“É uma menina!”: marcas da educação feminina e relações de gênero na família

Resumo

Pensar diferenças e desnaturalizar desigualdades se faz necessário, pois o caminho para conquista de relações de gênero equânimes é longo, com avanços e recuos no processo. Neste contexto, a proposta é trazer para o debate a educação feminina e as relações de gênero vivenciadas na família, figuração entendida a partir da teoria do processo civilizador como constituída por teias de interdependência. Assim, o objetivo foi identificar e problematizar relações de gênero que permearam a educação feminina presentes em histórias escritas por mulheres/acadêmicas de Pedagogia, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Mato Grosso do Sul. O corpus da pesquisa foi formado por 20 memoriais de infância (auto)biográficos, documentos do arquivo pessoal de professora da referida universidade. Utilizaram-se para análises o referencial teórico eliasiano, abordagem (auto)biográfica e estudos de gênero. Os resultados apontaram que meninas e meninos carregam marcas dos contextos os quais se originam, pois são dependentes do seu grupo familiar para se situarem no mundo. Evidenciou-se que a infância de meninas está condicionada a uma educação coercitiva e formas de submissão e controle estabelecidos a elas, que comparada à história dos meninos, sugere desequilíbrio entre os gêneros. Porém, as problematizações dão conta de processos de transformação em curso. Sendo assim, conclui-se, a família foi lembrada como figuração que marcou a vida das mulheres/acadêmicas, mas ao rememorarem suas infâncias podem ter compreendido que nas relações interdependentes elas são constituídas, mas também constituem tais relações. Portanto, a depender de suas posturas e ações será possível vivenciar tempos de maior equilíbrio da balança de poder.

Biografia do Autor

Míria Izabel Campos, Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)

Professora Adjunta da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), lotada na Faculdade de Educação (FAED). Graduada em Psicologia pela UFMG, Especilista em Psicologia Educacional pela PUC/Minas, Mestre e Doutora em Educação pela UFGD. Vice-líder do Grupo de Pesquisa  Educação e Processo Civilizador (GPEPC).

Magda Sarat, Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD)

Mestrado e Doutorado em Educação pela Universidade Metodista de Piracicaba (1999-2004 respectivamente). Pós-doutorado pela Universidade de Buenos Aires/UBA (2014). Pós-doutorado na Universidade Federal de Mato Grosso UFMT pelo Programa PNPD/CAPES. Professora Associada da Universidade Federal da Grande Dourados. Docência na graduação e na pós-graduação (Mestrado e Doutorado em Educação). Pesquisadora líder do Grupo de Pesquisa "Educação e Processo Civilizador" do diretório do CNPq.

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Memorial de infância, 2016/4, Fátima do Sul - nascimento 1996.

Publicado
2021-06-30