódicoInterMeio: Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMS
Acesse a página da revista e consulte as diretrizes para submissão:
https://periodicos.ufms.br/index.php/intm/index
ReferênciasCOSTA, Marisa Vorraber; SILVEIRA, Rosa Hessel; SOMMER, Luis Henrique. Estudos culturais, educação e pedagogia. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 23, p. 36-61, maio/ago. 2003.
FOUCAULT, Michel. O belo perigo: conversa com Claude Bonnefoy. Tradução de Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
GIULIANO, Facundo. Pedagogias, poéticas, políticas. Palestra proferida na 2ª Jornada das Jornadas de Estudos Culturais em Educação, JECE 2025. In: Canal da Rede Internacional de Estudos Culturais em Educação. YouTube, 2025. 1 vídeo, 115 min. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=QwBPAYkjV9c&t=19s. Acesso em: 25 jun. 2026.
HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 22, n. 2, p. 15-46, jul./dez. 1997.
SANTOS, Luís Henrique Sacchi dos; KARNOPP, Lodenir Becker; WORTMANN, Maria Lúcia Castagna. Apresentação. In: SANTOS, Luís Henrique Sacchi dos; KARNOPP, Lodenir Becker; WORTMANN, Maria Lúcia Castagna (org.). O que são estudos culturais hoje? Diferentes praticantes retomam a pergunta do International Journal of Cultural Studies. São Paulo: Pimenta Cultural, 2022.

